segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Médicos que não passarem em avaliação voltarão para seus países

Estadão.com.br        ----      26/08/2013
Por: Ângela Lacerda  
     Se o desempenho dos médicos estrangeiros não for considerado satisfatório no curso de 21 dias sobre legislação médica brasileira e língua portuguesa a que se submetem, eles serão desligados do programa Mais Médicos e voltarão aos seus países. A informação é do Ministério da Saúde.

Segundo o professor Rodrigo Cariri, que coordena o curso no campus da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no município metropolitano de Vitória de Santo Antão, a avaliação dos profissionais será permanente, diária, ao longo do curso, e ao seu final, testarão seus conhecimentos da língua portuguesa em provas escrita e oral.
Cento e quinze médicos iniciaram o curso nesta segunda-feira (26). De acordo com Cariri, que é coordenador do curso de Medicina da UFPE em Caruaru, no agreste, o curso, todo em português, abordará a formação do povo brasileiro e os aspectos sociais, econômicos e políticos do país, os protocolos e parâmetros médicos e os aspectos éticos e legais da prática da medicina.

Seis professores estão encarregados do curso. Outros 20 professores da atenção primária se ofereceram para ajudar no acompanhamento dos estrangeiros nos locais onde irão atuar, acompanhando também a estrutura de farmácia, medicamentos, insumos disponíveis.

Cariri não acredita em mau desempenho. Ele destacou o perfil dos cubanos, que são maioria. "Todos eles têm mais de 10 anos de formados, todos já cumpriram missão em outros países, todos têm residência em medicina da família e comunidade, 20% deles têm mestrado e 40% têm mais de uma especialização além da residência.".

domingo, 25 de agosto de 2013

Conjuntura eclesial católica com Pe. Manoel Godoy

Padre Manoel Godoy faz uma avaliação do processo histórico pelo qual passa o catolicismo, fazendo considerações sobre o Concílio Vaticano II , sobre o Papa João Paulo II e o Papa Bento XVI.  A entrevista foi apresentada no programa Religare. Conhecimento e Religião, na TV Horizonte e postada no site programareligare.blogspot.com.br no dia 04 de março de 2013,
portanto, anterior a eleição do Papa Francisco. A entrevista nos ajuda a compreender o momento atual pelo qual passa a Igreja Católica.



Manoel José de Godoy é Mestre em práxis cristã, Professor e Diretor Executivo do ISTA – Instituto Santo Tomás de Aquino, em Belo Horizonte. Atuou durante 10 anos como assessor da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Hoje, além de professor também no Instituto Teológico Pastoral da América Latina – Itepal, com sede em Bogotá, é consultor de diversas Dioceses Brasileiras, e inúmeras Congregações Religiosas. No Religare dessa semana, Pe. Manoel Godoy faz uma avaliação do processo histórico pelo qual passa o catolicismo contemporâneo.


4)    http://youtu.be/0Gkh0T9f_G0


3)    http://youtu.be/7NYjSOY3p98


2)    http://youtu.be/XMJX5_qDxU0
1).   http://youtu.be/18IfOOTo5oE



sábado, 24 de agosto de 2013

UMA VIDA DEDICADA À PRESERVAÇÃO

Todo fim de semana estarei postando uma reportagem sobre o patrimônio histórico de Minas Gerais.
Para dar início à série, relembro a entrevista concedida , ao IEPHA/MG (Jornal Bem Informado número10) , pelo arquiteto Luciano Amédée Péret (ex-diretor e ex-presidente do órgão) , em julho de 2008. Foi publicado no site do IEPHA/MG em agosto de 2008.
Pioneiro na preservação, professor Luciano Amédée Péret fala sobre patrimônio cultural.


ENTREVISTA: UMA VIDA DEDICADA À PRESERVAÇÃO


 luciano_amedee_peret


Logo no início da década de 70, um personagem-chave passou a integrar a equipe do recém-criado órgão estadual de patrimônio histórico, o IEPHA/MG. Trata-se do engenheiro, arquiteto e urbanista Luciano Amédée Péret, profissional então já reconhecido no Estado tanto por sua experiência na Escola de Arquitetura quanto por projetos de visibilidade, como o Palácio dos Despachos.

Especialista em restauração arquitetônica, por mais de 15 anos teve atuação destacada no Instituto, chegando, inclusive, a presidi-lo. Ajudou a escrever e manter viva parte da memória de Minas Gerais, conquistando enorme respeito e admiração.

Ainda hoje, aos 80 anos e aposentado, o professor Péret - como é conhecido - mostra que mantém olhar atento e coração devoto à preservação do patrimônio cultural de Minas.

Como o senhor avalia o período em que esteve à frente do IEPHA? Que tipo de aprendizado essa experiência lhe proporcionou?
Na criação do IEPHA, há quase 40 anos, houve todo o esforço inicial de fazer o levantamento dos bens do Estado, com o intuito, mais do que registrar, de proteger e restaurar o acervo. Naquela época, o conceito de preservação do patrimônio ainda não era difundido e foi preciso vencer a onda modernizante da década de 70 para garantir o registro da história. Como um de seus fundadores, diretor executivo, de 1971 a 1979, e presidente, de 1979 a 1983, sinto orgulho de ter participado de um dos primeiros tombamentos do IEPHA, que foi o do Palácio da Liberdade. E lembro com saudade dos intensos trabalhos no Conjunto Arquitetônico e Paisagístico de Congonhas, Palácio da Justiça e Parque Municipal, em Belo Horizonte, Mosteiro de Macaúbas, em Santa Luzia; Parque Cabangu, em Santos Dumont; Fazenda Boa Esperança, em Belo Vale, entre outros. São experiências inesquecíveis, aprendidas e vividas ao lado de expoentes da cultura mineira que se dedicaram na preservação dos bens culturais, como o professor Sylvio de Vasconcellos, Affonso Ávila, Ivo Porto de Menezes, Abílio Machado, Juko Carneiro de Mendonça, dom Oscar de Oliveira, Tarquínio José Barbosa, entre outros.
 
Como o senhor vê as políticas atuais de proteção ao patrimônio?
A criação do IEPHA foi um dos grandes passos. Até então, tudo que se fazia dependia do governo federal. Hoje, a importância do trabalho de preservação está garantida na Constituição Federal. O governo de Minas Gerais, com a lei “Robin Hood”, incentiva a preservação do patrimônio histórico e cultural e, a nível municipal, os Planos Diretores das cidades estabelecem formas de preservação do patrimônio, além da criação de leis específicas estabelecendo incentivos à preservação. Pela ação do Ministério Público, qualquer cidadão pode impedir a destruição ou descaracterização de um bem de interesse cultural. Tudo isso são avanços enormes. Mas, se por um lado surgiram novos atores e modelos de gestão, por outro, é preciso existir uma interação entre os níveis de Poder, as comunidades locais e o setor privado.
 
O senhor acredita que houve alguma mudança quanto ao comportamento e engajamento da sociedade em torno do tema?
   Após a criação do IEPHA, houve uma nítida mudança no comportamento da sociedade que foi e está sendo construído ao longo dos anos. A sociedade passou a dar valor aos bens culturais, está enxergando que é preciso preservar a história, o registro e as referências de uma cultura. Mas a falta de informação ainda é um dos fatores que interferem nas ações de preservação do patrimônio cultural e arquitetônico. Os tombamentos, por exemplo, ainda são vistos como um congelamento do imóvel ou prejuízo, no caso de bens particulares. Mas já é possível compatibilizar o uso moderno com a preservação do patrimônio.
 
Concorda com a visão de que o melhor guardião do patrimônio é a própria sociedade?
   A sociedade tem um papel primordial neste processo, porque todo o trabalho de preservação é feito buscando a valorização ética e o resgate da identidade cultural dela própria. Mas o envolvimento da população tem que ser feito em conjunto com o governo. Não há como a população preservar sem um embasamento legal e um suporte histórico. O Estado tem que zelar pelo patrimônio cultural do povo e, ao mesmo tempo, incentivar e garantir, por meio de suporte técnico adequado, formas de participação da sociedade. O resgate de uma história é uma forma de recuperar a auto-estima de uma comunidade e uma forma de o povo exercer sua cidadania. Preservar a memória é um trabalho conjunto.
 
São muitos os novos projetos de proteção ao patrimônio que priorizam o acesso da população aos bens culturais protegidos. Exemplo em Belo Horizonte é a criação do Circuito Cultural Praça da Liberdade. Como o senhor vê essas iniciativas?
 Toda iniciativa na área de preservação é bem-vinda, principalmente quando facilita o acesso da população. Como arquiteto, vejo que é preciso sempre definir claramente os critérios, políticas e linhas de atuação para que o patrimônio não seja um bem para consumo das elites. Ele deve ter uma função social, ajudando a vencer as nossas desigualdades e integrando o povo através de sua identidade.
 
Nosso estado tem um dos maiores acervos culturais do país. Para o senhor, que tem uma trajetória de vida fortemente marcada pelo trabalho de registro, proteção e recuperação do patrimônio mineiro, em que pé estamos?
 
   O acervo de Minas é vastíssimo e o que temos hoje é o resultado de um trabalho intenso iniciado pelo IEPHA, que deu um violento impulso ativando toda a área de preservação. Mas muito ainda precisa ser feito, com os recursos tão escassos nessa área. Além de divulgar a importância dos bens culturais para a sociedade brasileira, é preciso formar pessoas especializadas na área de proteção, para fiscalizar, recuperar e garantir a preservação da história.
 
 Hoje, com toda a experiência que o senhor acumulou, que mensagem deixaria em relação à preservação?
   Minas Gerais deve se fazer presente através de seus órgãos culturais, procurando assim participar da preservação da nossa memória cultural. A unidade nacional tem como um de seus fatores essenciais a preservação legítima dessa cultura. Manter a nossa identidade cultural é dever de todos, pois, alicerçados no passado poderemos compreender o presente, estabelecendo um futuro sempre promissor.

E gostaria de registrar o reconhecimento do trabalho de várias gerações de funcionários do IEPHA que trabalharam - e os que hoje continuam neste trabalho - para a manutenção da identidade e história do Estado. Minas tem a vocação da cultura. Todos os mineiros devem se empenhar na defesa de nosso patrimônio cultural.

O que é igualdade para você ?

              Foto: O que é igualdade pra você?           

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

1,69 MILHÃO DE FAMÍLIAS ABREM MÃO DO BOLSA FAMÍLIA

Famílias beneficiadas declararam voluntariamente que ultrapassaram a renda limite de R$ 140 por pessoa
Fonte : O  Globo (maio/2013)



12% das famílias beneficiadas pelo Bolsa Família deixaram voluntariamente o programa (Foto: Bruno Spada / MDS)
Dados fornecidos pelo ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome mostram que 1,69 milhão de famílias beneficiadas pelo Bolsa Família deixaram espontaneamente o programa, declarando que sua renda já ultrapassava o limite de R$ 140 por pessoa. Estas famílias representam 12% de um total de 13,8 milhões de famílias atendidas. Os dados abrangem todo o período de existência do Bolsa Família, entre outubro de 2003 e fevereiro de 2013.
Os dados do ministério contrariam a alegação dos críticos do Bolsa Família de que o programa de transferência de renda estimularia os beneficiados a não procurar emprego e melhores condições de vida.
De acordo com o secretário de Renda e Cidadania, Luís Henrique Paiva, estas famílias declararam ultrapassar a renda limite na atualização cadastral, realizada pelas prefeituras a cada dois anos. Por sua vez, a fiscalização excluiu 483 mil beneficiários flagrados com renda superior a permitida pelo programa.
Mãe de cinco filhos, a diarista Selma Patrícia da Silva, de 42 anos, é uma das beneficiadas que deixaram espontaneamente o Bolsa Família após melhorar sua condição de vida. Na época em que fazia bicos como doméstica, e o marido com pedreiro, Selma era beneficiária do Auxílio Gás, Bolsa Escola e Bolsa Família. Depois de construir a sua casa, a diarista decidiu devolver o cartão que garantia o benefício.
“Pensei assim: da mesma forma que serviu para os meus filhos, vai ajudar outras pessoas. Acho muita covardia a pessoa não necessitar e ficar recebendo. Entreguei o cartão na mão da primeira-dama (do município), que começou a chorar”, disse Selma em entrevista ao jornal O Globo.
Hoje, Selma, de Formosa (GO), trabalha como faxineira, fez cursos de artesanato e manicure nos últimos anos e costura bonecas e adereços de pano, vendidos em feiras na vizinhança.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Vitória do Bolsa Família


Bolsa Família não desestimulou procura por emprego, diz estudo

Desde que foi lançado, há cerca de oito anos, o programa federal Bolsa Família ajudou a retirar cerca de 30 milhões de brasileiros da pobreza absoluta. Em meio às muitas críticas recebidas, conseguiu derrubar previsões simplificadoras, como a de que estimularia seus beneficiários a manterem-se desempregados para receber ajuda estatal. É o que mostra a segunda rodada de Avaliação de Impacto do programa, realizada pelo Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) com 11.433 famílias, beneficiárias ou não, em 2009.
De acordo com o levantamento, quem recebe repasses do governo federal não deixa de procurar emprego. Ao considerar uma faixa de 18 a 55 anos de idade, a parcela de pessoas ocupadas ou procurando trabalho em 2009 era de 65,3% entre os beneficiários e 70,7% para os indivíduos fora do programa. Analisando pessoas entre 30 e 55 anos, a porcentagem é de cerca de 70% para ambos os grupos.
O índice de desemprego também é semelhante. Em 2009, 11,4% dos não beneficiados entre 18 e 55 anos estavam sem trabalho, contra 14,2% dos auxiliados pelo Bolsa Família. Na faixa de 30 a 55, a diferença é menor: 7% para as pessoas sem benefícios, ante 8,9% do outro grupo. “Em 2009, a busca por trabalho entre beneficiários é um pouco mais elevada que os não beneficiários. Esses resultados revelam, pois, não haver evidências de que haja desincentivo à participação no mercado de trabalho por parte dos beneficiários do PBF”, diz o documento.
O programa também ajudou a atrasar a entrada de jovens entre 5 e 17 anos de idade no mercado de trabalho, o que geralmente ocorre pela necessidade de auxiliar no sustento da família. Apesar desta faixa etária possuir níveis baixos de ocupação, houve avanços e quedas em geral.
Em 2005, 3,6% das meninas fora do Bolsa Família entre 5 e 15 anos trabalhavam, contra 2,2% das que recebiam auxílio. Entre os meninos nesta faixa, 5,5% sem apoio tinham emprego, contra 4,3% dos beneficiários. Quatro anos mais tarde, a porcentagem caiu para 1,9% das meninas e 3,2 dos meninos sem repasses federais para 2% das mulheres e 3,7% dos homens com ajuda financeira do programa.
Na faixa de 16 e 17 anos, 17,6% das adolescentes e 30,4% dos rapazes sem benefícios trabalhavam em 2005, contra 15,4% das mulheres e 32,6%, respectivamente, com benefício. Em 2009, 11,6% das meninas e 21,7% dos meinos sem benefício tinham emprego, ante 9,7% e 19,3 dos beneficiados.
O recebimento dos repasses do Bolsa Família varia de 32 a 306 reais mensais, segundo critérios como a renda mensal per capita da família e o número de crianças e adolescentes de até 17 anos. O programa, que tem orçamento de 20 bilhões de reais para 2012 – cerca de 0,5% do PIB -, está condicionado ao cumprimento de diversos fatores pelos beneficiários. Entre eles, a frequência mínima de 85% às aulas para crianças de 6 a 15 anos e 75% para jovens de 16 e 17 anos.
Os dados mostram uma série de avanços sociais proporcionados pela ação. Entre eles, a melhora ao acesso à educação entre os jovens pobres. O levantamento aponta que a frequência na escola entre crianças de 8 a 14 anos de idade é de 95%, mas o resultado vai piorando nas faixas etárias de 7 a 15 anos e entre 16 e 17 anos. Segundo informações obtidas por CartaCapital junto ao MDS (não pertencentes ao levantamento), entre 2009 e 2011 somente 4% dos beneficiários tiveram baixa frequência nas escolas. Em 2011, 95,52% deles cumpriram a cota mínima de presença exigida.
Apesar de os níveis de comparecimento às salas de aula estarem dentro do esperado, em 2009 a taxa de aprovação dos alunos com auxílio financeiro no ensino fundamental foi de 82% contra 83,8% da média, com melhora no ano seguinte: 83,1% contra 85,3%. A taxa de abandono, no entanto, foi menor que a média: 3,4% em 2009, ante 4,1; 3% em 2010, contra 3,5%.
Mas no ensino médio público os resultados são melhores para os integrantes do Bolsa Família. Em 2009, eles alcançaram nível de aprovação de 79,9%, contra 73,7% da media. No ano seguinte, o resultado foi de 80,8% contra 75,1% em favor dos beneficiários. A evasão escolar também foi menor que a da média: 7,5% em 2009 para os alunos do programa, contra 12,8%; 7,2% contra 11,5% em 2010.
Os resultados do levantamento ainda trazem avanços na área da saúde. Em 2005, as grávidas entrevistadas afirmaram ter ido, em média, a 3,1 consultas de pré-natal, um número que saltou para 3,7 quatro anos depois. Sendo que as mulheres com beneficio passaram de 3 visitas para 3,7 visitas, com a evolução de 3 para 3,5 das não auxiliadas. No mesmo período, caiu de 20% para 7% o total de gravidas entrevistadas que relataram não ter realizado pré-natal, com quedas significativas em ambos os grupos.
O tratamento dado às mães surtiu efeitos nos filhos. A prevalência de desnutrição aguda, crônica e baixo peso entre menores de cinco no período de 2005 a  2009 teve, em geral, queda semelhante para crianças de membros do Bolsa Família e de não beneficiados.
A proporção de crianças com desnutrição crônica caiu de 14,7% para 9,7% entre os beneficiários e 15,8% para 11% no outro grupo analisado. O baixo peso teve queda de 7,8% para 5,8% entre os não auxiliados e 7,2% para 5,9% nos beneficiários. A diferença nos casos de desnutrição aguda, no entanto, é grande: enquanto os entrevistados fora do Bolsa Família viram um aumento de 8% para 9%, os auxiliados registraram diminuição de 7,7% para 7,4%.
Outro dado elevado é a taxa de vacinação entre as 4,1 milhões de crianças acompanhadas no primeiro semestre de 2012: com o programa,  98,89% delas seguiram o calendário vacinal.
Reportagem Carta Capital


quarta-feira, 21 de agosto de 2013

OCUPAR E INVADIR


Artigo publicado em 2011 e continua atualissimo.
- Por Joao Paulo Cunha, editor de Cultura do Jornal Estado de Minas, Caderno Pensar, 19/11/2011.
As palavras não são isentas, trazem carga emocional e política, traduzem visões de mundo. O recente movimento Occupy Wall Street parece ter dado novo sentido à palavra ocupação. Se num país, que sempre foi modelo ideológico de liberdade, a população – principalmente os jovens – está nas ruas ocupando praças e centros simbólicos do poder econômico, há algo que precisa ser melhor entendido. Em primeiro lugar, a liberdade que serve aos propósitos econômicos não tem a mesma tradução quando se trata de manifestação política. Além disso, a ausência de padrão de convivência com as pessoas na rua mostra que a dimensão pública não é uma experiência corrente na sociedade em que privatizar é um juízo moral positivo. Por fim, a exposição pública de discordância deixa de ser pontual para ir ao coração do sistema. Não dá mais para esperar o show da próxima eleição presidencial.

O que os jovens de várias partes do mundo têm mostrado é que a ilusão do futuro ruiu. A crise nas economias ricas, com a diminuição do crescimento, parece mostrar que as bases da economia mundial não se sustentam mais. As pessoas perceberam que, mesmo que façam tudo como manda o figurino, nada está garantido. A mutipolarização do mundo impede que as dificuldades sejam hoje exportadas. Durante décadas, as regras do mercado não davam aos países periféricos condições de igualdade, o que fazia deles válvulas de escape dos distúrbios centrais. Hoje, com mercados internos fortes e alianças que passam ao largo das grandes economias, os países pobres e em desenvolvimento precisam se dar conta das próprias expectativas de crescimento e liberdade.

Outro fato que vai se tornando cada vez menos aceito é a tradução financeira da economia, como se a garantia a ser dada aos bancos e instituições insolventes fosse indispensável à saúde de todo o sistema. Bancos passaram a ser vistos como de fato são: vendedores de crédito e cobradores de juros. E, muitas vezes, incompetentes, quando não criminosos, nas duas operações: vendem o que não possuem e cobram além do razoável. Se por muito tempo as pessoas projetaram pôr o dinheiro para trabalhar a seu favor, hoje sabem que nada substitui a produção. Não é à toa que o emprego e a educação se tornaram os grandes ativos de confiabilidade no mundo líquido.

Outro mito que cai com a crise da economia é a atração magnética entre democracia e desenvolvimento. O mundo ocidental patrocinou as mais cruentas ditaduras contemporâneas para preservar sua estrutura de ganhos. Escravizou populações para preservar o suprimento de petróleo e, quando a crise extrapolou a dimensão meramente energética e se revelou na contramão de movimentos internos de liberdade, comemorou a libertação de “seus” ditadores e ainda inventou que tudo só foi possível por causa do Facebook. As democracias ocidentais estão na origem das ditaduras do Oriente Médio e Norte da África, e não no seu desenlace.
Quando os jovens americanos e europeus ocupam praças e ruas estão dando um passo à frente, mas não inovam em termos de atitude política. Ao sul do planeta, as ocupações são estratégias de sobrevivência e contestação ao modelo de concentração econômica. E não é de hoje. Por isso é interessante entender a dialética que parece opor palavras como ocupação e invasão. Atrás delas estão visões de mundo e interesses que apontam para formas também diferenciadas de se praticar a política e o protagonismo social. Entre os gringos de Nova York e os sem casa de Belo Horizonte, há um mesmo gesto de contestação: só a representação não basta. No limite, a possibilidade de conviver com a participação direta é o índice de democracia de um Estado liberal.
Sem tudo
No Brasil, o significante “invasão” se relaciona com o crime, com o desrespeito à propriedade privada, com a apropriação de bem demarcado em sua posse e sentido econômico. Os invasores tomam o que não é deles, destroem a produção, impedem a aplicação da lei e subvertem a noção de Justiça. O invasor é elemento que desestrutura aquilo que é funcional: derruba pés de laranja, quer trocar milhões de toneladas de grãos por uma feira de produtos orgânicos, estabelece padrões de produção que não atendem às necessidades externas.
A força da palavra invasão encontra, no entanto, limites na própria interpretação da lei, que defende, constitucionalmente (portanto acima de qualquer norma inferior) o valor social da propriedade. Além disso, a produção extensiva de carne e grãos no Brasil conflita não apenas com a lógica da necessidade de alimentar a população (o que a soja transgênica não faz, já que ninguém se alimenta de soja, a não ser carneiros e porcos), mas com a própria ciência contemporânea e as diretrizes da sustentabilidade.
Foi em razão disso que os movimentos sociais, preocupados com a dimensão simbólica das palavras e de sua tradução na vida social, assumiram a palavra “ocupação”, em lugar de invasão. Quem ocupa tem como fundamento de seu ato a legalidade, a moralidade, a ciência e a política, todas no sentido mais alto: legalidade constitucional, moralidade pública, ciência contemporânea e política como expressão da liberdade, inclusive com a capacidade de assumir formas novas de relacionamento e prestação de serviços (como a educação, que são prioridade nos assentamentos). Os sem terra brasileiros já fazem o movimento “ocupe” há muitos anos e, não fosse isso, a estrutura inflexível das relações no campo não teria se mexido.
Em nossa cidade, Belo Horizonte, um movimento de ocupação que merece destaque. Na região da Nova Pampulha, o Dandara reúne cerca de 4 mil pessoas, que vivem numa ocupação “rururbana”, em área desprezada há 40 anos, e que só agora vem despertando o interesse de uma construtora que reclama sua posse, depois de deixar a área abandonada e sem qualquer forma de proteção. Organizada, com vários projetos fundados na solidariedade, a comunidade aponta para o déficit habitacional da cidade, hoje em torno de 200 mil unidades (cerca de 55 mil famílias). A cidade tem 80 mil imóveis desocupados. A desapropriação do Dandara custa menos que um décimo das obras da Copa. E não deveria custar nada. O movimento vem sendo tratado com violência pelas autoridades, sendo sujeito de estratégias recorrentes de ameaça de uso da força.
Uma das originalidades da ocupação é a união dos princípios das reformas agrária e urbana na mesma área. Hoje, a reforma agrária vai além da luta pela posse da terra para reivindicar novo modelo de produção de alimentos, sustentável e ecológico, apontando para bandeiras universais. Do mesmo modo, os movimentos por moradia despertaram para a crítica da configuração urbana e de suas estratégias de especulação. Ao recorrer a um projeto coletivo, com sustentação na economia solidária e na relação orgânica com outras formas de exercício da cidadania (inclusive na cultura), a ocupação Dandara pode dar lições aos bem-intecionados jovens de Wall Street.
As famílias na ocupação Dandara sabem o que querem, mas vivem em situação de penúria. O que parece que anda faltando é ocupação das consciências dos responsáveis pela questão, como a Câmara e a prefeitura da cidade, solertes em debater a verticalização mas cegas com o que anda ao rés do chão.
*João Paulo Cunhaeditor de Cultura do Jornal Estado de Minas.

  1. Enviada por Gilvander Moreira, frei Carmelita.