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sexta-feira, 27 de março de 2020

Papa: ilusão achar ‘que continuaríamos sempre saudáveis em um mundo doente’

Vaticans News



Papa Francisco: Abraçar o Senhor para abraçar a esperança

Com o cenário inédito da Praça São Pedro vazia com o Papa Francisco diante da Basílica Vaticana, o Pontífice afirmou que é "diante do sofrimento que se mede o verdadeiro desenvolvimento dos povos”. Francisco falou ainda da ilusão de pensar "que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente".
Bianca Fraccalvieri - Cidade do Vaticano
Abraçar o Senhor para abraçar a esperança: esta é a mensagem do Papa Francisco aos fiéis de todo o mundo que, neste momento, se encontram em meio à tempestade causada pela pandemia do coronavírus.
Diante de uma Praça São Pedro completamente vazia, mas em sintonia com milhões de pessoas através dos meios de comunicação, o trecho escolhido para a oração dos féis foi a tempestade acalmada por Jesus, extraído do Evangelho de Marcos.
E foi esta passagem bíblica que inspirou a homilia do Santo Padre, que começa com o “entardecer…”.
“Há semanas, parece que a tarde caiu. Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo de um silêncio ensurdecedor e de um vazio desolador… Nos vimos amedrontados e perdidos.”

Estamos todos no mesmo barco

Estes mesmos sentimentos, porém, acrescentou o Papa, nos fizeram entender que estamos todos no mesmo barco, “chamados a remar juntos”.
Neste mesmo barco, seja com os discípulos, seja conosco agora, está Jesus. Em meio à tempestade, Ele dorme – o único relato no Evangelho de Jesus que dorme – notou Francisco. Ao ser despertado, questiona: «Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» (4, 40).
“A tempestade desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades. Mostra-nos como deixamos adormecido e abandonado aquilo que nutre, sustenta e dá força à nossa vida e à nossa comunidade.”

A ilusão de pensar que continuaríamos saudáveis num mundo doente

Com a tempestade, afirmou o Papa, cai o nosso “ego” sempre preocupado com a própria imagem e vem à tona a abençoada pertença comum que não podemos ignorar: a pertença como irmãos.
“Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente. Agora, sentindo-nos em mar agitado, imploramos-Te: «Acorda, Senhor!»”
O Senhor então nos dirige um apelo, um apelo à fé. Nos chama a viver este tempo de provação como um tempo de decisão: o tempo de escolher o que conta e o que passa, de separar aquilo que é necessário daquilo que não é. “O tempo de reajustar a rota da vida rumo ao Senhor e aos outros.”  

A heroicidade dos anônimos

Francisco cita o exemplo de pessoas que doaram a sua vida e estão escrevendo hoje os momentos decisivos da nossa história. Não são pessoas famosas, mas são “médicos, enfermeiros, funcionários de supermercados, pessoal da limpeza, transportadores, forças policiais, voluntários, sacerdotes, religiosas e muitos – mas muitos – outros que compreenderam que ninguém se salva sozinho”.
“É diante do sofrimento que se mede o verdadeiro desenvolvimento dos nossos povos”, afirmou o Papa, que recordou que a oração e o serviço silencioso são as nossas “armas vencedoras”.
A tempestade nos mostra que não somos autossuficientes, que sozinhos afundamos. Por isso, devemos convidar Jesus a embarcar em nossas vidas. Com Ele a bordo, não naufragamos, porque esta é a força de Deus: transformar em bem tudo o que nos acontece, inclusive as coisas negativas. Com Deus, a vida jamais morre.

Temos uma esperança

Em meio à tempestade, o Senhor nos interpela e pede que nos despertemos. “Temos uma âncora: na sua cruz fomos salvos. Temos um leme: na sua cruz, fomos resgatados. Temos uma esperança: na sua cruz, fomos curados e abraçados, para que nada e ninguém nos separe do seu amor redentor.”
Abraçar a sua cruz, explicou o Papa, significa encontrar a coragem de abraçar todas as contrariedades da hora atual, abandonando por um momento a nossa ânsia de onipotência e posse, para dar espaço à criatividade que só o Espírito é capaz de suscitar. “Abraçar o Senhor, para abraçar a esperança.” Aqui está a força da fé e que liberta do medo. Francisco então concluiu:
 “Deste lugar que atesta a fé rochosa de Pedro, gostaria nesta tarde de confiar a todos ao Senhor, pela intercessão de Nossa Senhora, saúde do seu povo, estrela do mar em tempestade. Desta colunata que abraça Roma e o mundo, desça sobre vocês, como um abraço consolador, a bênção de Deus. Senhor, não nos deixes à mercê da tempestade.”
Ao final da homilia, o Pontífice adorou o Santíssimo e concedeu a bênção Urbi et Orbi, com anexa a Indulgência Plenária.
Senhor, não nos deixes à mercê da tempestade!

domingo, 6 de outubro de 2019

Papa Francisco condena 'interesses' dos "novos colonialismos" que provocam fogo na Amazônia




Fala foi feita durante a homilia de abertura do Sínodo da 


O Papa Francisco condenou, neste domingo (6), os "interesses" dos "novos colonialismos" que provocam incêndios na Amazônia e acabam com a diversidade, durante a homilia de abertura do Sínodo sobre a defesa desta região da América do Sul.

"O fogo aplicado pelos interesses que destroem, como o que recentemente devastou a Amazônia, não é o do Evangelho", declarou, após afirmar que se trata de "novos colonialismos" que "querem levar à frente apenas as próprias ideias, fazer o próprio grupo, queimar o diferente para uniformizar tudo e todos".

Deus nos preserve da ganância de novos colonialismos

A Igreja deve evitar "novos colonialismos": "Quando pessoas e culturas são devoradas sem amor e respeito - enfatizou o Papa Francisco - não é o fogo de Deus, mas o fogo do mundo. No entanto, quantas vezes o presente de Deus não foi oferecido, mas imposto, quantas vezes houve colonização ao invés de evangelização! Deus nos preserva da ganância dos novos colonialismos ". "O fogo causado por interesses destruidores, como o que devastou recentemente a Amazônia, não é o do Evangelho", acrescentou o papa. "O fogo de Deus é o calor que atrai e reúne a unidade. É nutrido por compartilhar. , não com ganhos. O fogo devorador, por outro lado, acende quando queremos levar adiante apenas nossas próprias idéias, formar nosso próprio grupo, queimar a diversidade para aprovar tudo e todos ", concluiu Francisco.

Francisco exortou a reacender o dom; receber a prudência audaciosa do Espírito, fiéis à sua novidade, acrescentando que o anúncio do Evangelho é o critério primeiro para a vida da Igreja.

Irmãos amazônicos aguardam consolação do Evangelho

Convidando a olhar juntos para Jesus Crucificado, para o seu coração aberto por nós, o Santo Padre concluiu com mais uma exortação: “Muitos irmãos e irmãs na Amazônia carregam cruzes pesadas e aguardam pela consolação libertadora do Evangelho, pela carícia de amor da Igreja. Por eles, com eles, caminhemos juntos”.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Papa Francisco: juiz tem que ser imparcial e julgar sem interesses pessoais

O Papa Francisco fala sobre a integridade da Justiça, da necessidade de respeitar a dignidade humana, de julgar sem interesses pessoais egoístas ou agendas ocultas, num contexto de transparência e imparcialidade. Esta é a intenção de oração para este mês de julho.




O vídeo do Papa Francisco: “Dos juízes dependem decisões que influenciam os direitos e os bens das pessoas. Sua independência deve ajudá-los a serem isentos de favoritismos e de pressões que possam contaminar as decisões que devem tomar. O juízes devem seguir o exemplo de Jesus, que nunca negocia a verdade. Rezemos para que todos aqueles que administram a justiça operem com integridade e para que a injustiça que atravessa o mundo não tenha a última palavra.”

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Papa Francisco recebe fotos de todos os mortos do crime da Vale em Brumadinho


Papa Francisco recebeu hoje (3 maio), das mãos de Dari Pereira sobrevivente do crime da Vale em Brumadinho e Frei Rodrigo Péret da Rede Igrejas e Mineração e Grupo de Trabalho de Mineração da CNBB, as fotos com os nomes das 270 pessoas mortas, pelo crime da Vale. O Papa, emocionado, abençoou as fotos e expressou sua solidariedade às famílias que perderam seus entes queridos e à todos os atingidos. Em seguida o Papa ficou com as fotos, num gesto de carinho, respeito e solidariedade.

No dia 18 de maio, um representante do Papa, Mosenhor Duffé, estará visitando Brumadinho e conhecendo de perto a realidade e a luta dos atingidos.

Durante a audiencia o Papa afirmou que:  "As condições precárias de nossa casa comum se devem principalmente a um modelo econômico que vem sendo seguido há muito tempo. É um modelo voraz e orientado para o lucro, com um horizonte limitado e baseado na ilusão de crescimento econômico ilimitado. Embora muitas vezes vemos seu impacto desastroso no mundo natural e na vida das pessoas, ainda estamos relutantes em mudar. "As potências econômicas continuam a justificar o atual sistema mundial, no qual prevalecem a especulação e a busca de renda financeira, que tendem a ignorar todos os contextos e os efeitos sobre a dignidade humana e o meio ambiente" (Laudato Si, 56).

Continuando a citar sua Encíclica Laudato Si, o papa disse em seu discurso: “Estamos conscientes de que "o mercado por si só não garante o desenvolvimento humano integral e a inclusão social" (LS, 109) e que "a proteção ambiental não pode ser assegurada apenas com base no cálculo financeiro de custos e benefícios" (LS, 190). Precisamos de uma mudança de paradigma em todas as nossas atividades econômicas, incluindo a mineração.” Papa Francisco chamou a atenção sobre o Sinodo da Amazônia, dizendo: "é essencial prestar atenção especial às comunidades aborígines com suas tradições culturais. Eles não são apenas uma minoria entre outros, mas eles devem se tornar os principais interlocutores, especialmente quando prosseguimos com grandes projetos que afetam seus espaços "(LS, 146). Exorto a todos que respeitem os direitos humanos fundamentais e a voz das pessoas dessas belas, mas frágeis comunidades. E em comunhão com os bispo da América Latina denunciou que o extrativismo é “uma tendência desenfreada do sistema econômico para transformar os bens da natureza em capital. A ação de "extrair" a maior quantidade de materiais no menor tempo possível, convertendo-os em matérias-primas e fatores de produção que a indústria utilizará, será transformada em produtos e serviços que outros comercializarão, a empresa consumirá e, portanto, a própria natureza receberá na forma de lixo poluente, é o circuito consumista que é criado com velocidade e risco cada vez maiores ”. Papa Termina seu discurso pedido para não perdermos de vista que “o que está em jogo é a dignidade de nós mesmos. Somos os primeiros interessados em transmitir um planeta habitável para a humanidade que virá depois de nós. É um drama para nós mesmos, porque isso põe em questão o significado de nossa passagem nesta terra "(LS, 160).

Esta audiência se deu no contexto da reunião do Dicasterio pela Promoção do Desenvolvimento Integral Humano, com comunidades atingidas por mineração e mineradoras, em Roma.

Leia na integra o discurso do papa:

Caros irmãos e irmãs

Saúdo a todos e agradeço ao Cardeal Turkson pela sua introdução. Agradeço-lhe por ter vindo ao Vaticano para tratar deste diálogo sobre o tema "Mineração para o bem comum".

Na encíclica Laudato si ', sobre o estado preocupante do planeta, enfatizei a necessidade de "dialogar com todos sobre a nossa casa comum" (nº 3). Precisamos de um diálogo que realmente responda ao grito da terra e ao grito dos pobres (veja ibid., 49). Eu particularmente aprecio que, em sua reunião, representantes das comunidades envolvidas nas atividades de mineração e os responsáveis ​​pelas empresas de mineração estejam reunidos em torno da mesma mesa. Isso é louvável e é um passo essencial no caminho para o progresso. Devemos encorajar esse diálogo para continuar e se tornar a norma, e não a exceção. Felicito-o porque empreendeu o caminho do diálogo mútuo com espírito de honestidade, coragem e fraternidade.

As condições precárias de nossa casa comum se devem principalmente a um modelo econômico que vem sendo seguido há muito tempo. É um modelo voraz e orientado para o lucro, com um horizonte limitado e baseado na ilusão de crescimento econômico ilimitado. Embora muitas vezes vemos seu impacto desastroso no mundo natural e na vida das pessoas, ainda estamos relutantes em mudar. "As potências econômicas continuam a justificar o atual sistema mundial, no qual prevalecem a especulação e a busca de renda financeira, que tendem a ignorar todos os contextos e os efeitos sobre a dignidade humana e o meio ambiente" (ibid., P. 56).

Neste contexto, o título da sua reunião, "Mineração para o bem comum", é muito apropriado. O que isso implica concretamente? Permitam-me articular algumas reflexões a esse respeito que poderiam ser úteis para você em seu diálogo.

Em primeiro lugar, a mineração, como qualquer atividade econômica, deve servir toda a comunidade humana. Como São Paulo VI escreveu: "Deus destinou a terra e tudo o que ela contém para o uso de todos os homens e todos os povos, para que os bens da criação fluam igualmente para as mãos de todos" [1]. Este é um pilar do ensino social da Igreja. Nesta perspectiva, o envolvimento das comunidades locais é importante em todas as fases dos projetos de mineração. «É sempre necessário obter consenso entre os diversos atores sociais, que podem trazer diferentes perspectivas, soluções e alternativas. Mas no debate as pessoas locais devem ter um lugar privilegiado, que se questionem sobre o que querem para si e para seus filhos, e podem levar em consideração os objetivos que transcendem o interesse econômico imediato "(Enc. Laudato si '). , 183).

À luz do próximo Sínodo sobre a Amazônia, gostaria de enfatizar que "é essencial prestar atenção especial às comunidades indígenas com suas tradições culturais. Eles não são apenas uma minoria entre outros, mas eles devem se tornar os principais interlocutores, especialmente quando prosseguimos com grandes projetos que afetam seus espaços "(ibid., P. 146). Essas comunidades vulneráveis ​​têm muito a nos ensinar. "Para eles, de fato, a terra não é um bem econômico, mas um dom de Deus e dos ancestrais que nela habitam, um espaço sagrado com o qual precisam interagir para nutrir sua identidade e seus valores. [...] No entanto, em diferentes partes do mundo, eles estão sob pressão para abandonar suas terras e deixá-las livres para projetos de mineração, agricultura ou pecuária que não prestam atenção à degradação da natureza e da cultura "(ibid.). Peço a todos que respeitem os direitos humanos fundamentais e a voz das pessoas dessas belas, mas frágeis comunidades.

Em segundo lugar, a mineração deve estar a serviço da pessoa humana e não o contrário. Como escreveu o Papa Bento XVI, "nas intervenções para o desenvolvimento deve ser preservado o princípio da centralidade da pessoa humana, que é o assunto que deve primariamente assumir o dever de desenvolvimento". [2] Cada pessoa é preciosa diante dos olhos de Deus e seus direitos humanos fundamentais são sagrados e inalienáveis, independentemente do status social ou econômico. A atenção à proteção e ao bem-estar das pessoas envolvidas nas operações de mineração, bem como o respeito pelos direitos humanos fundamentais dos membros das comunidades locais e aqueles que defendem suas causas, são princípios não negociáveis. Somente a responsabilidade social corporativa não é suficiente. Devemos garantir que as atividades de mineração levem ao desenvolvimento humano integral de toda e qualquer pessoa e de toda a comunidade.

Em terceiro lugar, é necessário incentivar o desenvolvimento de uma economia circular, especialmente no âmbito das atividades de mineração. Considero que a observação de meus irmãos bispos da América Latina, feita em sua recente carta pastoral sobre atividades extrativistas, é muito pertinente. Eles escrevem: "Por" extrativismo "queremos dizer uma tendência desenfreada do sistema econômico para transformar os bens da natureza em capital. A ação de "extrair" a maior quantidade de materiais no menor tempo possível, convertendo-os em matérias-primas e fatores de produção que a indústria utilizará, será transformada em produtos e serviços que outros comercializarão, a empresa consumirá e, portanto, a própria natureza receberá na forma de lixo poluidor, é o circuito consumista que é criado com velocidade e risco cada vez maiores ". [3]

Temos que denunciar e evitar essa cultura de desperdício. «O sistema industrial, ao final do ciclo de produção e consumo, não desenvolveu a capacidade de absorver e reutilizar resíduos e escórias. Ainda não conseguimos adotar um modelo de produção circular que assegure recursos para todos e para as gerações futuras, e que nos obrigue a limitar tanto quanto possível o uso de recursos não renováveis, o consumo moderado, a maximização da eficiência da exploração, a reutilização e reciclar »(Enc. Laudato si ', 22). A promoção de uma economia circular e a abordagem de "reduzir, reutilizar, reciclar" também estão muito de acordo com o Consumo Sustentável e os Modelos de Produção promovidos no 12º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Além disso, as tradições religiosas sempre apresentaram a sobriedade como um componente-chave de um estilo de vida ético e responsável. A sobriedade também é vital para salvar nossa casa comum. "Bem-aventurados os mansos porque eles herdarão a terra" (Mt 5: 5).

Queridos irmãos e irmãs, nossos esforços e nossa luta para salvaguardar a casa comum são verdadeiramente uma jornada ecumênica que nos desafia a pensar e agir como membros de uma casa comum (oecumene). Estou particularmente satisfeito por seu encontro ter reunido representantes de igrejas e comunidades de fé de todo o mundo. Agradeço também aos representantes do setor de mineração por participarem dessa conversa. Precisamos agir juntos para curar e reconstruir nosso lar comum. Somos todos chamados a "colaborar como instrumentos de Deus para o cuidado da criação, cada um com sua própria cultura e experiência, suas próprias iniciativas e capacidades" (LS 14).

Espero que sua reunião seja realmente um momento de discernimento e possa levar a ações concretas. Espero que, como os bispos latino-americanos escreveram, você possa "analisar, interpretar, discernir o que é apropriado ou não sobre atividades extrativistas nos territórios e, portanto, propor, planejar, agir para transformar nosso estilo de vida, influenciar políticas energéticas". mineração de estados e governos, bem como políticas e estratégias de empresas dedicadas ao extrativismo, a fim de alcançar o bem comum e um autêntico desenvolvimento humano, sustentável e integral ". [4]

Sua reunião é importante porque você está lidando com questões que dizem respeito ao futuro de nosso lar comum e ao futuro de nossos filhos e das futuras gerações. "Precisamos perceber que o que está em jogo é a dignidade de nós mesmos. Somos os primeiros interessados em transmitir um planeta habitável para a humanidade que virá depois de nós. É um drama para nós mesmos, porque isso põe em questão o significado de nossa passagem nesta terra "(Enc. Laudato si ', 160). Que você nunca perca de vista este grande horizonte!

Com carinho te abençoo, suas famílias e suas comunidades. Por favor, ore por mim também. Obrigado.
Papa Francisco

[Texto original: italiano]

_____________________

[1] Carta Enc. Populorum progressio, 22.
[2] Lett. Enc. Caritas in veritate, 47.
[3] CELAM, Discípulos missionários custódios da casa comum. Discernimento à luz da encíclica Laudato si ’, Bogotá, janeiro 2018, 11.
[4] CELAM, Discípulos missionários custódios da casa comum. Discernimento à luz da encíclica Laudato si ’, Bogotá, enero 2018, 12.

Fonte: Fala Chico

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

CELSO AMORIM TEM AUDIÊNCIA COM O PAPA SOBRE A SITUAÇÃO DE LULA



O ex-ministro da Defesa e Relações Exteriores Celso Amorim se encontrou na manhã dessa quinta-feira (2) no Vaticano com o Papa Francisco, junto com o ex-ministro argentino Alberto Fernández e o ex-ministro chileno Carlos Ominami. Eles tiveram uma audiência de cerca de uma hora, em que discutiram a situação política e jurídica do caso Lula, do Brasil e da América do Sul.
O Papa recebeu um exemplar em italiano do livro “A verdade vencerá “, de Lula, e enviou uma mensagem espiritual ao ex-presidente. Francisco disse que continuará acompanhando com interesse a situação do Brasil e durante a audiência relembrou homília onde condenou o papel da mídia em golpes de Estado (sem ter citado o Brasil nominalmente na homília).
Sobre o encontro, disse Amorim:”O  assunto principal foi a situação do presidente Lula, que ele tem acompanhado com interesse e com preocupação. Ele antes, como se sabe, já mencionou em uma homilia como têm se passado os golpes na América Latina. Essa é uma preocupação constante do Papa, e ele quis ouvir com muito interesse toda a situação como se deu no Brasil, toda a evolução política”.
Veja fotos do encontro e a declaração do Celso Amorim depois da audiência:
 



quarta-feira, 21 de março de 2018

Papa Francisco ligou para a família de Marielle: Solidariedade

Papa telefona para família de Marielle para manifestar solidariedade


Dona Marinete da Silva, mãe de Marielle Franco, revelou na missa de sétimo dia da filha que a família recebeu um telefonema de solidariedade do Papa. A iniciativa de Francisco foi resultado de uma articulação acontecida na Argentina, sem qualquer participação da Arquidiocese do Rio ou da CNBB.
Por Mauro Lopes
A mãe de Marielle Franco, Marinete da Silva, falou aos presentes à missa de sétimo dia celebrada ontem (20) na Igreja Nossa Senhora do Parto, no centro do Rio – a missa foi transferida da Maré para que todos pudessem em seguida participar do ato/culto ecumênico na Cinelândia.  Ao final da celebração, o sacerdote convidou a família a se pronunciar, caso desejasse. Dona Marinete agradeceu o carinho recebido e informou então que o Papa Francisco havia telefonado.

Marielle foi mãe aos 19 anos, sem ser casada -chegou a morar junto com o pai de Luyara, sua filha, mas rapidamente separou-se dele, depois de sofrer violência doméstica. Antes de morrer, planejava oficializar seu casamento –com uma mulher. O suficiente para que fosse discriminada e tivesse os dedos apontados contra si no ambiente católico carioca. Francisco disse em 2015 que “não existe mãe solteira, pois mãe não é um estado civil”; um ano depois, conversando com jornalistas na viagem de avião do Rio a Roma, o Papa afirmou: “se uma pessoa é gay, procura ao Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?” A visão do Papa não demoveu nem  comoveu os padres, leigos e leigas integristas que pululam à volta do arcebispo do Rio, o cardeal Orani Tempesta, que continuam a atuar como “réguas do mundo”. Livre, Marielle afastou-se da Igreja e aproximou-se cada vez mais das religiões de matriz afro-brasileira.
A família de Marielle é católica. Sua mãe é devota de Nossa Senhora Aparecida e foi ministra da Eucaristia na Maré. A última foto que Anielle recebeu de sua irmã, ainda viva, horas antes do assassinato, foi das duas diante de um altar em uma igreja no Rio. Marielle foi catequista e ativa participante da Pastoral da Juventude ainda adolescente. Depois, afastou-se da Igreja Católica que vive, no Rio, um clima quase irrespirável de conservadorismo e censuras e condenações e falso rigorismo moral.
A Arquidiocese do Rio de Janeiro não teve qualquer participação no telefonema do Papa. Dom Orani Tempesta manteve-se à distância da família, soltou uma nota e uma mensagem frias, quase de condenação a Marielle por suas posturas políticas libertárias, e o clero ao seu redor iniciou uma campanha de ataques à memória da vereadora, com todo tipo de difamação. A CNBB igualmente não teve participação no telefonema –a entidade dos bispos brasileiros sequer pronunciou-se sobre o assassinato que comoveu e provocou mobilização em todo o país e no Exterior.
O caminho do telefonema deu-se por uma ponte entre a família da Marielle e a Argentina, envolvendo Luyara. Ela escreveu uma carta ao Papa dois dias depois da morte da mãe, que chegou rapidamente a Francisco por iniciativa do professor argentino Gustavo Vera, amigo pessoal do Papa e presidente da Fundación Alameda, dedicada ao combate ao tráfico de pessoas. Participou da articulação Lucas Schaerer, do Partido del Bien Común e assessor de comunicação da fundação. “Estamos muito felizes por este gesto de amor do Papa”, disse ele a Caminho Pra Casa na noite de ontem (20).
O episódio confirma pela mais uma vez Francisco como o grande líder-compaixão do planeta neste início de século 21. É também uma triste ilustração da situação da Igreja no Brasil. O caminho mais curto entre o povo brasileiro e seu amado Papa não é a hierarquia local –passa por Buenos Aires.]

terça-feira, 13 de março de 2018

Cinco anos de Francisco: a Igreja de volta





Francisco em sua primeira aparição: curvado diante da humanidade

Em cinco anos, Francisco tirou a Igreja da irrelevância a que se reduzira. Recolocou os pobres no centro da mensagem, da ação e da oração de uma instituição que havia se rendido aos ricos e às regras -e desmoralizada pela falsidade e vida dupla de muitos de seus líderes 
Por Mauro Lopes
Neste 13 de março completam-se cinco anos do papado de Francisco. Tudo o que seria seu papado estava anunciado três gestos na noite em que apareceu diante do povo na Praça São Pedro. Estava tudo lá. Mas, somos cabeças duras –como o texto bíblico afirma textualmente por nada menos que quatro vezes em dois dos textos fundantes do judaísmo e, por consequência, do cristianismo, no Êxodo e no Deuteronômio. Não entendemos nada.
Mas Francisco apresentou o  seu “programa de governo” naquela noite, com três gestos simples:
1. Escolheu o nome de Francisco – foi uma confusão! Quando seu nome como papa foi anunciado pelo cardeal francês Jean Louis Tauran, antes da entrada de Bergoglio na praça, houve confusão, que se prolongou: seria o nome tomado de Francisco Xavier, um santo do início do século XVI, jesuíta como Bergoglio, e tido como aquele que mais gente converteu ao cristianismo na história? Seria Francisco I? A confusão demorou a dissipar-se. Era apenas Francisco, como o poverello de Assis. E este Francisco, como o outro, parece ter ouvido uma voz surgida das origens da caminhada: “Francisco, vai e reconstrói a minha Igreja que está em ruínas”. Simples, pobre entre os pobres, alegre e disponível.
2. Apareceu à praça vestido de branco – quando Francisco assomou ao púlpito naquela noite, foi um espanto. Esperava-se um papa como os demais: empetecado, dado ao ouro reluzente, cheio de sobrevestidos. No entanto, apareceu um homem vestido de branco, numa imagem surpreendente: cercado de cardeais, era ele o que se vestia de maneira mais simples. Há uma história que se conta sobre o momento em que Bergoglio foi vestido para aparecer ao povo, nunca comprovada; mas, como dizem os italianos, “se non è vero, è ben trovato” (se não é verdade, é um bom achado”: quando lhe chegaram com as roupas luxuosas para vesti-lo como papa, ele teria rejeitado com um gesto de mão e tido “não, não, acabou o Carnaval”. No peito, em vez da cruz de ouro dos papas anteriores, utilizada à farta por cardeais e bispos pelo mundo adentro, Francisco apareceu com a cruz peitoral que carrega desde os tempos de Buenos Aires, de ferro. Veja na foto abaixo os sapatos de Bento XVI e os de Francisco; a imagem carrega em si mesma dois projetos de papado.



Os sapatos de Bento XVI e os de Francisco: para caminhadas diferentes

3. Curvado diante da humanidade sofredora –nunca se viu nada parecido como o gesto que marcou sua “estreia” como papa. Em vez de um rei, de aspecto imperial, um homem humilde, que se curvou diante do povo reunido na praça –diante de boa parte da humanidade que assistia à cena naquela noite. Pediu que rezassem por ele. Pediu silêncio. Pediu abertura de coração. Veja o vídeo do momento –no oitavo minuto, o gesto.
Interrompendo 35 de inverno conservador, com João Paulo II e Bento XVI, Francisco retomou a primavera de João XXIII e tem buscado recolocar a Igreja nos passos do Concílio Vaticano II.
Olhar para Francisco é olhar para o Vaticano II. Mais que isso, é olhar para o que de mais importante aconteceu num concílio no qual o peso da Igreja imperial ainda se fez presente com desejo de continuação, como observou um dos grandes nomes do encontro, o padre dominicano Ives Congar, desgostoso com o desfile dos bispos e cardeais vestidos e comportando-se como príncipes:
“Vejo o peso daquilo a que nunca se renunciou, do período em que a Igreja se comportava como um senhor feudal, quando detinha poder temporal,  quando o papa e os bispos eram lordes que tinham suas cortes, eram mecenas de artistas e pretendiam uma pompa igual à dos Césares. A isso a Igreja nunca repudiou em Roma. Deixar o período constantino para trás nunca fez parte de seu programa”.[1]
O que de mais importante aconteceu no Vaticano não estava nos salões e sim nos subterrâneos. O coração do Concílio expressou-se nos subterrâneos. No Pacto das Catacumbas da Igreja Serva e Pobre firmado numa eucaristia, em uma basílica dentro da Catacumba de Domitila na noite de 16 de novembro de 1965, às vésperas do encerramento do Concílio -as catacumbas eram locais de reunião secreta dos cristãos durante as perseguições do Império Romano.
Naquela noite, 40 participantes assinaram texto, pelo qual comprometeram-se a uma vida eucarística, de pobreza, partilha, uma vida de lavar os pés dos pobres e com eles conviver. Os signatários assumiram 13 compromissos naquela noite histórica, dentre eles: viver como o povo, abrir mão dos títulos e roupas luxuosas, assim como do uso e ouro e prata, abrir mão de toda propriedade pessoal, estabelecer relações horizontais de diálogo em suas dioceses.
Eles curvaram-se em serviço amoroso diante de toda a humanidade. O gesto dos 40 das catacumbas finalmente veio à luz com Francisco, curvado na Praça São Pedro na noite de 13 de março de 2013.
Desde então, Francisco tem procurado arrancar a Igreja Católica da irrelevância a que se reduziu e recolocar os pobres no centro da mensagem, da ação e da oração de uma instituição se rendeu anos a fio aos ricos e às regras, desmoralizada pela falsidade e vida dupla de seus líderes.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

CUT denuncia no Vaticano ataques do governo golpista aos direitos sociais e trabalhistas no Brasil

          Conferência internacional no Vaticano    

Rádio Vaticano    :    A Conferência tem a proposta de aprofundar o magistério da Igreja desde a Populorum progressio do Beato Paolo VI, que completa 50 anos, até a Laudato si do Papa Francisco, que afirma: “O trabalho é uma necessidade, faz parte do sentido da vida nesta terra, é caminho de maturação, desenvolvimento humano e realização pessoal”.   
Além de representantes da Santa Sé, o encontro terá a presença de expoentes dos principais sindicatos do mundo, especialistas no campo das ciências sociais, delegações de mais de 40 países e representantes de movimentos cristãos de trabalhadores. 
Na tarde de sexta-feira (24/11), no final dos trabalhos, está prevista a audiência com o Papa Francisco. 

O objetivo será abrir uma reflexão sobre o mundo do trabalho e os aspectos ligados às atividades profissionais nas estruturas sociais existentes. O patrimônio da Doutrina Social da Igreja e suas perspectivas e a análise das novas realidades sociais.


Vice-presidenta da CUT alertou para os graves ataques aos direitos sociais e trabalhistas que caracterizam o golpe no Brasil.

Escrito por: Marize Muniz, CUT Brasil


Divulgação
Em discurso no Encontro Internacional de Organizações Sindicais, na sala Novo do Sínodo, na Cidade do Vaticano, a vice-presidenta da CUT Nacional, Carmen Foro, falou sobre a realidade atual e os desafios do movimentos sociais e sindicais ante a globalização do paradigma tecnocrático e denunciou os ataques do governo ilegítmo de Michel Temer (PMDB-SP) aos direitos sociais e trabalhistas.
Segundo ela, no Brasil, a classe trabalhadora e a população mais pobre, que mais necessita de políticas públicas para sobreviver com o mínimo de dignidade, lida no momento com uma agenda de ataques a CLT, ao direito à aposentadoria, à casa própria, saúde e educação e tantas outras conquistas que veem sendo exterminadas pelo governo Temer.
“A sanha do mercado ultraneoliberal, que produziu um golpe parlamentar com apoio da mídia e de parte do judiciário, que derrubou uma presidenta legitimamente eleita, para implantar uma agenda que está acabando com os programas sociais, da reforma agrária e apoio a agricultura familiar, com a legislação de proteção aos trabalhadores/as e de combate ao trabalho escravo”, denunciou a vice-presidenta da CUT ao iniciar seu discurso na manhã desta uinta-feira (23), em Roma.
Carmen lembrou as leis recentemente criadas para facilitar a venda de terras a grupos estrangeiros e permitir a privatização da água, da produção agrícola,  dos recursos naturais como o pré-sal  abundantes em nosso país e do congelamento por 20 anos dos recursos para a saúde e educação, entre outras áreas atingidas pelas medidas tomadas pelos golpistas que usurparam a Presidência da República no ano passado.
“Retrocedemos quase 100 anos. Falta apenas revogação da Lei Àurea, que aboliu a escravidão no país em 1883!”, denunciou Carmen com indignação.
E criticou o uso dos avanços tecnológicos que “só servem para aumentar os lucros já obscenos das grandes corporações e o poder – dos empresários - de movimentar recursos por meio dos paraísos fiscais, sem pagar os devidos impostos aos países, que poderiam ser revertidos em benefícios para toda sociedade”.
Ela ressaltou que o progresso tecnológico trouxe avanços e conquistas como  empregos, progressos científicos que melhoraram a qualidade de vida da humanidade, “mas a apropriação dos seus benefícios sempre foi desigual”. E citou pensamentos do Papa Francisco sobre o uso da política e da economia a serviço da vida, especialmente a vida humana, salientando que o movimento sindical do Brasil e do mundo concorda com Sua Santidade.
Em uma encíclica o Papa Francisco afirmou: “A política não deve submeter-se à economia, e esta não deve submeter-se aos ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia. (...) hoje precisamos imperiosamente que a política e a economia, em diálogo, se coloquem decididamente a serviço da vida, especialmente da vida humana”.
E é neste sentido que a CUT luta por um mundo melhor e para todos, com justiça e inclusão social, disse Carmen. Para ela, a defesa que o Papa faz dos direitos sociais fortalece a luta por um mundo melhor e mais justo, “um mundo capaz de proporcionar desenvolvimento sustentável, crescimento econômico, com distribuição de renda, inclusão e justiça social. Por um breve período de 13 anos pudemos experimentar e comprovar isso no Brasil”.
Carmen prosseguiu falando sobe a importância do avanço tecnológico ser incorporado à produção e ao cotidiano da população, garantindo benefícios aos  trabalhadores/as e a sociedade, não apenas do dono da máquina ou da invenção, sugeriu pontos para pensar o futuro do mundo do trabalho, como você poderá ver na íntegra do discurso abaixo, e encerrou pedindo ajuda ao Papa na luta dos movimentos sociais e trabalhistas.
“Acredito que a Igreja Católica pode dar uma grande ajuda através de sua ampla rede espalhada em todos os países, contribuindo nesse processo de conscientização, mobilização, pressão e lutas que serão necessárias para a construção de um novo mundo com igualdade, justiça e inclusão social”, concluiu a vice-presidenta da CUT.

Integra do discurso:
Sua Eminência Cardeal Peter Turkson, Prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral
Companheiros Sindicalistas,
Em 1891 o Papa Leão XIII publicou a encíclica Rerum Novarum (“Das Coisas Novas”) e abordou a questão da classe trabalhadora e os sindicatos.
Disse o Papa: “A sede de inovações, que há muito tempo se apoderou das sociedades e as tem numa agitação febril, devia, tarde ou cedo, envolver toda a sociedade (...) os progressos incessantes da indústria (...) a alteração das relações entre os operários e os patrões, a influência da riqueza nas mãos de um pequeno número ao lado da indigência da multidão (...) sem falar da corrupção dos costumes, deu resultado final um temível conflito”.
E acrescentou “... pouco a pouco, os trabalhadores, isolados e sem defesa, têm-se visto, com o decorrer do tempo, entregues à mercê de senhores desumanos e à cobiça duma concorrência desenfreada. A usura voraz veio agravar ainda mais o mal. (...). A tudo isto deve acrescentar-se o monopólio do trabalho e dos papéis de crédito, que se tornaram o quinhão dum pequeno número de ricos e de opulentos, que impõem assim um jugo quase servil à imensa multidão dos proletários”.
Passado mais de de século, quem lê pode pensar que o Papa está analisando a situação atual dos trabalhadores e das trabalhadoras do Brasil e do mundo.
Se é verdade que o progresso tecnológico trouxe mais empregos, progressos científicos, em especial na medicina que melhoraram a qualidade de vida da humanidade, também é verdade que a apropriação dos seus benefícios sempre foi desigual.
Só com muita pressão, negociação e muitas lutas – que inclusive custou a vida de milhares de trabalhadores e trabalhadoras – podemos dizer que ainda hoje apenas uma pequena parcela dos que estão organizados consegue usufruir de uma pequena parte desse progresso.
A globalização tecnocrática vem se dando sob a égide do mercado que busca a maximização dos lucros a qualquer preço, da concentração de renda, da retirada dos direitos dos trabalhadores/as em todo o mundo, da exploração irracional do meio ambiente e dos recursos naturais, condenando milhões de trabalhadores/as ao desemprego, a fome e a miséria tanto nos centros urbanos quanto nas áreas rurais.
Para esse mercado invisível, a globalização tecnológica só serve para aumentar os lucros já obscenos das grandes corporações e poder movimentá-los por meio dos paraísos fiscais, sem pagar os devidos impostos aos países, que poderiam ser revertidos em benefícios para toda sociedade.
No Brasil, orientados por essa sanha do mercado ultra neoliberal, se produziu um golpe parlamentar com apoio da mídia e de parte do judiciário, que derrubou uma presidenta legitimamente eleita, para implantar uma agenda que está acabando com os programas sociais, da reforma agrária e apoio a agricultura familiar, com a legislação de proteção aos trabalhadores/as e de combate ao trabalho escravo.
Aprovam leis que facilitam venda de terras a grupos estrangeiros e permitem a privatização da água e a produção agrícola a essas corporações transnacionais, sem falar dos recursos minerais abundantes em nosso país.
Com a privatização da exploração do petróleo localizado no pré-sal (grandes profundidades) bilhões de dólares oriundos dos royalties que seriam destinados para a educação (75%) e saúde (25%) vão desaparecer, ao mesmo tempo as empresas compradoras serão beneficiadas com bilhões de dólares em isenção fiscal.
Não satisfeitos, congelaram os investimentos do Estado em educação e saúde por 20 anos e querem acabar com a aposentadoria.
Retrocedemos quase 100 anos. Falta apenas revogação da Lei Àurea, que aboliu a escravidão no país em 1888!
Como bem constatou o Papa Francisco na Encíclica “Laudato Si” (“Louvado Sejas”):
“O paradigma tecnocrático tende a exercer o seu domínio também sobre a economia e a política. A economia assume todo o desenvolvimento tecnológico em função do lucro, sem prestar atenção a eventuais consequências negativas para o ser humano. Não se aprendeu a lição da crise financeira mundial...”.
Essa política tem a sua disposição um grande aparato midiático que tenta a todo custo convencer os cidadãos – algumas vezes com sucesso – de que o mercado, o simples crescimento econômico e as iniciativas individuais vão resolver os problemas da pobreza, da miséria e do meio ambiente.
É uma luta desigual, mas é preciso enfrentá-la para desmascarar o engodo que ela significa na prática.
“A política não deve submeter-se à economia, e esta não deve submeter-se aos ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia. (...) hoje precisamos imperiosamente que a política e a economia, em diálogo, se coloquem decididamente a serviço da vida, especialmente da vida humana. ” Afirma ainda o Papa Francisco.
O movimento sindical do Brasil, e creio que do mundo, concorda totalmente com Sua Santidade.
Acreditamos que um outro mundo é possível e que é capaz de proporcionar desenvolvimento sustentável, crescimento econômico, com distribuição de renda, inclusão e justiça social. Por um breve período de 13 anos pudemos experimentar e comprovar isso no Brasil.
Aos trabalhadores/as não interessa lutar contra o avanço tecnológico e sua incorporação na produção e no cotidiano. Mas garantir que o avanço tecnológico se reverta em benefício dos trabalhadores/as e da sociedade, não apenas do dono da máquina ou da invenção.
Para isso, gostaria de sugerir quatro pontos centrais para pensar o futuro do trabalho no mundo da globalização e do paradigma tecnocrático:
Primeiro, é preciso um grande investimento em educação, formação e conscientização para capacitar os trabalhadores para essa nova era. Os trabalhadores devem ser capazes de realizar as tarefas propriamente humanas e que não podem ser realizadas por uma máquina ou computador. As máquinas ficam obsoletas, mas não podemos admitir a obsolescência humana.
Segundo, os estados precisam ter políticas e programas voltados para incluir os trabalhadores que perderam seus postos de trabalho por causa do  avanço tecnológico. A introdução de novas tecnologias não pode se dar ao custo do desemprego de milhares de homens e mulheres atingidos pelas inovações. Isso significa que a adoção de novas formas de produção não pode ser feita à revelia dos sindicatos e das comunidades que serão impactadas pelas mudanças. Para isso é preciso construir amplos processos de negociação e diálogo que levem ao bem comum e onde a sociedade sinta-se representada. As inovações devem contribuir para a melhoria dos empregos, das condições de vida e da construção de um novo ser humano.
Terceiro, precisamos garantir que a os benefícios da introdução de novas tecnologias não alimentem a desigualdade e a concentração de riqueza. O conhecimento atual não é obra apenas individual, mas social, fruto de milhares de anos de conhecimento acumulado da humanidade. A globalização tecnológica deve ser inclusiva e abrir novas perspectivas para os trabalhadores.
Quarto, é necessário um amplo diálogo entre o movimento sindical, para, juntamente com os movimentos sociais, comunitários e religiosos, comprometidos com essa proposta de desenvolvimento sustentável, inclusivo e solidário construirmos propostas globais, regionais, nacionais e locais que possam contribuir na conscientização e a mobilização necessária da maioria dos cidadãos que com muito trabalho e suor constroem verdadeiramente a riqueza das nações. Esse esforço conjunto é ainda mais necessário se levarmos em conta que aqueles que defendem o atual modelo excludente e impiedoso de exploração do meio ambiente, dos recursos naturais e dos trabalhadores/as, detém não apenas muito capital, como também os meios de comunicação com os quais procuram enganar a maioria da população.
Acredito que a Igreja Católica pode dar uma grande ajuda através de sua ampla rede espalhada em todos os países, contribuindo nesse processo de conscientização, mobilização, pressão e lutas que serão necessárias para a construção de um novo mundo com igualdade, justiça e inclusão social.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Programa analisa o Papa Francisco: Apoio e Reação - Assista

Assista o vídeo do programa Melhor e Mais Justo sobre o Papa Francisco, com a participação do padre Antônio Naves da Comissão Pastoral da Terra, que afirma ¨O Papa Francisco tem lado, o lado dos pobres ou seja o lado de Jesus, o lado do Evangelho. O Papa pensa e age a partir dos pobres.¨

O programa conta, também, com a participação do teólogo e prof. João Décio Passos que diz: ¨Francisco é filho maduro do Concílio Vaticano II ... O Papa receber os movimentos sociais populares no Vaticano é um gesto simbólico e político extraordinário.¨   



Papa Francisco: Apoio e Reação

TVT



Melhor e Mais Justo – Papa Francisco: Apoio e Reação 1/2





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Melhor e Mais Justo - Papa Francisco: Apoio e Reação 




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Um papa que propõe acolhimento à população LGBT, aos divorciados e perdão ao aborto.
Um homem que recebe e dialoga com os movimentos populares.
Em um mundo no qual o ódio e o preconceito gritam, quais as questões e desafios sociais, políticos, econômicos, ambientais e pastorais que o líder do mundo católico traz à luz e ao centro do debate contemporâneo?
Melhor e Mais Justo com:
Padre Antônio Naves, da Comissão Pastoral da Terra;
E
João Décio Passos, teólogo e professor de ciência da religião na PUC-SP.