sábado, 18 de janeiro de 2014

Rolezinhos : A periferia disputa o Brasil visível

O NOVO FENÔMENO SOCIAL
Policiais abordam jovens no shopping. / Robson Ventura/Folhapress


Por Glauber Piva

Nesse episódio dos rolezinhos, três coisas concentraram minha atenção :

Primeiro, uma intuição. Este episódio recoloca no centro das preocupações da sociedade brasileira a mesma temática das manifestações de junho passado, mas, agora, com outra roupagem: mobilidade urbana, espaços públicos, desigualdade social, políticas públicas. Agora, como outrora, não há uma pauta política que mobilize logo de cara, mas ela está latente. São jovens que querem ser reconhecidos e vistos de um jeito que foge ao hábito empolado e  discursivo tão afeito à nossa “elite branca” (para citar a expressão do ex-governador Cláudio Lembo - PFL/SP). Eles estão ocupando e tensionando em territórios que nunca lhes pertenceram e, assim, jogam na nossa cara que o Brasil será outro, queiramos ou não.

Segundo, uma confirmação. O Estado brasileiro continua sendo um braço armado a serviço dos mesmos donos do poder. A Polícia Militar se assume como segurança patrimonial e se permite violentar o direito de ir e vir de jovens que, simplesmente, pretendem desfilar por corredores comerciais com corpos e ruídos que desafiam a estética de seus patrões. Sob a mesma lógica age o judiciário, que liminarmente proíbe os rolezinhos. O governador de SP faz o mesmo, tratando a juventude  como questão de polícia e não como alvo de políticas públicas de educação, trabalho, lazer e cultura.

Terceiro, uma alegria. Os rolezinhos nos oferecem uma poesia divertida. Se por um lado a classe média deseja que o ambiente público seja como um shopping, um lugar de ordem e segurança, defendido por regras próprias formuladas por quem coloca o consumo e o indivíduo no centro da vida, por outro, usa o shopping como metáfora e concretização de seu mundo-ideal: a política é suja e, portanto, é o ‘mundo de fora’ em contraposição ao shopping center que lhe conforta, que, para ela, é o ‘mundo de dentro’. O ‘mundo de fora’ seria a realidade-real, o espaço urbano próprio a esses jovens que carregam a indelével marca de suas pobrezas. O ‘mundo de dentro’, o dos shoppings, é limpo e sem tensões. A periferia não gosta mais disso. E isso é poesia.

Os rolezinhos nos escancaram essas três dimensões. Há uma tensão social que não vai nos abandonar simplesmente com voto direto ou polícia nas ruas. Não é uma questão de participação política bissexta, nem de segurança pública como instrumento de repressão. Amanhã os rolezinhos se transformarão em outra coisa, terão outros nomes, mas a juventude da periferia não vai calar a própria voz. Ela continuará disputando o que dá sentido à vida. Ela quer ver e ser vista, falar e ser ouvida, consumir e dar sentido (e cheiro, ritmo e cor) ao que consome.

Quando se diz que no Brasil o espaço público está em disputa, quer-se dizer, também, que o próprio Estado está em disputa. Até os anos 1990, os governos enxergavam e atendiam a, no máximo, 25% da população. Com as políticas afirmativas, de promoção da igualdade e combate à pobreza, a população visível para o Estado brasileiro quadruplicou e, com isso, a classe média se sentiu, em alguma medida, órfã. O Estado deixou de ser apenas dela e, agora, querem que ela divida também seu mundinho de consumo, seus shoppings  centers.

O que essa juventude está fazendo é, sobretudo, exercitar seu legítimo e incômodo jeito de fazer da política e, assim, disputar o território do comum. Eles estão construindo, ainda que de maneira surpreendente, condições para uma redistribuição permanente dos lugares e das identidades, do visível e do invisível na sociedade brasileira. “Essa divisão do sensível é uma espécie de subjetividade política, um modo negociado de visibilidade que permite ver quem pode tomar parte no que é entendido como comum.”

É claro que é preciso reconhecer que há um medo presente naqueles que sempre frequentaram, entre seus iguais , esses espaços. E sentir esse medo não faz com que as pessoas sejam más. Isso evidencia, porém, o profundo estranhamento que o diferente causa. Ao não se reconhecer no Outro, talvez intuam o distúrbio profundo e perturbador que o alargamento da democracia pode causar. Quando a periferia decide ir ao shopping paulistano, ou ao Leblon no Rio de Janeiro, ou a tantos lugares dedicados à uma estética voltada ao consumo, evidencia que vivemos uma violência estrutural. Quando o Estado nega a ela o direito pleno de circular por esse espaços, evidencia seu medo e sua posição em favor da classe dominante.

Não nos enganemos. Os jovens da periferia não sairão da pauta. Ontem foram mais que os R$ 0,20. Hoje, é muito mais que os rolês. Amanhã serão quaisquer outras coisas. Mas, todas elas, sem exceção, jogarão na nossa cara o quão elitistas e violentos somos e que Outro mundo é possível.


(*) Glauber Piva, sociólogo e ex-diretor da ANCINE (Agência Nacional do Cinema).

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A democratização pela imagem, através das fotos de Assis Horta (parte II)

MEMÓRIA

A identidade pelo trabalho. A fotografia de Assis Horta

Retratos de operários tirados nos anos 1940, após o surgimento da CLT, democratizaram a imagem, até então um privilégio da elite
por Vitor Nuzzi / Rede Brasil Atual
JOSÉ CRUZ/ABR/FOTOS ASSIS HORTA
“Então, dê um leve sorrisinho”
Assis Horta: registro de uma época e seus personagens

A carteira profissional trouxe mais do que uma formalização para o emprego no Brasil. Criou uma identidade para o trabalhador. Para muitos, foi o primeiro registro de sua imagem: o artigo 16 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), de 1º de maio de 1943, determinava que a carteira deveria contemplar, entre outros itens, uma "fotografia, de frente, modelo 3 x 4". Pioneiro nesse registro, Assis Horta, hoje com 95 anos, fez nos anos 1940 centenas de retratos de trabalhadores.
Em 2012, Assis Horta foi tema de um filme de curta-metragem produzido pelas Nitro Imagens em parceria com a Alicate: O Guardião da Memória. “Ele saiu desse formato de fotógrafo de estúdio. Foi para a rua”, diz, no curta, o também fotógrafo Eustáquio Neves. “Você conhece uma sociedade por aquele conjunto de imagens”, comenta a diretora do Museu do Diamante, Lílian Oliveira. Criado em 1954, o museu fica em Diamantina (MG), terra natal de Assis e do presidente Juscelino Kubitschek. Em 1936, o fotógrafo comprou a loja que era do chefe e criou a Photo Assis, que funcionou até 1967, quando ele se mudou para Belo Horizonte.
Curador de uma exposição que já passou por Ouro Preto e Brasília (Assis Horta: A Democratização do Retrato Fotográfico através da CLT), o também fotógrafo e professor Guilherme Horta – que não é parente do veterano – destaca a técnica e o esmero na produção. “A gente percebe a extrema habilidade do seu Assis na execução do retrato. Ele fazia um clique, sabe? E conseguia extrair essa personalidade (do fotografado) como poucos”, diz Guilherme, que vê similaridade entre fotos de Assis e quadros do pintor brasileiro Alberto da Veiga Guignard.
Ainda hoje, Assis preserva o cuidado com os detalhes, como testemunha o próprio Guilherme. "Na abertura da exposição em Brasília, ele disse: você precisa arrumar essa gravata..." E, mesmo passados vários anos, lembra de detalhes das fotos: tal pessoa está segurando o terno em tal lugar porque ali faltava um botão, aquele era professor de Educação Física. Um queria aparecer com seus dentes de ouro – "Então, dê um leve sorrisinho".

Pose para a história

"Muitos provavelmente devem ter sentado diante de uma câmera fotográfica pela primeira vez", observa Guilherme. Caso de uma fábrica de tecidos na vila de Biribiri,­ na região de Diamantina, desativada há 30 anos e cenário de filmes como A Dança dos Bonecos (de Helvécio Ratton) e Xica da Silva (Cacá Diegues). Há muitos registros de fotos com a mesma data: 1º de julho de 1943. Exatamente dois meses depois do decreto da CLT. "Seu Assis foi lá e fotografou a fábrica inteirinha." Pelo menos 70% eram mulheres.
E era sempre uma única chapa. "Todos um clique só por pessoa. Até aqueles de estúdio", conta Guilherme. Câmara de fole, tripé, luz natural vinda de uma janela, fundo pintado e tapete persa. E muito cuidado na produção, além da procura por equipamento importado em tempos de guerra. "Seu Assis pegava trem em Diamantina e ia para o Rio de Janeiro, na rua São José (região central da então capital), comprar material fotográfico."
"Fotografados para a Carteira de Trabalho, de acordo com as normas legais, eles (os trabalhadores) e suas famílias descobriram, com fascínio especial, o estúdio fotográfico", diz, na apresentação da exposição, o presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), Angelo Oswaldo de Araujo Santos. "E o atelier, antes frequentado pelas classes abastadas, foi invadido por populares que queriam mostrar sua cara, para além da foto datada para o documento."
Assis não fotografou apenas os trabalhadores para tirar a carteira profissional. Fez um registro da sociedade que abrange a própria cidade de Diamantina, fotografada por ele para o processo de tombamento – o conjunto arquitetônico e urbanístico foi tombado em 1938 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), do qual Assis foi funcionário. Mas as imagens dos operários podem ser vistas também como um começo de democracia do ponto de vista da imagem. Acostumada a retratar a elite, a câmera focalizou a população. "O privilégio que refletira nos incontáveis registros da família imperial e da aristocracia da República Velha tornou-se o espelho do povo", diz o presidente do Ibram. "A partir da Carteira do Trabalho, seguro de si e da família, cabeça erguida no quadro social, ele faz pose para aparecer na História do Brasil."

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Novo cardeal, de 99 anos, foi secretário pessoal de João XXIII


ANÁLISE

Loris Capovilla, o depositário dos segredos de João XXIII

JUAN ARIAS. Brasil.elpais.com


Entre os novos cardeais escolhidos pelo papa Francisco em seu primeiro consistório aparece uma figura simbólica: a de Loris Capovilla, de 99 anos, que foi secretário pessoal do papa João XXIII, o papa do século passado com quem Francisco guarda a maior semelhança.


Dom Loris Francesco Capovilla

Ninguém até agora tinha lembrado de dar o barrete de cardeal àquele que foi a figura chave, o confidente e o criador da imagem do chamado “papa bom”. Ele tinha sido relegado ao esquecimento, e, desde se aposentar como arcebispo, vivia em Sotto il Monte, a cidadezinha na qual nasceu o futuro papa João XXIII, filho de camponeses. E ali Capovilla, durante anos e quase em silêncio, fez um trabalho discreto de ajuda e conselho aos mais necessitados.

Dias depois de eleito, o papa Francisco telefonou a Capovilla e lhe disse, brincando: “O senhor tem voz de jovem”.

Hoje ele o nomeou cardeal. O escolheu como símbolo, muito ao seu estilo.

O reconhecimento dado a Capovilla pelo papa jesuíta possui forte valor simbólico, porque foi como ressuscitar um papa que não apenas foi um dos mais contestados pela Cúria Romana, como também um dos mais amados, até mesmo pelos não católicos.
Quando, já idoso e em um momento crítico da política mundial, João XXIII convocou o Concílio Vaticano II, foi visto como louco pelos cardeais conservadores, como Giuseppe Siri, arcebispo de Gênova. Eles chegaram a estudar a possibilidade de buscar sua deposição.
Capovilla é a única testemunha ainda viva dos maiores segredos do pontificado breve, mas fecundo de João XXIII, o pontífice que dizia a seu secretário que, se fosse mais jovem, abriria os jardins do Vaticano às crianças pobres do bairro de Trastevere, para que “não precisassem brincar na rua, entre o tráfego de automóveis”.
Era o papa que lhe dizia, também, que se “entediava” nas tardes do Vaticano, porque ao papa “já dão tudo feito e mastigado”. Para vingar-se, convocou um Concílio Ecumênico. E nesse concílio, para o qual chamou à basílica de São Pedro os 3.000 bispos da Igreja, menos os que estavam encarcerados nos países da Cortina de Ferro comunista, tanto Capovilla quanto sua sobrinha, a freira Sor Angela, puderam ver que o papa possuía grande senso de humor, observando em circuito fechado de televisão as discussões dos cardeais, em latim: “Veja aquele bispo ali, como dorme profundamente”, ele comentava. Ou então: “Que latim horrível o daquele arcebispo”. E se divertia enviando aos bispos fotos deles dormindo durante as sessões, com uma frase em latim: “Hoc non placet” (não me agrada). E a assinava. João XXIII fez isso, por exemplo, com um dos cardeais progressistas mais importantes do Concílio, o holandês Suenens, que ensinou a nós, os jornalistas que cobrimos o Concílio, que devíamos enfatizar a simplicidade do papa.
Foi Capovilla, por exemplo, a única testemunha presente no momento em que João XXIII abriu o envelope lacrado que lhe tinha deixado seu antecessor, Pio XII, sobre o “terceiro milagre de Fátima”. Apenas ele sabe o que comentou o papa, que acabou colocando o famoso envelope num caixão.
Capovilla era jornalista e teve participação grande na criação da imagem pública de João XXIII. Foi ele quem me contou durante uma entrevista, após a morte do papa, quando estava dirigindo o Santuário de Loreto, que João XXIII às vezes lhe dizia: “Loris, vamos ter que consultar o papa sobre isso”, esquecendo que ele próprio era o papa. Também lhe contava, por exemplo, que Pio XII estava muito preocupado com a possibilidade de “comunistas se infiltrarem” nas audiências públicas e que, quando voltava a seus aposentos, lavava as mãos com álcool porque “as pessoas tinham tocado nele”. E comentava com seu secretário: “Eu não me preocupo quando as pessoas chegam perto de mim. Acho que se fazem isso é porque gostam de mim”. Sobre o sofrimento de alguns papas devido à responsabilidade de serem “representantes de Cristo na Terra”, João XXIII dizia a Capovilla: “Eu me poupei esse sofrimento porque me considero apenas o ‘secretário’ dele”.
Foi Capovilla quem revisou o testamento de João XXIII e seu “Diário da Alma”. Enquanto o antecessor do pontífice, Pio XII, antes de morrer tinha concedido títulos de nobreza a seus familiares mais próximos, João XXIII escreveu à sua família em seu testamento: “Não deixo nada a vocês porque nasci pobre e morro pobre”. E acrescentou: “Não tenho que pedir perdão a ninguém porque por nunca me senti ofendido por ninguém”.
O quase centenário cardeal tinha conhecido muito bem as condições em que fizeram Pio XII morrer dentro do Vaticano. Tinha sido um dos momentos mais tenebrosos da história dos papas. O mantiveram isolado de tudo e de todos, sob os cuidados únicos da freira suíça Sor Pasqualina, que ele tinha trazido de quando era núncio em Berlim. Ela era a todo-poderosa. E ela decidiu não dizer ao papa que ele estava morrendo, e menos ainda dizê-lo à opinião pública. Por isso é quase certo que ele morreu sem receber os sacramentos e que seu médico pessoal, Galleazzi, o traiu. Ele fotografou o papa em seus momentos de agonia, chegando a vender as fotos a algumas revistas estrangeiras, e acabou sendo expulso da Ordem dos Médicos da Itália.
Ciente desses precedentes, Capovilla decidiu que a morte de João XXIII seria contada a todos. De acordo com Capovilla, quando o papa soube que estava chegando perto de seu fim, decidiu que seus últimos dias fossem levados a público por meio do Rádio Vaticano, para informar o mundo inteiro. No estilo que o caracterizava, João XXIII disse a seu secretário: “Cheguei ao dia da grande viagem. Avise ao mundo que o papa está preparando as malas”. E pediu que lhe dessem a extrema-unção.
E foi Capovilla quem me relatou sua angústia quando, na noite em que o papa ainda estava de corpo presente, alguns irmãos deles se apresentaram no Vaticano para pedir que os deixassem dormir ali, porque não tinham dinheiro para ir a um hotel. E no Vaticano lhes responderam que ali não havia lugar para eles. Os irmãos então procuraram Capovilla, que tinha sido secretário pessoal de Roncalli (João XXIII) desde que este era cardeal patriarca de Veneza. Sem avisar a ninguém, este conseguiu encontrar alguns colchões para que os irmãos do papa pudessem dormir no corredor dos aposentos papais.
E foram esses aposentos que o papa Francisco, que nomeou Capovilla cardeal, recusou ao ser eleito pontífice, alegando que eram grandes demais para ele: “Até 300 pessoas poderiam viver aqui”, comentou. E preferiu morar no Hotel de Santa Marta, até hoje.
Capovilla pôde constatar, ainda em vida, que o papa Francisco, o mais parecido com “seu” papa João XXIII, não se esqueceu dele e, sobretudo, não esqueceu o papa do Concílio.

domingo, 12 de janeiro de 2014

A jogada da Copa

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Por Gabriel Priolli
Do blog apriolli 

A Jogada da Copa
Seis meses depois dos protestos que tomaram inúmeras cidades brasileiras, decantadas as insatisfações apresentadas pelos manifestantes e as múltiplas soluções aventadas por todos os atores políticos para a estranha crise que se formou, temos um quadro bem claro. A maioria da população quer mudanças no país, mas prefere que elas sejam conduzidas por Dilma e não pela oposição. A presidenta lidera em todas as sondagens de intenção de voto.

Falta muito tempo até as eleições, certamente, e já assistimos a oscilações espetaculares de intenção de voto nos pleitos anteriores, inclusive candidaturas que “atropelaram” na reta final e venceram. Tudo pode acontecer, portanto, até que se proclamem os resultados. Mas, até segunda ordem, quem lidera é Dilma. A soma dos votos de seus adversários não supera os votos da candidata governista e tudo indica que a eleição será definida já no primeiro turno.

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Sim, mas há um outro roteiro possível para este ano. Nele, as massas sairiam novamente às ruas em junho, em plena Copa do Mundo, e causariam tal transtorno à competição que seria impossível ignorá-las. A mídia mundial distribuiria a todo o globo imagens de multidões pedindo reformas, de black blocs destruindo seus alvos habituais e das polícias reprimindo com a cortesia conhecida.
As cenas passariam a impressão de um país sem governo e de um governo sem legitimidade – impressões absolutamente falsas. Mas o que é mesmo a verdade, nessas coisas da mídia e da enunciação de seus conteúdos?

Um governo “ilegítimo”, pressionado externamente, ficaria acuado também pelos adversários internos. Estes amplificariam ao máximo possível os protestos e tentariam conduzir a sua pauta, exatamente como fizeram em 2013. Para criar um clima de megacrise, que nenhum ponto de contato tem com o real. Mas o que é exatamente o real, quando se tem o controle do que a mídia diz sobre ele?

Quem sabe se, em meio ao eventual fiasco da Copa – corre-corre e pancadaria nas imediações dos estádios, os inevitáveis problemas organizativos amplificados ao extremo, as queixas e angústias dos turistas constrangidos pelo clima de guerra política no Brasil e, prêmio final, uma boa derrota da seleção nacional -, os eleitores não embarquem na ideia de jogar toda a culpa em Dilma? Quem sabe não escolham na urna uma alternativa de oposição?

Acumulam-se as evidências de que setores conservadores, descrentes de sua capacidade de sedução do eleitorado pelas vias convencionais, cogitam se lançar na aventura catastrofista da Copa. Pretendem que o maior evento já realizado no país fracasse espetacularmente, para o máximo constrangimento e desgaste do governo atual. Acham que colherão os louros dessa ação de lesa-pátria.

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É simplesmente doentia a ideia de que, para conquistar o poder de “consertar” o país, alguém considere aceitável que a nossa imagem internacional seja destruída. Que o Brasil seja penalizado por décadas, pela “incapacidade” de realizar grandes eventos internacionais. E que isso aconteça fundamentado em mentira e manipulação da opinião pública.

Mas, infelizmente, a possibilidade é bastante concreta. Daqui até junho, provavelmente veremos novas convocatórias para que as massas voltem às ruas e façam manifestações “espontâneas”.

Assistiremos à incitação explícita de atos destinados à desestabilização do governo. “Não vai ter Copa!”, bradarão outra vez os carbonários – com todas as câmeras e microfones à sua disposição.

Dias atrás, na primeira vez em que externei essa preocupação, recebi o previsível fogo de barragem. Disseram que é paranóia minha, exagero. Que as convicções democráticas da oposição e de sua mídia são inquestionáveis. E que a eleição transcorrerá dentro das regras, sem tentativas de tapetão.

Será mesmo? O pré-golpe de 1964, em que muitos não acreditavam que a legalidade fosse demolida, talvez nos ensine melhor sobre os métodos do conservadorismo para tomar o poder. E sobre como ele é campeão em destruir a democracia, para “salvá-la” da ameaça dos governos populares.
Por que deveríamos confiar agora em quem não foi confiável no passado e segue não sendo?

Gabriel Priolli é jornalista, diretor de televisão e educador


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Acabou a novela: Ronaldinho renova com o Galo

Alexandre Kalil dá fim a novela e anuncia renovação de R10
 
    Ronaldinho
   A Paixão de Ronaldinho pela torcida do Galo falou mais alto


Após idas e vindas, informações truncadas da imprensa turca, o presidente alvinegro utilizou as redes sociais para dar a notícia que o torcedor atleticano tanto esperava
             



A sintonia entre a Massa e o craque pesou, e o casamento vai perpetuar por pelo menos mais um ano. Na tarde desta quinta-feira, o presidente do Atlético Alexandre Kalil anunciou por meio de sua conta oficial no Twitter a renovação contratual de Ronaldinho Gaúcho, ídolo máximo da torcida alvinegra e um dos maiores responsáveis pela maior conquista da história do clube alvinegro - a Libertadores da América. 


"A torcida é chata, mas o cara é apaixonado por ela. Renovou!", postou o dirigente.
O empresário e irmão do jogador, Roberto Assis, já havia dado uma pista de que R10 permaneceria no Galo, ao fim do Campeonato Brasileiro. Em entrevista a O TEMPO, o agente disse que a relação entre a torcida alvinegra e o atleta seria crucial para a permanência do craque em Belo Horizonte.
Alexandre Kalil também havia manifestado que não haveria negociação com um gênio como Ronaldinho. Em algumas ocasiões, no passado, o mandatário até palpitou que o meia-atacante tem grandes chances de encerrar sua carreira no clube mineiro, devido ao amor que sente pela Massa.
O próprio jogador salientava o desejo de continuar no Galo. O fato de ficar próximo da mãe, a dona Miguelina, também deve ter pesado na decisão. Além disso, foi a torcida alvinegra quem abraçou a matriarca na luta contra um câncer, o que emocionou o craque, que, em 2012, disse: “eu vou com eles (torcedores do Atlético) até o fim”.
Com a camisa do time mineiro, R10 fez 70 partidas, tendo marcado 26 gols e distribuído 27 assistências. Em um ano e meio na equipe, conquistou o Mineiro e a Copa Libertadores de 2013, e foi vice-campeão brasileiro de 2012.
O assédio turco e o final feliz
Em meados do ano passado, Ronaldinho teve seu nome especulado no Besiktas, da Turquia. O interesse da equipe foi alardeado na imprensa local, mas nada de concreto foi acertado entre as partes e o assunto esfriou. Na mesma época, especulou-se uma possível transferência para o PSG, primeiro clube do craque alvinegro na Europa. No entanto, o assunto caiu no esquecimento. O Atlético se preparava para a disputa do Mundial de Clubes e a saída de seu maior astro estava tora de cogitação.
Mas, no fim do ano, o assunto voltou e com muita mais força. O Besiktas estava disposto a tudo para tirar o camisa 10 da Cidade do Galo. A especulação ganhou ainda mais força com visitas de Assis às instalações do clube turco. Reuniões e jantares também foram alardeados pela imprensa local, que dava como certa a transferência do R10. Até números foram informados pelos ávidos noticiaristas. Ronaldinho receberia aproximadamente 6,5 milhões de euros anuais (aproximadamente R$ 21 milhões).
Outros jornais da Europa também 'confirmavam' o acerto com o Besiktas, entre eles o holandês "De Telegraaf". Detalhes do vínculo também 'foram divulgados', benefícios, prêmios por classificação, por torneio. O próprio Besiktas publicou uma nota de repúdio às informações da imprensa local.
Enquanto isto, em Belo Horizonte, Kalil aguardava Assis para uma reunião. O futuro de Ronaldinho seria decidido rapidamente, sem alarde. E foi o que aconteceu para a frustração total do Besiktas, que tanto fez e não levou. 

                                                                                                                                                             
                       

Dois pesos e duas medidas

Os fatos expressam o tratamento diferenciado da justiça e da mídia: o caso do cartel tucano em São Paulo, as incoerências de Joaquim Barbosa e a situação de Desmóstenes Torres e o moralismo seletivo; sem falar do mensalão tucano em Minas Gerais. 

 

Do brasil 247.com

 

PODER

STF decide desmembrar processo do cartel tucano

:
Só serão julgados pelo Supremo os réus com prerrogativa ao chamado foro privilegiado, no caso, quatro dos dez envolvidos: o deputado federal Arnaldo Jardim (PPS-SP) e três secretários do governador Geraldo Alckmin, licenciados do cargo de deputado: Edson Aparecido, José Aníbal e Rodrigo Garcia; na prática, os envolvidos no esquema de propina em governos do PSDB que não ocupam cargos políticos terão direito a recorrer a outras instâncias da Justiça, algo que não ocorreu na Ação Penal 470; em 2012, o STF decidiu não desmembrar o julgamento do 'mensalão', apesar de apenas três – de 38 – terem direito ao foro especial; réus como José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares foram, portanto, direto para a corte suprema; decisão sobre o cartel foi do relator, ministro Marco Aurélio Mello


:
Segundo depoimento do ex-diretor da multinacional Siemens Everton Rheinheimer (na foto menor, abaixo), o atual secretário de Desenvolvimento Econômico de SP, Rodrigo Garcia (ao lado de Geraldo Alckmin) era o responsável por tratar do suborno aos políticos no propinoduto; na época ele presidia a Comissão de Transportes da Assembleia Legislativa, quando ainda era deputado estadual; depois, o contato da Siemens teria passado a ser o secretário de Energia, José Aníbal (PSDB), por intermédio de um interlocutor


STF abriu a porta para recursos internacionais
:
"É chegado o momento dos injustiçados da Ação penal 470 se dirigirem às cortes internacionais a fim de reivindicarem seus direitos e desvendar ao mundo a farsa deste julgamento. O que está em jogo neste momento não é apenas a defesa de membros do PT, mas a garantia da democracia e do cumprimento da Constituição brasileira", diz o deputado Chico Vigilante; ele contesta o fato de o mesmo STF que negou recursos a réus ligados ao PT ter desmembrado o processo do cartel dos trens em São Paulo, em decisão do ministro Marco Aurélio Mello; dois pesos e duas medidas
 
¨A decisão do STF de desmembrar a ação que investiga a formação de cartel em licitações do Metrô e da CPTM durante governos do PSDB no estado de São Paulo é uma prova cabal de que, no Brasil que vivemos hoje, a Suprema Corte  usa de dois pesos e duas medidas para realizar seus julgamentos, transformando-os com o testemunho de toda a sociedade brasileira, em decisões políticas acima de tudo.
Com a decisão do  ministro Marco Aurélio Mello, do STF, apenas os envolvidos na denúncia que têm direito ao chamado foro privilegiado serão julgados pela corte suprema (quatro, de dez réus). No caso dos outros seis réus, o processo volta para a Justiça Federal de São Paulo.
Agora sim, ao julgar o processo do cartel tucano, o STF decide cumprir o que diz a lei. Por que não fez o mesmo quando julgou a ação penal 470 ? Por que motivo negou a todos os advogados de defesa dos réus não parlamentares o pedido legal e de acordo com a Constituição de que deveriam ter o direito de ser julgados por tribunais de primeira instância dando a eles o sagrado direito de recorrer, caso necessário, as instancias superiores?
A decisão do STF atual fará com que, na prática, os envolvidos no esquema de propina em governos do PSDB que não ocupam cargos políticos tenham direito a recorrer a outras instâncias da Justiça.
Por que isso foi negado  por exemplo a José Dirceu, a Delúbio Soares, a  Henrique Pizzolato? Por que não se cumpriu a Constituição, segundo a qual apenas têm foro privilegiado parlamentares, ministros, presidente e vice?
Por que naquele momento Joaquim Barbosa e seus pares entenderam que não era um bom momento para se cumprir a lei e agora em relação aos envolvidos do tucanato chegou a hora de se obedecer a Constituição?¨


Incoerências de Barbosa causam mal-estar no STF
:
Ministros criticam a falta de critério objetivo do presidente do STF na AP 470, que antecipou férias e deixou a prisão de dois condenados em aberto; para um deles, o deputado João Paulo Cunha (PT-SP), apenas a exposição midiática do caso justificaria a demora para a expedição de um mandado de prisão, reforçando a tese de que Barbosa tem agido mais como candidato do que como juiz; também incomoda a corte o fato de José Genoino ter sido preso, enquanto outro condenado, Roberto Jefferson, segue livre, leve e solto; nessa confusão, até um dos principais aliados de Barbosa, o jornal O Globo, se mostrou incomodado com seu esquecimento na charge de Caruso
 

Demóstenes e o moralismo seletivo


Edição/247 Fotos: Reprodução | Shutterstock:
 
Por Fernando Brito, no blog Tijolaço:

Graças ao blog da cidadania do Eduardo Guimarães, ficamos sabendo por onde anda o senador Demóstenes Torres, a quem a imprensa “esqueceu”.

Passou o reveillon em Firenze, na Itália.

Com direito a parar com a namorada e admirar a vitrine de uma loja da Louis Vuitton.

Goza de um otium cum dignitate, como diria Cícero, o rival em oratória de seu patrono grego, afastado do cargo de promotor, com seus vencimentos assegurados, R$ 25 mil, nada maus.

Porque é tratado com a dignidade de um nobre pela máquina judicial, tão feroz em outros casos e pela mídia, um coliseu romano quando o deseja.

Os processos contra ele dormitam nos escaninhos da Justiça e do Conselho do Ministério Público.

No final do ano passado, o Conselho Nacional do Ministério Público prorrogou o prazo do inquérito que abriu contra ele, há mais de um ano.

E o Tribunal de Justiça de Goiás, em novembro, adiou o recebimento ou não da denúncia contra ele.

Demóstenes, a quem a imprensa brasileira já apresentou como campeão da moralidade, antes de outro ocupar o papel, não tem uma legião de repórteres a vigiar e cobrar celeridade da Justiça.

Muito menos de cobrar justiça da Justiça.
 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Clóvis Rossi e os ¨ nervosinhos ¨

Por Miguel do Rosário
Do blog O Cafezinho:

Se vale alguma coisa viver nossa época, é assistir a esses “motins” na grande imprensa. São raros, muito raros, e protagonizados exclusivamente por jornalistas veteranos, cujo longo tempo de permanência no jornal lhes dá autoconfiança para divergirem das linhas editoriais determinadas pelos proprietários e seus capatazes internos.

Na verdade, acontece apenas na Folha. Globo, Estadão e Folha, os outros três do grupo dos quatro cavaleiros do apocalipse, mantêm um cada vez mais rígido controle sobre eventuais dissidências internas. Quem fizesse, no Globo, algo parecido ao que faz Janio de Freitas e agora Clovis Rossi, fez hoje na Folha, seria sumariamente demitido no dia seguinte.

Aliás, por isso eu costumo dizer a meus amigos que, hoje em dia no Brasil, jornalistas são os profissionais com menos direito à liberdade de expressão entre todos os trabalhadores.

Rossi denuncia o quanto é ridículo que nossos endinheirados fiquem “nervosinhos”, pessimistas e indignados enquanto enchem a pança. Os pobres, diz Rossi, é que deveriam estar tristes com o que o governo gasta em juros.

Eu acrescentaria o seguinte: já que tem gente querendo protestar durante a Copa, poderiam pedir a volta da CPMF. José Gomes Temporão, ministro da Saúde no governo Lula, em artigo na última edição da Carta Capital, lembra que a CPMF (o imposto sobre o cheque) corresponderia a R$ 50 bilhões por ano. Ou seja, nos sete anos em que ela deixou de existir, e incluindo 2014, foram tirados R$ 350 bilhões da saúde. Esse valor é quantas vezes superior aos gastos com estádios da Copa (sendo que os estádios foram feitos, em sua maioria, com dinheiro privado, embora com financiamentos do BNDES)? Quantas pessoas poderiam ser tratadas, quantas vidas seriam salvas, se a CPMF não fosse derrubada após uma campanha midiática liderada, como sempre, pelo Globo, pela direita, e com apoio inclusive de setores irresponsáveis da ultra-esquerda?

Outra coisa que eu agregaria ao texto de Clovis Rossi é que os “nervosinhos” estão quase todos aqui no Brasil, porque os investidores estrangeiros continuam acreditando no Brasil e tanto os investimentos produtivos (investimento estrangeiro direto), quanto os investimentos na bolsa, tem registrado um aumento constante.

Por uma ironia triste atual da nossa história, só quem não acredita no Brasil são os ricaços do Brasil. Talvez porque lêem demais nossa mídia urubuzeira. Investidores estrangeiros e os pobres do Brasil, imunes à mídia brasileira, continuam acreditando no país: os primeiros apostando alguns bilhões, na construção de novas fábricas por aqui; outros trabalhando duro, e votando na esquerda para presidente.
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Quem deveria ficar “nervosinho”

Por Clovis Rossi, na Folha.

Há algo de profundamente errado em um país, um certo Brasil, em que os ricos choram (e de barriga cheia), ao passo que os pobres parecem relativamente felizes. Na ponta dos mais ricos, refiro-me à pesquisa da consultoria Grant Thornton que “Mercado” publica hoje e que mostra um absurdo recorde de pessimismo entre os executivos brasileiros.

Na ponta dos pobres, valem as sucessivas pesquisas que mostram satisfação majoritária com o governo Dilma Rousseff, a ponto de 11 de cada 10 analistas apostarem, hoje por hoje, na reeleição da presidente. Como ninguém vota em governo que o faz infeliz, só se pode concluir que uma fatia majoritária dos brasileiros, especialmente os pobres, está rindo.

Que a economia brasileira tem problemas, ricos, pobres e remediados estão cansados de saber. Problemas conjunturais (o crescimento medíocre dos anos Dilma ou a forte queda do saldo comercial, por exemplo). Problemas estruturais que se arrastam há tantos séculos que nem é preciso relacioná-los aqui. Daí, no entanto, a um pessimismo recorde vai um abismo.

Um país em que há pleno emprego e crescimento da renda não pode ser campeão de pessimismo nem pode ficar em 32º lugar, entre 45, no campeonato mundial de pessimismo. É grotesco.
Grotesca igualmente é uma das aparentes razões para o surto de pessimismo que vem grassando desde meados do ano passado. Seria a diminuição do superavit primário, ou seja, do que sobra de dinheiro nos cofres públicos depois de descontadas as despesas e tem servido exclusivamente para o pagamento dos juros da dívida. Foi por isso que o ministro Guido Mantega apressou-se a divulgar os dados de 2013, para acalmar os “nervosinhos”.

Quem deveria ficar nervoso, mas muito nervoso, não apenas “nervosinho”, é exatamente quem está contente com o governo.
Basta fazer a comparação: os portadores de títulos da dívida pública (serão quantos? Um milhão de famílias? Cinco milhões no máximo?) receberam do governo, no ano passado, R$ 75 bilhões. É exatamente quatro vezes mais do que os R$ 18,5 bilhões pagos às 14 milhões de famílias (ou 50 milhões de pessoas) que recebem o Bolsa Família.

Quatro vezes mais recursos públicos para quem tem dinheiro para investir em papéis do governo do que para quem não tem renda. Seria um escândalo se os pobres tivessem voz. Mas quem a tem são os rentistas que ficam reclamando da redução do que recebem, como se houvesse de fato a mais remota hipótese de que o governo deixe de honrar sua dívida. Fazem um baita ruído com os truques contábeis que permitiram o superavit, mas não dizem que, com truque ou sem truque, a dívida líquida diminuiu este ano, de 35,16% do PIB em janeiro para 33,9% em novembro, última medição disponível.

Ou, posto de outra forma: o governo, supostamente irresponsável, gasta menos do que arrecada e ainda pinga 1,3% de tudo o que o país produz de bens e serviços na conta dos mais ricos e apenas 0,4% na dos pobres entre os pobres. E os ricos ainda choram.

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