terça-feira, 29 de setembro de 2020

A outra história dos 70 anos da TV brasileira, por Ângela Carrato

 Ângela Carrato: A outra história, nada cor de rosa, dos 70 anos da TV brasileira

Roberto Marinho com generais Costa e Silva e João Figueiredo, presidentes da ditadura militar no Brasil, Roquette-Pinto, Assis Chateaubriand e a fachada do TV Excelsior-canal 9, à rua Nestor Pestana, em São Paulo

Ângela Carrato: A outra história, nada cor de rosa, dos 70 anos da TV brasileira



A OUTRA HISTÓRIA DA TV BRASILEIRA

Por Ângela Carrato*, especial para o Viomundo

Uma história pode ser contada de diversas maneiras.

Até o momento, os 70 anos da televisão no Brasil, completados neste mês de setembro, têm sido relembrados pelas emissoras exclusivamente pela ótica dos interesses de seus proprietários e anunciantes.

Ao longo de décadas, esses senhores foram criando uma história cor de rosa, em que pioneirismo e improvisação dão o tom inicial e criatividade e competência complementam a saga.

A TV brasileira, essa “jovem senhora” estaria assim mais do que nunca preparada para enfrentar, se adaptar e seguir em frente, apesar dos desafios colocados pela era digital.

Nada mais distante da realidade.

Tão ou mais importante quanto o desafio tecnológico é a mudança de hábito das pessoas para se informar e ter lazer e a crescente perda de credibilidade dessas emissoras.

A guerra travada entre a Globo e a Record, em que uma acusa a outra de corrupção, é o maior exemplo disso.

A TV brasileira tem também uma longa história de defesa dos interesses das elites nacionais e internacionais, de combate aos avanços sociais e de compactuar com governos ditatoriais e autoritários.

Isso sem falar na criação de “factóides”, os precursores nativos das fake news.


Ao surgir pelas mãos do empresário e “entreguista” de primeira hora, Assis Chateaubriand, a TV Tupi se tornou a primeira, mas não a única, adversária da criação de emissoras não comerciais no Brasil.

Se você não sabe o que é uma TV não comercial (conhecida como TV Pública), a responsabilidade também é do tipo de emissora que tomou conta do Brasil.

A influência da TV comercial foi e continua sendo tão avassaladora que seus proprietários, de Chateaubriand à família Marinho, nunca tiveram dúvidas sobre quem manda no país.

ENTRAVES DEMOCRÁTICOS


Apesar de a TV no Brasil ter surgido praticamente na mesma época que em outros países, o processo de sua implantação foi radicalmente diferente.

Mesmo sendo, como em toda parte, uma concessão do Estado, aqui um empresário tomou a frente do processo, implantou, ao arrepio da lei, uma emissora, a TV Tupi de São Paulo, e, com raríssimas exceções, os demais seguiram na mesma toada.

O resultado é que a televisão no Brasil alcançou um poder tal que nenhum governante ousou enfrentá-lo diretamente.

No chamado mundo civilizado, o Brasil é caso único em que sete famílias controlam a TV e toda a mídia corporativa.


Daí a importância de se conhecer alguns (dos muitos) episódios que envolvem a origem e a trajetória nada edificante da TV comercial brasileira, que tanto pioneiros quanto seus atuais dirigentes preferem que continuem desconhecidos.

Esses fatos explicam as razões pelas quais o país tem, na forma como esses proprietários sempre atuaram, um dos graves entraves à democracia.

Ao contrário das “lendas urbanas” envolvendo o pioneirismo de Chateaubriand, sua paixão pela televisão se deve aos interesses de empresários e do governo dos Estados Unidos em vender aparelhos e divulgar o “way of life” para os países latino-americanos.

Chateaubriand só trouxe a ideia para cá depois da viagem que fez aos Estados Unidos a convite de Washington, em 1943, quando, entre outras atividades visitou os estúdios da NBC, onde lhe foi apresentada a “oitava maravilha do mundo”.

Como em política e nos negócios não há coincidência, ele foi o empresário escolhido pelos estadunidenses para introduzir a novidade no Brasil.

Mesmo o entusiasmo de Chateaubriand sendo imediato, ele foi convencido por empresários e autoridades estadunidenses que deveria aguardar o término da guerra.

Era o que pretendia fazer, mas ao retornar ao Brasil se deparou com uma situação pela qual não esperava.

O HERÓI DESCONHECIDO

Chateaubriand tomou conhecimento de que desde o fim dos anos 1930, Edgard Roquette-Pinto, um renomado médico, antropólogo, cientista, professor e humanista, já perseguia o mesmo objetivo, porém por razões totalmente diferentes.

Definido pelo jornalista e professor emérito da UnB, Murilo César Ramos como “o maior, ainda que o mais desconhecido herói da comunicação brasileira”, Roquette-Pinto, que tinha em seu currículo, desde 1923, a criação da primeira emissora de rádio no país, voltada para a educação e a cultura, planejava colocar no ar uma emissora de TV com igual finalidade.

Já Chateaubriand pensava apenas em ganhar dinheiro e se fortalecer politicamente com o novo meio de comunicação.

A longa biografia que o jornalista Fernando Moraes escreveu sobre Chateaubriand (Chatô, o rei do Brasil, 1994) registra a reunião mantida por ele com empresários paulistas tão logo retornou dos Estados Unidos.

Nela apresenta aos seus futuros parceiros o novo projeto, ao mesmo tempo em que lhes pede apoio (leia-se dinheiro) para viabilizá-lo.

Sua justificativa não poderia ser mais direta: “os nossos inimigos que se preparem. Se só com o rádio e jornais os Diários Associados já tiram o sono deles, imaginem quando tivermos na mão um instrumento mágico como a televisão!”

Na época, Chateaubriand já havia se tornado o principal empresário do setor, proprietário de dezenas de jornais e várias emissoras de rádio. Os “inimigos” em questão eram o presidente Getúlio Vargas e seus apoiadores.

Chateaubriand sempre foi contra o nacionalismo de Vargas e as medidas adotadas por ele em defesa dos interesses populares.

Vargas foi derrubado por um golpe militar em 1945, mas como havia muita chance de voltar ao poder em 1950, como acabou acontecendo, Chateaubriand tinha pressa.

Sua preocupação era a de que, outra vez no poder, Vargas pudesse tomar medidas contra a implantação do que considerava a “sua” emissora.

DESPACHANTE DE LUXO

É dentro desse contexto que Chateaubriand atropela os mais elementares processos legais, desde a compra de equipamentos nos Estados Unidos para montar a emissora, até a chegada contrabandeada dos primeiros 200 receptores de televisão.

O então presidente, Eurico Gaspar Dutra, além de conivente com o processo, funcionou como uma espécie de despachante de luxo para os interesses do empresário.

Dutra e sua secretária estavam entre os primeiros da lista a receberem de presente os receptores contrabandeados.

O presidente, inclusive, não se fez de rogado. Instalou o seu no gabinete do Palácio do Catete, mesmo que o sinal ainda demorasse quase um ano para chegar à capital da República.

Em 14 de maio de 1952, com as TVs Tupi, de São Paulo e do Rio, já em funcionamento, Getúlio Vargas concedeu um canal de televisão a Roquette-Pinto. O objetivo era pluralizar o número de emissoras na capital federal.

O que seria um fato normal acabou se transformando em pesadelo para Roquette-Pinto, seus principais auxiliares e para o próprio Getúlio.

Apesar de planejada nos mínimos detalhes, de possuir financiamento devidamente aprovado pela Câmara Municipal do Distrito Federal e dos seus equipamentos terem sido comprados e embarcados no porto de Nova York, de onde deveriam seguir para o Brasil, eles nunca saíram de lá.

Num dos episódios mais obscuros envolvendo os primeiros tempos da TV em nosso país, entraves burocráticos retiveram esses equipamentos em Nova York.

O financiamento foi cancelado tão logo os adversários de Vargas chegaram ao poder e Roquette-Pinto morreria amargurado, dois meses após o suicídio de Vargas.

Na raiz dos entraves que impediram os equipamentos de deixar o porto de Nova York se encontravam os muitos amigos que Chateaubriand possuía nos Estados Unidos.

“MINHA REDE CONTRA SEU GOVERNO”

Não foi essa a única vez que Chateaubriand se interpôs no caminho da TV não comercial.

Desde os anos 1940 que a Rádio Nacional, emissora do governo federal, era líder de audiência no país.

Além de noticiários transmitidos para o Brasil e o mundo (em português, espanhol e inglês), a emissora contava com uma vasta programação musical, de entretenimento – foi pioneira nas radionovelas – e também levava ao ar uma programação educativa diária.

A população brasileira adorava a Rádio Nacional e ela tinha ainda outra vantagem: era lucrativa.

Seus balanços mostravam que as finanças iam de vento em popa, a ponto de seus dirigentes, com a chegada da televisão, passarem a reivindicar do governo a concessão de um canal.

Juscelino Kubitschek, eleito presidente da República em 1955, comprometeu-se com a reivindicação. Era mais do que natural que a emissora, líder de audiência e estatal, tivesse um canal de televisão.

O compromisso de JK parecia tão firme, que a direção da Rádio Nacional anunciou, no natal de 1956, que dentro de poucos meses entraria no ar a TV Nacional. Mas quem entrou em ação nesse meio tempo foi Chateaubriand.

Aproveitando uma das viagens que fez com JK, o dono dos Diários Associados tentou convencer o presidente de que não fazia sentido dar um canal de TV para a Rádio Nacional.

Como Juscelino insistisse que havia empenhado a palavra, Chateaubriand não se fez de rogado.

O ator e escritor Mário Lago que, por vários anos, atuou na Rádio Nacional, registra em seu livro de memórias (“Na Rolança do tempo”, 1977) a ameaça direta feita por Chateaubriand a JK:

“Se vossa Exma der o canal de televisão à Nacional, jogo toda a minha rede de rádio, imprensa e televisão contra o seu governo”.

Em julho de 1957, numa atitude que surpreendeu a direção da Rádio Nacional, Juscelino anuncia a concessão de um canal de TV para a Rádio Globo.

Para não desagradar Chateaubriand, o presidente optou por contemplar um tercius, no caso um empresário que não demoraria a despontar como o novo magnata da mídia brasileira: Roberto Marinho.

A PRIMEIRA VÍTIMA

Por ironia do destino, o canal que poderia ter sido a primeira emissora de interesse público no Brasil veio se tornar, em 1965, a TV Globo.

E foi a TV Globo que, em parceria ilegal com o gigante da mídia estadunidense de então Time-Life, burlou a legislação nacional e deu início à escalada para suplantar a concorrência.

A primeira vítima foi exatamente os Diários Associados, de Chateaubriand.

Num episódio que está descrito e documentado em detalhes por Daniel Herz, no livro “A História Secreta da Rede Globo” (2009), Roberto Marinho recebeu financiamento e assessoria técnica para implantar e turbinar a sua emissora.

Tem início aí o propalado “Padrão Globo de Qualidade”, que nada mais foi do que uma parceria vedada pela legislação brasileira. Em outras palavras, um crime.

Chateaubriand e seus principais auxiliares botaram a boca no trombone.

Denunciaram a falcatrua aos quatro ventos, a ponto de o Congresso Nacional criar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar o caso.

Presidida por Saturnino Braga, a CPI concluiu que houve realmente violação da lei.

Apesar dos consistentes resultados, o segundo ocupante do ciclo ditatorial, general Costa e Silva, pouco antes do AVC que o levaria à morte, em 1969, decidiu arquivar o processo.

Em outras palavras, a TV Globo passava a ter essa dívida com os militares.

Dívida que foi paga através de uma espécie de parceria em que a emissora de Roberto Marinho divulgava as informações de interesse dos militares e eles apoiaram o seu crescimento.

Como se sabe, a TV Globo só pôde lançar o primeiro telejornal nacional em rede, porque os militares dotaram o país de micro-ondas e passaram a investir pesadamente na emissora.

A PERSEGUIÇÃO À TV EXCELSIOR

A parceria entre Globo e militares também está na raiz dos problemas que a TV Excelsior passou a enfrentar.

Criada em 1960, ela tinha na valorização do Brasil e dos temas brasileiros a sua marca registrada.

Nada mais longe dos interesses dos militares e de Roberto Marinho. Ambos queriam distância de tudo que lembrasse os governos desenvolvimentistas de Vargas a João Goulart.

De propriedade do empresário Mário Wallace Simonsen, dono da Panair, empresa de aviação, e também da Comal, exportadora de café, entre outros empreendimentos, a TV Excelsior tinha como objetivo colocar o Brasil na telinha.

E isso foi feito através de shows musicais, entrevistas e da primeira telenovela diária brasileira, 2-5499.

O nome fazia referência ao telefone, uma novidade que começava a se popularizar no país.

A TV Excelsior pôs no ar tudo o que vemos ainda hoje, especialmente na TV Globo.

O respeito aos horários e à duração prevista para os programas começaram com ela. Em razão disso, em menos de um ano já era líder de audiência na capital paulista.

Depois de servir como exemplo à concorrência com sua programação arrojada e de qualidade artística e técnica, a TV Excelsior começou a passar por problemas administrativos e financeiros, motivados pela pressão dos militares sobre Simonsen.

As dificuldades se avolumaram de tal forma que a emissora teve a concessão cassada em 1970, pelo general Emílio Garrastazu Médici, o terceiro ocupante da presidência da República, após o golpe de 1964.

Não há dúvidas de que Simonsen, um empresário nacionalista e amigo de Goulart, foi alvo de perseguição política, que atingiu não só a ele, mas também às suas empresas.

Novamente a principal beneficiada foi a Globo, que “herdou” parte da equipe técnica, dos artistas e atores da Excelsior, a exemplo de Francisco Cuoco e Tônia Carrero.

Herdou, principalmente, o espaço vazio deixado pelas concorrentes, primeiro pela própria Excelsior, e depois pela TV Tupi, cuja concessão foi também cassada pela ditadura em 1980.

Antes disso, a TV Tupi amargou uma década de problemas. À notória má gestão, uma das marcas registradas de Chateaubriand e continuada por seus auxiliares, se somou o desinteresses dos novos donos do poder.

E o motivo era um só: após a morte de Chateaubriand, os militares não queriam na mídia ninguém que pudesse lhes criar problemas.

Nos círculos de poder da época, eram conhecidas as pressões e chantagens com que Chateaubriand sempre agiu em relação aos governos civis.

FILÃO PRECIOSO

Um pouco antes disso, em 1965, a ala militar nacionalista (na época ela ainda existia), conseguiu destinar 48 canais de VHF e 50 de UHF para a educação.

Em parte, o sonho de Roquette-Pinto poderia ter sido resgatado, se os empresários da mídia comercial não tivessem agido rápido para neutralizar a medida.

É assim que surge o decreto 236, de 1967, que determina que as TVs Educativas exibissem apenas aulas e a proibia que contassem com inserções publicitárias. Medidas que prevalecem até hoje e estão na raiz da fragilidade dessas emissoras.

Como a educação era e continua sendo um filão precioso aos olhos dos empresários da mídia, no início da década de 1980, quando os militares ainda davam as cartas, Roberto Marinho tentou se apoderar dele.

Através de um convênio de cooperação técnica entre a Secretaria de Planejamento da Presidência da República, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a Universidade de Brasília (UnB), a Fundação Roberto Marinho fez de tudo para se tornar a dona da educação à distância no Brasil.

Aparentemente, o Projeto Global de Teleducação, como ficou conhecido, possuía objetivos nobres, ao propor ensinar à distância diversos níveis e setores da sociedade.

Na prática, o projeto visava apenas se valer de dinheiro público e das facilidades de uma fundação pública, para importar equipamentos, construir e manter a custo zero estúdios de TV e se tornar a principal produtora de séries e programas educativos a serem exibidos pela própria Globo.

Depois de muita polêmica e uma troca pública de acusações entre as Organizações Globo e o jornal Folha de S. Paulo, o convênio foi encerrado em 1984.

“O POVO NÃO É BOBO”

O Brasil passava a viver os ventos da redemocratização.

A Globo começava a ser criticada nas ruas e nas praças públicas.

É dessa época o famoso slogan “O povo não é bobo, abaixo a rede Globo”, em alusão ao apoio que deu aos militares e à tentativa de encobrir os comícios em defesa das eleições diretas, que reuniam milhares de pessoas nas mais diversas capitais brasileiras.

Apesar da Constituição de 1988 prever, no capitulo V, artigos 220 a 223, que é vedado o monopólio da mídia e que a comunicação deve se pautar por três tipos de emissoras – públicas, comerciais e estatais – isso só começou a sair do papel em 2007. Mesmo assim de forma muito tímida.

A criação da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), com seus dois braços, estatal e público, é uma das razões do ódio que os donos da mídia comercial, Marinhos à frente, passaram a nutrir contra o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o seu partido, o PT.

Os governos petistas, no entanto, nunca colocaram em prática, por exemplo, a proibição à propriedade cruzada na mídia, um dispositivo em vigor nos países europeus e nos Estados Unidos desde os anos 1950.

Por ele, uma empresa de mídia não pode ter mais de um veículo na mesma cidade.

É por isso que em Nova York não existe a TV New YorK Times.

E é por isso que no Rio de Janeiro todos os veículos de comunicação pertencem ao Grupo Globo.

Não é por acaso que uma das primeiras medidas de Michel Temer, ao chegar ao Palácio do Planalto, foi dar início ao desmonte da TV Brasil. Processo que Bolsonaro pretende concluir ao privatizá-la.

BANDEIRA BRANCA

Se a década de 1990 já havia propiciado muitas mudanças no cenário televisivo brasileiro, a seguinte começa com a farra na distribuição por Fernando Henrique Cardoso e de seu ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, de mais 200 canais educativos.

Através do decreto 3.541/2000, ex-políticos, “laranjas” de políticos e religiosos, sobretudo neopentecostais, se tornam concessionários de TVs.

É assim que os primeiros anos do novo século se tornam palco, no Brasil, de mais uma batalha entre os interesses populares e o dos donos da mídia.

Batalha que culminou em 2016 com a participação direta deles, irmãos Marinho à frente, na derrubada da presidente Dilma Rousseff.

São igualmente vários os estudos que apontam como a TV Globo, ao longo de sua existência, tem agido como um verdadeiro partido politico na defesa dos interesses das elites conservadoras brasileiras.

A novidade, agora, é a família Marinho, que foi fundamental para Bolsonaro chegar ao poder – mesmo que ele não fosse o candidato dos seus sonhos – passar a ser combatida abertamente por ele.

Depois de alguns meses em que, apenas pontualmente, fizeram críticas a Bolsonaro e filhos, sempre com o cuidado de preservar e apoiar a agenda ultraliberal do ministro Paulo Guedes, os irmãos Marinho dão mostras de que querem estender a bandeira branca.

FORA DA TV

Resta saber se isso será possível. Na trilha dos militares mais duros de 1964, Bolsonaro não quer compartilhar o poder. Nesse quesito, a TV Record, do empresário e bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo, lhe é mais conveniente.

Quanto ao SBT, de Sílvio Santos, Bolsonaro acredita que com a nomeação de seu genro, o deputado Fábio Faria, para o recriado ministério das Comunicações, possíveis problemas estejam solucionados.

As mortes de mais de 140 mil pessoas por covid-19, o retorno da fome e da miséria, o desmonte do serviço público, a venda a preço de banana do patrimônio nacional e metade da população sem trabalho são fatos que confrontam e desmentem a história cor de rosa que os donos da mídia tentam contar sobre o país, suas empresas e eles próprios.

Por tudo isso, a principal certeza nesses 70 anos de televisão no Brasil é que democratizar a mídia se torna, mais do que nunca, uma pauta essencial.

Sem mídia pública e com a mídia comercial desregulada, o país permanecerá sujeito às turbulências políticas e golpes que marcam a nossa história.

E o Brasil real continuará não passando na TV.

*Ângela Carrato é jornalista e professora do Departamento de Comunicação da UFMG. É  autora da tese “Uma história da TV Pública brasileira”, defendida na UnB, em 2013. Muito do que ela cita no texto acima está descrito em detalhes na tese.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

‘Hipócrita’, discurso de Bolsonaro na ONU culpa vítimas do agronegócio e da mineração

 

Mandatário chegou a dizer que auxílio emergencial é de mil dólares

“É difícil até falar sobre isso, porque é chocante”, diz professora da Uerj. “A fala revela um individuo frio e mentiroso contumaz”, afirma indigenista

São Paulo – O discurso “hipócrita” com o qual o presidente Jair Bolsonaro abriu, nesta terça-feira (22), a 75ª Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), parece ter sido feito para o público interno do Brasil, seus eleitores. E não para outros chefes de Estado e atores externos, como se espera na ONU”. A opinião é da professora Miriam Gomes Saraiva, do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). “Parece um discurso para depois tirar um pedaço e colocar num blog qualquer. Para efeitos externos, o impacto é muito ruim, até porque, no que diz respeito a meio ambiente e pandemia, basta qualquer chefe de governo perguntar a seu embaixador no Brasil.”

Para a professora, o discurso “hipócrita” de Bolsonaro na ONU é “desconcertante”. “É difícil até falar sobre isso, porque é chocante. Os militares, no passado, tentavam falar do desenvolvimento da Amazônia, com Transamazônica, Zona Franca, uma série de itens que, embora predatórios, até são apontados como desenvolvimento. Mas, Bolsonaro, nem isso defende. Ele mente, simplesmente. Não defende qualquer coisa que seja.”

Pandemia

No discurso, o chefe de Estado do maior país da América do Sul afirmou: “Como aconteceu em grande parte do mundo,  parcela da imprensa brasileira também politizou o vírus (causador da covid-19), disseminando o pânico entre a população, sob o lema ‘fique em casa e a economia a gente vê depois’”. Segundo ele, “quase trouxeram o caos social ao país”.

Indiferente à tragédia ambiental que se abate sobre a Amazônia e o Pantanal, Bolsonaro afirmou que os incêndios na floresta ocorrem “onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência”, e que no Mato Grosso a causa é a “alta temperatura”.

Ele disse ainda que o auxílio emergencial pago no Brasil aos mais carentes no contexto da pandemia é de mil dólares. O valor do benefício, R$ 600, em valores de hoje, não chega a 110 dólares, e as quatro últimas parcelas, de R$ 300, serão de R$ 55.

“A fala revela um individuo frio e mentiroso contumaz. É um discurso extremamente  injusto, agressivo, que culpa as vítimas das invasões (as terras indígenas) e encobre a culpa dos responsáveis pelas agressões aos povos originários, seus direitos, suas formas de existência, ao meio ambiente e às florestas no Brasil, diz Cleber Buzatto, secretário-adjunto do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). “Repudiamos de forma absoluta essa tentativa desastrosa do presidente Bolsonaro de responsabilizar os povos originários por aquilo de que estão sendo vítimas, os interesses do agronegócio e da mineração, que ele tenta proteger”, acrescenta.

Causas econômicas

A única alternativa aos países que se preocupam com o meio ambiente, os direitos humanos e dos povos originários é parar de comprar produtos de origem mineral e agrícola do Brasil, acredita Buzatto. “Enquanto houver demanda haverá violência e agressão por parte desses setores e a proteção a eles por parte do governo Bolsonaro.”

Na opinião de Gilberto Maringoni, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), nesta sua segunda aparição na Assembleia Geral da ONU, Bolsonaro se manifestou em tom mais moderado do que em 2019. No ano passado, ele ainda representava uma novidade na cena internacional, cenário em que o presidente Donald “Trump surfava em popularidade”.

Em 2019, Bolsonaro afirmou que assumiu um país “à beira do socialismo” e fez referência ao programa Mais Médicos. Citou o programa implantado no primeiro mandato de Dilma Rousseff, como “um acordo entre o governo petista e a ditadura cubana”. Para Maringoni, ante a provável derrota de Trump para Joe Biden nas eleições americanas, Bolsonaro adotou um discurso mais moderado.

O lado “hipócrita” de Bolsonaro na ONU foi exposto também ao mencionar o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia (UE) e com a Associação Europeia de Livre Comércio. “Esses acordos possuem importantes cláusulas que reforçam nossos compromissos com a proteção ambiental”, disse. Na realidade, o acordo está em xeque na Europa exatamente devido à “política” ambiental de seu governo no Brasil.

Pressões europeias

As pressões sociais contra o acordo são crescentes na Europa. Na sexta-feira (18), o governo francês se pronunciou de maneira veemente contra o acordo comercial entre a UE e o Mercosul. O acordo ainda não foi ratificado, devido aos graves problemas ambientais nos países do bloco sul-americano, Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. No ano passado, o presidente liberou, com o Decreto nº 10.084, o plantio da cana na Amazônia, no Pantanal e na Bacia do Alto Paraguai. Leia o decreto aqui.

Mas Bolsonaro continua tentando capitalizar o acordo ainda não finalizado, que interessa mais ao capitalismo europeu do que, por exemplo, à indústria dos países sul-americanos. “O mais provável é que ele continue repetindo isso, que conseguiu a assinatura do acordo. É possível que seja ratificado em algum momento, inclusive depois do fim do governo Bolsonaro”, avalia Miriam Gomes Saraiva.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

NASCE A TV BRASILEIRA: HÁ 70 ANOS, ACONTECIA A ESTREIA DA TV TUPI

 

Há 67 anos, a TV brasileira nascia com a estreia da TV Tupi

Indiozinho símbolo da TV Tupi (reprodução)

Tv Tupi – Primeira emissora de TV do Brasil, inaugurada em 18 de setembro de 1950 em São Paulo. 

Logo depois vieram a TV Tupi Rio, a TV Itacolomi (Belo Horizonte), a TV Brasília e outras que acabaram por formar a rede. 

A TV Tupi fazia parte do grupo Diários Associados, do empresário e jornalista Chateaubriand, conhecido como Chatô. 

Foi o maior conglomerado de mídia da América Latina que, em seu auge, contou com mais de cem jornais, emissoras de rádio e TV, revistas e agência telegráfica.

 Na época, os estúdios da TV Tupi eram pequenos e os equipamentos, simples, mas nada disso impactou negativamente no lançamento da TV cujo logotipo era um índio Tupiniquim. 

Em 1980, faltando apenas dois meses antes de completar 30 anos no ar, a TV Tupi foi cassada pelo governo federal, devido a vários problemas administrativos e financeiros. O ativo da emissora foi dividido entre o Grupo Silvio Santos, (que controla o SBT), o Grupo Abril e o Grupo Bloch (Rede Manchete).


NASCE A TV BRASILEIRA: HÁ 70 ANOS, ACONTECIA A ESTREIA DA TV TUPI

Em 1950, a rede pioneira teve que improvisar tudo no dia do lançamento – e deixou um legado importante na História do Brasil

ÉRICA GEORGINO 

Bastidores da TV Tupi - Wikimedia Commons
Bastidores da TV Tupi - Wikimedia Commons

Numa visita aos escritórios da Radio Corporation of America (RCA Victor), em Nova York, em 1944, o jornalista e empresário Francisco de Assis Chateaubriand se deteve, intrigado, diante de um estranho equipamento. Nunca havia visto nada parecido em três décadas à frente dos Diários e Emissoras Associados, então o maior grupo de comunicação do Brasil.

No salão onde eram expostas as novidades tecnológicas do setor, ele perguntou ao presidente da empresa, David Sarnoff, o que era aquilo. "É uma câmera de televisão. Falo de imagem eletrônica." Na época, apenas Estados Unidos, Inglaterra e França tinham emissoras de TV. Imediatamente, Chatô, como era apelidado, quis encomendar os equipamentos para formar a dele.

"No Brasil? Isso não vai funcionar. Por que não investe em novos recursos para as suas rádios?", afirmou Sarnoff. A descrença do americano só serviu para motivar ainda mais o jornalista. Cinco anos depois, nas instalações da Rádio Difusora de São Paulo, no bairro paulistano do Sumaré, Chatô tirou giz e trena do bolso e definiu as áreas que seriam reformadas para abrigar a primeira emissora do Brasil (e, por pouco, não da América Latina - a XHTV do México estreou um mês antes).

A TV Tupi já tinha o nome nativista. Chateaubriand se dizia admirador dos habitantes originais do Brasil. O passo seguinte foi organizar a equipe. A maioria dos artistas veio do rádio e de grupos teatrais. Sem poder gravar e editar as apresentações (o videoteipe seria implantado uma década mais tarde), no início, a televisão emprestaria do teatro a dinâmica do trabalho ao vivo com muita improvisação.

A migração de profissionais foi um movimento natural. "Meu contrato especificava que eu era apresentadora da rádio. Quando surgiu a televisão, pegamos o papel e anotamos por cima - e também da TV Tupi", afirma Vida Alves, atriz, redatora e diretora. Com ela, despontaram outros entusiastas da nova mídia. Eram roteiristas e diretores, como Walter George Durst, Walter Foster e José Bonifácio de Oliveira Sobrinho. "Ganhamos um brinquedo e começamos a brincar", dizia o radialista Cassiano Gabus Mendes. Aos 23 anos, ele foi contratado como diretor artístico da emissora e comandou a esperada estreia.

Chateaubriand discursando nas câmeras da emissora / Crédito: Wikimedia Commons

 

A expectativa era tão grande que ninguém pensou em um detalhe. Algumas semanas antes da inauguração, marcada para 18 de setembro de 1950, o engenheiro Walther Obermüller, diretor da rede americana NBC, veio ao Brasil para acompanhar os acertos finais do projeto. Logo quis saber qual era a quantidade de aparelhos de televisão vendidos para estimar a audiência potencial - a transmissão podia alcançar até 100 km a partir de São Paulo.

Atônito, viu a equipe técnica se entreolhar assustada: não é que ninguém havia pensado nisso ainda? "Doutor Assis, o senhor está investindo 5 milhões de dólares na TV Tupi (equivalentes a mais 80 milhões de dólares atuais) e sabe quantas pessoas vão assistir à sua programação a partir do dia 18? Zero. Sim: zero, ninguém", disse o engenheiro ao jornalista, segundo Fernando Morais escreveu em Chatô - O Rei do Brasil. No ato, Chatô quis importar os aparelhos dos EUA. Mesmo em caráter de urgência, os trâmites burocráticos permitiriam que a carga chegasse à cidade só dali a dois meses. Sem se dar por vencido, recorreu ao contrabando para trazer 200 receptores.

E amanhã, companheiros?

Após a cerimônia de estreia, transcorrida na data marcada, produtores e artistas foram comemorar na Cantina do Romeu, na rua Pamplona. A certa altura dos brindes, Gabus Mendes comentou com os colegas:"E amanhã? Não temos nada para colocar no ar amanhã!" A receita da equipe era, definitivamente, pioneirismo e improvisação.

Havia um consenso de que a TV Tupi não possuía funcionários, mas era formada por "companheiros", crença que levava todos a driblar a limitação de dinheiro, a tecnologia incipiente e a inexperiência diante do novo veículo. Uma das primeiras tarefas que tiveram de aprender foi criar e produzir atrações que preenchessem o período das 20 às 23 horas, faixa em que a emissora permanecia no ar em seus primeiros tempos de vida.

Os grandes sucessos não tardaram a chegar. Estão entre eles o humorístico Rancho Alegre, com Mazzaroppi, o Grande Teatro Tupi, de peças televisionadas, o jornalístico Repórter Esso, "testemunha ocular da história", O Céu É o Limite, programa de perguntas e respostas comandado por Aurélio Campos, autor do bordão "Absolutamente certo!", e a TV de Vanguarda, celeiro de atores e diretores (uma série de adaptações de textos clássicos dos mais variados, de Guimarães Rosa a Shakespeare).

Quase balzaquiana



As primeiras transmissões eram realizadas ao vivo

 

"Onde houver um receptor de TV, há sempre presente a imagem de um canal Associado" era o slogan da TV Tupi nos anos 1960. Após o debut, as emissoras do grupo se espalharam pelo país. A televisão passou a integrar a vida nacional e atrair anunciantes. Alguns anos antes de morrer, em 1968, Chatô optou por dar continuidade aos Diários e Emissoras Associadas por meio de um "condomínio" de administradores: 22 pessoas.

As finanças do grupo, que já não iam bem, pioraram. Aos poucos, profissionais e patrocinadores migraram para a concorrência - TV Record (inaugurada em 1953), Globo (1965) e Bandeirantes (1967). Ao longo dos anos 1970, na tela da Tupi ainda brilharam novelas como A Viagem (1976). Em 1980, os atrasos salariais motivaram uma greve de 2 mil funcionários. Não à toa, a trama Como Salvar Meu Casamento era chamada internamente de "Como Salvar Meu Pagamento".

Com a crise, o governo Figueiredo não renovou a concessão e, em 18 de julho de 1980, antes dos 30 anos, a Tupi saiu do ar. Equipamentos foram desmontados e lacrados, em meio ao choro de antigos funcionários. Parte das emissoras da rede foi dividida entre os grupos Sílvio Santos, que criou a TVS (depois SBT), em 1981, e Bloch Editores, que fundou a Rede Manchete, em 1983.

As novelas sugiram na sequência, como uma tentativa do diretor Walter Foster de cativar o público feminino. A primeira, Sua Vida Me Pertence (1951), ensaiava um trio amoroso, com o próprio diretor como galã, a atriz Lia de Aguiar no papel da mocinha e Vida Alves interpretando a "outra". Os personagens de Foster e Vida Alves ficariam juntos ao fim da trama, união selada pelo primeiro beijo da televisão nacional. "A novela precisava ter um plus, e foi aí que Foster surgiu com a ideia do beijo. Eu precisei falar com meu marido. Já o Foster ficou com uma tarefa mais difícil: convencer toda a diretoria da emissora", afirma Vida.

Bom, mas havia programas mais comportados também. Em 1952, Gabus Mendes decidiu apostar no público infanto-juvenil e procurou o Teatro Escola de São Paulo, dirigido pelo psiquiatra e educador Júlio Gouveia e por sua mulher, Tatiana Belinky. A dupla começou com Fábulas Animadas, um enorme sucesso de montagem de histórias da literatura universal.

Depois, o público exigiu um programa de prosas brasileiras, ao que a dupla atendeu com uma encenação de O Sítio do Pica-pau Amarelo, de Monteiro Lobato. Ao término da primeira apresentação, os telefones da emissora não paravam de tocar - todos queriam saber quais seriam os capítulos seguintes. Por 13 anos, O Sítio permaneceu no ar na TV Tupi. "Eu escrevia os roteiros e o Júlio dirigia. Escrevia de madrugada porque nos ocupávamos o dia inteiro. Mas era trabalhar entre aspas porque não nos cansávamos: vivíamos uma época de gente agitada, curiosa, que amava o que fazia", diz Tatiana, autora de obras infanto-juvenis do Brasil.

Fotos: saopauloantiga.com


Assim, a emissora indicou caminhos para a produção televisiva brasileira. A rede de Chatô inaugurou também as transmissões em cores no país, a partir de 1972. "Muito da história da TV Tupi é o pioneirismo, movido pelo espírito aventureiro de Assis Chateaubriand. Mas o veículo ganhou corpo bem mais tarde, com a popularização dos aparelhos", diz o jornalista Eugênio Bucci, professor da Escola de Comunicação e Artes da USP. "A televisão brasileira é uma das que mais exibem, produzem e exportam programas no mundo. E existe muito conteúdo de qualidade nesse meio."



quinta-feira, 17 de setembro de 2020

O " Grande sertão " é o grande mistério da vida, por Marcos Alvito

 Prof. Marcos Alvito, no curso " Clube de leitura Grande sertão: veredas " :

Por que Grande sertão: veredas se chama assim?

 A primeira pista está nos dois pontos. Deve ser lido de forma pausada, feito samba, com breque. " Grande sertão".................." veredas". 

 Como o próprio Riobaldo explica:

 "Eu queria decifrar as coisas que são importantes. E estou contando não é uma vida de sertanejo, seja se for jagunço, mas a matérias vertente. "

 Ou seja, ele diz claramente que não é uma narrativa de fatos e sim uma reflexão, um conjunto de indagações.

 E para confirmar esta hipótese ele diz logo no parágrafo seguinte de forma ainda mais explícita:

 "Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só uma raríssimas pessoas - e essas poucas veredas, veredazinhas. O que muito lhe agradeço é a sua fineza de atenção. " 


 O " Grande sertão " é o grande mistério da vida, da natureza, dos homens. O grande deserto da falta de sentido que, feito o Liso do Sussuarão, todos nós precisamos ter muita coragem para atravessar. E o que alguns pouco sabem disso são apenas algumas veredinhas, que são caminhos, mas em Minas também são cursos dágua, isto é, representam a oposição entre a aridez da nossa ignorância e a vida e a alegria que a água ( e o conhecimento) nós trazem.

 Por isso: Grande sertão: veredas.

 (Prof. Marcos Alvito, no curso Clube de leitura Grande Sertão: Veredas)



terça-feira, 1 de setembro de 2020

Acordão-despedida faz Dallagnol sair de fininho

 Depois de várias ilegalidades Dallagnol sai de fininho

 ACORDÃO-DESPEDIDA

 por Ricardo Cappelli 

O emérito Conselho Nacional do Ministério Público arquivou as inúmeras representações contra o procurador-chefe da Lava Jato em Curitiba. 

Algumas semanas depois, Deltan Dallagnol pediu o afastamento da função. Coincidência? Tudo indica que foi um belo acordão, feito por gente profissional, daqueles de causar inveja em Eduardo Cunha. Tentaram esconder uma anta debaixo do tapete da sala. Ninguém percebeu? 

Momentos excepcionais são pródigos em produzir figuras caricatas, patéticas. Costumam conduzir ao estrelato efêmero tipos medíocres, sem nenhum preparo intelectual, insignificantes abestalhados pelas luzes das câmeras.

O roteiro é sempre o mesmo. Quando perdem a serventia saem enxotados pela porta dos fundos. 

Rodrigo Janot, o mentor e criador desta excrescência, acabou sua carreira num boteco “fantasiado de Charles Bronson”. Foi fotografado “escondido” atrás de um engradado de cerveja conspirando com o advogado da JBS. Não satisfeito, resolveu lacrar sua sepultura com um dos “livros-suicidas” mais ridículos já produzidos no país. 

Deltan parece ter dosado mais sua “embriaguez midiática”. Mas deve ter sido duro para um personagem tão vaidoso, uma espécie de “Robin da refundação da República”, ver a luz se apagando e o diretor dispensando-o do set de gravações. 

O dia da apresentação do PowerPoint entrou para a história como o dia da vergonha do Ministério Público Federal. Uma peça abjeta, nojenta, um panfleto odioso produzido por políticos, por ativistas ideológicos travestidos de representantes de uma instituição de Estado. Provas? Há inúmeras contra Dallagnol e sua trupe. Contra Lula, goste-se ou não do ex-presidente, apenas infâmias que envergonham dez entre dez juristas renomados.

 É impressionante que o “órgão de controle” do ministério público não tenha visto o outdoor pago pelos “intocáveis de Curitiba”. Verdadeiros fariseus impunes disfarçados de justiceiros mequetrefes. 

Por que a corporação não regula e pune os seus? Corporações defendem os direitos das corporações, os interesses das corporações e, no limite, protegem com a “aposentadoria discreta” a corporação. Por mais que Augusto Aras quisesse o fígado de Dallagnol, como ficaria a imagem dos “colegas” se punissem o famoso “Torquemada”? O desfecho não chega a ser uma novidade. A CIA cansou de usar criminosos e oportunistas como operadores de suas ações na América Latina. 

Ao final, limpar a sujeira faz parte do script. Com o “grand finale”, Dallagnol se junta a Janot e Moro, o trio que demoliu a política nacional, destruiu nossa economia e conduziu ao Palácio do Planalto o obscurantismo miliciano. Sonharam com o glamour e acabaram enxotados pelos cães da extrema-direita. Vamos combinar, não é para qualquer um.l