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segunda-feira, 6 de abril de 2015

Vaticano recebe pedido de abertura de processo de beatificação de dom Helder


Ex-arcebispo, que atuou na Arquidiocese de Olinda e Recife de 1964 a 1985, também foi lembrado para o Nobel da Paz por sua defesa dos direitos humanos. Religioso foi ameaçado durante a ditadura
por Redação Rede Brasil Atual

CC - HANS PETERS/ ANEFO / WIKIPEDIA
Helder_Camara.jpg
Dom Helder Câmara, em foto dos anos 1970: teologia da libertação e luta pelos menos favorecidos
São Paulo – A Cúria Romana enviou carta à Arquidiocese de Olinda e Recife na qual afirma ter recebido pedido de abertura do processo de beatificação do ex-arcebispo Helder Câmara (1909-1999). Dom Helder esteve à frente da Arquidiocese até 10 de abril de 1985, quando atingiu a idade limite (75 anos). Havia chegado em Pernambuco em 12 de abril de 1964, poucos dias depois do golpe. E sua atuação ficou marcada pela defesa dos direitos humanos, a ponto de ser lembrado, em 1970, para o Prêmio Nobel da Paz.
De acordo com a Arquidiocese, a correspondência vinda da Congregação para as Causas dos Santos informa que se aguarda o posicionamento de diferentes dicastérios (departamentos do governo da Igreja Católica que formam a Cúria) para emitir um parecer. Se o Vaticano confirmar o nihil obstat ("nada consta"), o processo poderá ser aberto.
"Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-se de comunista"
"Ser beato, ou bem-aventurado, significa representar um modelo de vida para a comunidade e, além disso, que essa pessoa tem a capacidade de agir como intermediário entre os cristãos e Deus", diz a Arquidiocese. "Depois disso, ainda, é preciso passar por mais uma fase: a canonização. Para ser proclamado santo é imprescindível a comprovação de um milagre, que deve ocorrer após sua nomeação como beato."
Cearense de Fortaleza, dom Helder tornou-se padre aos 22 anos. Inicialmente, ele militou em setores conservadores, como a Ação Integralista Brasileira, nos anos 1930 – depois atribuiria essa fase a sua ingenuidade no período da juventude. Em 1936, chegou ao Rio de Janeiro com a missão de organizar o Secretariado Nacional da Ação Católica Brasileira, "sendo a precursora da CNBB", como diz informe da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. "As histórias de dom Helder Câmara e da Conferência confundem-se", afirma a organização.
Em dezembro de 1950, Helder Câmara apresenta o projeto da CNBB a monsenhor Giovanni Battista Montini, que fazia parte da secretaria de estado do Vaticano. Em 1963, ele se tornaria o papa Paulo VI.
Já nomeado arcebispo, dom Helder, juntamente com outros 17 bispos do Nordeste, lançaram manifesta em defesa da liberdade das pessoas e da Igreja. Em 1969, depois do AI-5, criticou a miséria dos trabalhadores rurais da região, e foi apontado como comunista. A CNBB lembra de frase célebre do religioso: "Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-se de comunista". Foi sistematicamente perseguido, vigiado e ameaçado, com direito a prontuário no Dops.
Nesse período, chegou a ter a casa pichada e metralhada. Um de seus auxiliares, padre Antônio Henrique, foi assassinado em maio de 1969.
Pelo seu trabalho, dom Helder recebeu vários prêmios internacionais, como o Martin Luther King, nos Estados Unidos, em 1970. Nesse mesmo ano, foi lembrado para o Nobel da Paz, mas teve sua campanha sabotada pelo próprio governo brasileiro. Ele morreu em sua casa, em Recife, em 27 de agosto de 1999, por insuficiência respiratórios. Os restos mortais estão na Igreja Catedral São Salvador do Mundo, em Olinda.
Com informações da CNBB e da Arquidiocese de Olinda e Recife


sábado, 7 de fevereiro de 2015

No dia do seu nascimento, veja o documentário " Dom Hélder Câmara , o Santo Rebelde"

Helder Pessoa Câmara ( Fortaleza, 07 de fevereiro de 1909 - Recife, 27 de agosto de 1999 )



Dom Helder Camara, "O Santo Rebelde", um documentário

"DOM HELDER CAMARA - O SANTO REBELDE"
Excelente 1 h. e 12 min. filme-documentário




sábado, 9 de agosto de 2014

O Manto de Dom Helder

“Atualmente, no Brasil e no mundo inteiro, muitas pessoas e grupos, cristãos e não cristãos, se preocupam em manter viva e atualizada a memória de Dom Helder, porque, de certa forma para nós, ele continua vivo, mesmo depois que nos foi tirado. Nem pedimos uma porção dupla do seu espírito de profeta. Basta mesmo a porção que ele viveu e isso já nos renova por dentro", diz trecho do artigo de Marcelo Barros.
¨Atualmente, o mundo e os grupos sociais necessitam muito de quem os ajude a manter a esperança e fortalecer a chama da luta social, pacífica, mas corajosa, profética e que vá às raízes dos problemas¨.

Por Marcelo Barros

A herança que recebemos do Dom
 
 
“No dia em que o Senhor arrebatou Elias ao céu, o profeta foi com seu discípulo Eliseu até a outra margem do rio Jordão. Ali, disse ao seu discípulo: “Peça o que quiseres, antes que eu seja tirado de ti”.
Eliseu pediu: “Deixe-me como herança uma porção dupla do seu espírito”. Elias respondeu: “Você está me pedindo uma coisa difícil. No entanto, se me enxergar, quando eu for tirado de você, isso lhe será concedido”. Enquanto estavam caminhando e conversavam, apareceu um carro de fogo e separou um do outro. E Elias subiu ao céu em um redemoinho. Eliseu gritava: “Meu pai, meu pai! Carro e cavalaria de Israel!”. Eliseu viu que o manto de Elias estava caindo, o pegou e com o manto de Elias continuou a missão do profeta” (Ver 2 Reis 2).

Quando Eliseu pede a Elias o seu mestre para ficar com o seu espírito de profeta, Elias responde que só pode dar isso se o discípulo conseguir vê-lo mesmo quando ele for tirado de sua presença.

Atualmente, no Brasil e no mundo inteiro, muitas pessoas e grupos, cristãos e não cristãos, se preocupam em manter viva e atualizada a memória de Dom Helder, porque, de certa forma para nós, ele continua vivo, mesmo depois que nos foi tirado. Nem pedimos uma porção dupla do seu espírito de profeta. Basta mesmo a porção que ele viveu e isso já nos renova por dentro. Mas, isso é importante.

No Recife, o Instituto Dom Helder Camara guarda sua memória, garante a preservação dos seus documentos e publica suas cartas e textos. Tudo isso é importante e necessário. Mas, se ele pudesse, agora, do céu, nos dizer o que mais deseja e o  que nos pede é que mantenhamos vivo o seu espírito profético. E para isso, temos de fazer como Eliseu fez com Elias: recolher o seu manto. O manto do profeta era o que o identificava como profeta. (Cf. 2 Rs 1, 8). O povo dizia que, com o seu manto de profeta, Elias chegava a tocar na água e o rio se abria em dois para ele passar. Eliseu usou o manto de Elias e conseguiu fazer a mesma coisa (2 Rs 2). Tentemos brevemente recordar a herança profética de Dom Helder que podemos hoje viver e intensificar cada vez mais.

1 – a espiritualidade helderiana

Ele nos deixou o seu exemplo de espiritualidade e os seus escritos. E, na sua época, através de suas vigílias-cartas, ele queria envolver as pessoas que estavam ao seu lado, a família do São Joaquim no Rio[1] e depois a família mecejana no Recife[2].

Essas cartas- vigílias, hoje em grande parte já publicadas[3], são antes de tudo orações, meditações nas quais Dom Helder se refazia em sua intimidade com o Pai. Todos os dias, ele acordava às três da madrugada e se colocava em oração de vigília. Nela, revolvia no coração a missa diária que deveria celebrar depois, orava sobre os acontecimentos do dia anterior e sobre os que iria viver no novo dia que estava começando. Hoje, ao ler essas cartas, percebemos que retomar hoje a espiritualidade de Dom Helder pede de nós que não copiando o jeito dele, mas do nosso jeito próprio e na nossa realidade, pudéssemos experienciar também essa profunda intimidade com Deus na oração e na meditação da Escritura.

Ao ler as vigílias- cartas do Dom, uma preocupação que sentimos sempre presente é a preocupação dele com a formação profunda dos leigos e leigas que formavam esse grupo de seus auxiliares, assessores, amigos. Ele partilhava com o grupo os livros que lia, os discursos que fazia, até a meditação pessoal que orava na eucaristia.

Atualmente, seria importante que os nossos grupos de pastoral, nossas comunidades e seus animadores/as estivessem suficientemente abertos a continuar essa formação permanente e interessados em buscar os meios para mantê-la e atualizá-la sempre. Na época de Dom Helder, a Ação Católica, a Pastoral de Juventude e grupos de Igreja tinham muitos instrumentos de formação. Hoje, quase não temos mais isso, seja por falta de tempo, seja mesmo porque estamos menos organizados. No entanto, é bom percebermos a importância disso na linha do manter vivo o espírito do Dom.

 2 – A constituição de minorias abraâmicas

Com a capacidade de comunicação que Dom Helder tinha, ele percebeu que havia formado no mundo inteiro grupos de amigos/as que desejavam manter o projeto de vida, o modelo de Igreja aberto a toda a humanidade e de luta pacífica pelos direitos humanos e por um mundo novo possível que ele havia delineado e vivido.

Ele nos deixou a própria Igreja das Fronteiras onde ele morou por 40 anos como um ponto de referência de acolhida das pessoas, de diálogo e de abertura ao mundo. Como manter esse espírito como se estivéssemos com o manto do profeta e pudéssemos receber o mesmo carisma?

Atualmente, o mundo e os grupos sociais necessitam muito de quem os ajude a manter a esperança e fortalecer a chama da luta social, pacífica, mas corajosa, profética e que vá às raízes dos problemas. Como poderíamos, hoje, nos constituir como uma rede de entidades e movimentos autônomos, mas, ao mesmo tempo, solidários nesse caminho do reino de Deus?

3 – O cuidado com a justiça social

Durante todo o tempo do seu ministério em Recife, Dom Helder lançava desafios e programas para responder aos desafios da realidade. Formar grupos como minorias abraâmicas, pressão moral libertadora e tantos outros, até o ano 2000 sem miséria que ele lançava já nos últimos anos de vida. Ao ler todas as cartas até agora publicadas, o programa que me parece mais sintetizar os outros e resumir o que Dom Helder queria como nosso cuidado maior é o que finalmente ele chamou de “Ação Justiça e Paz”. Pelo fato de ter lançado na época da ditadura e sob forte censura do governo e mesmo de certos ambientes de Igreja, o Dom tentou começar esse movimento conseguindo a adesão de bispos e nomes importantes, no lugar de partir das bases, como certamente ele teria feito se tivesse tido mais liberdade. Na época, havia pessoas que confundiam a proposta dele com a missão da Comissão Pontifícia Justiça e Paz. Dom Helder insistia em que as duas se complementavam. A Ação Justiça e Paz era uma ação mais comunitária, mais sistemática (todo o tempo) e mais de base, no cuidado com o dia a dia do povo, enquanto a Comissão Justiça e Paz envolve o nome de pontifícia (é um organismo do papa), é uma comissão e tem como missão se pronunciar sobre as grandes questões que envolvem a justiça e a paz. A ação é mais prática.

Por exemplo, quando a ditadura cassou o direito de muitos estudantes continuarem estudando, em 1969, Dom Helder pensava que a função dessa Ação Justiça e Paz seria, além de denunciar a ilegalidade do decreto 477 do governo federal[4] (coisa que a Comissão Justiça e Paz fazia), além disso, reunir os estudantes e ajudá-los a conseguir bolsas no exterior onde eles pudessem concluir seus estudos.

Atualmente, em muitas cidades e capitais brasileiras, é impressionante o número de adolescentes e jovens pobres e muitos negros que, nos bairros de periferia, são assassinados pela ação violenta da polícia e também de gangues que atuam nessas áreas. Talvez, pudéssemos refazer, hoje, uma Ação Justiça e Paz que sensibilizasse as paróquias e comunidades religiosas da nossa cidade, assim como os grupos de direitos humanos, com relação a esse problema. Seria importante conseguir dados mais concretos dos casos que acontecem, nomes das vítimas e datas, de forma a passar para a imprensa esses dados mais organizados e refletidos. Sem dúvida, poderíamos provocar uma consciência social que ainda não tem se manifestado.

Muitos outros elementos poderiam ser lembrados. A comunicação extraordinária que Dom Helder tinha com a juventude, o apoio que ele dava à luta dos lavradores pela reforma agrária, a consciência social e política nacional e internacional que ele suscitava e provocava em todos nós. São desafios para todas as pessoas que desejam prosseguir seu caminho e viver sua profecia. O importante é viver tudo isso com seu espírito de compaixão e de amor universal.

Para quem quiser aprofundar mais esse assunto, leia:

1 - ZILDO ROCHA, organizador. VÁRIOS AUTORES, Helder, o Dom, Petrópolis, Vozes, 1999.
2 – MARCELO BARROS, Dom Helder Camara, profeta para os nossos dias, São Paulo, Ed. Paulus, 2012.

 
 

[1] - São Joaquim é o nome do palácio episcopal do Rio de Janeiro, onde, na época se reuniam as comissões de pastoral. Como, no final dos anos 50 e começo da década de 60, Dom Helder trabalhava ali, como bispo auxiliar do Rio, ali reunia seus auxiliares leigos que formavam para ele a “família do São Joaquim”.
[2] - Família mecejana porque é nordestina como ele que nasceu em Mecejana, no Ceará
[3] - Ver DOM HELDER CAMARA, Circulares Conciliares, 3 volumes, Organizador:  ZILDO ROCHA, Recife, Ed. CEPE, 2008, Circulares Interconciliares, 3 volumes, idem, 2010, Circulares pós conciliares, Tomo I, 3 volumes, 2011, Circulares Pós-conciliares, Tomo II, 4 volumes, idem, 2014.
[4] - O decreto 477 do governo militar em 1969 caçava automaticamente o direito de estudar em qualquer universidade brasileira, pública ou particular, a estudantes considerados culpados de crime de subversão. A sentença era dada pelos militares, sem julgamento nem possibilidade de recorrer da sentença. Muitos jovens de 18 a 25 anos tiveram suas vidas pessoais e profissionais amputadas por essa medida arbitrária, duríssima e impiedosa. Dom Helder fez tudo o que pôde no diálogo para que o governo revisse isso e abrandasse a medida. Depois que percebeu que era inútil, tentou ajudar os estudantes vítimas dessa arbitrariedade.
medida arbitrária, duríssima e impiedosa. Dom Helder fez tudo o que pôde no diálogo para que o governo revisse isso e abrandasse a medida. Depois que percebeu que era inútil, tentou ajudar os estudantes vítimas dessa arbitrariedade.

Marcelo Barros Marcelo Barros é monge beneditino e teólogo especializado em Bíblia. Atualmente, é coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). Assessora as comunidades eclesiais de base e movimentos sociais como o Movimento de Trabalhadores sem Terra (MST). Tem 45 livros publicados dos quais está no prelo: "O Evangelho e a Instituição", Ed. Paulus, 2014. Colabora com várias revistas teológicas do Brasil, como REB, Diálogo, Convergência e outras. Colabora com revistas internacionais de teologia, como Concilium e Voices e com revistas italianas como En diálogo e Missione Oggi. Escreve mensalmente para um jornal de Madrid (Alandar) e semanalmente para jornais brasileiros (O Popular de Goiânia e Jornal do Commercio de Recife, além de um jornal de Caracas (Correo del Orinoco) e de San Juan de Puerto Rico (Claridad).

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Dom Helder Câmara: ele enfrentou a ditadura com fé e palavra




 Conheça a história do religioso brasileiro que foi contra o autoritarismo e viajou pelo mundo para discutir e expor o regime militar aos estudantes universitários

 

João Paulo Martins - Revista Encontro Publicação:31/03/2014     


Dom Helder Câmara pregou sua crença nas minorias e discutiu o autoritarismo da ditadura militar com estudantes de diversas universidades pelo mundo
Enquanto o país iniciava seu mais controverso e sombrio período da história, naquele fatídico 31 de março de 1964, uma voz que vinha de Pernambuco, do alto escalão da igreja católica, se fez ouvir pelos quatro cantos do mundo: a do arcebispo de Olinda e Recife, Dom Helder Pessoa Câmara. Enquanto estudantes, trabalhadores e profissionais da imprensa, no Brasil, enfrentaram a ditadura militar com armas e sangue, o religioso, natural de Fortaleza, usou as palavras e a fé na juventude para confrontar o autoritarismo.

“Se dou pão aos pobres, todos me chamam de santo. Se mostro por que os pobres não têm pão, me chamam de comunista e subversivo”, costumava dizer Dom Helder, que teve diversos pensamentos associados a movimentos partidários. Como um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, ele ajudou a dar visibilidade, organização e estrutura à instituição, que teve importante papel de enfrentamento durante a ditadura militar brasileira. “Todo o agir de Dom Helder tinha por trás um valor maior, que era a promoção da dignidade humana. Num cenário político controverso, ele defendeu a cidadania”, explica Adenilson Ferreira de Souza, ex-jesuíta e doutorando em Ciências Políticas na UFMG. Seu objeto de estudo, claro, é o religioso brasileiro, um dos principais nomes do país, quando se fala em direitos humanos no século XX.

Com a restrição do espaço político brasileiro após a implantação do Ato Institucional nº 5, o AI-5, em 1968, Dom Helder, por incomodar muito os militares, é considerado pelos agentes do governo um ‘morto-vivo’. Os meios de comunicação não podiam falar sobre ele, nem publicar nada que mencionasse seu nome. O arcebispo estava proibido até de frequentar as universidades do país. Nesse momento, ele se volta para o exterior. “Como não podia circular pelo âmbito acadêmico no Brasil, entre os estudantes, de quem tanto gostava, tomou a sábia decisão de viajar pelo mundo, para discutir com jovens de grandes universidades, especialmente em Paris, Alemanha, Estados Unidos, Canadá e Itália”, diz Adenilson Souza.

Para Dom Helder, os cidadãos menos favorecidos deviam se unir, formando o que chamava de “minorias abraâmicas”, com clara referência bíblica a Abraão, e que tem como preceito a ideia de que em qualquer conjunto de pessoas, ao menos duas são sedentas por justiça e paz. “Ele apostava muito na juventude como engrenagem primordial da sociedade, e na força dos grupos abraâmicos, capazes de pensar soluções e enfrentar as arbitrariedades, com uma força parecida com a da bomba atômica”, completa o doutorando da UFMG.

Foram tantas viagens ao exterior, que o próprio papa Paulo VI, que era amigo de Dom Helder, solicitou que o arcebispo diminuísse o número de palestras internacionais. “O sumo pontífice alegou que o representante da cristandade era o papa e não o colega brasileiro”. Sua forte atuação para divulgar a repressão política no Brasil lhe rendeu nada menos que quatro indicações ao prêmio Nobel da paz – nenhum outro brasileiro teve tantas indicações, mas não o conquistou devido à ação subterrânea de boicote promovida pelo governo militar.
Além disso, recebeu o prêmio Martin Luther King, nos Estados Unidos, e se tornou doutor honoris causa em 32 universidades nacionais e estrangeiras.
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 Assista o documentário sobre Dom Hélder Câmara, arcebispo emérito de Olinda e Recife, morto em 1999. O filme enfoca desde sua participação como figura central da ala progressista da Igreja Católica, na década de 1950, criando a Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB) e o Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), até suas ações durante a ditadura militar

Clique no link abaixo para assistir o documentário: O Santo Rebelde
https://www.youtube.com/watch?v=bvURWRz7jlE&feature=player_detailpage


 

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Dom Helder Câmara nascia há 105 anos

105 anos de nascimento de Dom Helder Câmara - (07/02/1909), o inesquecível arcebispo de Olinda e Recife, que nos deixou em 1999, aos 90 anos.
 
Uma vida iluminada, de realizações extraordinárias, que deixou-se ficar eternizada depois de sua partida. Um profeta do nosso tempo, portador da Boa Nova que chegava aos corações pela verdade com que era propagada. Pronto para lutar por causas verdadeiras e  entregar-se à doçura de ser simples, fácil de ser tocado pelas pessoas, fossem elas do jeito ou origem que fossem... 
Leia o artigo do domtotal.com:




Do domtotal.com:
Por Geovane Saraiva*

Dom Helder Câmara leu, quando Arcebispo de Olinda e Recife, um conjunto de crônicas, no microfone da Rádio Olinda de Pernambuco, intituladas: “Um olhar sobre a cidade”. Trata-se de mensagens da melhor qualidade, mensagens ricas e profundas, assim como foi rica, profunda, intensa, preciosa e de ótima qualidade a vida do pastor dos empobrecidos, humano ao extremo, nascido aos 07 de fevereiro de 1909, na cidade de Fortaleza – Ceará.

Mensagens de amor e de esperança para o seu povo, sua gente muito querida, em primeiro lugar nas cidades de Olinda, Recife e demais cidades de sua então arquidiocese, mas também para o mundo inteiro, porque sua emblemática palavra, por seu significado social, profético e profundamente humano, chegava aos confins do mundo. Mensagens de um pastor que soube amar a todos, mas, sobretudo, seu imenso amor à causa dos empobrecidos, os “sem voz e sem vez”.  "Quem estiver sofrendo, no corpo ou na alma; quem, pobre ou rico, estiver desesperado, terá lugar especial no coração do bispo", dizia ele.

Artífice da paz o foi. E o caminho cristão no campo social orienta-se na linha da não violência ativa, encontrando em Dom Helder Câmara, segundo Pe. João Batista Libânio, falecido no dia 30/01/2014, a figura certa e emblemática de tal via. Daí olharmos para a força desse irmão querido como o homem dos grandes sonhos e utopias: “Quando sonhamos sozinhos é só um sonho; mas quando sonhamos juntos é o início de uma nova realidade”; “Ultrapassa-te a ti mesmo a cada dia, a cada instante... Não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do mundo (...)”.

A Carta aos Hebreus nos assegura: “Nós não temos aqui na terra cidade permanente, estamos à procura da cidade que há de vir” (Hb 13, 14). Hoje a grande maioria da humanidade mora em cidades. Daí o nosso olhar para a cidade e que seja o mesmo olhar do artesão da paz, desejando tirar dela coisas boas e positivas. O mundo é bom e as cidades são boas. Como seria bom viver bem e em harmonia com este mundo, que Deus criou para nós, suas criaturas, na assertiva do próprio Deus: “O que vos peço é que não tireis do mundo, mas livreis do mal” (Jo 17, 15).

Mensagens do Profeta que viveu bem nessa “cidade”, que não é permanente, mas com um grande desejo que todos compreendessem o sentido da vida neste mundo, voltando-se, é claro e evidente, para a outra vida, para a transcendência. Mensagens do “irmão dos pobres” que encarnou o Concílio Vaticano II, quando diz: “Não se encontra nada verdadeiramente humano que não lhes ressoe no coração” (GS, 200).

Nós moramos numa cidade e por vontade do Criador e Pai, a exemplo do Apóstolo dos gentios, de Dom Hélder Câmara e de outros homens de Deus, sonhamos com a cidade do céu, a Jerusalém do Alto. Santo Agostinho, na sua obra, “A cidade de Deus” fala que “dois amores fundaram duas cidades, a saber: O amor próprio, levado ao desprezo a Deus, a terrena e o amor a Deus, levado ao desprezo de si próprio, a celestial”.

Que o aniversário de nascimento de Helder, pequeno na estatura, mas grande e obstinado nos ideais de peregrino da paz, o qual na qualidade de místico e maestria de rara originalidade procurou ser fiel a Jesus de Nazaré, com os pés no chão e no permanente esforço de unir o céu a terra, com os olhos, a mente e o coração fixos e voltados para a cidade lá do alto, que na alegria e na esperança cristã jamais iremos esquecê-lo.

Que ao celebrarmos sua memória, uma vida toda pelos irmãos, produza-nos os melhores frutos, para a maior glória de Deus e o bem do povo brasileiro e da humanidade inteira. Assim seja!
 
* Geovane Saraiva é padre da Arquidiocese de Fortaleza, escritor, membro da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza, da Academia de Letras dos Municípios do Estado Ceará (ALMECE) e Vice-Presidente da Previdência Sacerdotal - Pároco de Santo Afonso. É autor dos livros “O peregrino da Paz”, “Nascido Para as Coisas Maiores”, “A Ternura de um Pastor”, “A Esperança Tem Nome”, "Dom Helder: sonhos e utopias" e "25 Anos sobre Águas Sagradas”.
 

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Há 14 anos, partia Dom Helder


A história do Brasil está recheada de mártires. São eles que, a cada dia, lutam pelos direitos humanos, pela preservação do meio ambiente, pelo fim da opressão e da violência. E suas vidas são o próprio exemplo do ideal que defendem. Poderíamos ficar horas e gastar páginas citando o nome de cada um desses líderes. Mas, hoje, vamos relembrar o exemplo de vida e abnegação de Dom Hélder Câmara.

Quando morreu, em 1999, Dom Helder não era mais arcebispo de Olinda e Recife, posto que ocupou entre 1964 e 1985. Vivia nos fundos da Igreja da Fronteira, na capital pernambucana, cuidando da saúde. Na sexta-feira, dia de sua morte, ele havia passado várias horas ouvindo música. Na hora de dormir, balbuciou o que seriam suas últimas palavras: “Estou voltando à casa do Pai”. Três horas depois, sua vida silenciou.

Nascido na capital cearense, em 1909, entrou para o Seminário aos 14 anos. Oito anos depois foi ordenado sacerdote. Dom Helder foi ainda um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), instituição que reúne os bispos da Igreja Católica no país e tem como objetivo dinamizar missões evangelizadoras.

Irrequieto e revolucionário, sempre atuou na defesa dos pobres e a favor das classes de trabalhadores menos reconhecidas. Foi o fundador da Legião Cearense do Trabalho e criou a Sindicalização Operária Feminina Católica, para defender os interesses de lavadeiras, empregadas domésticas e passadeiras. Também fundou a Cruzada São Sebastião, para atender favelados, e o Banco da Previdência, que atua junto àqueles que estão na faixa de pobreza extrema.

Dom Helder denunciou as torturas a presos políticos no Brasil e foi muito perseguido pela ditadura militar. Chegou a ser ameaçado de morte e teve sua residência, na Igreja das Fronteiras, metralhada. Em maio de 1969, o Padre Henrique Pereira Neto, seu colaborador na Arquidiocese de Olinda e Recife, foi torturado e morto por integrantes da força de repressão. E qualquer menção a Dom Hélder foi proibida nos meios de comunicação durante sete anos (1970-1977).

No entanto, após este período, veio o reconhecimento a todo o trabalho que Dom Helder afetuosamente desprendia aos mais necessitados. Foi o único brasileiro indicado quatro vezes ao Prêmio Nobel da Paz. Foi um homem do tempo da esperança, símbolo da busca por uma melhor qualidade de vida para todos por meio de atitudes pacíficas. 
Em homenagem aos seus 104 anos de seu nascimento e 62 de sua consagração como bispo,  preparamos uma seleção de trechos e mensagens deste grande mártir de nosso tempo. Confira:  
Deus
"Nós temos desfigurado Deus, tornando-O a resposta às nossas ignorâncias, a compensação de nossas impotências, a consolação de nossas angústias, assim como os poderes terrenos se serviram Dele para justificar sua força, suas ambições."
Ser a Igreja
"Vocês me perguntam se não sou por acaso a árvore que esconde a floresta. Mas onde vocês vêem uma floresta de ditadores, de generais, de agressores que esmagam o homem em nome da civilização cristã, de bispos, padre e cristãos que se acumpliciam com eles, ou se mostra indiferentes diante de seus abusos, eu vejo uma floresta de homens e mulheres, de jovens de todas as idades que não aceitam e repudiam uma religião alienada e alienante. Que estão dispostos a dar suas vidas pela causa da liberação dos homens. Eles também são a Igreja.”
Pessoas
"As pessoas te pesam? Não as carregue nos ombros. Leva-as no coração."
Desafios
“Quando os problemas se tornam absurdos, os desafios se tornam apaixonantes.”
Mudança
"Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo."
Egoísmo
"Para além, muito além dos egoísmos individuais, dos egoísmos de classe, dos egoísmos nacionais, é preciso abraçar, sorrir, trabalhar."
"O anti-amor é o egoísmo. É o fechamento em si que torna impossível qualquer encontro com quem quer que seja. Quem pensa e proclama que ama de mais, ama de menos."
"O egoísmo, que não é monopólio individual, nos conduz a tais absurdos que um dia, evidentemente, o homem compreenderá a necessidade de se libertar dele."
Esperança
“Um dos meus anseios de chegar ao infinito é a esperança de que, ao menos lá, as paralelas se encontrem.”
“Esperança é crer na aventura do amor, jogar nos homens, pular no escuro confiando em Deus.”
“Sem arriscar, não vivemos a esperança.”
"Que importa que eu seja uma choupana, se mora em meu barraco a Santíssima Trindade?."
Causa
"O segredo de ser jovem – mesmo quando os anos passam, deixando marcas no corpo – é ter uma causa a que dedicar a vida." 
Palavras
"Os homens gastam-se tanto em palavras que não conseguem entender o silêncio de Deus."
Pessoas racionais
"Tem pena, Senhor, tem carinho especial com as pessoas muito lógicas, muito práticas, muito realistas, que se irritam com quem crê em um cavalinho azul."
Graça
"É graça divina começar bem. Graça maior persistir na caminhada certa. Mas graça das graças é não desistir nunca."
Ajudar
"A maneira de ajudar os outros é provar-lhes que eles são capazes de pensar."
Pobres
"Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista."
Discordar
"Se discordas de mim, tu me enriqueces."
Amor
"O amor é o perfume das almas."
Trabalho
"Nenhum trabalho é indigno nas mãos do homem."
Comunismo
"Jamais tive qualquer esperança numa solução comunista para os problemas que afligem a humanidade. Não creio, porém, que o comunismo seja o perigo número um, pois antes dele estão a miséria e a injustiça, o desespero dos homens, nos quais as ilusórias promessas comunistas mergulham suas raízes."
Agricultura
"A agricultura está se industrializando por toda parte, inclusive no Brasil. Sucede, no entanto, que se tal industrialização é mal conduzida, seus resultados podem ser altamente danosos, criando problemas ecológicos, matando pessoas, deslocando ou eliminando populações inteiras."
Música e dança
"Deus colocou a noção de ritmo no interior dos homens, dos animais, das plantas e até mesmo das pedras. Um homem que anda, um pássaro que voa, uma folha que cai, são prenúncios da dança. No coração do átomo e no balé dos astros, o ritmo e a harmonia foram plantados pelo nosso Criador e Pai. Escutar música e apreciar a dança equivalem a  uma verdadeira prece."
Sociedades multinacionais
"Elas são empresas onde o homem não conta, a não ser pelo que possa produzir."
Política
"A política é uma atividade muito importante. E bem sei que o amor e a justiça, como descritos no Evangelho, não passarão das palavras aos gestos a não ser por meio de opções e atuações políticas."
Ingenuidade
"Não devemos ter medo de passar por ingênuos diante dos sábios e dos especialistas. O que são eles senão ingênuos que se dedicaram ao estudo e à pesquisa?"
Contradição
"Há muito tempo percebi que a contradição ajuda mais que o elogio. Ela encoraja a humildade, sem a qual não se dá um passo no caminho traçado por Nosso Senhor"
Sonhar junto
"Também não devemos ter medo de ser apenas uma gota d’água. É a reunião das gotas que põe em movimento os riachos, os rios, os oceanos. E temos de levar em conta o fato de que as nascentes não reúnem um grande número delas"

Adaptado de Luciano Lopes ( revistaecológico.com.br )