quinta-feira, 12 de outubro de 2017

BOLSONARO, O "POPULISTA" DA ELITE

Outras Palavras:


BOLSONARO, O "POPULISTA" DA ELITE
Democracia? A oligarquia financeira volta-se para o candidato favorável ao fechamento do Congresso e à tortura Que cenário torna isso possível? Como reagir?
Por Antonio Martins
Vídeo: Gabriela Leite

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Bolsonaro, o “populista” da elite - YouTube

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12 horas atrás - Vídeo enviado por Outras Palavras
Democracia? A oligarquia financeira volta-se para o candidato favorável ao fechamento do Congresso e à ...

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

PF NEGOU DIREITO DE APOIO ESPIRITUAL AO REITOR

Jornalistas Livres:



Padres denunciam:
PF NEGOU DIREITO DE APOIO ESPIRITUAL AO REITOR SUICIDADO

Ao celebrar missa em homenagem ao reitor Luiz Carlos Cancellier hoje pela manhã, no Templo Ecumênico da UFSC, o padre William Barbosa Vianna fez uma denúncia espantosa: ele e outro religioso foram impedidos ao menos quatro vezes pela Polícia Federal de oferecer apoio ao reitor, que foi preso, algemado nu, submetido a exame interno vexatório e encarcerado sem processo judicial. Segundo o padre, a Polícia Federal também proibiu a Pastoral Carcerária de visitá-lo no dia da prisão, em 14 de setembro.

Nos dias seguintes, quando a prisão de Cao Cancellier foi relaxada, mas a juíza responsável o manteve exilado da universidade e recolhido em reclusão domiciliar noturna, os padres novamente tentaram socorrê-lo, conta Vianna. Sabiam do seu abalo emocional, mas novamente não obtiveram permissão para visitá-lo. "É preciso lembrar que o direito à assistência religiosa é garantido pelo artigo V da Constituição", afirmou o pároco, assessor da Pastoral Universitária da UFSC, fazendo uma revelação que assombrou a própria família do reitor, levado ao suicídio após vergonhoso processo de linchamento moral pela chamada Operação Ouvidos Moucos. Até então, sabia-se apenas que o dirigente máximo da UFSC estava privado do apoio de amigos, principalmente de pessoas de sua convivência na gestão da universidade. O pároco leu para o público o artigo V da Constituição, inciso VII: "É assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva".

As cerca de 200 pessoas presentes à cerimônia aplaudiram de pé quando o irmão do reitor, Júlio Cancelier, se disse chocado e surpreendido com a revelação do padre sobre a recusa ao direito de ajuda espiritual. Júlio solicitou à reitora em exercício, Alacoque Lorenzini Erdmann, que apure a verdade e instaure processo para averiguar as calúnias apresentadas contra o reitor no processo calunioso patrocinado pela Polícia Federal, Corregedoria da UFSC e grande parte da mídia comercial. Sem disfarçar a consternação, William Vianna, que além de padre é professor e chefe do Departamento de Ciências da Informação da UFSC, lembrou que há muitos anos a Pastoral Carcerária já vem avisando sobre os abusos nas revistas vexatórias a mães, filhas e familiares em geral dos presos.

Uma ampla frente de forças progressistas chamada "Floripa contra o estado de exceção" está se mobilizando para fazer do suicídio do reitor um caso exemplar contra o estado terrorista e fascista que pratica o desrespeito total aos direitos de defesa e usa campanhas de difamação para atacar as instituições públicas. “Queremos a volta da democracia e do estado democrático de direito”, afirma o professor e diretor do Centro de Ciências Jurídicas, Ubaldo Baltazar.  Iniciado às 11 horas, o Culto Ecumênico foi organizado pelo Grupo de Oração Universitária e Pastoral da Juventude e teve a participação do Grupo Shalon e Emaús, como símbolo da pluralidade e interculturalidade religiosa que deve, segundo o Vianna, reinar em uma universidade.

Na terça-feira, às 14 horas, haverá Reunião do Conselho Universitário para decidir a continuidade da gestão. Como o professor faleceu antes de completar metade do mandato, é possível que sejam convocadas novas eleições, embora haja polêmica na interpretação do estatuto. Conforme o chefe de gabinete, Áureo Moraes, as eleições só ocorrem quando os cargos de reitor e de vice ficam vagos.

(Raquel Wandelli dos Jornalistas Livres)

Discurso histórico do Desembargador sobre a morte do Reitor da UFSC

Discurso histórico do Desembargador Lédio Rosa de Andrade sobre a ditadura do judiciário que se instalou no Brasil com apoio da imprensa e pela histeria dos fascistas, durante sua fala sobre a morte do Reitor da UFSC




Em um discurso emocionado nesta semana na UFSC, que não teve destaque na mídia, o desembargador Lédio Rosa de Andrade disse, em sessão solene em homenagem ao reitor da UFSC, Luiz Carlos Cancellier, que "só a tragédia pode chamar a atenção de uma população que vive histeria coletiva"; para ele, os fascistas estão de volta; "Porcos e homens e se confundem. Fascistas e democratas usam as mesmas togas. Eles estão de volta. Temos que pará-los”, defendeu; assista


247 - Com quase nenhum destaque na imprensa, o discurso de um desembargador em Santa Catarina nesta semana emocionou todos os presentes na Sessão Solene Fúnebre do Conselho Universitário e do Conselho de Curadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em homenagem ao reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo.
Lédio Rosa de Andrade, desembargador do Tribunal de Justiça (TJ-SC) e professor de Direito da UFSC, amigo pessoal de Cancellier, alertou que o atual cenário político brasileiro não é diferente de uma ditadura.
Emocionado, o desembargador fez um chamamento para que o Brasil abra os olhos para o momento que atravessa. "O momento é grave, é perigoso, e precisa de ação", afirmou.
O desembargador lembrou da luta por democracia junto com Luiz Carlos e outros jovens, nos tempos de aluno da UFSC, na época da ditadura militar. "Achávamos que tínhamos derrubado a ditadura. Cometemos um erro. Porque os ditadores de espírito nunca morrem, eles estão sempre aí. Estão aqui neste momento, alguns deles. Esperando a hora de voltar, sempre", desabafou. "Essa luta [contra a ditadura] nunca acaba. Se nós descansarmos, eles voltam", completou.
Lédio também criticou a atuação da grande mídia e de alguns setores do Judiciário nas operações de combate à corrupção. "Em nome da liberdade de imprensa, se exerce a liberdade de empresa privada para impor desejos privados à coletividade. Em nome da liberdade de julgar, neofascistas humilham, destroem, matam", destacou.
O professor de Direito encerrou seu discurso convocando o País a combater as práticas fascistas que vêm tomando conta da Nação antes que seja tarde demais. "Esta noite fiquei a pensar quando a Humanidade errou e não parou Hitler no momento certo, quando a Humanidade errou e não parou Mussolini no momento certo... Eles estão de volta. Será que vamos errar de novo e vamos deixá-los tomar o poder?", conclamou. "A democracia não permite descanso. Eles [os fascistas] estão de volta. Temos que pará-los", completou.
Confira outros trechos do discurso do desembargador, transcrito pelo jornalista Washington Luiz de Araújo, do Bem Blogado
“Eu hoje, como professor da UFSC, sou uma pessoa que tem orgulho e alegria, como desembargador, tenho vergonha!” Com voz embargada pela emoção, chorando às vezes, o companheiro de vida estudantil de Cao colocou o dedo na ferida do fascismo dentro do judiciário, na imprensa e na sociedade,  flanado para um auditório com quase 1.400 pessoas. Leiam:
Emoção
“Tentarei, num esforço muito grande, manter um mínimo de racionalidade. Uma tristeza profunda me corrói por dentro, uma raiva forte. Uma indignação maior ainda diz que nós temos que ir adiante. Que o podemos parar. O momento em que nosso país passa é grave, é perigoso, precisa de ação”.
A luta contra a ditadura militar
“Chegamos a esta universidade como alunos de Direito e enfrentamos a ditadura militar, a arma do governo. Fizemos (no hall da reitoria) as maiores assembleias no tempo da ditadura. Milhares e milhares de alunos sentavam-se no chão e nós usávamos a escada como palanque para denunciar a prepotência e para defender a autonomia e a liberdade da universidade pública e gratuita.
Nós sabíamos que não estávamos no estado democrático de direito. Sabíamos que poderíamos ser presos. Sabíamos dos colegas e amigos presos, torturados e alguns assassinados, porque aquele era o regime que nos administrava. Mas não esmorecemos, fizemos nossa luta e ganhamos, porque acabamos com a ditadura. Ela terminou.”
De estudantes a professores
“Trocamos de lado, de estudantes passamos a professores desta casa. E como o Cao se orgulhava disso, como gostava disso! Como ele tinha nisso sua vida!
E construiu outra vida, típica de professor aqui em Florianópolis. Apartamento de professor, nem carro tinha. Vida de professor, prática de professor.”
Cao, de professor a reitor
“E foi nestas condições que chegou ao seu maior sonho, a reitoria desta universidade. Claro que todos nós temos vaidade, temos um ego e precisamos dele para viver o dia a dia. É claro que chegar a reitor tem um pouco de ambição. Mas, acima de tudo, acima da ambição, o Cao tinha a vocação, tinha o desejo pelo ensino. Tinha vontade fazer da UFSC o que estava fazendo, com a sua equipe, uma das maiores universidades deste país.
De volta, a ditadura
“E vejam que coisa, a ditadura não nos prendeu. Nós achávamos que tínhamos a derrubado. Cometemos um erro, pois os ditadores de espírito nunca morrem. Estes estão sempre aí. Estão aqui, neste momento, alguns deles, esperando a hora de voltar. Sempre! Esta luta não acaba. E se nós descansarmos, eles voltam.
Quando se fala em estado democrático de direito, estamos falando de muito sangue, de muita guerra. De conquistas feitas com suor e com o esforço dos nossos antepassados. Quando se fala em ampla defesa, de estado democrático de direito, de contraditório, Isso não é brincadeira. Estes néscios, que estão por aí falando bobagens, não sabem o que é ditadura, não sabem que eles serão os primeiros a clamar por estado de direito daqui a pouco.
E foi dentro destas condições que o Cao se deparou com a mais perfeita ditadura; que é a ditadura feita em nome da moral; a ditadura feita em nome da justiça; a ditadura feita em nome da democracia”.
Imprensa e judiciário deturpados
“É claro que o estado democrático de direito precisa de uma imprensa livre. É claro que o estado democrático de direito precisa da independência do judiciário, que os juízes julguem livremente sem pressão. Só que também é claro que estas instituições, absolutamente importantes para a democracia, a cada dia, a cada momento são deturpadas.
Em nome da liberdade de imprensa, se exerce a liberdade de empresa privada para impor desejos privados à coletividade.
Em nome da liberdade de julgar, neofascistas humilham, destroem, matam.”
Cao encontra a pior das ditaduras
“Como professor de Criminologia, levei uma vez meus alunos à penitenciária. Me levaram ao setor de segurança máxima, onde o Cao passou uma noite. Eu tive uma crise de pânico pela opressão arquitetônica. Não aguentei, saí correndo de lá.
Estava lá por livre e espontânea vontade. Fiquei a imaginar e se tivessem tirado a minha roupa, se tivessem me feito uma revista íntima, se tivessem me acorrentados nos pés e nas mãos, eu morreria lá naquela noite. Eu não sairia de lá vivo, e o Cao saiu. E o Cao saiu.
O Cao, que sempre lutou com flores nas mãos contra canhões, que sempre usou a palavra contra a insensatez, que sempre conversou e que nunca causou mal a ninguém, acabou encontrando a pior das ditaduras. Acabou encontrando aqui que nenhum nós quer passar.”
A lição deixada pelo professor Cao
O Cao sempre foi professor e morreu como professor, nos dando a última lição. A última lição de nosso mestre foi a de que contra a mais absoluta injustiça, que contra o terrorismo de estado só a tragédia pode chamar a atenção de uma população que vive uma histeria coletiva. Só a tragédia.
Os fascistas estão de volta
Esta noite, com dificuldade de dormir, fiquei a pensar quando a humanidade errou e não parou Hitler no momento certo. Quando a humanidade errou e não parou Mussolini no tempo certo. E fiquei pensando: eles estão de volta. Será que nós vamos errar de novo e vamos deixá-los tomar o poder. Será que precisamos trocar as flores por armas e fazermos outra guerra para derrubá-los. Será que já não basta. Será que já não é hora de todos nós nos unirmos e exigirmos consequências, se a família assim o quiser? De irmos até as ultimas consequências pedindo que sejam apurados estes atos de arbitrariedade?
Temos que pará-los
Bertold Brecht já nos disse que, não só os vizinhos, já estão levando nosso amigos próximos e vão nos levar.
A vida é isso, companheiros: é luta permanente e a democracia não permite descanso. Eu hoje, como professor da UFSC, sou uma pessoa que tem orgulho e alegria, como desembargador, tenho vergonha!
Porcos e homens e se confundem. Fascistas e democratas usam as mesmas togas. Eles estão de volta. Temos que pará-los. Vamos derrubá-los, novamente.”
Fonte: 247

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Gente Inocente, por Fabrício Carpinejar

CRÔNICA DO FABRÍCIO CARPINEJAR SOBRE A TRAGÉDIA DE JANAÚBA

GENTE INOCENTE
Arte de Giotto

Fabrício Carpinejar
 Do seu facebook

Como explicar alguém que queima crianças de 4 a 5 anos? Que sabe o que está fazendo, que conscientemente chama para perto uma turma absolutamente indefesa e frágil e joga álcool nela e depois ateia fogo sem piedade nenhuma?

Não há vingança que justifique tamanha crueldade, não há acerto de contas que amenize o desamparo, não há atenuante humano, não há perdão divino. Nem o suicídio é um desconto.

O que se viu em Janaúba, no Norte de Minas Gerais, na manhã desta quinta-feira (5), adoecerá os olhos do país pelo resto de nossa história.

O guarda do Centro Municipal de Educação Infantil Gente Inocente, no Bairro Rio Novo, matou covardemente os pequenos estudantes. Quatro deles morreram carbonizados na hora, dois deles faleceram no hospital e doze estão internados, com mais de 30 por cento da pele queimada.

Quem não tem filho já não aguenta ler a notícia até o fim, imagine quem tem? Subirá até garganta o grito de cinzas do lugar destruído, engoliremos o fogo maldito da imoralidade. Acordaremos com o gosto ruim na boca, o desgosto perpétuo de fantasiar o quanto os anjos sofreram sem ao menos entenderem o que acontecia.

Serão lágrimas que jamais secarão no colo dos pais.

Serão pais que jamais dirão: isso passa! Porque nunca passará.

As labaredas roubaram as velas de aniversário da vida inteira de seis crianças.

Como chegar perto daquele endereço de novo, atravessar a rua Rosenda Pereira, sem o frio na espinha? Nem o frio da espinha apagará um dia o fogo.

Famílias estarão na frente do portão aguardando a saída dos filhos às 18h para todo o sempre.

Talvez as crianças estivessem rindo, talvez pensassem que o tio, que era segurança da escolinha, estivesse fazendo uma brincadeira. Não pressentiram o perigo. A inocência nunca cogita o pior. A inocência confia. A inocência jura que o adulto pode ser bom, pode querer brincar de roda, de ciranda, de jogar líquido na cabeça. Não enxerga a maldade. Não enxerga a ameaça crescendo.

É uma tragédia que não me fará desacreditar em Deus. Mas começo a acreditar firmemente que o Diabo existe.








quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Canta Francisco



Nos olhos dos pobres, no rosto do mundo 
Eu vejo Francisco perdido de amor
 É índio, operário, é negro, é latino Jovem, mulher, lavrador e menor 

 Há um tempo só de paixão, grito e ternura 
Clamando as mudanças que o povo espera 
Justiça aos pequenos, ordem do evangelho
 Reconstrói a igreja na paixão do pobre. 
Há crianças nuas nesta paz armada
 Há Francisco povo sendo perseguido
 Há jovens marcados sem teto nem sonhos
 Há um continente sendo oprimido
 Com as mãos vazias solidariedade 
Com os que não temem perder nada mais 
Defendem com a morte a dignidade 
Com a teimosia que constrói a paz.

 Refrão: Canta Francisco, com a voz dos pobres 
Tudo que atreveste a mudar 
Canta novo sonho, sonho de esperança 
Que a liberdade vai chegar 
Canta Francisco, com a voz dos pobres 
Tudo o que atreveste a mudar 
Canta novo sonho, sonho de menino 
Novo céu e terra vai chegar. 

 Há Claras, Franciscos marginalizados 
Cantando da América a libertação 
Meninos sem lares são irmãos do mundo 
Pela paz na terra sofrem parto e cruz.

 Francisco imagem de um Deus feito pobre
 Denúncia esperança profecia e canta
 Vence com coragem o império da morte 
De braços com a vida em missão na história
 Francisco menino e homem das dores 
Reconstrói a igreja pelo mundo afora
 Na fraternidade que traz a justiça
 Na revolução que anuncia a aurora 

 Refrão: Canta Francisco, com a voz dos pobres
 Tudo que atreveste a mudar
 Canta novo sonho, sonho de esperança 
Que a liberdade vai chegar 
Canta Francisco, com a voz dos pobres 
Tudo o que atreveste a mudar 
Canta novo sonho, sonho de menino 
Novo céu e terra vai chegar.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

O resultado do lavajatismo

O lavajatismo se caracteriza pelo desrespeito ao devido processo legal, prisão sem sentença e sem julgamento, condução coercitiva, humilhação, delação premiada em ambiente de pressão psicológica, ausência de provas e basta ter apenas convicção.

"... elementos de exceção que se continuarem a ser alimentados poderão levar a caminhos perigosos para a nossa jovem, mas já combalida democracia. 
...um estilo de processo penal que tem crescido nos últimos anos em nosso país, altamente seletivo e inquisitorial, baseado em um discurso de emergência que elege inimigos e bodes-expiatórios de ocasião. Para um tipo de Justiça de iluminados que separa o mundo entre os puros e os impuros e que decreta cruzadas para derrotar o inimigo difuso."

A repercussão da morte do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina:

Em nota sobre o caso da morte do reitor da UFSC a OAB afirma: "Assistimos no Brasil à banalização das prisões provisórias e das conduções coercitivas abusivas, realizadas quase sempre de forma espetacular e midiática, sem nenhuma preocupação com a preservação da imagem daqueles que sequer culpados podem ser considerados." 

Entre moralismo e violência moral, o limite da dor
Tereza Cruvinel
Brasil 247

Cada qual tem seu limite para a dor.  Na onda de punitivismo que tomou conta do Brasil, em que o castigo vem antes da apuração da culpa, dona Marisa Letícia não suportou a perseguição que se abateu sobre Lula e toda a família e sofreu um AVC fatal.  Mas ela era a mulher de Lula, apontá-la como vítima da Lava Jato foi logo carimbado como “estratégia de vitimização”. 

 Agora foi o ex-reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier de Olivo  que, no seu limite da dor, preferiu deixar a vida. Cada qual tem seu limite para qualquer tipo de dor. A dele era moral. Teve a reputação, construída ao longo da vida, destruída num único lance, com a prisão seguida de humilhações.

 Ele e seus companheiros investigados foram despidos, jogados numa cela com outros criminosos e, depois de liberado, foi impedido de frequentar a universidade que dirigia. Tudo sob as luzes da mídia, sem que os argumentos de defesa fossem da mesma forma iluminados ou levados em conta pelos investigadores da Polícia Federal. Que dor maior pode haver para quem dedicou a vida a construir e gerir o conhecimento?

 A investigação que levou o ex-reitor ao suicídio depois da humilhação não foi parte da Operação Lava Jato. Mas foi da Lava Jato que saíram a cultura punitivista e os agentes que conduziram a investigação sobre desvios na UFSC a partir de 2006, culminando com a prisão do reitor que assumiu apenas em 2016.

 Da Lava Jato saiu a delegada da Polícia Federal Erika Marena, que conduziu o inquérito. Da Lava Jato saiu o costume de apontar obstrução da Justiça em qualquer medida defensiva, inclusive no pedido de acesso aos autos, como fez o ex-reitor.

Coincidência ou conveniência, o juiz Sergio Moro declarou hoje que a Lava Jato está perto de chegar ao fim. Não é a Lava Jato em si que precisa acabar, se ainda houver ilícitos a investigar. 

O que precisa acabar é a cultura que ela semeou, da presunção da culpa, da expiação antes do julgamento, da inobservância do devido processo legal em nome do combate à corrupção.   Não há moralidade na violência moral.


A espetacularização, segundo a OAB

Morte de reitor da Universidade Federal de Santa Catarina repercute



Na segunda-feira (2), a diretoria do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e o colégio de Presidentes de Seccionais da OAB emitiram nota criticando o que chamam de "espetacularização do processo penal". Na nota, a diretoria afirma que foi surpreendida "com a morte, em Florianópolis, do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier de Olivo." Ele havia sido acusado e preso provisoriamente em investigação sobre casos de corrupção na universidade. A OAB ressalta: "A acusação contra ele foi "não ter dado sequência ao processo administrativo de apuração" de casos de corrupção ocorridos antes de ele assumir a reitoria da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, nos quais não teve qualquer participação."
Cancellier se suicidou na segunda-feira (2) num shopping, se jogando no vão central. No bilhete que deixou, o professor escreveu: "Minha morte foi decretada no dia da minha prisão". 


O reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier de Olivo
O reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier de Olivo

A nota da OAB prossegue: "Assistimos no Brasil à banalização das prisões provisórias e das conduções coercitivas abusivas, realizadas quase sempre de forma espetacular e midiática, sem nenhuma preocupação com a preservação da imagem daqueles que sequer culpados podem ser considerados." 
Veja a nota na íntegra:  
Conselho Federal e Colégio de Presidentes emitem nota contra espetacularização do processo penal    
segunda-feira, 2 de outubro de 2017 às 20h00
Brasília – Confira abaixo a manifestação do Conselho Federal da OAB e do Colégio de Presidentes de Seccionais da entidade sobre a morte do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier de Olivo:
Fomos hoje surpreendidos com a morte, em Florianópolis, do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier de Olivo. 
No bilhete que deixou, o professor Cancellier escreveu: "Minha morte foi decretada no dia da minha prisão". Sobre o professor Luiz Carlos Cancellier de Olivo não pesava nenhuma acusação de corrupção. 
A acusação contra ele foi "não ter dado sequência ao processo administrativo de apuração" de casos de corrupção ocorridos antes de ele assumir a reitoria da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, nos quais não teve qualquer participação. 
Mesmo assim foi preso provisoriamente, impedido de ingressar na Universidade e teve sua imagem brutalmente exposta. 
Assistimos no Brasil à banalização das prisões provisórias e das conduções coercitivas abusivas, realizadas quase sempre de forma espetacular e midiática, sem nenhuma preocupação com a preservação da imagem daqueles que sequer culpados podem ser considerados. 
É preciso que a sociedade brasileira e a comunidade jurídica discutam o que efetivamente queremos construir. E nós, a Diretoria do Conselho Federal e o Colégio de Presidentes de Seccionais, afirmamos que queremos o respeito à lei, às garantias constitucionais do cidadão e à garantia da presunção de inocência, para que amanhã não reste, aos ainda não culpados, somente a vergonha, a dor, o opróbrio e o sentimento de injustiça. 
Não nos peçam o linchamento. Queremos a apuração de todos os fatos e de todas as acusações. Mas conclamamos a todos a dizer não ao culto ao autoritarismo e ao processo penal como instrumento de vingança. 
Apurar e punir, sim. Violar o devido processo legal, a dignidade da pessoa humana e a presunção de inocência, nunca.
Diretoria do Conselho Federal da OAB
Colégio de Presidentes de Seccionais da OAB
"Abuso de autoridade"
A morte do reitor repercutiu também na Procuradoria-Geral do Estado de Santa Catarina. O procurador-geral divulgou nota afirmando que a "tragédia de sua partida ocorre sob condições revoltantes. As informações disponíveis indicam que Cancellier padeceu sob o abuso de autoridade, seja em relação ao decreto de prisão temporária contra si expedido, seja em relação à imposição de afastamento do exercício do mandato, causas eficientes do dano psicológico que o levaram a tirar a própria vida."
Veja a nota na íntegra:
O Procurador Geral do Estado vem a público manifestar profundo pesar pelo falecimento do Professor Luiz Carlos Cancellier de Olivo, Magnífico Reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, bem como solidarizar-se com seus familiares e amigos.
A morte de Cancellier enluta Santa Catarina pela perda de um de seus filhos mais ilustres, um homem digno, de poucas posses, que devotou os últimos anos de sua rica trajetória profissional à nobre causa do ensino, da pesquisa e da extensão universitárias.
A tragédia de sua partida ocorre sob condições revoltantes. As informações disponíveis indicam que Cancellier padeceu sob o abuso de autoridade, seja em relação ao decreto de prisão temporária contra si expedido, seja em relação à imposição de afastamento do exercício do mandato, causas eficientes do dano psicológico que o levaram a tirar a própria vida.
Por isso, respeitado o devido processo legal, é indispensável a apuração das responsabilidades civis, criminais e administrativas das autoridades policiais e judiciárias envolvidas.
Que o legado do Professor Luiz Carlos Cancellier de Olivo seja, em meio a tantos outros bens que nos deixou, também o de ter exposto ao país a perversidade de um sistema de justiça criminal sedento de luz e fama, especializado em antecipar penas e martirizar inocentes, sob o falso pretexto de garantir a eficácia de suas investigações.
João dos Passos Martins Neto
Procurador-Geral do Estado
"Punitivismo de um Estado policialesco" 
Colegas da Faculdade de Direito do reitor da UFSC também divulgaram uma carta com duras críticas: "Perdemos o colega para o senso comum que denuncia, condena e executa com base no achismo."
Veja a carta:
"Hoje foi um dia de profunda tristeza na Universidade Federal de Santa Catarina. Um dia onde perdemos o amigo, o colega de departamento e o reitor de nossa universidade. O colega de voz calma que sempre buscava construir o diálogo e o meio termo (Luiz Cancellier era leitor assíduo de Habermas e acreditava na construção dialógica de consensos possíveis). O colega que optara por estudar Direito e Literatura, fugindo das lides forenses que nos endurecem nos embates do cotidiano, se refugiando na doçura da arte de um Shakespeare, de um Kafka, de um Camus, de um Machado de Assis, de uma Cecília Meireles. O colega que era respeitado no CCJ pela habilidade com que resolvia conflitos e que se tornou reitor de uma das mais importantes universidades da América Latina. 
Perdemos o colega para o punitivismo de um Estado policialesco (e de uma parte da sociedade que adere a esse discurso) que rebaixa todos à condição de criminosos prévios, sem direito à defesa ou contraditório. Que primeiro prende e depois investiga. Que destrói reputações e depois arquiva. 
Perdemos o colega para o senso comum que denuncia, condena e executa com base no achismo. Perdemos o colega para elementos de exceção que se continuarem a ser alimentados poderão levar a caminhos perigosos para a nossa jovem, mas já combalida democracia. Perdemos o amigo para um estilo de processo penal que tem crescido nos últimos anos em nosso país, altamente seletivo e inquisitorial, baseado em um discurso de emergência que elege inimigos e bodes-expiatórios de ocasião. Para um tipo de Justiça de iluminados que separa o mundo entre os puros e os impuros e que decreta cruzadas para derrotar o inimigo difuso. Cau foi imolado nesse contexto. Temos muito que aprender com isso. Adeus Cau!"



domingo, 1 de outubro de 2017