sábado, 9 de agosto de 2014

O Manto de Dom Helder

“Atualmente, no Brasil e no mundo inteiro, muitas pessoas e grupos, cristãos e não cristãos, se preocupam em manter viva e atualizada a memória de Dom Helder, porque, de certa forma para nós, ele continua vivo, mesmo depois que nos foi tirado. Nem pedimos uma porção dupla do seu espírito de profeta. Basta mesmo a porção que ele viveu e isso já nos renova por dentro", diz trecho do artigo de Marcelo Barros.
¨Atualmente, o mundo e os grupos sociais necessitam muito de quem os ajude a manter a esperança e fortalecer a chama da luta social, pacífica, mas corajosa, profética e que vá às raízes dos problemas¨.

Por Marcelo Barros

A herança que recebemos do Dom
 
 
“No dia em que o Senhor arrebatou Elias ao céu, o profeta foi com seu discípulo Eliseu até a outra margem do rio Jordão. Ali, disse ao seu discípulo: “Peça o que quiseres, antes que eu seja tirado de ti”.
Eliseu pediu: “Deixe-me como herança uma porção dupla do seu espírito”. Elias respondeu: “Você está me pedindo uma coisa difícil. No entanto, se me enxergar, quando eu for tirado de você, isso lhe será concedido”. Enquanto estavam caminhando e conversavam, apareceu um carro de fogo e separou um do outro. E Elias subiu ao céu em um redemoinho. Eliseu gritava: “Meu pai, meu pai! Carro e cavalaria de Israel!”. Eliseu viu que o manto de Elias estava caindo, o pegou e com o manto de Elias continuou a missão do profeta” (Ver 2 Reis 2).

Quando Eliseu pede a Elias o seu mestre para ficar com o seu espírito de profeta, Elias responde que só pode dar isso se o discípulo conseguir vê-lo mesmo quando ele for tirado de sua presença.

Atualmente, no Brasil e no mundo inteiro, muitas pessoas e grupos, cristãos e não cristãos, se preocupam em manter viva e atualizada a memória de Dom Helder, porque, de certa forma para nós, ele continua vivo, mesmo depois que nos foi tirado. Nem pedimos uma porção dupla do seu espírito de profeta. Basta mesmo a porção que ele viveu e isso já nos renova por dentro. Mas, isso é importante.

No Recife, o Instituto Dom Helder Camara guarda sua memória, garante a preservação dos seus documentos e publica suas cartas e textos. Tudo isso é importante e necessário. Mas, se ele pudesse, agora, do céu, nos dizer o que mais deseja e o  que nos pede é que mantenhamos vivo o seu espírito profético. E para isso, temos de fazer como Eliseu fez com Elias: recolher o seu manto. O manto do profeta era o que o identificava como profeta. (Cf. 2 Rs 1, 8). O povo dizia que, com o seu manto de profeta, Elias chegava a tocar na água e o rio se abria em dois para ele passar. Eliseu usou o manto de Elias e conseguiu fazer a mesma coisa (2 Rs 2). Tentemos brevemente recordar a herança profética de Dom Helder que podemos hoje viver e intensificar cada vez mais.

1 – a espiritualidade helderiana

Ele nos deixou o seu exemplo de espiritualidade e os seus escritos. E, na sua época, através de suas vigílias-cartas, ele queria envolver as pessoas que estavam ao seu lado, a família do São Joaquim no Rio[1] e depois a família mecejana no Recife[2].

Essas cartas- vigílias, hoje em grande parte já publicadas[3], são antes de tudo orações, meditações nas quais Dom Helder se refazia em sua intimidade com o Pai. Todos os dias, ele acordava às três da madrugada e se colocava em oração de vigília. Nela, revolvia no coração a missa diária que deveria celebrar depois, orava sobre os acontecimentos do dia anterior e sobre os que iria viver no novo dia que estava começando. Hoje, ao ler essas cartas, percebemos que retomar hoje a espiritualidade de Dom Helder pede de nós que não copiando o jeito dele, mas do nosso jeito próprio e na nossa realidade, pudéssemos experienciar também essa profunda intimidade com Deus na oração e na meditação da Escritura.

Ao ler as vigílias- cartas do Dom, uma preocupação que sentimos sempre presente é a preocupação dele com a formação profunda dos leigos e leigas que formavam esse grupo de seus auxiliares, assessores, amigos. Ele partilhava com o grupo os livros que lia, os discursos que fazia, até a meditação pessoal que orava na eucaristia.

Atualmente, seria importante que os nossos grupos de pastoral, nossas comunidades e seus animadores/as estivessem suficientemente abertos a continuar essa formação permanente e interessados em buscar os meios para mantê-la e atualizá-la sempre. Na época de Dom Helder, a Ação Católica, a Pastoral de Juventude e grupos de Igreja tinham muitos instrumentos de formação. Hoje, quase não temos mais isso, seja por falta de tempo, seja mesmo porque estamos menos organizados. No entanto, é bom percebermos a importância disso na linha do manter vivo o espírito do Dom.

 2 – A constituição de minorias abraâmicas

Com a capacidade de comunicação que Dom Helder tinha, ele percebeu que havia formado no mundo inteiro grupos de amigos/as que desejavam manter o projeto de vida, o modelo de Igreja aberto a toda a humanidade e de luta pacífica pelos direitos humanos e por um mundo novo possível que ele havia delineado e vivido.

Ele nos deixou a própria Igreja das Fronteiras onde ele morou por 40 anos como um ponto de referência de acolhida das pessoas, de diálogo e de abertura ao mundo. Como manter esse espírito como se estivéssemos com o manto do profeta e pudéssemos receber o mesmo carisma?

Atualmente, o mundo e os grupos sociais necessitam muito de quem os ajude a manter a esperança e fortalecer a chama da luta social, pacífica, mas corajosa, profética e que vá às raízes dos problemas. Como poderíamos, hoje, nos constituir como uma rede de entidades e movimentos autônomos, mas, ao mesmo tempo, solidários nesse caminho do reino de Deus?

3 – O cuidado com a justiça social

Durante todo o tempo do seu ministério em Recife, Dom Helder lançava desafios e programas para responder aos desafios da realidade. Formar grupos como minorias abraâmicas, pressão moral libertadora e tantos outros, até o ano 2000 sem miséria que ele lançava já nos últimos anos de vida. Ao ler todas as cartas até agora publicadas, o programa que me parece mais sintetizar os outros e resumir o que Dom Helder queria como nosso cuidado maior é o que finalmente ele chamou de “Ação Justiça e Paz”. Pelo fato de ter lançado na época da ditadura e sob forte censura do governo e mesmo de certos ambientes de Igreja, o Dom tentou começar esse movimento conseguindo a adesão de bispos e nomes importantes, no lugar de partir das bases, como certamente ele teria feito se tivesse tido mais liberdade. Na época, havia pessoas que confundiam a proposta dele com a missão da Comissão Pontifícia Justiça e Paz. Dom Helder insistia em que as duas se complementavam. A Ação Justiça e Paz era uma ação mais comunitária, mais sistemática (todo o tempo) e mais de base, no cuidado com o dia a dia do povo, enquanto a Comissão Justiça e Paz envolve o nome de pontifícia (é um organismo do papa), é uma comissão e tem como missão se pronunciar sobre as grandes questões que envolvem a justiça e a paz. A ação é mais prática.

Por exemplo, quando a ditadura cassou o direito de muitos estudantes continuarem estudando, em 1969, Dom Helder pensava que a função dessa Ação Justiça e Paz seria, além de denunciar a ilegalidade do decreto 477 do governo federal[4] (coisa que a Comissão Justiça e Paz fazia), além disso, reunir os estudantes e ajudá-los a conseguir bolsas no exterior onde eles pudessem concluir seus estudos.

Atualmente, em muitas cidades e capitais brasileiras, é impressionante o número de adolescentes e jovens pobres e muitos negros que, nos bairros de periferia, são assassinados pela ação violenta da polícia e também de gangues que atuam nessas áreas. Talvez, pudéssemos refazer, hoje, uma Ação Justiça e Paz que sensibilizasse as paróquias e comunidades religiosas da nossa cidade, assim como os grupos de direitos humanos, com relação a esse problema. Seria importante conseguir dados mais concretos dos casos que acontecem, nomes das vítimas e datas, de forma a passar para a imprensa esses dados mais organizados e refletidos. Sem dúvida, poderíamos provocar uma consciência social que ainda não tem se manifestado.

Muitos outros elementos poderiam ser lembrados. A comunicação extraordinária que Dom Helder tinha com a juventude, o apoio que ele dava à luta dos lavradores pela reforma agrária, a consciência social e política nacional e internacional que ele suscitava e provocava em todos nós. São desafios para todas as pessoas que desejam prosseguir seu caminho e viver sua profecia. O importante é viver tudo isso com seu espírito de compaixão e de amor universal.

Para quem quiser aprofundar mais esse assunto, leia:

1 - ZILDO ROCHA, organizador. VÁRIOS AUTORES, Helder, o Dom, Petrópolis, Vozes, 1999.
2 – MARCELO BARROS, Dom Helder Camara, profeta para os nossos dias, São Paulo, Ed. Paulus, 2012.

 
 

[1] - São Joaquim é o nome do palácio episcopal do Rio de Janeiro, onde, na época se reuniam as comissões de pastoral. Como, no final dos anos 50 e começo da década de 60, Dom Helder trabalhava ali, como bispo auxiliar do Rio, ali reunia seus auxiliares leigos que formavam para ele a “família do São Joaquim”.
[2] - Família mecejana porque é nordestina como ele que nasceu em Mecejana, no Ceará
[3] - Ver DOM HELDER CAMARA, Circulares Conciliares, 3 volumes, Organizador:  ZILDO ROCHA, Recife, Ed. CEPE, 2008, Circulares Interconciliares, 3 volumes, idem, 2010, Circulares pós conciliares, Tomo I, 3 volumes, 2011, Circulares Pós-conciliares, Tomo II, 4 volumes, idem, 2014.
[4] - O decreto 477 do governo militar em 1969 caçava automaticamente o direito de estudar em qualquer universidade brasileira, pública ou particular, a estudantes considerados culpados de crime de subversão. A sentença era dada pelos militares, sem julgamento nem possibilidade de recorrer da sentença. Muitos jovens de 18 a 25 anos tiveram suas vidas pessoais e profissionais amputadas por essa medida arbitrária, duríssima e impiedosa. Dom Helder fez tudo o que pôde no diálogo para que o governo revisse isso e abrandasse a medida. Depois que percebeu que era inútil, tentou ajudar os estudantes vítimas dessa arbitrariedade.
medida arbitrária, duríssima e impiedosa. Dom Helder fez tudo o que pôde no diálogo para que o governo revisse isso e abrandasse a medida. Depois que percebeu que era inútil, tentou ajudar os estudantes vítimas dessa arbitrariedade.

Marcelo Barros Marcelo Barros é monge beneditino e teólogo especializado em Bíblia. Atualmente, é coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). Assessora as comunidades eclesiais de base e movimentos sociais como o Movimento de Trabalhadores sem Terra (MST). Tem 45 livros publicados dos quais está no prelo: "O Evangelho e a Instituição", Ed. Paulus, 2014. Colabora com várias revistas teológicas do Brasil, como REB, Diálogo, Convergência e outras. Colabora com revistas internacionais de teologia, como Concilium e Voices e com revistas italianas como En diálogo e Missione Oggi. Escreve mensalmente para um jornal de Madrid (Alandar) e semanalmente para jornais brasileiros (O Popular de Goiânia e Jornal do Commercio de Recife, além de um jornal de Caracas (Correo del Orinoco) e de San Juan de Puerto Rico (Claridad).

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Despejo de 8 mil famílias pode virar um massacre. Quem pode impedir isso?

Despejar 8 mil famílias das Ocupações Rosa Leão, Esperança e Vitória poderá fazer uma tragédia de proporções inimagináveis.
Alerta às autoridades e às pessoas de boa vontade.

Frei Gilvander Luís Moreira[1]


 
Prefeito, juíza, governador, comandantes da Polícia, empresários e muitas outras autoridades estão tão distantes da realidade dos pobres que, mesmo aparentando terem boa vontade, estão deleitando o “canto da sereia”, mas amarrados no mastro do navio do sistema do capital (Cf. Canto 12 de Odisseia, de Homero). Diante dos rumores e vários indícios de que estão preparando para em breve tentar despejar as 8 mil famílias das Ocupações Rosa Leão (1.500 famílias), Esperança (2.638 famílias) e Vitória (4.500 famílias) na região do Isidoro, território de Belo Horizonte e parte de Santa Luzia, MG, faremos aqui vários alertas na esperança de que possa contribuir para evitar a tragédia de proporções inimagináveis que poderá ser tentar despejar essas comunidades. Poderão acontecer massacres maiores do que o de Eldorado dos Carajás, em 17/04/1996, com 21 mortos e 69 feridos; ou maior do que o massacre do Carandiru, dia 02/10/1992, com 111 presos mortos. Isso não é ameaça, é alerta de quem está cotidianamente no meio do povo e sente suas angústias, vê suas lágrimas e sabe que o povo resistirá por necessidade, por não ter outra opção.

Diante desse gravíssimo conflito social faz bem recordar e não pode ser esquecido que:

1.   O povo foi para essas ocupações por necessidade, porque não suporta mais sobreviver debaixo da cruz do aluguel ou da humilhação que é sobreviver de favor. Pagar aluguel acima de 500 reais para quem ganha salário mínimo de 724 reais se tornou impossível. “A gente toma café da manhã com aluguel, almoça aluguel, janta aluguel e dorme com aluguel. Não suportamos mais isso.” Esse é o grito geral no meio do povo.
2.   A especulação imobiliária está crescendo e com ela, o déficit habitacional e, consequentemente, as ocupações urbanas. Políticas habitacionais populares estão quase só em discursos e vãs promessas. Somente na região metropolitana de Belo Horizonte, MG, já são mais de 25 mil famílias em Ocupações urbanas, umas planejadas e outras “espontâneas”.
3.   Até o presente momento somente foram construídas em Belo Horizonte 1.427 unidades habitacionais pelo Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV) para famílias de 0 a 3 salários mínimos, em que pese mais de cinco anos de existência de referido programa. No 1º dia de cadastro para o PMCMV, cinco anos atrás, 199 mil famílias se inscreveram. A Fundação João Pinheiro atestava um déficit habitacional de 78 mil casas, em 2010, a partir de dados do IBGE. Quatro anos após estima-se um déficit habitacional na capital mineira acima de 150 mil moradias.
4.   Não há programa de construção de moradias para população pobre em Belo Horizonte diversa do PMCMV. Isso porque as construções de unidades habitacionais pelas obras do programa Vila Viva não se prestam a atender o déficit habitacional de Belo Horizonte. O Ministério Público Federal informou que, de 7.957 remoções realizadas pelo programa Vila Viva em Belo Horizonte, somente 3.950 remoções importaram em reassentamento – sem titulação - em unidade habitacional construída por esse programa. Do restante, 496 dos removidos conseguiram adquirir a compra de casa com recursos advindo do PROAS – 40 mil reais é o teto - e, a grande maioria dos removidos, 4.310, receberam indenização pela remoção compulsória. A indenização é sempre injusta, pois não indeniza o valor do imóvel, mas apenas da casa ou do barraco. Há Relatório da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), PM, Ministério Público e Polícia civil atestando o caos que está nos predinhos do Vila Viva.
5.   O Governo de Minas nos últimos 20 anos não construiu nenhuma casa para famílias de zero a três salários mínimos em Belo Horizonte e nem na região metropolitana de BH.
6.   As Ocupações Rosa Leão, Esperança e Vitória estão seguindo Plano Urbanístico elaborado com participação de Arquitetos da UFMG e PUC/MG. Essas ocupações não são e nem serão favelas, aglomerados, mas têm avenidas e ruas com loteamento planejado. Nas três ocupações já foram construídas ou estão em construção 2.500 casas de alvenaria. Foi investido, em média 7 mil reais em cada casa. 2.500 X 7.000,00 = 17.500.000,00 (17,5 milhões de reais). Mais da metade foi conseguido via empréstimo. Os aposentados pegaram empréstimos para pagar de 3 a 5 anos, descontando mensalmente na aposentadoria de salário mínimo. Ou no cartão de crédito ou outras formas de empréstimo. O fato é que o povo não vai admitir que suas casas sejam demolidas e, além de ficar sem casa, ficar com uma grande dívida.
7.   Um exemplo: A Ocupação das Torres Gêmeas, no bairro Santa Teresa, em Belo Horizonte, ficou com liminar de reintegração de posse 15 anos sem cumprir. A Polícia militar fez um laudo que demonstrava ser impossível fazer a desocupação dos prédios sem ter vários mortos. Sugerimos que a polícia de MG faça um laudo mostrando a impossibilidade de se fazer um despejo forçado de tal envergadura. Outro exemplo: Quatro anos atrás, quando havia uma pressão enorme para se despejar a Ocupação Dandara, no Céu Azul, em Belo Horizonte, o Cel. Sandro Teatini, então comandante das tropas especializadas e com fama de ser muito duro, bateu na mesa da Dra. Maria Coeli, secretária da Casa Civil do governo de MG, e disse com firmeza: “Não despejo a Ocupação Dandara sem ter alternativa digna, sem ter para onde levar mil famílias.” Dandara segue firme sendo já um bairro organizado faltando apenas o poder público chegar e colocar sistemas de água, energia, esgotamento e arrumar as ruas.
8.   Estamos na era pós-junho de 2013. O povo das Ocupações se uniu, está organizado e jamais se dispersará. Se por um milagre, massacres não acontecerem, após os despejos, Belo Horizonte vai virar um caos. E a luta por moradia vai continuar, pois é uma necessidade, um direito humano fundamental. Ninguém vai baixar a cabeça.
9.   As Ocupações de Belo Horizonte e Região metropolitana estão unidas e irmanadas na luta. Mexer com uma significa mexer com todas as ocupações. Logo, o caminho sensato é diálogo, negociação até chegarmos a soluções justas e pacíficas.
10.               Há uma série de ilegalidades na decisão liminar da Juíza Luzia Divina Peixoto, da 6ª Vara de Fazenda Pública Municipal, que mandou despejar o povo e reintegrar na posse Granja Werneck S/A e outros empresários. A juíza de plantão não tinha concedido liminar de reintegração de posse, pois “faltava a comprovação da posse”. A juíza Luzia Divina não deixou ainda o Ministério Público e a Defensoria Pública terem vista na íntegra dos processos. Cadê o devido processo legal? Por isso também o Ministério Público de Minas Gerais, por meio da Promotoria de Justiça Especializada em Direitos Humanos, ajuizou, dia 15/07/2014, uma Ação Civil Pública (ACP) em que pede que seja assegurado o direito à moradia das famílias das Ocupações do Isidoro. Na ACP fica claro que há a necessidade de se fazer: 1) Um novo cadastro socioeconômico das famílias; 2) Uma perícia técnica judicial para esclarecer os limites entre as ditas propriedades do município de Belo Horizonte, dos particulares envolvidos: 3) Identificar os limites dos municípios envolvidos no conflito (BH e Santa Luzia); 4) qual o limite da Zona Especial de Interesse Social (SEIS) inscrita na área da Ocupação Rosa Leão; 5) Definir dimensão e território em que as ocupações estão inseridas; 6) Esclarecer se o Estado de Minas Gerais, por via da Agência de Desenvolvimento da Região Metropolitana, exerceu poder de polícia fiscalizatória no processo de parcelamento e desmembramento da Granja Werneck; 7) Reunir à ACP os quatro processos de reintegração de posse em trâmite na 6ª Vara de Fazenda Pública Municipal, evitando-se, dentre outras situações, decisões contraditórias por parte do Judiciário e a continuidade do descumprimento do Decreto Estadual nº 44.646/2007 e Decreto Municipal nº 10.483/2001. Muito estranho também uma ACP que coloca inclusive o Governo de Minas no banco dos réus e tem pedidos muito mais amplos do que os processos de reintegração de posse continuar em uma Vara pública Municipal. O correto é que a ACP seja analisada em uma Vara de fazenda pública ESTADUAL, como foi o caso da ACP no processo da Ocupação Dandara. Todas essas ilegalidades precisam ser corrigidas.
11.               Se a Constituição for respeitada, nenhuma reintegração de posse em ocupações coletivas pode ser feita. Concordo 100% com a professora Delze dos Santos Laureano ao dizer: "Se fossem mesmo levados a sério os direitos humanos fundamentais, nenhuma reintegração de posse poderia ser feita nas ocupações coletivas, pois esses atos ferem de morte o direito à dignidade da pessoa humana, o direito à alimentação e à moradia. Afrontam, violentamente, tais decisões contra a democracia, os direitos das crianças, dos idosos, dos deficientes. Todos estes que recebem, por força da própria constituição, ainda que formalmente, a proteção do Estado."
12.               A história nos mostra que despejo jamais é solução justa para grave problema social como o que envolve diretamente cerca de 25 mil famílias hoje na região metropolitana de Belo Horizonte. Despejo só piora mil vezes o problema social. Acirra os ânimos, cria condições para se fazer massacres, o que é abominável. A solução justa para superar de forma justa esses conflitos sociais passa necessariamente por Política – não por polícia -, por diálogo, por negociação, por política de habitação séria, popular e massiva, com participação popular. Jamais polícia – repressão - vai resolver de forma justa o problema que as ocupações urbanas e rurais estão desvelando.
13.               Temos em Belo Horizonte, dois exemplos que devem ensinar muito a todas as autoridades. Primeiro, em 2010, a tropa de choque da Polícia Militar de MG acompanhou guardas municipais da prefeitura de BH, seus fiscais e gerentes e, sem decisão judicial, demoliram 27 casas de alvenaria na Ocupação Zilah Spósito/Helena Greco. Jogaram gás de pimenta no povo, inclusive em criança de quatro anos. Fizeram um terror. Mas, a Rede de Apoio chegou rápido e, sob a liderança da Defensoria Pública de MG da área de Direitos Humanos, conquistamos uma Liminar judicial que impediu demolir as 11 casas que resistiam em pé. Moral da história: Após três anos estão lá 170 casas de alvenaria construídas, com 170 famílias fora da cruz do aluguel ou da sobrevivência de favor. Após aquela agressão, conquistamos a retirada do secretário da prefeitura de BH, da regional Norte, que comandou a operação. O Ministério Público da área de Direitos Humanos denunciou 11 soldados que estão respondendo processos. E o povo está lá firme na luta. Segundo, no Barreiro, em BH, dias 11 e 12 de maio de 2012, cumprindo decisão judicial a pedido da Prefeitura de BH, liminar concedida pela juíza Luzia Divina Peixoto (a mesma que ordenou os despejos das ocupações do Isidoro), um verdadeiro aparato de guerra – 400 policiais, cavalaria, helicóptero da PM, caveirão – em uma ação militar que durou 36 horas, despejou 350 famílias da Ocupação Eliana Silva, do MLB, aterrorizando as crianças que, abraçadas às mães, gritavam: “Mãe, a polícia vai nos matar.” Traumas indeléveis. Mas três meses depois, a Ocupação Eliana Silva “ressuscitou” ocupando outro terreno a um quilômetro de distância e hoje, após 1,5 ano, já estão com 300 casas de alvenaria construídas e a Comunidade segue, de cabeça erguida, sob a guia do MLB (Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas), movimento popular respeitado e admirável.
14.               É um erro grave pensar que polícia vai resolver problema social. Polícia é para resolver crimes. As lutas coletivas do povo pobre - que se expressam nas ocupações - são lutas por direitos constitucionais e como tais devem ser respeitadas. Aos policiais recordamos: Vocês são também trabalhadores da classe trabalhadora e não estão obrigados a cumprir ordens que são contrárias à lei maior de Deus, que diz: Não matarás!
15.               Dia 31 de julho de 2014, o novo presidente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), Dr. Pedro Bitencourt, e o 3º Vice-presidente do TJMG, Wander Paulo Marotta, responsável pela área de mediação de conflitos em 2ª instância, se reuniram com representantes das ocupações  de BH e RMBH, das Brigadas Populares, MLB, Comissão Pastoral da Terra e Coletivo Margarida Alves. A reunião foi acompanhada pela procuradora do Ministério Público de Minas Gerais, Dra. Gisela Potério Saldanha, por Dr. Manoel dos Reis Morais, juiz auxiliar da presidência do TJMG. Após ouvir os representantes dos movimentos sociais e das ocupações, o Dr. Pedro Bitencourt e o 3º Vice-Presidênte do TJMG assumiram compromisso de mediação para os conflitos sociais e urbanos que envolvem as ocupações da região do Isidoro (Vitória, Esperança e Vitória) e as Ocupações William Rosa e Guarani Kaiowá, de Contagem, MG.
Em nome da verdade e por respeito à dignidade humana, por essa Mediação sob a coordenação da 3ª vice-presidência do TJMG estamos esperando. Esse é o caminho justo e sensato para se chegar à paz social com respeito aos direitos dos pobres.

Contatos para maiores informações:
com Isabela (cel.: 31 8629 018931 8629 0189), Rafael Bittencourt (cel.: 31 9469 740031 9469 7400) ), com Charlene (cel.: 31 9338 121731 9338 1217 ou 31 8500 348931 8500 3489), com Edna (cel.: 31 9946 231731 9946 2317), com Elielma (cel.: 31 9343 969631 9343 9696), com Bruno Cardoso (cel.: 31 9250 183231 9250 1832); Poliana (cel. 31 9523 070131 9523 0701) ou com Leonardo MLB (cel.: 91330983).

Maiores informações também nos blogs das Ocupações, abaixo:
[1] Frei e padre carmelita; bacharel e licenciado em Filosofia pela UFPR, bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália; doutorando em Educação pela FAE/UFMG; assessor da CPT, CEBI, SAB, PJR e Via Campesina, em Minas Gerais

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Centenário do Kafunga


 
Com 19 anos de dedicação ao Atlético, o goleiro Kafunga tornou-se um dos maiores ídolos do clube e virou até referência temporal em Minas Gerais.

Ele ganhou o apelido do avô graças às suas espaçosas narinas. Segundo consta, estava sempre ¨cafungando¨ ruidosamente - assim,  virou Kafunga, herói alvinegro, radialista original e até referência temporal. Jogou tanto tempo com a camisa do Atlético que a torcida do Galo dizia que coisas muito velhas eram ¨dos tempos de mil novecentos e Kafunga¨.

KAFUNGA

"Nunca levei um frango"

Kafunga: Nunca levei um frango


Olavo Leite de Bastos, mais conhecido como Kafunga foi goleiro do Clube Atlético Mineiro entre os anos de 1935 a 1954, sendo o atleta que vestiu a camisa do Galo durante mais tempo.
 
  • Nascimento: 7 de agosto de 1914, Niterói, Rio de Janeiro
  • Falecimento: 17 de novembro de 1991, Belo Horizonte, Minas Gerais

  •  
     Os atleticanos mais jovens não conheceram ou talvez nunca ouviram falar de KAFUNGA, que era o apelido de um dos maiores nomes da história do Clube Atlético Mineiro. Era um excelente goleiro, que atuou como “guarda metas” ou “goal keeper”, como se dizia no passado, durante o período de 1935 a 1954, sendo o jogador que atuou por mais tempo seguido com a camisa do Galo. Foi campeão mineiro em 1936/1938/1939/1941/1942/1946/1947/1950/1952 1953 e goleiro da campanha intitulada pela torcida “Campeões do Gelo”, expressão que consta do Hino do Atlético, devido a uma temporada do clube com 6 vitórias, 2 empates e 2 derrotas contra clubes da Europa, em 1950, com quase todos os jogos debaixo de neve, literalmente. Foi ainda “Campeão dos Campeões” em 1937, expressão também contida no referido hino, devido a um torneio entre alguns campeões estaduais. Era um verdadeiro ídolo da torcida e do público feminino, particularmente, mesmo numa época em que as mulheres não iam aos campos de futebol.
    Olavo Leite Bastos, o Kafunga, jogou no Atlético de 1935 a 1954, com uma breve passagem pelo Asas, no final da carreira.

    Além de goleiro, passou vários anos depois que parou de jogar pelo cargo de gerente, chegando a ser treinador tapa buraco.

    Virou comentarista esportivo e teve uma sobrevida fantástica no rádio (Guarani e Itatiaia) e na televisão (Itacolomi e Alterosa) .
     
    Ouça o áudio, clicando abaixo:

    Atlético 2 x 0 Cruzeiro - 1977, Vilibaldo Alves

    • 1:34
    • 128kbps
    • 2º gol do Galo: Marcelo Oliveira Campeonato Mineiro de 1976 - Final - 27/03/1977 Rádio Itatiaia Narração: Vilibaldo Alves Comentário: Kafunga Repórter: Orlando José
                                                                   -----------------------
     
    Por Emanuel Carneiro
    Rádio Itatiaia: 
    Kafunga 100 anos

    Tivemos o Kafunga na Itatiaia por quase 20 anos, nas Jornadas Esportivas, com um comentário diário as 11:25, perto do Rádio Esportes e aos domingos, com o seu “Kafunga de todos os tempos”, antes de começar o futebol.

    Kafunga nasceu em Niterói, no dia 7 de agosto de 1914, e morreu em Belo Horizonte em 17 de novembro de 1991, aos 77 anos. Criou os bordões : gol barra limpa, cabeça de bagre, o famoso  “ no Brasil  o errado que está certo”,  vapt-vupt, cobra criada, não tem coré-coré. Era uma figura querida em todos os clubes.

    Kafunga exerceu dois mandatos como vereador e ao chegar a Câmara Municipal percebeu que grande parte das sessões era usada para dar voto de congratulações para aniversariantes.Então, entrou com uma proposição cumprimentando todos os moradores da cidade pelo dia do seu aniversário. Virou gozação, mas tinha sentido.

    A data do seu centenário de nascimento merece ser lembrada pelos amigos, companheiros de trabalho que conviveram com ele e o Galo deve imaginar uma celebração, quem sabe um busto para o “Velho” . O Palmeiras fez isto para Ademir da Guia e o Vasco para o Romário.

    Vida longa Kafunga pelos 100 anos. Você nunca será esquecido.
                                                         -----------------------------------
    Clique abaixo para assistir o programa papo de bola (tv alterosa), de grande audiência no horário do almoço:

    https://www.youtube.com/watch?feature=player_detailpage&v=q1VQtRQ6Dlw
     9:22 Kafunga - Papo de Bola em 1991 - 1ª Parte

    quarta-feira, 6 de agosto de 2014

    Médicos mineiros atuaram na França durante a Primeira Guerra Mundial

     
    Publicado em 2 de agosto, no jornal Estado de Minas, página 8. Missão médica brasileira enviada para a primeira Guerra Mundial contou com profissionais da Faculdade de Medicina da UFMG.
    Publicado em 2 de agosto, no jornal Estado de Minas, página 8. Missão médica brasileira enviada para a primeira Guerra Mundial contou com profissionais da Faculdade de Medicina da UFMG.
    Publicado em 2 de agosto, no jornal Estado de Minas, página 8. Missão médica brasileira enviada para a primeira Guerra Mundial contou com profissionais da Faculdade de Medicina da UFMG.
    Publicado em 2 de agosto, no jornal Estado de Minas, página 8. Missão médica brasileira enviada para a primeira Guerra Mundial contou com profissionais da Faculdade de Medicina da UFMG

    terça-feira, 5 de agosto de 2014

    SUS amplia atendimento odontológico com incorporação de clínicas universitárias


    Andreia Verdélio - Repórter da Agência Brasil - 

    O Ministério da Saúde ampliará o atendimento odontológico na rede pública por meio do Gradua CEO, iniciativa que permitirá que instituições de ensino superior, públicas e filantrópicas, com curso de odontologia, façam procedimentos de saúde bucal pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

    A iniciativa é uma parceria entre os ministérios da Saúde e da Educação para prática dos estudantes de odontologia na atenção básica e especializada do SUS e ampliação do acesso da população aos serviços de saúde bucal.
    “É uma via de mão dupla. A população vai se beneficiar porque são clínicas odontológicas com muita qualidade no tratamento, com os professores atuando junto aos alunos, e o programa também permite que possamos formar cada vez melhor os futuros cirurgiões dentistas”, disse o ministro da Saúde, Arthur Chioro.

    Durante os anos iniciais do curso, os alunos acompanharão o trabalho das equipes de saúde bucal e, nas etapas finais, poderão realizar procedimentos odontológicos com orientação dos professores. Além da prática, os estudantes terão no currículo os princípios de cuidado integral do SUS, de estratégias de humanização.

    A expectativa é que 15 universidades façam a adesão ao GraduaCEO em 2014. Até o fim de 2015, o ministério prevê R$ 2,4 milhões em investimentos na implantação de 30 clínicas odontológicas, além de R$ 27 milhões para custeio.

    Ao aderir à iniciativa, a instituição receberá um incentivo de R$ 80 mil para compra de equipamentos e informatização. O custeio mensal que cada uma vai receber – de R$ 25,2 mil a R$ 103,3 mil – será de acordo com padrão escolhido pela própria instituição, levando em conta a capacidade de atendimento – de 900 a 4,1 mil procedimentos odontológicos por mês.

    Após a fase de implantação e desenvolvimento, o GraduaCEO passará por avalizações in loco da qualidade do serviço, pesquisa de satisfação e monitoramento da produção por meio dos sistemas de informação do SUS. As clínicas com atuação acima da média e muito acima da média terão aumento no custeio e mais recursos para investimentos no momento da renovação da adesão, a cada 24 meses.

    O GraduaCEO passa a compor a Política Nacional de Saúde Bucal, o Programa Brasil Sorridente, criado em 2004. No país, existem hoje 1.018 centros de Especialidades Odontológicas (CEO), 450 habilitados para atenção a pessoas com deficiência, e 1.465 laboratórios de próteses dentárias.

    O ministro da Saúde também assinou portaria que destina R$ 4,9 milhões para confecção de próteses nos laboratórios regionais de Próteses Dentárias. A medida beneficiará 76 municípios em 16 estados.

    “Ainda temos um débito com a população brasileira, principalmente adultos e idosos que perderam sua dentição pelo modelo mutilador, de extração, que era exercido na odontologia no passado, particularmente na saúde pública. Queremos resgatar o direito de sorrir e viver com dignidade”, disse Chioro.

    domingo, 3 de agosto de 2014

    Saiba como é a vida nos territórios ocupados por Israel

    Náufrago da Utopia
    Celso Lungaretti


    SAIBA COMO É A VIDA NOS TERRITÓRIOS OCUPADOS POR ISRAEL...


    ...assistindo a este ótimo documentário de longa-metragem, co-produzido por palestinos, franceses, holandeses e israelenses: Cinco câmeras quebradas(d. Emad Burnat e Guy Davidi, 2011).  É legendado em português.

    Além de haver concorrido ao Oscar de melhor documentário em 2013, teve participação marcante em outros festivais, sendo premiado inclusive pela Academia de Artes Cinematográficas de Israel (pois lá existem, sim, os que contestam as práticas arbitrárias e truculentas do governo direitista). Sua nota no site do IMDB é bem elevada: 7,9.

    Morador de uma pequena aldeia da Cisjordânia (Emad Burnat, que interpreta a si mesmo no filme) compra uma câmara quando do nascimento do seu primeiro filho e vai registrando também imagens do que acontece com sua comunidade quando as terras começam a ser-lhe usurpadas à força para que nelas se instalem colonos israelenses.

    Uma preciosidade que me teria passado despercebida se não fosse uma dica da companheira Lídia Maria de Melo, a quem agradeço. Recomendo enfaticamente.










    sexta-feira, 1 de agosto de 2014

    Após três semanas de ataques em Gaza, contabilidade macabra só aumenta


    Carta Maior:


    Um bombardeio de Israel matou pelo menos 19 palestinos refugiados em uma escola administrada pela ONU (Organização das Nações Unidas) na quarta-feira (30). Outro ataque aconteceu na região de um mercado perto de Gaza, em que 17 palestinos morreram. Segundo a agência Reuters, 96 palestinos e três soldados israelenses morreram apenas na quarta-feira por conta da ofensiva de Israel.

    Estima-se que muitos civis palestinos procurem abrigo nas escolas da ONU, especialmente em Jabalia, maior campo de refugiados palestinos existente, situado no norte da Faixa de Gaza, perto da fronteira israelense. O número de desalojados aumentou depois da advertência do Exército de Israel sobre a possibilidade de bombardeios em massa contra seus bairros. De acordo com a missão das Nações Unidas, só no norte da Faixa de Gaza, 70 mil civis deslocados estão abrigados em escolas.

    No total, cerca de 180 mil habitantes do território palestino estão refugiados, em condições muito precárias, nas 83 escolas geridas pela UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina). Depois do ataque, a agência da ONU acusou o Exército de Israel de “grave violação do direito internacional”.

    “Ontem à noite, crianças foram mortas enquanto dormiam ao lado de seus pais no chão de uma sala de aula em um abrigo da ONU em Gaza. Crianças mortas enquanto dormiam; isso é uma afronta para todos nós, uma fonte de vergonha. Hoje o mundo está em desgraça”, afirmou Pierre Krähenbühl, comissário-geral da UNRWA.

    O Exército israelense tentou negar a autoria do ataque na escola das Nações Unidas, argumentando que a região teria sido alvo de militantes armados.

    Israel decidiu continuar a ofensiva e não há sinal de uma interrupção no conflito que já dura três semanas e deixou 1.346 mortos palestinos, 56 soldados e três civis mortos israelenses. Na terça-feira, o porta-voz do Ministério da Saúde de Gaza, Ashraf Al Qedra, explicou que os ataques por terra, mar e ar se intensificaram ao longo do dia e que dois terços das vítimas deles são civis, incluindo mulheres e crianças.

    Segundo Ashraf Al Qedra, as forças armadas israelenses “atacaram casas, edifícios, centros de imprensa, desabrigados, mesquitas e áreas rurais”. Testemunhas e forças de segurança palestinas informaram que os piores bombardeios de ontem foram contra várias moradias do campo de refugiados de Al Bureij, na região central de Gaza, onde morreram 17 pessoas – entre elas, o prefeito local, Anis Abu Shamalah, além de vários menores e mulheres.

    Em um dos ataques israelenses, foi atingida a casa do líder do Hamas na Faixa de Gaza, Ismail Haniya, que não estava no local. A casa dele, que foi primeiro-ministro em 2006, ficou completamente destruída, segundo informou a TV Al Aksa.

    Na terça-feira, também atingida a única central elétrica da Faixa de Gaza, que está em chamas após receber ao menos um disparo de artilharia. O porta-voz Fathi Jalil disse à agência palestina Mann que um disparo caiu em um tanque de combustível e assim o incêndio começou. Grandes colunas de fumaça negra tomam as instalações enquanto tentam apagar o fogo. Outra granada alcançou uma turbina. Até agora, os bombeiros não conseguiram apagar o fogo.

    Jalil falou de consequências “desastrosas” para a região, na qual grande parte dos 1,8 milhões de habitantes depende do funcionamento da central, e pediu ajuda internacional. A central fornece eletricidade a casas, empresas, hospitais e bombas de água na região.