quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Conhecendo mais sobre Guimarães Rosa : Parte III

Na terceira parte da matéria, do site elfikurten.com.br, Guimarães Rosa, o escritor :


João Guimarães Rosa, na viagem ao Sertão Mineiro, em 1952.
[Foto: Eugênio Siva/ revista 'O Cruzeiro']
As vacas e os cavalos
"... não se esqueça de meus cavalos e de minhas vacas. As vacas e os cavalos são seres maravilhosos. Minha casa é um museu de quadros de vacas e cavalos. Quem lida com eles aprende muito para sua vida e a vida dos outros. Isto pode surpreendê-lo, mas sou meio vaqueiro, e como você também é algo parecido com isto, compreenderá certamente o que quero dizer. Quando alguém me narra algum acontecimento trágico, digo-lhe apenas isto: “Se olhares nos olhos de um cavalo, verás muito da tristeza do mundo!” Eu queria que o mundo fosse habitado apenas por vaqueiros. Então tudo andaria melhor."
- João Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz - "Dialogo com Guimarães Rosa".




O ESCRITOR
A boiada
"Creio que será uma excursão interessante e proveitosa, que irei fazer de cadernos abertos e lápis em punho, para anotar tudo o que possa valer, como fornecimento da cor local, pitoresco e exatidão documental, que são coisas muito importantes na literatura moderna."
- João Guimarães Rosa, em carta ao pai, 6 nov.1945.

"Você conhece os meus cadernos, não conhece? Quando eu saio montado num cavalo, por Minas Gerais, vou tomando nota de coisas. O caderno fica impregnado de sangue de boi, suor de cavalo, folha machucada. Cada pássaro que voa, cada espécie, tem vôo diferente. Quero descobrir o que caracteriza o vôo de cada pássaro, em cada momento."  

“(...) Chico, saudades daí tenho sempre. Como vão todos? (...)
João Guimarães Rosa, na viagem ao Sertão Mineiro, em 1952.
[Foto: Eugênio Siva/ revista 'O Cruzeiro']
E na Sirga? Como vai o pessoal de lá? Estou sempre me lembrando deles, dos
bons companheiros. O papagaio está gordo e alegre, magnífico. Aprendeu muita conversa carioca, mas não se esqueceu do repertório sertanejo: canta, chora como menino pequeno, e sabe chamar as vacas, com notável entusiasmo – o que faz, sem falta, todas as madrugadas!
Agora, Chico, o forte abraço do primo e amigo Joãozito.”
- João Guimarães Rosa, em Carta a Chico Moreira, 06 out. 1952.

A língua e a metafísica

"...o aspecto metafísico da língua, que faz com que minha linguagem antes de tudo seja minha. (...) Meu lema é: a linguagem e a vida são uma coisa só. Quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade não vive; e como a vida é uma corrente contínua, a linguagem também deve evoluir constantemente. Isto significa que, como escritor, devo me prestar contas de cada palavra e considerar cada palavra o tempo necessário até ela ser novamente vida. O idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanhas de cinzas."
- João Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz - "Dialogo com Guimarães Rosa".


O sentimento religioso, transcendente, presente na obra rosiana não implica dogmatismo: Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio., diz o narrador Riobaldo, em Grande Sertão: veredas. Fala semelhante encontra-se no que o próprio Rosa afirma como sendo seu “credo” pessoal:

"Eu não sei o que sou. Posso bem ser cristão de confissão sertanista, mas também pode ser que eu seja taoísta à maneira de Cordisburgo, ou um pagão crente à la Tolstói. No fundo, tudo isto não é importante. É um assunto poético e a poesia se origina da modificação de realidades linguísticas.Eu quero tudo: o mineiro, o brasileiro, o português, o latim, talvez até o esquimó e o tártaro. Queria a linguagem que se falava antes de Babel."
- João Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz - "Dialogo com Guimarães Rosa".



João Guimarães Rosa
Em longa carta, de 11 de maio de 1947, para Vicente Guimarães, escreve:
"A língua portuguesa, aqui no Brasil, está uma vergonha e uma miséria. Está descalça e despenteada;.... É preciso distendê-la, destorcê-la, obrigá-la a fazer ginástica, desenvolver-lhe músculos. Dar-lhe precisão, exatidão, agudeza, plasticidade, calado, motores. E é preciso refundi-la no tacho, mexendo muitas horas. ... A nossa literatura, com poucas exceções, é um valor negativo, um cocô de cachorro no tapete de um salão. Naturalmente palavrosos, piegas, sem imaginação criadora, imitadores, ocos, incultos, apressados, preguiçosos, vaidosos, impacientes, não cuidamos da exatidão...... Quem pode, deve preparar-se, armar-se, e lutar contra esse estado de coisas. É uma revolução branca, uma série de golpes de estado."


Em carta a João Condé, de 1946:
"De certo que eu amava a língua. Apenas, não a amo como a mãe severa, mas como a bela amante e companheira... Mas ainda haveria mais, se possível...: além, dos estados líquidos e sólidos, porque não tentar trabalhar a língua também em estado gasoso?"

"Cada língua guarda em si uma verdade interior que não pode ser traduzida."



O contista
Em entrevista a Günter Lorenz "Dialogo com Guimarães Rosa":

"...retornei à “saga”, à lenda, ao conto simples, pois quem escreve estes assuntos é a vida e não a lei das regras chamadas poéticas."


"Naturalmente digo isso, porque é um dado biográfico, pois não aconteceu que, um belo dia, eu simplesmente decidisse me tornar escritor; isto só fazem certos políticos. Não, veio por si mesmo; cresceu em mim o sentimento, a necessidade de escrever e, tempos depois, convenci-me de que era possuidor de uma receita para fazer verdadeira poesia."


João Guimarães Rosa [Acervo Fundo JGR - IEB/USP]
"... sou um contista de contos críticos. Meus romances e ciclos de romances são na realidade contos nos quais se unem a ficção poética e a realidade."

"Escrevo, e creio que este é o meu aparelho de controle: o idioma português, tal como o usamos no Brasil; entretanto, no fundo, enquanto vou escrevendo, eu traduzo, extraio de muitos outros idiomas. Disso resultam meus livros, escritos em um idioma próprio, meu, e pode-se deduzir daí que não me submeto à tirania da gramática e dos dicionários dos outros."

"...sobre minha relação com a língua. É um relacionamento familiar, amoroso. A língua e eu somos um casal de amantes que juntos procriam apaixonadamente, mas a quem até hoje foi negada a bênção eclesiástica e científica. Entretanto, como sertanejo, a falta de tais formalidades não me preocupa. Minha amante é mais importante para mim."

"Não preciso inventar contos, eles vêm a mim, me obrigam a escrevê-los."

"Os livros nascem, quando a pessoa pensa; o ato de escrever já é a técnica e a alegria do jogo com as palavras."

"Quem cresce em um mundo que é literatura pura, bela, verdadeira, real deve algum dia começar a escrever, se tiver uma centelha de talento para as letras."

Quando escreveu Grande Sertão: veredasrevela em carta ao amigo Silveirinha, o embaixador Antonio Azeredo da Silveira:
"Eu passei dois anos num túnel, um subterrâneo, só escrevendo, só escrevendo eternamente. Foi uma experiência transpsíquica, eu me sentia um espírito sem corpo, desencarnado - só lucidez e angústia."


João Guimarães Rosa, na viagem ao Sertão Mineiro, em 1952.
[Foto: Eugênio Siva/ revista 'O Cruzeiro']
O sertão
"...no sertão fala-se a língua de Goethe, Dostoievski e Flaubert, porque o sertão é o terreno da eternidade, da solidão, onde Inneres und Ausseres sina nicht mehr zu trennen, segundo o Westöstlicher Divon . No sertão, o homem é o eu que ainda não encontrou um tu; por isso ali os anjos ou o diabo ainda manuseiam a língua. O sertanejo, (...) “perdeu a inocência no dia da criação e não conheceu ainda a força que produz o pecado original.”
- João Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz - "Dialogo com Guimarães Rosa".


"No sertão, cada homem pode se encontrar ou se perder. As duas coisas são possíveis. Como critério, ele tem apenas sua inteligência e sua capacidade de adivinhar."
- João Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz - "Dialogo com Guimarães Rosa".


Os rios
"Escrevendo, descubro sempre um novo pedaço de infinito. Vivo no infinito; o momento não conta. Vou lhe revelar um segredo: creio já ter vivido uma vez. Nesta vida, também fui brasileiro e me chamava João Guimarães Rosa. Quando escrevo, repito o que vivi antes. E para estas duas vidas um léxico apenas não me é suficiente. Em outras palavras: gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. O crocodilo vem ao mundo como um magister da metafísica, pois para ele cada rio é um oceano, um mar da sabedoria, mesmo que chegue a ter cem anos de idade. Gostaria de ser um crocodilo, porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma do homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como os sofrimentos dos homens. Amo ainda mais uma coisa de nossos grandes rios: sua eternidade. Sim, rio é uma palavra mágica para conjugar eternidade."
- João Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz - "Dialogo com Guimarães Rosa".




João Guimarães Rosa, em carta de 25 de novembro de 1963, a Edoardo Bizzarri, então tradutor italiano de Corpo de Baile:

'Sou profundamente religioso, ainda que fora do rótulo estrito e das fileiras de qualquer confissão ou seita; antes talvez, como o Riobaldo do Grande Sertão: Veredas, pertenço eu a todas. E especulativo demais. Daí todas as minhas, constantes, preocupações religiosas, metafísicas, embeberem os meus livros. Talvez meio existêncialista-cristão (alguns me classificam assim), meio neoplatônico (outros me carimbam disto), e sempre impregnado de hinduísmo (conforme terceiros). Os livros são como eu sou...

João Guimarães Rosa
Ora, você já notou, decerto, que como eu, os meus livros, em essência, são anti-intelectuais - defendem o altíssimo primado da intuição, da revelação, da inspiração, sobre o bruxulear presunçoso da inteligência reflexiva, da razão, da megera cartesiana. Quero ficar com o Tao, com os Vedas e Upanixades, com os Evangelistas e São Paulo, com Platão, com Plotino, com Bergson, com Berdiaeff - com Cristo principalmente.
[...]
Meu lema é: a linguagem e a vida são uma coisa só. Quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade não vive; e como a vida é uma corrente contínua, a linguagem também deve evoluir constantemente. Isto significa que como escritor devo me prestar contas de cada palavra e considerar cada palavra o tempo necessário até ela ser novamente vida. O idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanha de cinzas.

Sou precisamente um escritor que cultiva a idéia antiga, porém sempre moderna, de que o som e o sentido de uma palavra pertencem um ao outro. Vão juntos. A música da língua deve expressar o que a lógica da língua obriga a crer. Sobre esta idéia antiga, os hermetistas árabes e judeus, entre outros, encheram bibliotecas de especulações místicas, na certeza de alcançar o divino pela pronúncia exata de seu nome.

No Sertão fala-se a língua de Goethe, Dostoievski e Flaubert, porque o Sertão é o terreno da eternidade, da solidão, onde 'o interior e o exterior não podem mais estar separados'.

Nos meus livros tem importância, pelo menos igual ao sentido da estória, se é que não muito mais: a poética ou poeticidade da forma, tanto a sensação mágica, visual, das palavras, quanto a eficácia sonora delas; e mais as alterações viventes do ritmo, a música subjacente, as fórmulas-esqueletos das frases - transmitindo ao subconsciente vibrações emotivas sutis. Tudo em três planos (como os ensinos das antigas religiões orientais):

the underlying charm (enchantment)
the level-lying common meaning
the 'overlying' idea (metaphysic).'
 
 
Na quarta e ultima parte, a eleição para a Academia Brasileira de letras (ABL), o adiamento para tomar posse, devido ao receio de seu coração não aguentar tanta emoção, e após 4 anos a posse na ABL  e o desaparecimento prematuro após três dias da posse.
 
  

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Conhecendo mais sobre Guimarães Rosa : Parte II


Na segunda parte da matéria, do site elfikurten.com.br, sobre  Guimarães Rosa, as informações sobre a formação e atuação como médico e diplomata :


O MÉDICOGuimarães Rosa ingressou na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte (hoje Faculdade de Medicina da UFMG) com 17 anos incompletos. Em 1926, quando cursava o 2º ano, pronunciou, no anfiteatro da Faculdade, diante do ataúde de um estudante vitimado pela febre amarela, as palavras “As pessoas não morrem, ficam encantadas”, que, ouvidas na ocasião por seus colegas Alysson de Abreu e Ismael de Faria, seriam repetidas, 41 anos depois, quando de sua posse na Academia Brasileira de Letras.


João Guimarães Rosa [Acervo Família Tess]
Graduou-se em 1930 e, escolhido orador da turma,chamou a atenção dos doutorandos para a necessidade de uma prática médica impregnada de humanismo. Recém-formado, clinicou, durante cerca de um ano e meio, em Itaguara; em abril de 1933, após ter participado, como médico voluntário da Força Pública, da Revolução Constitucionalista, transferiu-se para Barbacena, na condição de Oficial Médico do 9º Batalhão de Infantaria. Em Barbacena, concluiu que deveria abandonar a Medicina, deixando clara sua intenção em carta datada de 20 de mar. 1934, enviada ao amigo Pedro Moreira Barbosa:

“Não nasci para isso, penso. Não é esta, digo como dizia Don Juan, sempre ‘après avoir couché avec...’ Primeiramente, repugna-me qualquer trabalho material – só posso agir satisfeito no terreno das teorias, dos textos, do raciocínio puro, dos subjetivismos. Sou um jogador de xadrez – nunca pude, por exemplo, com o bilhar ou com o futebol.”

Mas, mesmo abraçando a carreira diplomática – prestou concurso para o Itamaraty em meados de 1934 –, abordou, com maestria, em sua obra literária, temas médicos como a malária (“Sarapalha”), a doença mental (“Soroco, sua mãe, sua filha”), o acidente ofídico (“Bicho mau”) e a miopia (“Campo geral”).


“Fui médico, rebelde e soldado [...] Como médico, conheci o valor místico do sofrimento; como rebelde, o valor da consciência; como soldado, o valor da proximidade da morte..."
- João Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz - "Dialogo com Guimarães Rosa".


João Guimarães Rosa e Aracy no Consulado em Hamburgo.
 [Foto Acervo Família Tess]
O DIPLOMATA
Em 11 de julho de 1934, Rosa é nomeado cônsul de 3ª classe e, ao final de 1937, é promovido a cônsul de 2ª classe. Com esse cargo chega ao consulado de Hamburgo em 1938, onde permanece até 1942. Durante o período em que esteve na Alemanha, aproveitou para conhecer vários países europeus. Em carta para os pais, escrita de Hamburgo, em 16 de maio de 1938, o escritor revela aspectos de suas primeiras impressões da cidade:

“Quanto a Hamburgo, suas bellezas e sua alegria de vida são indiziveis!
Mesmo eu, que já tinha lido dezenas de livros sobre a Allemanha, que já
convivi com allemães, que já tinha conversado, principalmente nas vesperas
da viagem, com funccionarios do Ministerio vindos da terra germanica, mesmo
eu, repito, não tinha uma idéia verdadeira do que era isto! E a minha
imaginação, que não é das mais fracas, foi batida e humilhada: a Allemanha
é qualquer coisa de formidavel! Bellezas naturaes, ordem, limpeza, trabalho,
vida, alegria. Principalmente, todos aqui se divertem. Ninguem se incommoda
com os actos e as vestimentas dos demais. Ninguem receia o ridículo. (...)
Todos cantam, dançam (...), dirigem a palavra, amigavelmente, aos desconhecidos, estabelecendo a cordialidade e communicabilidade instantaneas.”


João Guimarães Rosa e a Segunda Guerra Mundial
João Guimarães Rosa
Guimarães Rosa foi Cônsul Adjunto em Hamburgo, na Alemanha, durante a guerra, por várias vezes escapou da morte; ao voltar para casa, uma noite, só encontrou escombros. Ademais, embora consciente dos perigos que enfrentava, ajudou D. Aracy, então sua esposa e chefe da seção de passaportes do consulado a proteger e salvar a vida de muitos judeus perseguidos pelo Nazismo, fornecendo-lhes vistos de entrada para o Brasil, sem mencionar a religião do portador.


“um diplomata é um sonhador e por isso pude exercer bem essa profissão. O diplomata acredita que pode remediar o que os políticos arruinaram. Por isso agi daquela forma e não de outra. E também por isso gosto muito de ser diplomata. E agora o que houve em Hamburgo é preciso acrescentar mais alguma coisa. Eu, o homem do sertão, não posso presenciar injustiças. No sertão, num caso desses imediatamente a gente saca o revólver, e lá isso não era possível. Precisamente por isso idealizei um estratagema diplomático, e não foi assim tão perigoso."
- João Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz - "Dialogo com Guimarães Rosa".

Em reconhecimento a essa atitude a sua mulher Dona Aracy Carvalho Guimarães Rosa, foi homenageada em Israel, em abril de 1982, com a mais alta distinção que os judeus prestam a estrangeiros. A concessão da homenagem foi precedida por pesquisas rigorosas com tomada de depoimentos dos mais distantes cantos do mundo onde existem sobreviventes do Holocausto. Foi à forma encontrada pelo governo israelense para expressar sua gratidão àqueles que se arriscaram para salvar judeus perseguidos pelo Nazismo por ocasião da 2ª Guerra Mundial.
D. Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, em Israel.
Os vistos eram proibidos pelo governo brasileiro e pelas autoridades nazistas, exceto quando o passaporte mencionava que o portador era católico. Sabendo disso, a mulher do escritor, D. Aracy, que preparava todos os papéis, conseguia que os passaportes fossem confeccionados sem mencionar a religião do portador e sem a estrela de Davi que os nazistas pregavam nos documentos para identificar os judeus. Nos arquivos do Museu do Holocausto, em Israel, existe um grosso volume de depoimentos de pessoas que afirmam dever a vida ao casal Guimarães Rosa. Segundo D. Aracy, que compareceu a Israel por ocasião da homenagem, seu marido sempre se absteve de comentar o assunto já que tinha muito pudor de falar de si mesmo. Apenas dizia: "Se eu não lhes der o visto, vão acabar morrendo; e aí vou ter um peso em minha consciência."


"Queria acrescentar que também configuram meu mundo a diplomacia, o trato com cavalos, vacas, religiões e idiomas."
- João Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz - "Dialogo com Guimarães Rosa".


Guimarães Rosa - e o Serviço Demarcação de Fronteiras

"E agora me ocupo de problemas de limites de fronteiras e por isso vivo muito mais limitado."
- João Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz - "Dialogo com Guimarães Rosa".


Sobre o trabalho de Rosa na Divisão de Fronteiras do Itamaraty e na criação de territórios mágicos do sertão, Celso Lafer afirma:

“Sua capacidade ímpar de utilizar-se de registros lingüísticos diversos era, no plano literário, o correlato perfeito daquele que é o primeiro item de qualquer agenda diplomática, ou seja, a fixação das fronteiras, base da especificidade da política externa que pressupõe uma diferença entre o “interno” (o espaço nacional) e o “externo” (o mundo). Ele traduzia, assim, em sua literatura um dos princípios fundamentais da diplomacia brasileira, uma linha de ação voltada para transformar nossas fronteiras de clássicas fronteiras-separação em modernas fronteiras-cooperação.”
- LAFER, "O Itamaraty na cultura brasileira", p. 22.



A política
"A política é desumana, porque dá ao homem o mesmo valor que uma vírgula em uma conta. Eu não sou um homem político, justamente porque amo o homem. Deveríamos abolir a política."
- João Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz - "Dialogo com Guimarães Rosa".



"Talvez eu seja um político, mas desses que só jogam xadrez, quando podem fazê-lo a favor do homem. Ao contrário dos “legítimos” políticos, acredito no homem e lhe desejo um futuro. Sou escritor e penso em eternidades. O político pensa apenas em minutos. Eu penso na ressurreição do homem."


- João Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz - "Dialogo com Guimarães Rosa".


 

 DIÁRIO "ALEMÃO" DE GUIMARÃES ROSA
Manuscrito com Anotações  de Guimarães Rosa,
no seu Diário - [Acervo Arquivo dos Escritores
Mineiros. UFMG - Fundo Henriqueta Lisboa].
Na sua composição, o “diário alemão” de Guimarães Rosa engloba uma diversidade de registros e escritas: citações de textos, de livros, com observações de leitura; relação de palavras de diversas línguas, ressaltando-se ora seus significados, ora seus significantes, à

maneira de verbetes de dicionários; relatório de despesas, com inscrição de contas; lista de livros na estante, de temperos da culinária alemã; roteiros de viagens diplomáticas; convites para compromissos consulares; relatos de visitas ao zoológico, com observações
sobre os animais, e de idas a teatros e restaurantes; descrições da paisagem, do clima; registro de fatos ligados ao desenrolar da guerra; comentários de leitura de jornais, com críticas às medidas dos nazistas relativas aos judeus etc. Tudo isso entremeado de esboços
de poemas, fragmentos de estórias, registros de anedotas, indicando-se o teor pré-redacional ou redacional de algumas passagens. [Fonte: MARQUES, Reinaldo. Grafias de coisas, grafias de vida, p. 328-329].

Em algumas ocasiões, a predileção pelo detalhe chega produzir uma quebra irônica pelo contraste entre os episódios da “Grande Guerra” e as observações do dia-a-dia: 

Guimarães Rosa em Hamburgo/
Alemanha
Bombas: vi a luz branca, 
terrível, dos trabalhos de dessoterra- 
mento, na Hagemannstrasse e na 
Duntzigerstrasse. [????] Estava 
de auto, com Ara. Havia um 
incêndio, na Hauptbahnhof. 
 ---------------------- 
 Um gato zanzado: 
Pêlo feio como uma escova. A cauda fica como a 
cauda de uma raposa.

Fontes e referências de pesquisa:

GINZBURG, Jaime. Notas sobre o "Diário de Guerra de João Guimarães Rosa".  ALETRIA, nº 2 - v. 20, maio-agos/2010. Disponível no link. (acessado em 16.05.2013).
SOUZA, Eneida Maria; OTTE, Georg; MARQUES, Reinaldo Martiniano (Org.). Diário de Guerra de João Guimarães Rosa. Documento do Acervo de Escritores Mineiros da Universidade Federal de Minas Gerais. 
OTTE, Georg. O “Diário alemão” de João Guimarães Rosa. Veredas de Rosa II. Belo Horizonte: PUC Minas, 2003.

Na próxima publicação, a terceira parte,  com informações sobre o grande escritor e sua relação com o sertão.
 
 

 

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Conhecendo mais sobre Guimarães Rosa : Parte I

A partir de hoje reproduzo a reportagem do site elfikurten.com.br sobre a vida do médico, diplomata e escritor João Guimarães Rosa. Farei em  4 partes. Hoje, a primeira parte descreve a infância, seus estudos, família e viagens.


JOÃO GUIMARÃES ROSA - o demiurgo do sertão
João Guimarães Rosa em seu escritório de trabalho, no ano de 1964.
[Acervo Fundo João Guimarães Rosa - IEB/USP]
“Minha biografia, sobretudo minha biografia literária, não deveria ser crucificada em anos. As aventuras não tem tempo, não tem princípio nem fim. E meus livros são aventuras: para mim, são minha maior aventura.”
- João Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz - "Dialogo com Guimarães Rosa".

Médico, Diplomata e Escritor
1908 - 1967

Cordisburgo - o "burgo do coração".
"...nasci em Cordisburgo, uma cidadezinha não muito interessante, mas para mim, sim, de muita importância. Além disso, em Minas Gerais; sou mineiro. E isto sim é o importante, pois quando escrevo sempre me sinto transportado para esse mundo: Cordisburgo."
- João Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz - "Dialogo com Guimarães Rosa".

Joãozito, como era chamado pela família, nasce em 27 de junho de 1908, com sobrenome de poeta: Rosa, filho de Florduardo. Nasce no mesmo ano em que morre Machado de Assis, numa cidade chamada Cordisburgo, que quer dizer o “burgo do coração”.

“Cordisburgo era pequenina terra sertaneja, trás montanhas, no meio de Minas Gerais. Só quase lugar, mas tão de repente bonito: lá se desencerra a Gruta do Maquiné, mil maravilha, a das Fadas.”

Seu pai, Florduardo Pinto Rosa, juiz-de-paz e comerciante, e sua mãe, Francisca Guimarães Rosa, chamada D. Chiquitinha, tiveram outros cinco filhos. Cordisburgo, conta Vilma, filha de Rosa, “era a linha reta de uma rua, poucas casas muito simples, a pequenina igreja, um céu puro, muito azul. E a vastidão dos campos a se estender, sem limites visíveis."

O menino Joãozito
Menino Joãozito
Quando criança, seus prazeres encontrava estudando sozinho, brincando de geografia, colecionando insetos, e lendo. Adulto, dirá que gostaria de escrever “um pequeno tratado para meninos quietos”.

“Mas tempo bom de verdade, só começou com a conquista de algum isolamento, com a segurança de poder fechar-me num quarto e trancar a porta. Deitar no chão e imaginar estórias, poemas, romances, botando todo mundo conhecido como personagem, misturando as melhores coisas vistas e ouvidas...”

Foi o Dr. José Lourenço, do Curvelo, quem descobriu a miopia do garoto. Situação relatada mais tarde na novela “Campo Geral”, na estória do   menino Miguilim. Só em Belo Horizonte, aos 9 anos, Rosa começará a usar óculos.

Seu tio, Vicente Guimarães, dois anos apenas mais velho que ele, lembra de Rosa como um “menino diferente: sossegado, caladão, calmo, observador, singelo. Lia muito...”

E conta, de que modo ele lia, ritmando a leitura, num hábito que conservará por toda a vida:
“Sua posição predileta para a leitura era sentado no chão, de pernas cruzadas, a modos de Buda, com o livro aberto sobre as pernas, curvado até bem próximo deste e com dois pauzinhos nas mãos, batendo sobre as páginas, ora um, depois o outro, compassadamente, em ritmo variado, ligeiro ou mais lento, conforme na leitura se movesse o pensamento.”

João Guimarães Rosa  em 1930.
(Foto: Acervo Nova Fronteira)
Com sete anos incompletos, em 1915, já sabendo ler, inicia seus estudos primários na escola de Mestre Candinho. Começa a estudar francês quando ganha de um viajante, amigo de seu pai, uma gramática e um dicionário para ler revistas francesas que chegavam à cidade. Estudava línguas – dirá ele - para não me afogar inteiramente na vida do interior. Quanto a seu poliglotismo, assim irá defini-lo mais tarde:

“Falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do checo, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração.”
- trecho de carta-entrevista para sua prima Lenice Guimarães de Paula Pitanguy.

Seus primeiros textos foram jornais feitos à mão, escritos quase sempre em folhas de papel de embrulho da loja do pai, sendo ele o diretor e único redator. Cada número trazia artigo, conto, noticiário, seção humorística e critica de costumes sociais. Nenhum exemplar foi guardado. Também escrevia cartas para os irmãos, com charadas cheias de logogrifos, desenhos hieroglíficos que irá manter por toda a vida, dando futuramente as indicações para Poty, o ilustrador de seus livros.

“Desde menino, muito pequeno, eu brincava de imaginar intermináveis estórias, verdadeiros romances; quando comecei a estudar Geografia – matéria de que sempre gostei – colocava os personagens e cenas nas mais variadas cidades e países. Mas, escrever mesmo, só comecei foi em 1929, com alguns contos, que naturalmente, não valem nada. Até essa ocasião (21 anos), eu só me interessava, e intensamente, pelo estudo, da Medicina e da Biologia.”

Seus contos, que “não valiam nada”, lhe valeram o prêmio em dinheiro e a publicação na Revista O Cruzeiro, em 1929.


"... nós, os homens do sertão, somos fabulistas por natureza. Está no nosso sangue narrar estórias; já no berço recebemos esse dom para toda a vida. Desde pequenos, estamos constantemente escutando as narrativas multicoloridas dos velhos, os contos e lendas, e também nos criamos em um mundo que às vezes pode se assemelhar a uma lenda cruel. Deste modo a gente se habitua, e narra estórias que corre por nossas veias e penetra em nosso corpo, em nossa alma, porque o sertão é a alma de seus homens (...) Eu trazia sempre os ouvidos atentos, escutava todo o que podia e comecei a transformar em lenda o ambiente que me rodeava, porque este, em sua essência, era e continua sendo uma lenda."
- João Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz - "Dialogo com Guimarães Rosa".


Estudos, família e viagens
Desde que sai de seu vilarejo natal, Cordisburgo, por volta dos 10 anos de idade, para ir estudar em Belo Horizonte e morar com os avós, Rosa não para mais. Termina o curso primário no Grupo Escolar Afonso Pena. Em 1919, vai para o Colégio Santo Antônio, em São João d'el Rei, uma escola de frades franciscanos, mas de lá logo sai, pois não se acostuma com as refeições locais. De volta a Belo Horizonte, matricula-se no Colégio Arnaldo, de padres alemães.

Guimarães Rosa e a filha Vilma
Em 1925, aos 16 anos, matricula-se na Faculdade de Medicina, formando-se em 1930, e encerrando os estudos como o orador da turma. Nesse mesmo ano, casa-se com Lígia Cabral Penna, com quem terá duas filhas, Vilma e Agnes. Estabelece-se em Itaguara, e inicia sua carreira de médico no interior do Estado. Participa como voluntário da revolução Constitucionalista de 1932, e depois ingressa como oficial médico do 9º Batalhão de Infantaria, em Barbacena. De 1933 a 1935, trabalha no Serviço de Proteção ao Índio. O caminho chegaria ao Rio de Janeiro em 1934, onde presta concurso no Itamarati. Daí sairia para o mundo como diplomata. Em 1938, é nomeado Cônsul Adjunto em Hamburgo, e segue para a Europa. Lá conhece Aracy Moebius de Carvalho (Ara), que virá a ser sua segunda mulher. Desquita-se de Lígia, em 1942. Quem conta é sua filha Vilma:
“Papai havia conhecido dona Aracy Moebius de Carvalho em Hamburgo. Ela era funcionária graduada, no consulado. Papai e dona Aracy se casaram pelas leis de outro país, e também mamãe, com o advogado Arthur Auto Nery Cabral...”

João Guimarães Rosa e Aracy Moebius de Carvalho em Hamburgo.
[Foto Acervo Família Tess]
O rol de viagens continua por toda a sua vida, passando por Bogotá, Paris, viagens pelo Brasil (Mato Grosso, Pantanal e o sertão das Gerais) até chegar, em 1962, a chefe do Serviço de Demarcação de Fronteiras. Sobre este cargo, ele comenta: agora me ocupo de problemas de limites de fronteiras e por isso vivo muito mais limitado”.
 
Na próxima publicação, a segunda parte com informações sobre a formação e atuação como médico e diplomata.
 
 
Fonte:
- site: elfikurten.com.br

sábado, 12 de outubro de 2013

Museu Casa Guimarães Rosa

 
Por Luiz Ricardo Péret                                                                                                           
                                                                                                                            
                                                                                                                              
Palavras da filha, escritora e biógrafa de Guimarães Rosa, Vilma Guimarães Rosa, em palestra proferida na Academia Mineira de Letras em 18 de agosto de 2008:

¨ No dia 30 de março de 1974 esta casa onde nasceu papai virou museu.
Inaugura-lo, foi uma grande emoção para mim e minha família. Graças à feliz
decisão do então Governador de Minas, Senhor Rondon Pacheco, adquirindo a
casa de meus avós e entregando-a ao Patrimônio Histórico, o Museu pôde ali
ser organizado. O Professor Luciano Amédée Péret dirigiu a restauração da
casa, procurando usar o máximo de fidelidade ao estilo anterior. A inauguração,
presidida pelo Governador Rondon Pacheco, foi muito bonita e animada, levando a Cordisburgo inúmeras personalidades ilustres. E algumas delas especiais, pois tendo sido amigos de infância de meu pai, se tornaram personagens de suas estórias¨.
Vilma Guimarães Rosa. Revista da Academia Mineira de Letras. Vol.XLIX .Julho,Agosto,Setembro, 2008.Pág. 13 à 34


A CASA MUSEU

¨A casa térrea, em adobe, foi construída na transição dos séculos XIX e XX. A cobertura, em quatro águas, apresenta telhas curvas. Os cunhais coloridos delimitam a fachada frontal, marcada por vãos de vergas retas e pela varanda lateral que anuncia o quintal e o jardim aos fundos. Se a descrição da casa da rua Padre João nº 744, em Cordisburgo, é similar à de outras incontáveis casas localizadas nos municípios mineiros, seu significado, no entanto, é distinto e a torna singular. Modesta e acolhedora é a casa onde João Guimarães Rosa viveu sua infância, de cujas janelas se veem a Estação e os trilhos da Estrada de Ferro que cortam longitudinalmente a cidade, compondo a paisagem, cuja representação é recorrente na obra do escritor.
Os cômodos falam da intimidade da vida em família, ainda hoje designados pela percepção da infância: sala de visita, quarto de hóspede, quarto escuro, quarto do pai e da mãe, da vovó, a cozinha e a venda do pai. À casa somam-se os acervos histórico-documentais de Guimarães Rosa : a coleção de fotografias; de documentos textuais, dentre certidões, diplomas, condecorações, correspondências, discursos, primeiras edições e originais de obras, os registros do escritor também como médico e diplomata; o acervo de objetos de uso pessoal (máquinas de escrever, ternos, gravatas e fardão), o mobiliário (cadeiras, sofás de palhinha, camas e armários), além dos equipamentos e fragmentos do universo rural presentes na literatura Roseana.¨
Silvana Cançado Trindade ( Guia de Bens Tombados IEPHA/MG - ed. 2011/2012)


Na casa , em novembro de 1974, instalou-se oficialmente o Museu Casa Guimarães Rosa, idealizado no contexto da morte do escritor, ocorrida em 1967, e da criação do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico  e Artístico/MG, em 1971. Adquirido pelo Estado, o imóvel passou a pertencer ao IEPHA/MG. A restauração da casa ficou à cargo do arquiteto e diretor-executivo do IEPHA/MG Luciano Amédée Péret, para implantação do Museu.

A seguir fotos do Museu logo após a restauração, em 1974:




 


 

Fotos do Museu Casa Guimarães Rosa: Assis Alves Horta

Nos anos 1980, a instituição passou por outra reforma .No cômodo frontal da casa, foi reconstituída uma venda típica das pequenas cidades mineiras, com o  propósito de representar o antigo comércio do pai do escritor, ¨a venda do seu Fulô¨, onde o menino Joãozito cresceu ouvindo histórias contadas pelos frequentadores do lugar.
O tombamento do Museu Casa Guimarães Rosa ocorreu em 2002 e coroou extensos esforços  no sentido de preservar e difundir o legado do grande escritor que foram iniciadas pelo IEPHA/MG em seus primórdios na década de 70.

Estado de Minas (por Gustavo Werneck):
Andar pelos cômodos do casarão da Avenida Padre João, onde nasceu João Guimarães Rosa (1908-1967), é descobrir mais sobre o mineiro que ganhou o mundo servindo como diplomata e com a obra traduzida para vários idiomas. À mostra, estão exemplares das primeiras edições de Sagarana, Corpo de Baile, Tutaméia; e claro, Grande Sertão Veredas; a coleção de gravatas-borboletas, traço inconfundível do figurino do escritor; o terno; a cartola; o diploma que recebeu ao tomar posse na Academia Brasileira de Letras em 16 de novembro de 1967 - três dias antes do seu falecimento; e o mobiliário - guarda-roupa, mesa do escritório, cadeira de balanço. Não poderia faltar jamais a máquina de escrever e ela está lá.
Ficam, também à disposição dos visitantes cerca de 700 documentos textuais, dentre os quais se destacam registros pessoais (certidões, correspondências, discursos, originais manuscritos ou datilografados, a exemplo de Tutaméia, última obra publicada) e do trabalho como médico e diplomata, além de fragmentos do universo rural presente na literatura Roseana.


¨ O mundo de Guimarães Rosa estendeu-se ¨para além das coisas¨, da matéria construída e do espaço museografado. Rosa pulsa por toda Cordisburgo, presente para sempre nas ruas, nas casas, na alma de seus moradores: na Igreja do Rosário e na Fazenda Bento Velho ( ambas citadas em Recados do Morro); na Escola Mestre Candinho ( onde Rosa aprendeu a ler); na antiga Estação Ferroviária (descrita no conto Soroco, sua mãe e sua filha); no Jardim Sagarana (onde havia um curral de embarque de gado, no tempo de infância de Joãozito) e, também, por meio de extensa agenda cultural de Cordisburgo, cujos eventos são promovidos pelo Museu e pela comunidade.¨
(Silvana Cançado Trindade)

 
¨ O CORRER DA VIDA EMBRULHA TUDO. A VIDA É ASSIM : ESQUENTA E ESFRIA, APERTA E DAÍ AFROUXA, SOSSEGA E DEPOIS DESINQUIETA. O QUE ELA QUER DA GENTE É CORAGEM ...¨
Guimarães Rosa
 
 
O DESAPARECIMENTO PREMATURO 
¨Ainda no vigor de seus 59 anos intensamente vividos, ao anoitecer de um domingo de novembro de 1967, Rosa surpreendeu mais uma vez sua família, seu círculo de amigos e a multidão de leitores de sua obra, pouco após o dobre dos sinos, anunciando a Hora do Ângelo. "As pessoas não morrem, elas ficam encantadas", dissera o romancista apenas três dias antes, em concorrida cerimônia na Academia Brasileira de Letras. E naquele ocaso - acaso? - de um 19 de novembro, Rosa ficou para sempre encantado - tornou-se um mito, talvez o maior e mais duradouro dos mitos da cultura brasileira¨.
( site: elfikurten.com.br)  
 
 
Fontes:                                                                                                                                            
-Acervo Luciano Amédée Péret
                                                                                                             
 
- Revista da Academia Mineira de Letras. Vol. XLIX. Julho, Agosto, Setembro,2008. Vilma Guimarães Rosa, pág. 13 à 34. Edição dedicada às comemorações do centenário de nascimento do escritor Guimarães Rosa.    
                                                                                                             
        - Guia dos Bens Tombados IEPHA/MG. Museu Casa Guimarães Rosa. Silvana Cançado Trindade. Ed. 2011/2012