quarta-feira, 9 de julho de 2014

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa

Apesar do vexame histórico da seleção brasileira é bom lembrar que o que aconteceu ontem no Mineirão foi apenas um jogo de futebol, onde quem se preparou melhor e jogou melhor venceu. Apenas isso. Dois artigos, do site brasil247.com,  analisam a diferença de resultados do aconteceu fora de campo (a organização da copa) e dentro do campo (a derrota humilhante - 7x1-  para a seleção da Alemanha). A goleada escancara a crise e a necessidade de mudar o futebol brasileiro. Isso exige mudança de mentalidade dos cartolas.



UMA COISA É UMA COISA, OUTRA COISA É OUTRA COISA

Por Breno Altman

A Copa foi um tremendo sucesso, de organização e espetáculo. A seleção brasileira foi um vexame, a pior desde 1990, se não a pior da história, sofreu a maior humilhação em cem anos de futebol pátria. São dois fatos separados, porém.

Boa parte da direita, furiosa com o sucesso do torneio, resolveu torcer contra a seleção para redimir o fracasso de seu discurso vira-lata. Um setor da esquerda foi para o ufanismo mais absurdo, fazendo da torcida fundamentalista pela equipe nacional um divisor de águas, movendo-se com raiva contra qualquer comentário que mostrasse o óbvio desde o primeiro jogo, qual seja, a mediocridade da seleção brasileira de Felipão. Como se a defesa política da Copa devesse ser traduzida em tolo fanatismo sobre o que se passava no campo.

Serve para que se aprenda: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. A organização da Copa é uma decisão de Estado. O esporte é um espaço no qual pouquíssimas variáveis podem ser controladas, daí sua graça.


TRAGÉDIA MESMO SERIA PERDER FORA DE CAMPO

 Por LEONARDO ATTUCH

Eis que, novamente, os abutres sobrevoam a carniça nacional. Tentam, agora, transformar o fiasco de um time de futebol mal convocado, mal treinado e mal escalado por seu treinador num vexame nacional. Mas o que aconteceu ontem no Mineirão nada tem a ver com a capacidade brasileira de organizar grandes eventos, com os destinos da nação e muito menos com as eleições presidenciais de outubro. Foi apenas um jogo, onde quem se preparou melhor e, por isso, jogou melhor, venceu. Nada mais justo e merecido.

Tragédia real mesmo seria perder o jogo fora de campo. E nada disso aconteceu. A Copa do Mundo, sim, merece ser chamada de #copadascopas, porque, a despeito de todas as previsões catastróficas desses mesmos abutres, tudo funcionou a contento. Vários aeroportos foram reformados, as arenas encantaram o mundo e o nível técnico, salvo o da seleção brasileira, foi, talvez, o melhor desde a Copa de 1970.

Os estrangeiros que aqui vieram se encantaram com a alegria do povo brasileiro, com a hospitalidade dos voluntários e também com a organização do evento. Certamente, a grande maioria está disposta a voltar. Nunca, em toda sua história, o Brasil obteve tanta propaganda positiva como durante o Mundial, um período em que até jogadores alemães como Schweinsteiger e Podolski se renderam ao fascínio brasileiro, postando mensagens favoráveis em suas redes sociais.

A derrota nos gramados, no entanto, deveria servir para algumas reflexões e autocríticas. A começar pelo próprio jornalismo. Antes da Copa, dizia-se que o Brasil chegava mal preparado fora de campo, mas com uma ótima seleção. O que se viu foi o contrário. Do lado de fora, as coisas funcionaram, mas o jogo da seleção foi sofrível. Basta recordar como foram os jogos. Contra a Croácia, o Brasil precisou de um pênalti inexistente para desempatar. Contra o México, teve menos de posse de bola e não saiu do zero a zero. Na vez de Camarões, o Brasil goleou, mas enfrentou uma adversário já desclassificado. No primeiro mata-mata, o Chile só não venceu porque se acovardou, tentando levar a decisão para os pênaltis. Apenas no primeiro tempo contra a Colômbia, houve algum lampejo de futebol. Quando chegou a vez da tricampeã Alemanha, menosprezada pelo Brasil (!!!), a realidade se impôs de forma dura, porém pedagógica...

Lula, o 9 de julho e a contra-revolução

Por Beto Almeida
 Carta Maior
Arquivo

É reconhecida a criatividade de Lula de fazer caracterizações políticas que alargam o imaginário popular para a compreensão política, além de promover importantes quebras de paradigmas na  ardilosa conceituação conservadora sobre eventos históricos, quando estes são falsificados de modo grosseiro, invertendo seu real sentido histórico.

Lula surpreende positivamente ao declarar que o que o houve em 32, quando a oligarquia paulista se lançou em armas  contra a Getúlio Vargas, foi uma contrarrevolução, nada a ver com uma revolução como querem os conservadores.
De fato,  foi uma rebelião oligárquica  contra a industrialização e o avanço das conquistas trabalhistas. Lula questiona, com uma frase, o que  toneladas de teses acadêmicas não lograram, fulminando o batismo  daquele levante conservador de “revolução”, tal como se tentou crivar o golpe ditatorial de 64, como se revolução fosse.

Em 32, o conservadorismo apelidou de "Revolução" um movimento armado feito para defender os privilégios da oligarquia cafeeira, em conexão submissa aos banqueiros de Londres. Por isso é feriado estadual em São Paulo, cuja capital é , provavelmente,  a única a não possuir uma Avenida Getúlio Vargas, como nas demais, em homenagem ao presidente que mais avanços econômicos e sociais promoveu no Brasil.

Contrariando a ideia de um ”Brasil cordial”, em 32 houve  guerra civil. A desinformação conservadora, até hoje predominante, sonegou aos brasileiros o direito de saber  que a classe operária paulista, solidária com Vargas, contribuiu com a sua vitória “abastecendo” as forças militares da direita paulista com granadas e balas contendo  apenas  areia.  Lembremos:  em 9 de julho de 32, Vargas já havia convocado as eleições para o ano seguinte, para as quais foram instituídos o voto secreto e o direito das mulheres de votarem e de serem votadas,  direito que a França só alcançou em 1945. Em 32, Vargas já havia iniciado a auditoria da dívida externa brasileira, reduzida à metade.

Nesta guerra civil, em defesa da legalidade, estavam JK,  o Gonzagão, o Rei do Baião e um jovem estudante de direito mineiro, mais tarde  presidente do Brasil:  Tancredo Neves, que em agosto de 54, Ministro da Justiça,  propôs a Vargas a resistência armada ao golpe da UDN. Ainda hoje, o embate ideológico de 1932 divide a política brasileira.

De um lado os defensores dos ideais da Revolução de 30, com seu programa de industrialização, desoligarquização do Brasil, expansão dos direitos trabalhistas, política externa baseada na integração latino-americana e independente dos  ditames imperiais. De outro, os ainda  defensores dos ideais do Movimento de 32, críticos do protagonismo do estado nas políticas públicas,  hoje alinhados com  FHC , proclamador da necessidade de “acabar com a Era Vargas”. Por isso a importância de debater criticamente esta data,  em sintonia com a sinalização feita por Lula.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Mercado faz campanha especulativa contra Dilma



Do Escrevinhador
Por Rodrigo Vianna

O modelo neoliberal, implementado por FHC no Brasil, teve três eixos centrais: flexibilização das leis trabalhistas, privatizações das empresas estatais e abertura da economia para o capital financeiro.

Os governos de Lula e Dilma não reverteram esse modelo econômico, que representaria a proibição das terceirizações, a retomada das empresas privatizadas e a regulamentação do mercado de capitais.

No entanto, esses governos brecaram o aprofundamento do processo que estava em curso, representando um obstáculo para as frações da burguesia, como o rentismo, que defendem o neoliberalismo.

O melhor exemplo dessa leitura é a reportagem da Folha de S. Paulo com a manchete “Queda de Dilma nas pesquisas gera ganho de US$ 4,8 bilhões em ações”.

A matéria reproduz pesquisa que aponta que quanto pior as pesquisas eleitorais para a presidente Dilma Rousseff, mais as ações das empresas estatais Petrobras, Banco do Brasil, Eletrobras, Cemig e Cesp sobem na Bolsa de Valores.

O levantamento, que tem como base o desempenho dos papéis de cinco estatais nos dias da divulgação das últimas 19 pesquisas Ibope e Datafolha, mensura que cada ponto da popularidade da presidente vale US$ 801 milhões (cerca de R$ 1,7 bilhão).

A postura dos acionistas é uma reação ao que consideram intervenções do governo nas empresas estatais, que prejudicam a rentabilidade das suas ações.

O que o mercado classifica “intervenção do governo” é, na verdade, a predominância do interesse público sobre a rentabilidade privada e a soberania nacional diante do capital internacional.
O mercado quer mesmo é que essas empresas sejam privatizadas, dando exclusividade ao capital privado para a exploração desses segmentos da economia.

A existência de empresas sob controle estatal no setor petrolífero, bancário e energético representa um obstáculo para a dinâmica econômica dos oligopólios que controlam esses segmentos.

Já que essas empresas são mistas, com controle estatal mas capital aberto na Bolsa de Valores, o mercado faz pressão para que sejam geridas como se fossem empresas privadas.

Com isso, a rentabilidade de um punhado de acionistas ficaria em primeiro lugar, em prejuízo do povo brasileiro, que é o “acionista” majoritário do Estado brasileiro.

Um parênteses: esse é a forma de gestão do governo do Estado de São Paulo na Sabesp, que deu no que deu: altos lucros para os acionistas, falta de investimentos na empresa e eminência de falta de água para a população.

O que fica claro com o boicote do mercado é que, nessas eleições, Dilma representa maior compromisso com o interesse público e com a soberania nacional.

Aécio Neves e Eduardo Campos, que agradam os acionistas, são porta-vozes das frações da burguesia que querem o neoliberalismo ortodoxo, ou seja, flexibilização das leis trabalhistas, privatizações das empresas estatais e abertura da economia para o capital financeiro.

Abaixo, leia reportagem da Folha de S. Paulo:

Queda de Dilma nas pesquisas gera ganho de US$ 4,8 bilhões em ações

Por David Friedlander e Mariana Carneiro, na Folha

A disputa presidencial mais acirrada dos últimos 12 anos detonou uma onda de especulação com ações de estatais. O mercado aposta que, quanto piores forem as pesquisas eleitorais para a presidente Dilma Rousseff, mais as ações dessas empresas sobem na Bolsa de Valores.

Os investidores têm o pé atrás com a presidente porque avaliam que as intervenções do governo nas estatais prejudicam sua rentabilidade. Na visão do mercado, Brasília sacrifica o ganho dessas empresas para controlar preços e estimular o consumo.

Esse “efeito Dilma” foi medido num levantamento sobre o desempenho dos papéis de cinco estatais nos dias da divulgação das últimas 19 pesquisas Ibope e Datafolha. Segundo o estudo, cada ponto da popularidade da presidente vale US$ 801 milhões (cerca de R$ 1,7 bilhão).

Esse foi o ganho de Petrobras, Banco do Brasil, Eletrobras, Cemig e Cesp a cada ponto de aprovação que Dilma perdeu. A conta foi feita pelos economistas do Insper Sérgio Lazzarini, Bruna Bettinelli Alves e João Manoel Pinho de Mello, também analista da gestora Pacífico.

Editoria de Arte/Folhapress
A cada ponto que a aprovação de Dilma perdeu nas pesquisas, as ações dessas empresas subiram em média 0,5 ponto percentual acima da média do mercado, calculada pelo índice Ibovespa.

Neste ano, somente o “efeito Dilma” produziu um ganho, médio, de US$ 4,8 bilhões (R$ 10,6 bilhões) no valor dessas cinco estatais. Segundo o estudo, isso ocorreu porque de fevereiro a julho, a aprovação da presidente caiu de 41% para 35%.

A ansiedade do mercado com o resultado das eleições não era tão evidente desde 2002, quando Lula despontou como favorito na disputa pela Presidência.

Na época, bancos criaram indicadores para estimar como a vantagem de Lula afetaria aplicações atreladas ao dólar e à taxa de juros. O mais famoso foi o lulômetro, do banco Goldman Sachs.
“Na eleição do Lula, a dúvida era se o sistema econômico seria alterado. Já o governo Dilma foi marcado pelas intervenções pesadas nas empresas estatais. Com a reeleição, o mercado acredita que isso vai continuar”, afirma Lazzarini, do Insper.

Essa diferença faz com que a especulação se concentre, desta vez, na Bolsa de Valores. Outro fator que desencoraja apostas com o dólar é que o Banco Central tem reservas muito maiores que em 2002.

PESQUISAS E BOATOS
O mercado financeiro é um terreno nervoso por natureza, com profissionais que se dedicam a saltar sobre informações relevantes antes dos outros para ganhar dinheiro. Nesse ambiente, a eleição virou motivo para apostas, movidas a pesquisas eleitorais, consultorias e boatos.
“É especulação pura e da pior qualidade. Ao fazer essa aposta, o investidor busca um ganho de curtíssimo prazo e subestima a capacidade do atual governo de fazer as pazes com o mercado num segundo mandato”, afirma Ricardo Lacerda, do banco de investimentos BR Partners.
Editoria de Arte/Folhapress
Na última quarta-feira, a especulação sobre números positivos para Dilma no Datafolha fez a ação da Petrobras cair 1,1% em 45 minutos. “Os preços das ações estão sendo ditados pelas eleições. Os fundamentos econômicos ficaram de lado”, diz Daniel Cunha, da XP Investimentos.
O cenário político passou a interferir mais intensamente na Bolsa do começo do ano para cá. Se a corrida pela Presidência continuar disputada, será assim até outubro


domingo, 6 de julho de 2014

O futebol não é inimigo do conhecimento

Por Ana Helena Tavares, do Rio de Janeiro
Do Correio do Brasil

   


Por que subestimar a inteligência do povo a ponto de misturar um evento futebolístico que dura um mês com mazelas que já vêm de séculos?

Darcy Ribeiro disse que o “beijo não é inimigo do conhecimento”. Conhecedor como poucos da alma humana e do povo brasileiro, sabia também que o samba não é inimigo do conhecimento. E o futebol?

O futebol, seguindo a lógica dos que entendem o povo, também não é. Estádios superfaturados, mortes de operários durante as obras, arquibancadas dominadas pela elite branca… É verdade. Mas em que país isso tudo não ocorre?

Por que insistir com a velha mentira do “só no Brasil”? Por que subestimar a inteligência do povo a ponto de misturar um evento futebolístico que dura um mês com mazelas que já vêm de séculos?

Em que país o futebol é uma paixão como aqui? Em que país se vê árabes e judeus torcendo juntos? Quando a bola rola, jogue o Brasil bem ou mal, as expressões de alegria ou a tristeza invadem barracos e mansões. A euforia do gol é capaz de fazer filhos e pais brigados se abraçarem.

Não, o futebol não é inimigo do conhecimento. Impossível entender o Brasil sem decifrar o olhar do menino que brinca com uma bola enlameada num campinho no topo de um morro. Olhar que não difere do menino que joga numa quadra coberta.

Quando você pergunta a uma criança brasileira: ‘o que você vai ser quando crescer?’ E ela te responde: ‘Vou ser jogador de futebol!’Há aí um desejo que ultrapassa fronteiras de cor e de classe.

Repito: o futebol não é inimigo do conhecimento. As mentes mais brilhantes que este país já teve torciam com tal fervor por seus times que certamente deixavam todo resto de lado na hora dos jogos. Isso não as impediu de brilhar em suas áreas.

A pequena área de um campo de futebol é metáfora perfeita para muitas situações cotidianas. Jogadores e goleiros podem ser endeusados por um gol ou massacrados por um erro. Assim no jogo como na vida.

Se na platéia dos estádios de uma Copa as classes mais baixas não têm vez, é também verdade que ali as classes mais altas revelam seus instintos. Desde a vibração de Ângela Merkel, tida como a mulher mais poderosa do mundo, até as vaias a presidentes e a hinos adversários. É tudo humano.

E é o exageradamente humano que aparece ali, nas arquibancadas e no campo. Ou será que alguém acha que ser humano é ser sempre bom? Ou será que alguém acha que morder é monstruoso e ser racista não? É tudo humano, ridiculamente humano.

O jogador punido por mordidas jamais foi punido por suas atitudes racistas. Dentre as crianças que acompanham os jogadores na execução dos hinos, raríssimas  são negras. Um simpatizante do nazismo invadiu o jogo Alemanha X Gana e a transmissão oficial cortou na hora as imagens. Quem é então inimigo do conhecimento?

O futebol ou quem o dirige? E os meios de comunicação? Será que são amigos do conhecimento? Quantos debatem futebol dando ao esporte a riqueza de paixões e ódios, de alegrias e choros, que ele abrange?

Essa reflexão não vale só para o futebol. De que adiantou o corredor negro Jesse Owens ganhar quatro ouros na casa e na cara de Hitler, nas Olimpíadas de Berlim, em 1936, chegando a fazer o fürer se retirar do estádio, se o episódio não serviu de lição?

Quem se lembra que Nelson Mandela conquistou o inimigo incentivando um time de rúgbi a ser campeão da copa do mundo da categoria? Quem tem conhecimento de que o Santos, de Pelé, parou uma guerra durante ida à África, em 1969?

Definitivamente, nem o futebol nem os outros esportes são inimigos do conhecimento. Inimigos do conhecimento são os que o filtram, o manipulam, escolhendo quem são os inimigos do povo sem nunca mostrar os verdadeiros.

sábado, 5 de julho de 2014

Viaduto desaba e expõe possíveis irregularidades nas obras do BRT

Reprodução
Pelo menos duas mortes e 22 feridos são saldo de desabamento
 
Maíra Gomes - Do Brasil de Fato:
Belo Horizonte (MG)


Uma tragédia marcou a tarde da quinta-feira (3) em Belo Horizonte. Parte de um viaduto sobre a Avenida Pedro I, próximo à Lagoa do Nado, na região da Pampulha, desabou por volta das 15h. A estrutura caiu sobre quatro veículos, sendo dois caminhões, um ônibus e um carro.

A estrutura que desabou é uma das alças do Viaduto Guararapes. O elevado faz parte das obras do BRT Antônio Carlos/Pedro I. Entidades e movimentos de luta por Mobilidade em BH apontam que tragédia aconteceria mais cedo ou mais tarde. “Tem uma série de denúncias sobre as más condições de toda a obra do sistema BRT. As obras foram feitas com muita pressa e em condições precárias até mesmo para os trabalhadores, o que o deixa mais perigoso para todos”, declara o economista e militante de Mobilidade Urbana, André Veloso.

Ele lembra que cinco meses atrás, outro viaduto da implantação do BRT, também na avenida Pedro I, cedeu 30 centímetros, interditando a via por três dias. Após vistoria no local, por meio da Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap), a Prefeitura de BH afirmou que não havia risco de desabamento. Por enquanto, o viaduto está de pé.

Também no sistema BRT, há uma semana um laudo técnico indicava “falhas estruturais graves” na estação BRT São Gabriel. O documento alerta para o risco de ruptura e queda de peças metálicas da cobertura da estação, por onde passam 80 mil pessoas por dia. Em resposta, a prefeitura assegura que o terminal funciona com “as condições de segurança necessárias”.

Empresas responsáveis são questionadas 
O trecho do BRT tem custo total de R$ 171 milhões, e a licitação original da obra foi vencida pelo Consórcio Integração, composto pela construtora Cowan e pela Delta Construções. A Delta abandonou as obras em julho de 2012, após Ministério Público Estadual ter instaurado um inquérito civil para verificar suspeita de superfaturamento e de fraude nas licitações que envolvem a contração do consórcio. As supostas irregularidades também foram investigadas pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE) de Minas Gerais.

A Delta também é alvo de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) e investigação na Polícia Federal pelo desvio de R$ 300 milhões, que teriam sido transferidos da construtora Delta para empresas de fachada, vindos possivelmente de verbas de obras públicas no período entre 2007 e 2012. Foram encontrados indícios de relação entre a Delta e o bicheiro Carlinhos Cachoeira.

A Cowan, que assumiu sozinha a continuidade das obras, também já foi alvo de denúncias. Enquanto realizava obras de ampliação do metrô no Rio de Janeiro, o presidente da empresa, Saulo Wanderley Filho, levou Wilson Carlos, secretário estadual de Governo do Rio, e Sérgio Dias, secretário municipal de Urbanismo, com as esposas, para uma viagem à paradisíaca Ilha de Saint Barths, no Caribe. Um jatinho da Cowan foi usado no trajeto e uma casa alugada para a estadia. A viagem teria incentivado a contratação da empresa no serviço do metrô.

“Tudo isso é fruto da falta de responsabilidade e transparência da atual gestão da prefeitura. Os presidentes atual e anterior da Sudecap, juntamente com o da BHTrans, devem ser investigados, pois eles fizeram os contratos. O mais responsável seria interditar e revisar profundamente o sistema”, acredita André.

Declaração infeliz
O prefeito Marcio Lacerda esteve no local, onde deu um entrevista à imprensa. Afirmou que fiscais da prefeitura acompanhavam sim a obra, “mas acidentes como esse infelizmente acontecem”. Questionado sobre a possível instalação de uma CPI para apurar irregularidades da obra, o prefeito saiu e deixou os repórteres sem resposta.
A Secretaria de Saúde do estado confirmou duas mortes e pelo menos 22 feridos. As vítimas foram encaminhadas para o pronto-socorro do Hospital Risoleta Neves, Hospital Odilon Behrens e outros hospitais da capital.

 

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Mais Médicos aumentou em 54% as consultas feitas na Grande BH

O Tempo



Um ano após a criação do programa Mais Médicos no Brasil, o ministro da Saúde, Arthur Chioro, deu nesta terça-feira (1) por cumprida a distribuição de médicos para Minas Gerais. Ao fazer um balanço da ação no Estado, em seminário realizado em Belo Horizonte, ele disse que 100% da demanda solicitada foi atendida em todo o país, inclusive nos municípios mineiros, e que novas vagas não serão abertas por enquanto.


O representante do governo federal comemorou os resultados da iniciativa, como o aumento de 54,2% no número de consultas eletivas feitas nas unidades básicas de saúde da capital e região metropolitana.

 O programa Mais Médicos foi criado em julho de 2013 pela presidente Dilma Rousseff como forma de suprir o déficit de profissionais nos municípios, principalmente nos mais distantes dos grandes centros. No Brasil, 14.462 médicos participam atualmente da ação, sendo 79% deles cubanos.
Para Minas, foram distribuídos 1.235, sendo que, nas primeiras e segundas etapas de inscrição do programa, 1.920 foram solicitados pelas cidades mineiras. No entanto, o Estado teve o maior número de prefeituras que desistiram do programa – foram 117,de acordo com o Ministério da Saúde.

Balanço
Pelos dados apresentados nesta terça-feira, o número de consultas eletivas na capital e região metropolitana passou de 67.823 em janeiro de 2013 para 104.597 no mesmo período deste ano, um aumento de 54,2%. Em Minas, o crescimento foi de 25,6%. Já o número de consultas imediatas, como quando, por exemplo, o paciente procura um centro de saúde com uma forte dor no peito, cresceu 14%.

“O Mais Médicos consegue reduzir em 20,8% o número de encaminhamentos para hospitais”, completou o ministro. Como os profissionais atuam na atenção básica, ele diz que já houve um aumento no número de atendimentos de doenças graves no país, como diabetes, que teve um aumento de 44,6% e de hipertensão, com 5%.

Repasse de recursos
Para dar estrutura à atuação de profissionais da saúde, inclusive do Mais Médicos, o ministro Arthur Chioro anunciou que Minas vai receber R$ 46,6 milhões neste ano. Do total, R$ 5 milhões vão para o Estado, para investimentos em cirurgias agendadas. Outros R$ 20,4 milhões vão para as prefeituras no custeio da rede de urgência e emergência e mais R$ 4,1 milhão para o Hospital Municipal de Ibirité, em crise financeira. O destino do restante do dinheiro não foi revelado.


Agência Saúde:

Em menos de um ano, o Programa Mais Médicos já impacta na assistência à população dos municípios de Minas Gerais. Levantamento feito pelo Ministério da Saúde em cidades mineiras que participam do programa aponta crescimento de 21,6% no total de consultas nas unidades básicas de saúde. Em janeiro de 2014, foram contabilizadas 546.279 consultas no estado contra 449.126 no mesmo período do ano anterior, quando à população ainda não contava com o reforço dos profissionais do Mais Médicos.

Por meio do Programa, o estado de Minas Gerais ampliou em 1.235 o número de médicos atuando na atenção básica de 463 municípios e um distrito indígena. O Ministério da Saúde atendeu 100% da demanda por médicos apontada pelos municípios mineiros e superou a meta inicialmente estabelecida. Atualmente, o Mais Médicos garante assistência médica nas unidades básicas de saúde para 4,2 milhões de mineiros.
Os impactos do Programa no estado foram apresentados pelo ministro da saúde, Arthur Chioro, durante o Seminário Mais Médicos para o Brasil, Mais Saúde para os Brasileiros, realizado em Belo Horizonte (MG) nesta terça-feira (01). O evento reuniu prefeitos e secretários de saúde de 148 municípios de regiões próximas a capital do estado. Juntos, esses municípios contam com 545 médicos beneficiando 1,8 milhões de pessoas. O ministro ressaltou a importância dos médicos para todo Sistema Único de Saúde e não apenas na atenção básica. “Estamos vivendo um momento muito diferente no âmbito do SUS no País, porque pela primeira em 25 anos podemos ter, de fato, equipes completas com médicos trabalhando nas unidades de saúde para fazer atenção básica com qualidade para a nossa população”, afirmou Artur Chioro.
Esse é um dos vários seminários que estão sendo realizados pelo governo federal em todo país para debater com gestores públicos os primeiros impactos do Mais Médicos na assistência da população que vive nas cidades beneficiadas pela iniciativa. Levantamento feito pelo Ministério da Saúde em mais de dois mil municípios que contam com pelo menos um médico do Programa serviram de base para a discussão. São dados dos sistemas de acompanhamento da atenção básica (Siab e eSUS), alimentados pelas secretarias de saúde de todo o país.
Mais assistência – No estado de Minas Gerais, houve aumento de 34,8% no atendimento a usuários de álcool (3.264 em janeiro de 2013 contra 4.400 em janeiro de 2014) e 18,6% a pessoas com problemas de saúde mental, foram 24.986 em janeiro de 2014 contra 21.071 em janeiro de 2013. Também foi registrado aumento de 17% nas consultas de pré-natal e 7,5% no acompanhamento a pacientes com diabetes.
“A presença de um médico na equipe de saúde da família cria vínculo, compromisso e disponibilidade no atendimento, e isso está fazendo a diferença. O Programa Mais Médicos está proporcionando isso em todos os municípios brasileiros. A prova são os primeiros resultados em menos de um ano de Programa”, completou o ministro.
Em todo o país, o número geral de consultas realizadas na Atenção Básica cresceu quase 35% no mesmo período – foram 5.972.908 em janeiro de 2014 contra 4.428.112 em janeiro de 2013. Entre esses atendimentos, teve destaque o de pessoas com diabetes, que aumentou cerca de 45% - passou de 587.535, em janeiro de 2013, para 849.751 em janeiro de 2014. Os atendimentos de pacientes com hipertensão arterial aumentaram em 5% no mesmo período, e as consultas de pré-natal, em 11%. O encaminhamento a hospitais diminuiu em 20%, passando de 20.170 para 15.969.
O governo federal já superou a meta de levar médicos para os municípios de todo o país que aderiram ao Programa Mais Médicos. Atualmente mais de 14 mil profissionais atuam em cerca de 4 mil cidades. A maioria (75%) dos médicos está em regiões de grande vulnerabilidade social, como o semiárido nordestino, periferia de grandes centros, municípios com IDHM baixo ou muito baixo e regiões com população quilombola, entre outros critérios de vulnerabilidade.
Mais Médicos - Lançado em julho de 2013 pela presidenta Dilma Rousseff, o Programa Mais Médicos faz parte de um amplo pacto de melhoria do atendimento aos usuários do SUS, com o objetivo de aperfeiçoar a formação de médicos na Atenção Básica, ampliar o número de médicos nas regiões carentes do país e acelerar os investimentos em infraestrutura nos hospitais e unidades de saúde.
Os profissionais do programa cursam especialização em atenção básica, com acompanhamento de tutores e supervisores. Para participar da iniciativa, eles recebem bolsa formação de R$ 10,4 mil por mês e ajuda de custo pagos pelo Ministério da Saúde. Em contrapartida, os municípios ficam responsáveis por garantir alimentação e moradia aos participantes.
Além da ampliação imediata da assistência em atenção básica, o Mais Médicos prevê ações estruturantes voltadas à expansão e descentralização da formação médica no Brasil. Até 2018, serão criadas 11,4 mil novas vagas de graduação em medicina e mais de 12 mil novas vagas de residência médica.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Pré-sal despeja 500mil barris/dia nas previsões furadas dos conservadores

Carta Maior:

Ressaca: pré-sal despeja meio milhão de barris na goela conservadora

No momento em que a Petrobrás alcança meio milhão de barris de petróleo extraídos do pré-sal, ouve-se um silencio sepulcral das goelas conservadoras.

por: Saul Leblon

Divulgação

No momento em que a Petrobrás alcança meio milhão de barris de petróleo extraídos do pré-sal, ouve-se um silencio sepulcral das goelas conservadoras.

As mesmas que amargam a ressaca  da Copa das Copas.

As mesmas que, há menos de uma semana, trovejavam  contra a cessão de novos  campos à estatal, com mais de 15 bilhões de barris, decidida pela Presidenta  Dilma.

O desconforto é enorme.

A eficiência da empresa em extrair  --aceleradamente-- o óleo existente a seis mil metros abaixo da linha do mar,  comprova o acerto da cessão onerosa.

Mas reitera também o regime de partilha que ordena toda a exploração das maiores reservas descobertas no planeta no século XXI – decisão exitosa igualmente  bombardeada pelo conservadorismo e seu dispositivo emissor.

A República dos acionistas,  que pauta o jornalismo  isento, tem alergia a novos investimentos em exploração.

 Explica-se: momentaneamente,  eles podem reduzir o caixa dos dividendos.

 O fato de a cessão ter  transformado a estatal na detentora da segunda maior reserva de óleo do mundo, é desprezível aos olhos do interesse particularista que avoca sua supremacia em detrimento da nação e do futuro de sua gente.

Graças à decisão de Dilma,  a estatal criada por Getúlio Vargas  –cujo legado FHC prometeu dissolver—  passou a dispor de um estoque de 31 bilhões de barris exploráveis.
Pouco abaixo apenas da Rosnet (russa), com 33 bi/barris, mas que será certamente ultrapassada pela Petrobrás, que levita num oceano de reservas estimadas em 100 bilhões de barris.

 Não estamos falando de um detalhe tangencial à luta pelo desenvolvimento brasileiro.

O pré-sal, é forçoso repetir, quando tantos preferem esquecer, mudou o peso geopolítico do Brasil.

É como se o país ganhasse quatro  anos de PIB em petróleo, a preços de hoje  --sob  controle político da sociedade.

Graças ao regime de partilha, essa riqueza será estatalmente direcionada para reverter mazelas seculares incrustradas em seu tecido social.

Não se trata de um futuro remoto, como o demonstra o marco de meio milhão de barris de óleo atingido agora.

O pré-sal já alterou a curva de produção da Petrobras.

 A estatal, que levou 60 anos para chegar à extração  de dois milhões de barris/dia, vai dobrar essa marca em apenas sete anos.

Talvez menos.

A ignorância tudo pode, mas quem desdenha dessa mutação em curso sabe muito bem  o que está em jogo.

Dez sistemas de produção do pre-sal entram em operação até 2020.

Hoje, apenas oito anos após as descobertas, os novos reservatórios já produzem 500 mil barris/dia.

Em 2020 serão mais dois milhões de barris/dia.

A curva é geométrica.

Para reter as rendas do refino  na economia brasileira, a capacidade de processamento da Petrobras crescerá proporcionalmente: de pouco mais de dois milhões de barris/dia hoje, alcançará  3,6 milhões de barris/dia em seis ou sete anos.

Para isso estão sendo erguidas quatro refinarias, simultaneamente.

O conjunto requer  US$ 237 bilhões em investimentos até 2017.

É o maior programa de investimento de uma petroleira em curso no mundo.

E será assim por muitos anos –o que explica os surtos recorrentes de urticária da República dos acionistas e de seu jornalismo operoso.

Os desdobramentos desse ciclo não podem ser subestimados.

A infraestrutura é o  carro-chefe do investimento nacional no próximo estirão de crescimento a ser pactuado com toda a sociedade.

 Mais de 60% do total de R$ 1 trilhão em projetos serão investidos na cadeia de óleo e gás.

Objetivamente: nenhuma agenda política relevante pode negligenciar aquela que  é a principal fronteira crível de um salto do país em cadeias tecnológicas que viabilizem a sua inserção soberana no mercado mundial.

Mas foi  exatamente esse sugestivo lapso que o candidato ‘mudancista’, Aécio Neves, cujo coordenador de campanha será o não menos ‘mudancista’ presidente dos demos, Agripino Maia, cometeu em dezembro de 2013, quando lançou sua agenda eleitoral, já como presidenciável do PSDB.

Como observou Carta Maior naquela oportunidade, em oito mil e 17 palavras encadeadas em um jorro espumoso do qual se extrai ralo sumo, o candidato tucano  não mencionou uma única vez o trunfo que mudou o perfil geopolítico do país.

Repita-se, Aécio Neves lançou uma agenda eleitoral sem a expressão pré-sal.
O tucanato espojou-se no caso Pasadena; convocou fanfarras para alardear ‘o desgoverno’ dentro da estatal, mas não reservou um grão de areia de espaço em sua agenda eleitoral para tratar da grande alavanca estratégica representada pelas novas reservas brasileiras.

A omissão  fala mais do que consegue esconder.

O diagnóstico conservador sobre o país  --e a purga curativa preconizada a partir dele-- é incompatível com a existência desse  incômodo cinturão de riqueza, a encorajar a construção de uma democracia social , ainda que tardia, por essas bandas.

Ao abstrair  o pré-sal  --exceto em confidências de Serra à Chevron, em 2010, quando prometeu reverter a partilha que  incomoda as petroleiras internacionais--  a agenda do PSDB   mais se assemelha a uma viagem de férias à Brazilândia do imaginário conservador, do que à análise do país realmente existente –com seus gargalos e trunfos.

Só se concebe desdenhar dessa janela histórica  se a concepção de país embutida em seu projeto negligenciar deliberadamente certas  urgências.

Por exemplo, a luta pela reindustrialização brasileira, da qual as encomendas do pré-sal podem figurar como importante alavanca, graças aos índices de nacionalização consagrados no regime de partilha.

Ou o salto da escola pública –que só terá 10% do PIB, como decidiu o Plano Nacional da Educação, porque poderá contar  com o fluxo da renda do pré-sal.

Ou ainda a saúde pública, igualmente beneficiada na divisão do fundo petroleiro, que assim poderá ressarcir o corte de R$ 40 bilhões/ano  imposto à fila do SUS pela extinção da CPMF, em 2010 –obra grandiosa da aliança  ‘mudancista’ demotucana.

Reconheça-se, não é fácil pavimentar o percurso oposto ao apregoado diuturnamente pelos pregoeiros do Brasil aos cacos.

A formação do discernimento social brasileiro  está condicionada por implacável  máquina de supressão da autoestima , que não apenas  dificulta a busca de soluções para a crise, como nega à sociedade competência para faze-lo de forma coordenada e democrática.

Melhor entregar aos mercados, aos mercados, aos mercados, aos mercados...

Eles, sim, sabem o que fazer disso aqui.

Recusa-se  aos locais a competência até mesmo para organizar uma Copa do mundo, que dirá gerir as maiores reservas de óleo do planeta, ou construir , uma nação, não qualquer nação, mas uma cujo emblema seja a convergência da riqueza, a contrapelo da lógica documentada por Tomas Piketty.

Com a maturação antecipada da curva do pré-sal  --como indica o marco dos 500 mil barris em extração--  as chances de êxito nessa empreitada aumentam geometricamente nos próximos anos.

Não é uma certeza, é uma possibilidade histórica. Mas o lastro é cada vez menos negligenciável.

Os efeitos virtuosos desse salto no conjunto da economia, porém, exigem uma costura de determinação política para se efetivarem.

Algo que a agenda eleitoral de quem assumidamente se propõe a ser uma réplica  do governo FHC, omite, renega e descarta.

A ver.