segunda-feira, 24 de março de 2014

A pobreza do outro e os novos tempos da Igreja


‘Se tenho fome, o problema é biológico. Se meu irmão tem fome, o problema é teológico’.
 
 
Por Maria Clara Bingemer*

A Igreja respira encantada com o papa Francisco e o movimento que inaugurou e mantém de volta ao Concílio Vaticano II e sua renovação. Seu pontificado vem marcado por essa retomada do espírito de liberdade e abertura daquele inesquecível evento eclesial que aconteceu há 50 anos.

Na América Latina, a recepção deste Concílio se deu em uma direção bem marcada de fidelidade ao contexto do continente, feito de pobreza, injustiça e opressão. Toda a Igreja do continente releu o grande evento do Vaticano II com uma atenção qualificada àquelas grandes maiorias que se encontravam mais necessitadas, mais fragilizadas e mais empobrecidas. A chamada opção preferencial pelos pobres foi o nome cunhado para "batizar" essa escolha evangélica feita pela comunidade eclesial naquele momento histórico.

Após um tempo longo que já foi chamado por grandes teólogos e pessoas da Igreja de "inverno eclesial", onde parecia que – entre outras a primordialidade dos pobres havia ficado na sombra, eis que foi lançado recentemente em Roma o livro do prefeito para a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, Gerhard Müller: Ao lado dos pobres. Trata-se da mais alta autoridade em termos de doutrina da Igreja Católica e, portanto, guardião da indiscutível legitimidade do conteúdo do livro.

Mas há mais: Müller não escreveu o livro sozinho. Acompanhou-o outro teólogo: o pai da Teologia da Libertação, o sacerdote peruano da Ordem dos Pregadores, Gustavo Gutiérrez. No prefácio, Joseph Sayer, presidente da Obra Assistencial Misereor, identifica o teólogo peruano como uma pessoa apaixonada.  E como não haveria de sê-lo quem passou a vida servindo os pobres, vivendo junto a eles e lidando apaixonadamente com a pergunta: “Como se pode falar do amor de Deus perante a miséria dos pobres e a injustiça do mundo?"

Ou seja, o alerta lançado por Hans Jonas após a Segunda Grande Guerra e o Holocausto nazista — "Como falar de Deus depois de Auschwitz"? — ecoa novamente diante de outro genocídio: aquele cotidiano que mata continuamente milhares e mesmo milhões de pessoas em todo o planeta. Gustavo Gutiérrez  descobriu, vivendo perto dos pobres, que toda teologia deve fazer-se esta pergunta e deixar-se atingir por ela, para então construir seu discurso sobre Deus.  Pois, concordando com a frase de Berdiaev, se eu tenho fome, é um problema biológico. Se o meu irmão tem fome, é um problema teológico”.

E foi justamente a pobreza do outro a interpelar com pungente insistência a fé que levou Gutiérrez a criar a corrente chamada Teologia da Libertação, que posteriormente ganhou muitos adeptos não apenas na América Latina mas também no Hemisfério Norte e no mundo inteiro.  Essa teologia e seus protagonistas também conheceram dificuldades e conflitos devido à opção de fazer teologia ao lado dos pobres e a partir de suas interpelações.  Foram convocadas a testemunhar e provar sua pertença eclesial e sua ortodoxia.

A teologia de Gustavo Gutiérrez ofereceu essa prova em suas obras, nas quais o compromisso inarredável com os pobres se alia indissoluvelmente à mais profunda espiritualidade cristã e à mais profunda fidelidade à Igreja.  Ela ajudou a Igreja a redescobrir o compromisso com a justiça e o anúncio da boa-nova aos pobres como um de seus imperativos centrais.

O papa Francisco, em prólogo feito ao livro, agradece profundamente aos autores que chamam assim a atenção para este tema fulcral na Igreja: a pobreza do outro, que é critério de verificação da confissão de fé cristã.  Afirma sua esperança de que os leitores terão o coração tocado pela exigência de uma conversão a esses que, maltratados pela sociedade injusta, são os prediletos de Deus. E diz literalmente: ´´E bem saibam, amigos leitores, que nesta exigência e nesta via me encontram desde agora com vocês, como irmão e sincero companheiro de caminho´´.

O cardeal Müller, o teólogo Gutiérrez e o papa Francisco querem dizer que enquanto a pobreza empalidecer no rosto do outro o fulgor de sua imagem e semelhança com Deus, a Igreja não pode descansar.  O que importa nem é tanto tal ou qual corrente teológica.  Importa, sim, a realidade vital dos pobres.  Enquanto esta for uma interpelação dolorosa e cruel lançada à consciência da humanidade, as preocupações e a reflexão da Teologia da Libertação estarão mais do que vivas.
 
SIR/Jornal do Brasil
 
* Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga e professora do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, é autora de vários livros, como "Deus amor: Graça que habita em nós" (Editora Paulinas) e "O mistério e o mundo – Paixão por Deus em tempo de descrença" (Editora Rocco).
 

sábado, 22 de março de 2014

Marcha da Família: a obscura persistência do erro e a carta aberta aos organizadores

Dois artigos sobre o retorno da Marcha : o primeiro:  sobre a afrontosa e obscura persistência do erro, do Jornal O Povo online e o segundo artigo: a carta aberta aos organizadores da Marcha, do jornalista Marcos Sacramento.




De O POVO:

Marcha da Família: a afrontosa e obscura persistência do erro


O cinquentenário do golpe de estado civil-militar de 1964 aproxima-se, e com ele a necessidade de reforçar o compromisso para com a democracia e de acentuar a natureza equivocada daquela iniciativa politicamente desastrada, para que nunca mais volte a se repetir no Brasil.


Infelizmente, setores antidemocráticos, persistentes, ao invés de fazerem autocrítica pelo incentivo dado àquele atentado contra a democracia, programam para hoje manifestações de louvação à ditadura e, impenitentemente, planejam incitamentos de caráter golpista contra as instituições democráticas reerguidas com tanto sacrifício.


O pretexto para a ação dos saudosistas da ditadura são os 50 anos da Marcha da Família com Deus pela Liberdade – um evento programado, naquele ano, por segmentos das classes abastadas e de alguns estratos da classe média tradicional da cidade de São Paulo, em favor da intervenção militar contra o governo constitucional de João Goulart. A Marcha foi articulada para tentar dar legitimidade à ação armada traiçoeira que se planejava contra as instituições, como se o desejo de um único segmento da sociedade pudesse ser imposto pela força à maioria dos cidadãos, expressa nas urnas.


Ora, nenhum segmento da sociedade tem legitimidade para rasgar uma Constituição oriunda do poder constituinte originário do povo, nem mesmo as Forças Armadas (no caso, foi uma facção militar), que são uma instituição subordinada ao poder eleito e que fazem juramento de respeitar a Constituição. A ideia de que a democracia só deve ser acatada enquanto o adversário não mexer nos meus interesses é a negação da própria democracia.


Evidentemente, era perfeitamente legítimo que segmentos civis descontentes procurassem demonstrar sua discordância às políticas do governo, inclusive, através de manifestações pacíficas. O inaceitável foi a opção pelo caminho ilegal e ilegítimo do golpe de estado para substituir o governo do qual discordavam, passando por cima da Constituição. No entanto, foi essa a concepção que estava na base da equivocada Marcha da Família com Deus pela Liberdade.


Mais repudiável ainda é a provocação dos antidemocratas renitentes, de hoje, que tentam reeditá-la, mesmo estando informados sobre as desgraças e os descaminhos trazidos pela ditadura.
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Por Marcos Sacramento
Do Diário do Centro do Mundo:

 Caros organizadores da Marcha da Família 2,

Embora falte pouco para o evento, vou cometer a ousadia, um tanto romântica, de sugerir uma mudança na pauta. Por que não marcham pela Cláudia da Silva Ferreira, a auxiliar de serviços gerais morta em um tiroteio no Rio de Janeiro e arrastada enquanto era socorrida pela viatura da PM?

A morte de Cláudia foi emblemática. Combinou pobreza, truculência policial, racismo e violência contra a mulher. O mais horrível é que se não fosse filmado o caso seria mais um a engrossar estatísticas da criminalidade.

Cláudia é mártir e merece que marchem por ela. Como vocês já estarão nas ruas, nada mais justo que homenageá-la. Você poderiam, também, marchar em homenagem às 16,9 mil mulheres assassinadas no país entre os anos de 2009 e 2011.

Marchem para denunciar o racismo endêmico que garante dois pretos ou pardos em cada três vítimas de homicídio, marchem contra a posição do país no topo do ranking de desigualdade social, marchem pelos aposentados que depois de trabalhar a vida inteira ainda precisam puxar um carro de picolé ou de pipoca para complementar a renda.

Mas por favor, não ponham as mazelas na conta do PT ou da Dilma. Isso é coisa de conversa de botequim, de gente mal informada. Você sabem muito bem que os problemas dos nosso país não foram causados só pelas duas letrinhas ou pelos dois últimos presidentes da república. Não sou petista, sequer voto no partido, só não tolero falatório sem fundamento.

Os problemas vêm de séculos, dos tempos da colonização, de uma formação econômica baseada na escravidão e de um sistema político feito por e para favorecer a elite. Tem causas múltiplas, não se restringe ao PT ou ao PSDB, ao DEM ou ao PSOL. Nosso empresariado tem uma boa parcela de responsabilidade ao financiar políticos em benefício próprio ou empreender visando apenas o lucro, sem responsabilidades sociais.

Por que não protestam contra o dono da Rede TV, que inaugurou uma mansão de 17 800 metros quadrados enquanto funcionários da emissora estavam com salários atrasados?

Ou então pelo caso de sonegação de impostos da Rede Globo, conhecem essa história? O “cidadão de bem” que vocês tanto defendem vai se horrorizar com ela.

Marchem pelas vítimas dos “justiceiros”. Ano passado, um caminhoneiro atropelou e matou uma criança de dois anos, aqui no Espírito Santo. Foi linchado e morto. João Querino de Paula era o nome dele. Marchem por ele, que não teve direito a ampla defesa e contraditório. Marchem pela menina atropelada, vítima da falta de infraestrutura das periferias, onde a combinação de vias sem sinalização de trânsito com a ausência de áreas de lazer contribui para ceifar vidas.

Marchem pelo tenente Leidson Acácio Alves Silva, morto com um tiro na cabeça durante patrulha no Rio.

Mas deixem os militares de fora do protesto. Vocês sabem que eles ficaram no poder entre 1964 e 1985, sentem até saudade dessa fase, mas talvez tenham se esquecido que esse regime ditatorial catalisou as desigualdades sociais e deixou a economia brasileira em frangalhos.

Enfim, há muitos motivos para marchar. Daria para encher parágrafos e mais parágrafos de motivos nobres para vocês irem às ruas. Deixem essa paranoia de que estamos a beira de uma ditadura comunista para os hang outs de Lobão e Olavo de Carvalho. Quem acredita nisso crê até no Walter Mercado, aquele do “ligue djá”, lembram?

Abandonem a logorreia beligerante à Reinaldo Azevedo (toc, toc, toc) e Rodrigo Constantino (vade retro) e combatam o bom combate, a busca por um país mais justo, sem desigualdades.

O filme “Gran Torino” pode ser uma boa lição para vocês. Ele conta a história de um veterano da Guerra da Coréia coberto de preconceitos e ressentimentos com orientais. Até que as circunstâncias o levam a salvar um vizinho asiático. Walt, personagem de Clint Eastwood, escolheu seguir o caminho do bem e combateu o bom combate.

Vocês também são capazes disso, acreditem.


sexta-feira, 21 de março de 2014

O discurso histórico de Rubens Paiva e o Coronel que revelou como sumiu com o corpo do deputado

O discurso histórico de Rubens Paiva          
 

Na madrugada do dia 1º de abril de 1964 (com o Golpe Militar em andamento desde o dia anterior), Rubens Paiva, deputado federal por São Paulo, fez um apelo ao vivo pela Rádio Nacional em defesa da legalidade do presidente João Goulart. O áudio está disponibilizado com exclusividade no Portal EBC. 
 
Ouça o áudio histórico de Rubens Paiva no dia 1º de abril de 1964 na íntegra:
 
Durante a declaração, o deputado criticou abertamente o então governador de São Paulo, Ademar de Barros, um dos apoiadores do Golpe.


Coronel conta que desenterrou corpo de Rubens Paiva em 1973

Do O Dia
 
 
Militar diz que ordem partiu do gabinete do ministro. Deputado federal foi preso em casa em 20 de janeiro de 1971 e torturado até morrer. Seu corpo foi desenterrado dois anos após a morte. E nunca mais encontrado
 
JULIANA DAL PIVA
 
Rio - "Recebi a missão para resolver o problema, que não seria enterrar de novo. Procuramos até que se achou (o corpo), levou algum tempo. Foi um sufoco para achar (o corpo). Aí seguiu o destino normal”. Com essa frase, 43 anos depois, o coronel reformado do Exército Paulo Malhães admite pela primeira vez que foi um dos chefes da operação montada em 1973 para sumir com o corpo do então deputado federal Rubens Paiva, que estava enterrado na areia, na Praia do Recreio dos Bandeirantes.
 
Para localizar o corpo de Rubens Paiva, duas equipes trabalharam durante cerca de 15 dias na praia. Junto com Malhães, também participou da missão o coronel reformado José Brant Teixeira, parceiro de diversas outras operações. Além dele, os sargentos Jairo de Canaan Cony e Iracy Pedro Interaminense Corrêa. Apenas Cony está falecido.
 
O oficial admite que sabia de quem era o corpo procurado. “Eu podia negar, dizer que não sabia, mas eu sabia quem era sim. Não sabia por que tinha morrido, nem quem matou. Mas sabia que ele era um deputado federal, que era correio de alguém”, conta. 
 
Aos 76 anos, um dos mais experientes oficiais do Centro de Informações do Exército (CIE), o militar contou ao DIA que recebeu a missão do próprio gabinete do ministro do Exército em 1973 e que viu colegas graduados como o coronel Freddie Perdigão Pereira recusarem o trabalho: “É um troço que você tem que pensar duas vezes antes de fazer. Ele não quis”.
 
Malhães diz que estava investigando uma guerrilha no sul do Brasil durante a prisão do deputado. Só ao receber a missão, é que foi informado de que o corpo tinha sido inicialmente enterrado em 1971 no Alto da Boa Vista. Mas, na ocasião, os militares temiam que obras na Avenida Edson Passos acabassem revelando o cadáver. Então, o corpo foi retirado do local no mesmo ano e novamente enterrado na Praia do Recreio dos Bandeirantes. Em 1973, o coronel conta que o CIE resolveu dar uma “solução final”.
 
“A preocupação foi aquela velha briga. Foi o negócio de enterrar. Eles enterram o cara, tiraram cara do lugar que estava enterrado que era no Alto da Boa Vista porque ia passar na beira de um estrada. Aí, tiraram o cara e levaram para o Recreio e enterraram na areia. Só que a Polícia do Exército (PE) quase toda viu isso. Esse translado”, explica. 
 
De acordo com Malhães, O Exército avaliava que a a operação era necessária porque alguns agentes do DOI-Codi ameaçavam tornar o caso público. “O Leãozinho viu, não sei mais quem viu também, mas o troço veio a tona. O Leão dizia que enterraram na praia”, afirma.
 
Malhães só faz mistério sobre o destino dado após a localização do cadáver. “Pode ser que tenha ido para o mar. Pode ser que tenha ido para um rio”, completa. Em outubro de 1974, o militar recebeu a Medalha do Pacificador com Palma. 
Assessor revela identidade de testemunha
 
Leão era o coronel reformado Ronald José Mota Batista de Leão, ex-chefe do Pelotão de Investigações Criminais (PIC). Em fevereiro, a Comissão Nacional da Verdade apresentou um relatório parcial sobre o caso e informou que recebeu uma carta de Leão informando que tinha vista Paiva ser recebido por dois agentes do Centro de Informações do Exército: Rubens Paim Sampaio e Freddie Perdigão Pereira. 
 
Na divulgação do relatório, a Comissão Nacional da Verdade também apontou o nome de dois agentes que torturaram e mataram o deputado federal Rubens Paiva. De acordo com depoimentos de dois militares prestados a CNV, os autores do crime seriam o então tenente Antônio Fernando Hughes de Carvalho e o comandante do DOI, o também major José Antônio Nogueira Belham. 
 
As informações foram obtidas por meio de um depoimento prestado por um militar que a comissão identificou apenas como “agente Y”. Um assessor da comissão, entretanto, confirmou ao DIA que a testemunha se trata do coronel da reserva Armando Avólio Filho, ex-integrante do Pelotão de Investigações Criminais da Polícia do Exército (PIC-PE).
 
Há um ano, em fevereiro de 2012, a CNV apresentou as primeiras conclusões de sua investigação até aquele momento. Na ocasião foram apresentados documentos que comprovavam que Rubens Paiva havia sido transferido para o DOI-Codi.
 
Em janeiro deste ano a Comissão da Verdade do Rio tornou público um depoimento do general reformado Raymundo Ronaldo Campos. Ele confessou que Exército montou uma farsa ao sustentar, na época, que Paiva teria sido resgatado por companheiros “terroristas”. A versão oficial era de que , ao ser transportado por agentes do DOI no Alto da Boa Vista, os militares entraram em confronto com um grupo de esquerda, quando Paiva havia conseguido fugir. Raymundo, era capitão, e conduzia o veículo supostamente atacado. Também estavam no carro os sargentos e irmãos Jacy e Jurandir Ochsendorf.
 
Rubens Paiva foi preso em casa no dia 20 de janeiro de 1971 por agentes do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (Cisa). Horas depois, o deputado foi entregue ao DOI-Codi, no Rio, onde foi torturado até a morte. Deputado federal, eleito pelo PTB, mesmo partido de João Goulart, Rubens Paiva foi cassado em 1964, logo após o golpe militar. Após um período no exílio, retorna ao Brasil, mantendo suas atividades empresariais. Sua morte se deu em 21 de janeiro de 1971 e uma farsa foi montada para ocultar o crime.
 
Seu corpo nunca foi encontrado.

Do O Globo

No domingo, O GLOBO publicou, sob o compromisso de sigilo de fonte, o relato de Malhães sobre a operação que desenterrou o corpo de Rubens Paiva no Recreio dos Bandeirantes e o lançou ao mar, em 1973. Porém, o próprio coronel decidiu assumir publicamente o seu papel no episódio. Ele disse que o corpo foi enterrado inicialmente no Alto de Boa Vista e, posteriormente, levado para o Recreio, de onde o retirou, por ordens do gabinete do ministro do Exército (na época, Orlando Geisel), porque havia risco de vazamento da sua localização dentro da própria repressão.

O coronel reformado Paulo Malhães, de 76 anos, um dos mais atuantes agentes do Centro de Informações do Exército (CIE) nos anos de chumbo, finalmente deu as respostas perseguidas há décadas. Ele também confirmou ter desenterrado e sumido com o corpo do ex-deputado Rubens Paiva, morto sob torturas em janeiro de 1971, e explicou como a repressão fazia para apagar os vestígios de suas vítimas.

Um dos trechos marcantes do depoimento é o método de desaparecimento. Para evitar o risco de identificação, as arcadas dentárias e os dedos das mãos eram retirados. Em seguida, o corpo era embalado em saco impermeável e jogado no rio, com pedras de peso calculado para evitar que descesse ao fundo ou flutuasse. Além disso, o ventre da vítima era cortado para impedir que o corpo inchasse e emergisse. Assim, seguiria o curso do rio até desaparecer. Sobre Rubens Paiva, ao GLOBO, Malhães disse que lançou o corpo no mar. À Comissão da Verdade do Rio (CEV), contou que o destino do ex-deputado foi o mesmo rio da Região Serrana onde foram jogados outros desaparecidos políticos.

 
 
Rubens Paiva ao lado da família. Ele foi morto e enterrado no Alto da Boa Vista Foto:  Arquivo

Fontes:
Portal EBC
O Dia
O Globo
 

quinta-feira, 20 de março de 2014

Estudo mostra impacto da falta de saneamento na saúde e na economia



Publicado em 19/03/2014
Um levantamento, divulgado hoje, mostra que o Brasil está na posição de número 112, entre 200 países, em um ranking sobre a expansão do saneamento básico

terça-feira, 18 de março de 2014

Nobel de Economia vê solidez e diz que Brasil deixou de ser vulnerável há muito tempo

Brasil deixou de ser vulnerável há muito tempo, diz Paul Krugman

Na contramão de avaliações recentes, o Nobel de Economia defende que as preocupações com a economia brasileira não se justificam
O Nobel Paul Krugman discorda do relatório do Banco Central dos EUA e vê solidez nos dados da economia do País. 

Krugman


O prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, afirmou que a economia do Brasil é resistente e "não é mais vulnerável" há muito tempo. "O Brasil saiu da crise mundial muito bem e não se justificam preocupações com sua economia", destacou. Seus comentários são uma espécie de contraponto às avaliações de especialistas internacionais de que o País faz parte de um grupo de nações frágeis, avaliação que foi reforçada pelo Federal Reserve (o banco central americano), num estudo recentemente divulgado.

"O Brasil tem um desempenho muito bom da economia, em meio à crise internacional", destacou Krugman. "Há maior confiança no País e que política fiscal será mais responsável", apontou. Ele destacou que a dívida externa do País, "perto de US$ 300 bilhões", não é mais um fator importante no caso do País, pois seu PIB é bem maior, pouco acima de US$ 2 trilhões, e possui reservas próximas de US$ 370 bilhões.
"Além disso, o País tem hoje uma menor exposição em dívida denominada em moeda estrangeira", ponderou. Nem mesmo o câmbio apreciado, que foi objeto das mais fortes críticas de Krugman em outras visitas ao País, foi mencionado como um problema durante a palestra nesta terça-feira, 18, promovido pela revista Carta Capital.

China. Krugman afirmou que é possível que a China, o principal parceiro comercial do Brasil, passe por um movimento de desaceleração do nível de atividade, o que ele classificou com um "choque", embora ressalte que esse não é o principal cenário com o qual trabalha para o país asiático no curto prazo. "E o Brasil sofreria com um choque na China, por causa das exportações de commodities."

"Estou preocupado com um choque na economia chinesa, mas não seria catástrofe", comentou Krugman. "Como proporção do PIB no país, os investimentos atingem 50% e o consumo das famílias chega a 30%. Essa proporção precisa inverter", destacou, para que o nível de atividade na China tenha uma estratégia de expansão mais equilibrada.

Krugman também manifestou que os números da economia da China são os que apresentam "o maior nível de ficção" entre o chamado grupo Brics. "Aliás, o conceito Brics é muito peculiar. Ele representa um conjunto de países que não têm semelhanças", ponderou. Ele se referiu ao acrônimo criado por Jim O'Neill, ex-executivo do Goldman Sachs, que se referia a um grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China. Hoje, a sigla foi expandida e ganhou um "S", relativo à África do Sul (South Africa, em inglês).

Fed. O Nobel de Economia afirmou que o Fed, presidido agora por Janet Yellen, tem uma preocupação bem maior com a fraqueza da recuperação da demanda agregada nos Estados Unidos, o que não está sendo ainda registrado por investidores internacionais. "Yellen quer manter a taxa de juros bem baixas por muito tempo. Os mercados estão errados", comentou, referindo-se a avaliação que de um segmento de analistas em países avançados, para quem aquele banco central poderia voltar a elevar os juros em 2015. "A política de afrouxamento quantitativo foi uma decepção como política monetária", disse, ressaltando que ela não ajudou a fortalecer o consumo norte-americano nos últimos anos.

Para Krugman, a economia americana está em processo de retomada, mas continua fraca. "Talvez os EUA tenham risco de enfrentar deflação", comentou, numa referência à fraca realidade de variação média de preços naquele país, um reflexo direto da dificuldade do PIB voltar a expandir no ritmo de seu potencial. Ele citou que uma indicação disso é que a taxa de juros de curto prazo está muito próxima de zero, fato que só aconteceu na história do país em outra ocasião: durante a Grande Depressão dos anos 1930. "Em função dessa realidade, os retornos de investimentos financeiros estão também muito fracos", destacou.

Para ele, a fraca recuperação da atividade nos EUA não é um fenômeno isolado, pois é um fato que está sendo registrado em todos os países avançados, que tem um "novo padrão econômico", de crescimento mais baixo do que o registrado antes da crise internacional ser deflagrada em setembro de 2008. "As economias estão fracas de forma persistentes e há dificuldades para ajustar", destacou. "Uma indicação disso é que a crise atual mantém um crescimento pequeno no mundo. A Europa, por outro lado, parece que não tem catástrofe, mas também está sem recuperação econômica", afirmou.   Segundo ele, contudo, um contraponto a essa realidade é que os países da América Latina estão mais "resilientes" do que no passado e destacou o Brasil.

Na avaliação de Krugman, se o mundo está apresentando um ritmo pífio de recuperação, no entanto, há um fator positivo: "as autoridades de países avançados pelo menos evitaram a destruição do sistema financeiro mundial", ponderou. E isso aconteceu sobretudo com ações coordenadas dos bancos centrais dos EUA, zona do euro, Japão e Inglaterra, ao injetar grande liquidez nos mercados, a fim de diminuir o potencial de quebra de diversos bancos e ajudar a normalizar o fluxo global de capitais, especialmente no final de 2008.

Fontes:
Estadâo
Carta Capital

domingo, 16 de março de 2014

Reflexóes sobre um golpe em nossa história

 
por Mauro Santayana  - Do Rede Brasil Atual:                      
            
Não podemos voltar no tempo e apagar o erro de 50 anos atrás. Mas podemos evitar que ele se repita. A defesa do regime democrático deve estar em primeiro lugar na lista das prioridades nacionais
Mauricio Simonetti / Pulsar Imagens
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Comício pelas Diretas Já na Praça da Sé, em São Paulo, 25 de janeiro de 1984: a aliança que permitiu a redemocratização se esfacelou

A arquitetura das pirâmides e os guerreiros de terracota do primeiro imperador da China são evidências de que, desde a antiguidade, a ideia de vencer a morte – e se deslocar no tempo – sempre fascinou o espírito humano. Seria ótimo se pudéssemos – como descrito no livro The Time Machine, de H.G. Wells (de 1895) – também voltar ao passado e corrigir nossos erros, para garantir uma vida melhor no presente ou no mais remoto futuro. A ciência moderna tem desmentido essa possibilidade.

Há, no entanto, outras maneiras de estabelecer pontes entre antes e agora, sem o recurso a outras dimensões, como hipotéticos “buracos de minhoca” ou “dobras” no espaço-tempo einsteiniano.

A História, por exemplo, mescla, com naturalidade e ironia, o passado e o presente, e, bruxa ou fada, surpreende e enfeitiça, burlando-se dos sonhos, esperanças, desventuras, dos indivíduos, povos e nações, que participam da caminhada desta nossa pobre espécie em sua ingente jornada para o futuro.

Completam-se, neste mês, os primeiros 50 anos do golpe militar de 1964. Pela forma como foi engendrado e deflagrado, com a participação de uma potência estrangeira – a cada dia crescem as provas e evidências do envolvimento norte-americano –, o golpe já deveria, há muito, ter sido condenado. Pelos abusos cometidos desde o primeiro momento, e que se multiplicaram depois com o fortalecimento do radicalismo antidemocrático e da repressão mais sanguinária, era para se tratar de um episódio já execrado pela sociedade brasileira.

A geração que levou o povo às ruas nas memoráveis campanhas das Diretas Já e na eleição de Tancredo Neves para a Presidência da República não soube, no entanto, se dedicar como deveria a manter viva, no coração do povo, a chama da liberdade e da democracia. A aliança que possibilitou a redemocratização se esfacelou com o tempo. Muitos movimentos, sindicatos e partidos se enfraqueceram, ou foram cooptados ou absorvidos pelo sistema.

As sucessivas crises econômicas e o abandono da população à própria sorte do ponto de vista da cultura e da cidadania – inclusive por parte da mídia que havia participado da luta pela redemocratização – aprofundaram o processo de “breguização” do país e abriram as portas para o ressurgimento de um conservadorismo visceral, subjacente, que sempre viveu da ignorância e despolitização do povo brasileiro.

O voto, no Congresso e fora dele, tornou-se majoritariamente fisiológico. Passou a ganhar a eleição quem oferecesse mais à população, isolando-se, ou deixando-se para segundo plano, nas campanhas políticas, questões como o fortalecimento do país ou a defesa e a preservação do Estado de Direito.

O Brasil mudou sua política externa, houve avanços econômicos e sociais, ­como o combate à fome e à exclusão, e a incorporação de milhões de pessoas ao consumo. Mas com relação a questões como a forma de se enxergar o combate à violência, a criminalização da política e a descaracterização dos partidos – com a sua transformação em meras frentes de defesa de interesses – a sociedade brasileira, depois do retorno da democracia, evoluiu muito pouco.

Voltamos a 1964, com o aparecimento de dezenas de “institutos” de diferentes tipos – financiados com dinheiro estrangeiro – dedicados a defender o neoliberalismo e a colonização do país. E a combater o nacionalismo como algo anacrônico e estéril, em uma época que todas as evidências demonstram que os países mais bem-sucedidos são justamente os que não têm vergonha de defender claramente sua posição e interesses em um mundo cada vez mais competitivo.

Como há 50 anos, “forças ocultas”, que já não se importam em não parecer ocultas, querem pintar o Brasil como se estivéssemos à beira do abismo, para defender velhos e perigosos caminhos de salvamento da Pátria. “Analistas”, locais e estrangeiros, movem permanente campanha de desestabilização da economia, por meio da distorção dos fatos e da manipulação de dados, voltada para o enfraquecimento da imagem do país no exterior.

Pela internet desferem-se ataques à democracia e crescem as pregações golpistas, com a defesa do recurso à violência e à tortura, crescem no mesmo meio em que vicejava nos anos 1960. Como ocorria às vésperas de março de 1964, multiplicam-se publicações, “filósofos” e “comentaristas” que professam um anticomunismo esquizofrênico e patológico – já que claramente psicótico e desprovido de qualquer contato com a realidade –, como se estivéssemos em plena Guerra Fria, e se sustentam pela distorção da história e da verdade, como se vivêssemos em outro planeta, situado em hipotético universo paralelo.

Mistura-se o comunismo com o fascismo, quando foram as tropas soviéticas que destroçaram os nazistas na batalha de ­Berlim em 1945. Atribui-se qualquer suposto ataque ao conservadorismo ocidental a uma fantasia denominada “marxismo cultural”. Atacam-se as bases filosóficas da modernidade, para propor a volta a um obscurantismo tosco e medieval. Dessa fantástica doutrina, faz parte a defesa, na internet – como cláusula pétrea de uma Igreja agora governada por um papa que prega a conciliação – a excomunhão de pessoas por suas convicções políticas.

Grupelhos voltam a desfilar, na frente dos quartéis – como aconteceu em junho –, com as mesmas faixas e bandeiras usadas daqueles anos sombrios.

Esse meio século de triste história deveria representar um marco e uma oportunidade de reflexão sobre o Brasil que queremos e para onde estamos indo como sociedade. É preciso voltar a colocar a defesa do regime democrático em primeiro lugar na lista das prioridades nacionais.

Chegamos a um ponto em que até mesmo pessoas que lutaram pela volta do Estado de Direito, pressionadas pela maré conservadora, estão defendendo a adoção de leis “antiterroristas” no Brasil.

“Terrorista” era o termo usado contra os que foram perseguidos pela ditadura. Seus rostos, que podiam ser vistos em cartazes infames que se espalhavam pelos bares e colunas das estações rodoviárias nos anos mais duros da repressão, eram encimados por esse termo, seguido do apelo à delação.

As mesmas fotos que ilustravam os cartazes de procurados são, às vezes, a única forma de lembrar os que foram torturados, assassinados ou desapareceram naquela época.

Hitlernautas e apresentadores de programas sensacionalistas propagam a aceitação normal do retorno desse conceito – “Guerra Contra o Terror” é a base da doutrina de segurança norte-americana e de seus sabujos pelo mundo.

Deixar de raciocinar com base em princípios e convicções políticas, para se deixar pautar pelo clamor fascista que estiver em voga, é o caminho mais curto para vir a justificar – dependendo do governo de turno – a impressão de novos cartazes como aqueles. Ou de acabar, eventualmente, aparecendo com o próprio rosto em um deles.
 

sábado, 15 de março de 2014

Viúvas da ditadura querem reeditar a Marcha da Família


A marcha dos insensatos:

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De todas as sandices surgidas com a atual onda de paranóia anticomunista no Brasil — e não são poucas –, uma das mais impressionantes é a chamada Marcha da Família Com Deus II.

Como o nome indica, é uma reedição da Marcha da Família com Deus Pela Liberdade, ocorrida em 1964 em resposta ao comício da Central do governo João Goulart.

Desta vez, uma “convocação para o povo brasileiro” está marcada para o dia 22 de março. Pede-se uma “intervenção militar” e não um golpe, embora seja evidentemente um apoio a um golpe.

Às véspera dos 50 anos do golpe civil-militar, saudosistas do regime que matou, torturou e desapareceu com milhares de brasileiros articulam uma nova versão da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, a mobilização de extrema-direita que, em 1964, deu a justificativa que faltava para que os militares tomassem o poder e mergulhassem o país em uma ditadura que durou 21 anos.

Há eventos marcados para o próximo dia 22 em municípios de pelo menos 23 unidades da federação. A propaganda e busca por adesão é feita por meio da distribuição de panfletos e divulgação via redes sociais, mas a adesão, até o momento, é baixa. No maior dos eventos, o de São Paulo, apenas 862 pessoas confirmaram participação, via Facebook, até a tarde desta terça (11).

Na convocatória, os organizadores conclamam a população a “comemorar” a primeira edição da Marcha da Família, realizada em 16 de março de 1964, como reação ao discurso do então presidente João Goulart, de 13 de março, que admitia as reformas de base reivindicadas pelos movimentos sociais populares, poucos dias antes dos militares tomarem o poder.

“Amigos patriotas, vamos todos juntos comemorar esta data tão importante para o nosso país! 50 anos que o povo saiu às ruas pedindo democracia, justiça, liberdade e acima de tudo dizendo ‘não ao comunismo’”, diz o texto publicado na rede social.

Nos posts, os organizadores pregam a “intervenção militar” como a “única forma de preservar a democracia e defender os brasileiros do comunismo”, como afirma Bruno Toscano Franco, que estudou Aviação Civil na Universidade Morunbi e se define como fotógrafo autônomo.

A publicação de comentários foi restrita apenas aos organizadores, depois que vários internautas se manifestaram contra o evento. “Todo e qualquer comentário que seja contrário aos objetivos da nossa luta, será excluído e bloqueado”, alerta Ana Paulo Logullo, formada em pedagogia pela UNIP e que se define, na rede, como gerente da sua própria empresa.

Com amplo acesso à publicação de posts também estão os organizadores da página Contragolpe militar – por um Brasil verde e amarelo, que defendem “a retomada da ética e de valores como o patriotismo, civismo, honra e honestidade”, além de bradar “Fora PT e Foro de São Paulo”.

Na página, eles alertam os brasileiros que vivemos hoje uma ditadura, já que “o PT controla os três poderes”. Já o foro de São Paulo é tratado como um mecanismo “criado por Lula e Fidel tem como objetivo unificar a América Latina em uma República Socialista”. A página, criada em setembro de 2013, tinha sido curtida por 6.637 pessoas até o início da tarde do dia 11 de março.

Um general de brigada reformado, Paulo Chagas, acaba de postar mensagem no blog Sociedade Militar em que prega uma ¨intervenção militar¨, utilizando como pretexto a recente decisão do STF de absolver os réus da AP 470 do crime de formação de quadrilha!

O que seria uma “eventual intervenção militar”, se não um golpe de Estado?

No próximo dia 22, a extrema-direita promete sair às ruas. Para o general Chagas, a tal “Marcha” seria apenas “um bom começo”.

O jornalista Leonardo Sakamoto comenta sobre esse absurdo:

 Os defensores da Marcha da Família colocam uma série de reivindicações que eles, equivocamente, chamam de “conservadoras''. Pois uma coisa é o pensamento conservador, que merece ser respeitado e, na minha opinião, questionado – quando for o caso – nas arenas de discussões. A outra é gente que acha que a Constituição é papel higiênico e as instituições democráticas – que levamos décadas para reconstruir – são um grande vaso sanitário de onde só exala fedor.

Reivindicações que incluem uma “intervenção militar constitucional'' (haha), o bloqueio da transformação do país em uma “ditadura homossexual'' (hahahaha) e uma ação para evitar a “implantação do comunismo'' pelo partido que está no poder (kkkkkkkkkk).

Gente, em que país eles vivem?

Eu olhei, olhei e pensei que era uma piada. Ainda espero que seja um grande hoax.

Portanto, gostaria de analisar não o chamamento para a marcha em si e mais a reação dos que estão apoiando essas ideias.

Antes de tudo, um comentário sincero: como a democracia é linda…

Ainda vou escrever com mais calma sobre esse assunto, mas sabe o que mais assusta? A falta de conhecimento histórico. Qualquer análise de conjuntura e de contexto histórico, não só brasileiro mas de todo o mundo, mostra que 1964 e 2014 são dois momentos diferentes, com acúmulos políticos e participação popular diferentes também.

É claro que há insatisfações naquela época como agora, e de todos os lados. Insatisfação contra o mau funcionamento das instituições (corrupção, enfim), mas também insatisfação de alguns contra a conquista de direitos por determinadas parcelas da sociedade que, sistematicamente, foram deixadas à margem (direito a não passar fome, por exemplo).

Mas o país é diferente, poucos são os que querem engatar a marcha à ré. As pessoas repetem comparações ruins (“no passado, tinha mais segurança e menos corrupção'') até terem contato com os números e a realidade.

Isso sem contar que a imprensa, hoje, é muito mais livre para divulgar os casos de malfeitos – coisas que era impossível durante a ¨Gloriosa¨. Ou seja, as possibilidades de quebra institucional não são as mesmas.

Li um panfleto que dizia que o PT está rompendo com o capital, criando problemas para bancos. Gente do céu… Se assim fosse eu ia para a rua cantar debaixo da chuva. O fato é que esse milagre não vai acontecer nem que a vaca tussa. Nunca o sistema financeiro nacional e internacional ganhou tanto dinheiro quanto agora.
Fontes:
 blog :Diário do Centro do Mundo
blog do Rodrigo Viana
blog do Leonardo Sakamoto