CC: O avanço nos últimos anos é inegável, mas ainda existem 3,4 milhões de brasileiros subalimentados. Segundo especialistas, a fome persiste em comunidades de difícil acesso: indígenas, ribeirinhos, quilombolas, ciganos e população de rua.
TC: Graves problemas estruturais, que afetam milhões de habitantes, demandam medidas de grande impacto. O êxito brasileiro no combate à fome e à pobreza deve-se ao fato de que não optamos por projetos pilotos, modelos customizados, específicos para cada grupo social. Por isso, quando criamos o Bolsa Família, pensamos num programa de abrangência nacional, que não demorasse a trazer resultados no combate à fome e à miséria. Deu certo. Agora, precisamos de ações mais focadas.
CC: Que tipos de ações?
TC: Sabemos, por exemplo, que nos quilombos ainda há muita insegurança alimentar. São comunidades geralmente isoladas, muito fechadas, que não têm acesso a uma grande variedade de alimentos. Isso também gera insegurança alimentar. Os povos ribeirinhos da Amazônia costumam comer sempre peixe e farinha. Alguns chegam a desenvolver doenças pelo consumo excessivo dessa mesma fonte de alimentação. A dieta não é equilibrada. Podem até não passar fome, mas não estão bem alimentados. Em algumas comunidades indígenas, os indicadores de desnutrição são elevadíssimos. Há comunidades muito isoladas, nas quais só chegam os aviões do Exército. Para elas, estamos fazendo políticas específicas. Desenvolvemos estratégias de busca ativa diferenciadas para indígenas, quilombolas e população de rua, na tentativa de incluí-los nos programas sociais do governo federal.
CC: É possível citar alguns exemplos?
TC: Até os formulários desses grupos mais vulneráveis são diferenciados. No caso dos indígenas, registramos a etnia, sua localização exata, todas as informações necessárias para chegar até eles e ver quais são as suas demandas. Dependendo do tamanho da população, criamos um Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) dentro da própria comunidade indígena. Outro exemplo: contratamos assistência técnica específica para quilombolas e indígenas desenvolverem suas culturas tradicionais. Não queremos romper com o desenho cultural dessas comunidades, mas elas também precisam de certo suporte tecnológico para se desenvolver. Precisam de sementes, de equipamentos agrícolas. Ao mesmo tempo, não podemos tratá-los como um agricultor familiar convencional. Não adianta, por exemplo, fazer manejo florestal em reservas extrativistas. Precisamos de soluções adequadas para a forma como eles estão acostumados a garantir a própria sobrevivência.
CC: A FAO também deu muita ênfase ao êxito do Programa Nacional de Alimentação Escolar. Qual é o diferencial dele?
TC: Assim como o Bolsa Família, ele possui escala e grande impacto. Muitas crianças chegavam famintas às escolas, então decidimos distribuir comida a elas. Os estudantes têm acesso a frutas, arroz, feijão, carne, peixe, frango, uma nutrição bastante balanceada. Hoje, a maioria das escolas tem cozinhas para preparar alimentos frescos. Para receber os repasses federais, elas precisam usar um porcentual mínimo do dinheiro para comprar frutas, legumes e hortaliças. Ao menos 30% dos alimentos vêm da agricultura familiar, o que fortalece os pequenos produtores. São políticas simples, abrangentes e com impacto nacional.
CC: Além das ações focadas em grupos específicos, devemos aperfeiçoar as políticas de abrangência nacional?
TC: Podemos melhorar a assistência às mulheres durante a gravidez e às crianças nos primeiros anos de vida. Decidimos aumentar o valor dos benefícios pagos às mulheres do Bolsa Família durante a gestação, para que elas se alimentem melhor. Em contrapartida, elas precisam iniciar o pré-natal mais cedo. A curva é impressionante. Conseguimos antecipar em 60% o número de mulheres que iniciam seu pré-natal antes do quarto mês de gestação. Com isso, diminuímos a incidência de diabetes, de eclampsia, de complicações no parto. Isso é muito importante, porque os danos causados à criança durante a gestação muitas vezes são irreversíveis. Além disso, no Nordeste, decidimos aplicar superdoses de vitamina A ao vacinar as crianças, além de oferecer complementação de sulfato ferroso.
CC: Alguns especialistas se opõem à complementação nutricional com medicação.
TC: Sim, uma parcela expressiva dos especialistas da área de nutrição é contra a medicalização da nutrição. Mas temos uma situação colocada no Norte e Nordeste, e precisamos atuar de alguma forma. Continuaremos na estratégia de melhorar a qualidade da alimentação dessas pessoas, estimular uma dieta mais balanceada. Mas, enquanto o cenário não muda, precisamos intervir. Já temos 9 milhões de crianças vacinadas com megadose de vitamina A, para aumentar a imunidade delas. Se há carência dessa vitamina, a crianças ficam mais vulneráveis a infecções, mais propensas a morrer por tuberculose, pneumonia, asma. Também iniciamos a distribuição de sachês com complementação de nutrientes nas escolas de educação infantil. Decidimos não distribuir diretamente às famílias, porque é mais seguro ter a supervisão de médicos e especialistas nessa complementação.
CC: O País conseguiu superar o drama da fome, mas o brasileiro está engordando muito. Atualmente, metade da população adulta tem sobrepeso e 17,5% é obesa. Como enfrentar o problema?
TC: Primeiro, precisamos contextualizar um pouco essa história. Quando criamos o Bolsa Família, o que se dizia? Que o pobre iria pegar o dinheiro e comprar porcaria. À época, até mesmo especialistas em nutrição manifestaram contrariedade em pagar os benefícios em dinheiro à população. Havia o temor de que a obesidade entre os mais pobres chegasse a patamares superiores à média nacional. Mas isso não se verificou. Eles não têm uma nutrição pior que a dos ricos. O crescimento da obesidade ocorre em todos os segmentos sociais. Precisamos cuidar melhor das merendas escolares, reduzir os teores de sal, gordura e açúcar dos alimentos processados, já temos um pacto com as indústrias do setor nessa direção, além de avançar na discussão de uma regulamentação da publicidade de alimentos dirigidos ao público infantil. O que mais nos preocupa é o crescimento da obesidade e do sobrepeso entre crianças e adolescentes. O problema tende a persistir na vida adulta e trazer graves problemas de saúde.
