segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O candidato que não aceitou a derrota e a opção pelo terrorismo político

 
 
 
 
Revista Fórum:
 
Na semana passada, ficou claro o caminho escolhido pelo senador Aécio Neves e parte do PSDB: ser liderança de um movimento que, derrotado nas urnas, não consegue dormir com a derrota. E agora buscam, por variados caminhos, desestabilizar as instituições do país, construir um clima de tamanha tensão, dentro e fora do Congresso Nacional – basta dar uma volta nas recentes manifestações para se entender do que esse povo é capaz – para, assim, criar uma narrativa que dê espaço constitucional para um impeachment ou mesmo um golpe.
 
Resta saber se a estratégia pelo terrorismo político com foco na desestabilização institucional se sustenta ou, pelo menos, aguenta até 2018. Resta, também, saber se o senador Aécio Neves conseguirá se manter como “liderança” até lá.
 
 
  
247 - O jornalista Ricardo Kotscho, do Balaio do Kotcho, avalia que o senador Aécio Neves (PSDB-MG) partiu para o vale-tudo e decidiu encarnar Carlos Lacerda, golpista mais notório da história política nacional.
Leia, abaixo, sua análise:
É como se Aécio Neves dissesse para Dilma Rousseff, ao final desta opera bufa em que encarna Carlos Lacerda à beira de um ataque de nervos: "Tudo bem, eu perdi a eleição, não vou ser mais presidente, mas você também não vai governar. Nós não deixaremos".
Vai ficando mais claro a cada dia que o objetivo real da oposição é um só: criar o clima e as condições necessárias para que a presidente reeleita Dilma Rousseff não assuma o segundo mandato e, se isso acontecer, impedi-la de governar o país pelos próximos quatro anos.
 
 
 Do Tijolaço:

O lobo está rosnando. E o cordeiro, o que fará?

Reparem a foto que ilustra o post, tomada emprestado da Folha.  Na matéria “Com discurso agressivo, Aécio quer deixar presidente ‘no chão'”, assinada por Natuza Nery e Gabriela Guerreiro, fala-se ali, com a maior naturalidade dos planos golpistas do “general” da oposição. Discorre sobre a estratégia de guerra sem quartel do PSDB...
 
 
 Do Tijolaço:
 

Marcha convocada por Aécio é fiasco Completo                                       

 Aécio Neves fez vídeo. Aloysio Nunes fez vídeo. Ronaldo Caiado fez vídeo. Lobão vez vídeo. Pedro Simon fez vídeo. Paulo Ricardo (ex-vocalista do RPM, para quem não se lembra) fez vídeo. Mesmo assim, o protesto na Avenida Paulista, convocado para este sábado, deu menos gente que nas outras vezes. Para variar, um monte de gente com cartazes pedindo intervenção militar

 
 
 Do 247:

DCM: Lobão foi o otário que acreditou em Aécio

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"Estou pagando de otário", disse o cantor, sobre a ausência do tucano na manifestação contra Dilma Rousseff
 
 "Se Lobão imaginou mesmo que Aécio gastaria uma tarde ensolarada de sábado para ir a um protesto, é mesmo um otário", diz o jornalista Paulo Nogueira, do Diário do Centro do Mundo, em sua crônica sobre o protesto de sábado em São Paulo; "Aécio faz tudo por uma manifestação num sábado contra a Dilma, exceto ir. Mas por momentos pareceu que ele romperia sua tradicional vida boa e mansa. Num vídeo postado na véspera do protesto, ele convocou as pessoas a ir para a rua. Era presumível que ele mesmo fosse, mas Aécio se mostrou incapaz de mobilizar a si próprio. Ficou claro o tamanho de sua liderança", crava Nogueira
 
 
 Do 247:

Tico Santa Cruz alerta Lobão: sai fora dessa

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¨Vocalista da banda Detonautas e personagem ativo nas redes sociais, o cantor Tico Santa Cruz deu conselhos ao músico Lobão; "se liga… estão te deixando sozinho nessa. Já tem um monte de maluco pedindo intervenção militar e o negócio tá ficando estranho", disse ele; "Pedir lmpeachment nesse momento é Golpismo. Tanto o PT quanto PSDB, quantos os demais partidos estão envolvido até os ossos com essas empreiteiras"; Tico comentou ainda o bolo que Lobão levou de Aécio Neves; "Esses caras são bons de falar na internet, na hora de ir para as Ruas ninguém aparece… Aécio não apareceu nem para votar contra a LDO"
 
 
Do 247:

No dia do protesto em SP, Aécio curtiu a praia em SC

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¨Colunista Ricardo Kotscho ironiza o desapontamento de Lobão com a ausência do senador Aécio Neves (PSDB-MG) no protesto pelo impeachment da presidente Dilma, quando o músico afirmou estar "pagando de otário"; "Se tivesse lido a coluna de Ancelmo Gois publicada no jornal O Globo, no mesmo dia, Lobão teria a resposta nesta nota:  'Descanso: Aécio e família descansam em Santa Catarina, onde ele obteve dois terços dos votos'. Ninguém é de ferro", informa Kotscho
 
 
 
 
E MAIS INCOERÊNCIA... 
 
Do 247:

Aécio e Aloysio não votaram contra Dilma em brecha fiscal

Marcos Oliveira: Parcial da bancada do plenário durante sessão deliberativa extraordinária.

E/D:
senador Aécio Neves (PSDB-MG);
senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP).

 
¨Candidatos derrotados na mesma chapa a presidente e vice nas últimas eleições, os senadores tucanos Aécio Neves e Aloysio Nunes não registraram seus votos contrários ao projeto de flexibilização da meta fiscal; ambos fizeram discursos inflamados e violentos contra a presidente Dilma Rousseff, mas não votaram nem "sim" e muito menos "não"; processo legislativo durou quase 19 horas
 
 
 PARA LEMBRÁ-LO:
 
 
Revista Fórum:
Por Marcelo Hailer
 
Ao que tudo indica, Aécio Neves perdeu o segundo turno, vai perder o “terceiro” e se, de fato, apostar na estratégia de desestabilizar o governo, deve ficar isolado com a minoria golpista. Isso não significa que o Palácio do Planalto terá bons dias pela frente, muito pelo contrário, e a votação da nova meta de superávit primário foi um bom exemplo disso.
Por fim, o que mais grita de toda essa situação é o silêncio sepulcral do PT, setores aliados e do próprio governo federal. É preciso que haja uma reação para que fique claro que a eleição acabou e que a presidenta foi reeleita. O clima atual é de derrota e, por hora, quem está surfando nessa onda de apatia que se abate sobre os setores da esquerda são reacionários e grupos pró-intervenção militar, que estão ocupando ruas e avenidas a cada 15 dias e a impressão que fica é que os setores progressistas assistem a tudo acuados à espera de que algo aconteça… O despertar pode ser tardio.
 

domingo, 7 de dezembro de 2014

Tricentenário do Mosteiro de Macaúbas, em Santa Luzia

¨A Comunidade de Macaúbas e as Irmãs Concepcionistas do Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição de Macaúbas celebram com entusiasmo o Tricentenário do início da construção da Ermida primitiva por Félix da Costa, origem da história de fé, religiosidade, educação e cultura de Macaúbas.
 
É com alegria, recompensada pelo espírito de gratidão a todos os colaboradores das ações de conservação e preservação do Mosteiro que as freiras celebram 300 anos de fé e tradição do Mosteiro de Macaúbas, preciosidade das Minas Gerais. A casa é de Deus, relíquia de Nossa Senhora¨  
 
Madre  Marta Auxiliadora - OIC
Abadessa do Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição  de Macaúbas
 
 
 
 
 
Antigo recolhimento e uma das primeiras escolas femininas de Minas, Mosteiro de Macaúbas, em Santa Luzia, completa 300 anos de história. Complexo colonial abriga freiras enclausuradas.
 
 
O dia principal das comemorações é nesta segunda-feira, dia 8 de dezembro.  
 
 

 
 
Do ESTADO DE MINAS
Por Gustavo Werneck:
 
Conhecer o Convento de Macaúbas, como é carinhosamente chamado, representa experiência única: ali estão 16 freiras, roseiras para fazer vinho, muitas orações e trabalho duro. Na entrada principal, onde se lê a palavra clausura, vê-se em destaque a pintura de um personagem fundamental nesta história tricentenária: o eremita Félix da Costa, que veio da cidade de Penedo (AL), em 1708, pelo Rio São Francisco, na companhia de irmãos e sobrinhos. Demorou três anos para chegar a Santa Luzia, onde construiu uma capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição, de quem era devoto. Mas, antes disso, bem no encontro das águas do Velho Chico com o Rio das Velhas, na Barra do Guaicuí, em Várzea da Palma, Região Norte do estado, ele teve a visão de um monge com hábito branco, escapulário, manto azul e chapéu caído nas costas. “Ele se viu ali. Foi o ponto de partida para a fundação do Recolhimento de Macaúbas”, conta a madre superiora, explicando que o quadro e uma estátua de Félix da Costa foram feitos no século passado por uma irmã concepcionista.

RECOLHIMENTO No século 18, quando as ordens religiosas estavam proibidas de se instalar nas regiões de mineração por ordem da coroa portuguesa, para que o ouro e os diamantes não fossem desviados para a Igreja, havia apenas dois recolhimentos femininos em Minas: além de Macaúbas, em Chapada do Norte, no Vale do Jequitinhonha. Conforme os estudos, tais espaços recebiam mulheres de várias origens, as quais podiam solicitar reclusão definitiva ou passageira. Havia, portanto, uma complexidade e diversidade de tipos de reclusas, devido à falta de estabelecimentos específicos para suprir as necessidades delas. Assim, os locais abrigavam meninas e mulheres adultas, órfãs, pensionistas, devotas, algumas que se estabeleciam temporariamente, para “guardar a honra”, enquanto maridos e pais estavam ausentes da colônia, ou ainda como refúgio para aquelas consideradas desonradas pela sociedade da época.

Na época do recolhimento, Macaúbas recebeu figuras ilustres, como as filhas da escrava alforriada Chica da Silva, que vivia com o contratador de diamantes João Fernandes. A casa na qual Chica se hospedava fica ao lado do convento. Como parte do pagamento do dote das filhas, Fernandes mandou construir, entre 1767 e 1768, a chamada Ala do Serro, com mirante e 10 celas (quartos para as religiosas). Em 1770, o mestre de campo Ignácio Correa Pamplona assinou contrato para construir a ala da direita da sacristia (Retiro), igualmente dividida em celas. A construção tem ainda as alas da Imaculada Conceição, Félix da Costa (a mais antiga) e a de Santa Beatriz, onde se encontra o noviciado do mosteiro.



Em 1847, o recolhimento passou a funcionar também como colégio, tornando-se um dos mais tradicionais de Minas. Essa situação durou até as primeiras décadas do século 20, quando a escola entrou em decadência, devido à chegada de congregações religiosas europeias com grande experiência na educação de meninas. O tempo passou até que, em 1933, a construção passou a abrigar o mosteiro da Ordem da Imaculada Conceição.

Nesta história, um dos principais nomes é o da irmã Maria da Glória, que ficou mais de duas décadas doente sobre uma cama e morreu em 21 de janeiro de 1986. Muitos católicos atribuem à intercessão da freira diversas graças alcançadas. Em 1965, a extinta revista O Cruzeiro, dos Diários Associados, documentou momentos do cotidiano no mosteiro: as irmãs lavando roupas ou caminhando pelo pátio e a imponente construção colonial em meio ao coqueiral. Muito tempo depois, o Estado de Minas registrou a irmã Maria da Glória, enferma, acompanhada de outra religiosa.

A capelinha erguida por Félix da Costa em 1714, início de toda a trajetória, não existe mais, embora algumas peças primitivas estejam guardadas. “Temos ainda o cofre que Félix da Costa usava para pedir esmolas a fim de erguer o templo”, explica a irmã Maria Imaculada. De acordo com as pesquisas, o eremita seguiu, em 1712, para o Rio de Janeiro, onde obteve do bispo dom frei Francisco de São Jerônimo – na época, ainda não havia a diocese de Mariana, a primeira de Minas – licença para usar hábito e pedir esmolas. Mais tarde, recebeu autorização para abrir o recolhimento feminino, no qual ficaram suas irmãs.


 
Do IEPHA/MG:
 
 
O Mosteiro de Macaúbas está localizado na margem direita do Rio das Velhas, a 11 quilômetros do centro da cidade de Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Em estilo colonial, é um monumento sóbrio e imponente, inserido numa planície em meio a palmeiras de macaúbas. A edificação é cercada por mureta baixa, em alvenaria, que também funciona como arrimo. O corpo principal do prédio, erguido na segunda metade do século XVIII, tem o partido em forma quadrangular, com pátio claustral interno, todo pavimentado em pedras, onde está um cruzeiro.
 
No ano de 1768, o mosteiro sofreu uma intervenção de grande porte. Em cada lateral da fachada principal foram construídos anexos chamados “mirantes”, com vedação na frente, feita por treliças. Um deles está localizado sobre a sacristia, e o outro sobre a área correspondente ao parlatório da antiga construção.
 
Na parte anterior da edificação, está a Capela de Nossa Senhora da Conceição, que conserva belíssimo conjunto de talha no estilo rococó, da segunda metade do século XVIII. Há ainda capelas secundárias como a dos Aflitos, a de Nossa Senhora do Carmo, a de Santo Antônio, entre outras.
 
 
 
 
 
Destaque para a Capela dos Aflitos, cuja pintura dos painéis e do forro, de inspiração rococó, é considerada como a de maior apuro no conjunto do mosteiro. Nas laterais e na parte posterior, no 2º pavimento, estão as celas, distribuídas em duas alas ao longo de um corredor que termina em salões. No andar térreo, encontramos mais celas e as dependências de serviços.
 
História
 
A edificação que hoje abriga o mosteiro foi construída por Félix da Costa, um alagoano devoto de Nossa Senhora da Conceição, que a criou para ser um recolhimento e um educandário. A casa abrigava viúvas e mulheres abandonadas pelos maridos. Muitas filhas de ricos senhores passaram por ali. Entre elas há registro de algumas das filhas de Francisca da Silva de Oliveira, a Chica da Silva, cujo companheiro, o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, construiu uma das alas e um dos mirantes do prédio.
 
Considerado o maior educandário feminino de Minas Gerais da época, foi convertido, em 1926, em Mosteiro de Ordem Contemplativa, ligado à Ordem Imaculada Conceição, fundada pela Santa Beatriz da Silva Menezes, na Espanha, em 1484. Lá vivem, em regime de clausura, as irmãs da Ordem da Imaculada Conceição.
 
O tombamento estadual é de 22 de agosto de 1978, com complementação de entorno em 2002. O Mosteiro de Macaúbas também é tombado na esfera nacional. Totalmente restaurado pelo IEPHA/MG em 1994, três anos depois teve inaugurada a Casa de Retiro, montada, numa das alas, especialmente para receber pessoas que buscam paz espiritual e silêncio.
 

Referências: Dossiê de tombamento do IEPHA/MG - Mosteiro de Macaúbas
 
 
 
 
 
 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A Historia de Dom Pedro Casaldáliga retratada em filme

Agência Brasil
Michèlle Canes* - Enviada Especial da Agência Brasil/EBC Edição: Graça Adjuto

 Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia, fala sobre a estreia do filme Descalço sobre a Terra Vermelha (Wilson Dias/Agência Brasil)Wilson Dias/Agência Brasil
Uma trajetória intensa. É assim que pessoas que convivem com o bispo emérito de São Félix do Araguaia, dom Pedro Casaldáliga, definem a vida do homem que se dedicou a lutar para que a população mais pobre e os indígenas tivessem consciência de seus direitos e lutassem por eles.
Nesta terça-feira (2), os moradores da cidade mato-grossense na qual Casaldáliga vive até hoje participaram do pré-lançamento do filme Descalço sobre a Terra Vermelha. A obra, baseada no livro que leva o mesmo nome e de autoria de Francesc Escribano, conta a história do bispo e é uma coprodução da TV Brasil com mais duas televisões públicas, a espanhola TVE e a catalã TVC. A produção será exibida no canal brasileiro em três episódios nos dias 13, 20 e 27 deste mês. O filme foi dirigido pelo cineasta catalão Oriol Ferrer.



Trailer - Descalço Sobre a Terra Vermelha Leg. PT - YouTube


Em 2014, a produção ganhou os prêmios de melhor ator (Eduard Fernández que interpreta dom Pedro) e melhor trilha sonora original na 27ª edição do Festival Internacional de Programas Audiovisuais (Fipa), na França. O filme também foi premiado no New York International TV & Film Awards.
Dom Pedro Casaldáliga nasceu em Balsareny, na província catalã de Barcelona, em 1928, e veio para o Brasil aos 40 anos, como missionário, para trabalhar em São Félix do Araguaia. Na região, preocupou-se com a saúde, a educação e a assistência à população. A equipe da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) visitou o bispo que, mesmo debilitado pelo mal de Parkinson, falou sobre os problemas da região na época em que chegou: uma terra sem lei, marcada pela violência e pelos conflitos entre posseiros e latifundiários.  
Na luta pelo reconhecimento dos direitos indígenas, ajudou a fundar o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) na década de 70. Egydio Schwade, que também foi um dos fundadores da instituição, é hoje coordenador do Comitê da Memória, Verdade e Justiça do Amazonas e relembra o trabalho ao lado do bispo. “Dom Pedro estava já muito engajado na questão indígena em Mato Grosso, na região do Araguaia, e eu, no noroeste do estado. A gente logo se entrosou”, conta.
Na época, eram promovidos encontros para reunir as lideranças indígenas e foi a partir da criação do Cimi que, segundo Schwade, essa população começou a se organizar e a ser protagonista de sua própria luta, travando embates históricos por questões como a demarcação de terras. O colega de trabalho define o bispo como uma pessoa que trazia ânimo para as reuniões. “Presença humilde, simples, escutando os indígenas”. Na descrição de Egydio, dom Pedro era destemido e não tinha medo de enfrentar a ditadura militar para defender aquilo em que acreditava.
O secretário da Coordenação Nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Antônio Canuto, trabalhou com o bispo em São Félix. Eles se conheceram no período em que dom Pedro chegou ao Brasil. Canuto conta que São Félix do Araguaia tinha uma estrutura muito precária em diversas áreas, o que levou o religioso a procurar a ajuda de colegas missionários para trabalhar nos povoados da região. “Ali faziam todo um trabalho de alfabetização de adultos, com as crianças também em termos de escolarização,o atendimento à saúde, a orientação para a saúde, e o padre fazia o trabalho pastoral”.
Canuto lembra que uma das características de dom Pedro é a tomada de decisão em conjunto. Durante os trabalhos com as equipes, tudo era conversado e decidido por todos. Ele lembra também momentos marcantes que viveu ao lado de Casaldáliga, como o lançamento de uma carta pastoral no dia da ordenação de Pedro como bispo. “Ele lançou a carta pastoral Uma Igreja da Amazônia em Conflito com o Latifúndio e a Marginalização Social, documento que marcou a Igreja pela firmeza das falas e pelas denúncias dos casos de violação de direitos dos posseiros, dos índios e dos trabalhadores que vinham de fora como peões para as fazendas e que eram tratados em regime de escravidão”.
O trabalho desenvolvido por Pedro e seus colegas fez com que muitos integrantes da equipe, e até mesmo ele, fossem ameaçados de morte ou de expulsão do país.
Além da criação do Cimi, Casaldáliga teve participação na criação da Comissão Pastoral da Terra. “Ele e dom Tomás Balduíno são os dois pilares da criação tanto do Cimi quanto da CPT, ao lado de outros”. Com a CPT, muitos trabalhadores foram estimulados, assim como os indígenas, a se organizar.

Residência de dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia (Wilson Dias/Agência Brasil)Wilson Dias/Agência Brasil
Ações como o aperfeiçoamento de professores, a educação e o crescimento da consciência da população são reconhecidas por todos aqueles que tiveram suas vidas modificadas em São Félix do Araguaia. Na cidade, o sentimento de gratidão fica evidente nos depoimentos colhidos entre os que conviveram e defendem o trabalho de Pedro. A coordenadora da Associação de Educação e Assistência Social Nossa Senhora da Assunção, Vânia Costa Aguiar, fala com carinho daquele que, para ela, é mais que um padre. “Pedro é a figura que deu uma cara humanista para São Félix do Araguaia. Ele é pai, é protetor. É um ombro amigo a quem a população necessitada pode recorrer para falar e partilhar os problemas”.
Apesar do papel de destaque que tem na cidade, a postura humilde e a posição de que todas as conquistas são do grupo mostram a simplicidade de Pedro. “Eu percebo que ele nunca teve a intenção de resolver tudo sozinho. Sempre tem uma palavra amiga, uma palavra de conforto para quem o procura e sempre tenta buscar mais pessoas o envolvimento de mais gente para o encaminhamento dos problemas e das discussões das questões levadas a ele”.
Mesmo com a saúde frágil, mas ainda muito lúcido, o bispo faz questão de se manter atualizado. Vânia conta que ele nunca isolou os problemas vividos pela cidade e sempre relacionou o que ocorria ali com as questões nacionais. Para ela, o que dom Pedro fez na região vai ficar como legado para as futuras gerações. “O legado do Pedro é justamente ensinar a gente a cuidar das pessoas. Esse tem sido o seu trabalho, além dos apoios que recebemos, como ensinar a ter esperança. O que me chama atenção em Pedro é a sua força de vontade, a sua determinação em seguir adiante, com esperança”. 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

A Revolução Francisco

POR Washington Araújo                                

Estamos passando por um rito de passagem - o fim do eurocentrismo da Igreja. E para que tal estado acelerado de transformações tenha efeito o fato marcante não é outro que termos um Papa latino-americano




“As grandes revoluções vêm com pés de pombos” afirmou certa feita o consagrado filósofo Friedrich Nietszche (1844-1900) acerca das sempre esperadas transformações mundiais, megamudanças comportamentais que influenciam a marcha do processo civilizatório e que têm o condão de evitar vastas catástrofes engolfando o planeta.
 
E um evento bastante significativo que se desdobra com rara desenvoltura é a revolução promovida pelo Papa Francisco em seus pouco mais de ano e meio de pontificado.
 
A marca não é outra: uma sucessão ininterrupta de toques suaves e precisos de espiritualidade, trazendo ânimo e vigor ao corpo bastante debilitado de uma Igreja que de tudo provou ao longo dos últimos dois milênios, culminando com a sucessão de escândalos de natureza moral enfermando seu próprio clero e de características financeiro-econômicas levando-a ao terreno pantanoso da corrupção secular. “Quem doa à Igreja e rouba o Estado é falso cristão”, disse Francisco em saudação aos peregrinos que recentemente lotaram o Vaticano.
 
A Revolução Francisco tem início com a escolha do nome Francisco pelo cardeal Jorge Mario Bergoglio para assinalar historicamente a existência de seu pontificado.  Nunca antes na história da Igreja um papa escolhera esse nome, nome que evoca uma das mais férteis e memoráveis travessias já feitas pela cristandade católica – a revolução espiritual, a reforma interna, o reencontro com suas mais profundas raízes históricas, o abraço fraternal inclusivo a envolver as massas de pobres que encampam formidáveis 2/3 da população mundial.
 
Estamos passando por um rito de passagem - o fim do eurocentrismo da Igreja. E para que tal estado acelerado de transformações tenha efeito o fato marcante não é outro que termos um Papa latino-americano. Desejemos ou não, na realidade, o olhar inclusivo tem relação direta com aquele sentimento sofrido tão próprio dos que se sentem historicamente excluídos. É isto que facilita a ampliação dos horizontes.
 
O próprio Francisco é singelo e assertivo ao evocar a simbologia contida na escolha do nome pontifício: “Pobres, paz, custódia da Criação”. E isso está em linha com recente declaração da Casa Universal de Justiça ao explicitar o conceito de guardiania coletiva: cada um de nós é guardado pelo todo e, por sua vez, temos a responsabilidade de cuidar dos direitos do conjunto das nações.
 
Em intervalo de tempo tão curto Francisco conseguiu deixar sua marca ao imprimir no mundo certo ‘Efeito Francisco’. E que Efeito seria este? São gestos muito simples, quase prosaicos; na verdade, um somatório de bons sinais em um ambiente religioso há muito fechado, encerrado em ritos e dogmas, pouca luz e muitos egos inflados a enfermar ainda mais a Cúria Romana.
 
Comecemos pela maneira como se apresentou ao mundo no dia 13 de março de 2013, quando do balcão da Praça de São Pedro o recém-eleito papa Francisco dispensou a tradicional saudação em latim e optou em cumprimentar os fiéis com um “Buona Sera!” (boa noite em italiano), logo após o anúncio de sua eleição. Na sequência, simplesmente baixou a cabeça e suplicou por orações. E qual a resposta imediata da multidão que assistia a tão importante evento? Todos se curvaram em submissão a Deus e começaram então a orar.
 
Nos dias seguintes o mundo maravilhou-se a ver a marca da austeridade tomar o lugar da pompa e circunstância, da opulência escandalosamente ostensiva quase sempre associada à figura do Chefe Máximo da Cristandade Católica Apostólica Romana. Esta austeridade logo se impôs quando decidiu continuar usando os mesmos surrados sapatos pretos usados pelo calejado cardeal Bergoglio, manteve a mesma cruz de prata no peito e não a cruz de ouro usada por tantos de seus renomados antecessores no trono de Pedro. Francisco abriu mão do espaçoso apartamento papal para ficar numa suíte em uma casa de hóspedes, a Casa Santa Marta.
 
A sua primeira aparição pública em um veículo também foi premonitório: dispensou a luxuosa limusine papal, uma reluzente Mercedes Benz, há décadas usada pelos pontífices e optou por um singelo automóvel da marca Fiat 1.0, modelo classe média. Mesmo em sua primeira viagem papal, no caso ao Brasil, para a Jornada Mundial da Juventude, Francisco optou novamente pelo uso de um carro simples. Existem encíclicas, documentos, homílias e discursos que tocam corações e mentes, mas existem gestos que não apenas moldam comportamentos como também têm o poder de arrastar multidões.
 
As relações com a imprensa também foram impactadas pelo Efeito Francisco. O Papa tem decidido por encontros com a imprensa quase sempre marcados pelo improviso. Aqui mesmo no Brasil, tendo o porta-voz do Vaticano ao seu lado, Francisco respondeu a todas as perguntas, sem impor limites, por 1 hora e 22 minutos. Isto marcou um novo precedente, e depois consentiu em conceder cinco entrevistas adicionais. Longe do pesado clima solene a que os Papas sempre estiveram relacionados, Francisco marca suas interações com a mídia com três características – bom humor, franqueza e cortesia. E é com esse estilo afável e tendendo para o bonachão que conquistou a imprensa mundial.
 
Francisco tem especial carinho e apreço para os doentes. Antes mesmo de celebrar a primeira missa de seu Pontificado, ele parou o Papamóvel e beijou uma pessoa enferma. Este foi um momento emocionante, mas não único. Outros gestos dessa natureza se seguiram nos meses seguintes.  Os imigrantes e os refugiados, em número cada vez maior e contados aos milhões, pessoas deslocadas de seus países devido a guerras, fundamentalismo religioso, fome ou graves problemas econômicos, tem sido tema prioritário das atenções do Papa. Em julho de 2013, em sua primeira viagem do pontificado, Francisco foi à ilha italiana de Lampedusa, onde milhares de imigrantes morreram em busca de uma vida melhor. No discurso, o Papa usou palavras muito diretas para expressar sua opinião. E tem sido sempre assim, direto ao ponto. “Com a comida que se joga fora se poderia alimentar todas as pessoas que sofrem de fome no mundo", disse o papa Francisco em uma dura mensagem contra o desperdício de alimentos.
 
Se a um tempo mantém  os olhos focados nos dramas e angústias dos indivíduos, das pessoas, como por exemplo, quando decidiu instalar chuveiros públicos no Vaticano para atender às necessidades de higiene de moradores de rua; por outro lado, tem demonstrado especial atenção ao tênue equilíbrio que mantêm o mundo em paz. Com as negociações sírias na Guerra Civil e a ameaça de um ataque americano, o Papa liderou uma vigília para pedir paz, em meio a milhares de pessoas. E, neste final de novembro de 2014 viajou a Istambul, na Turquia, onde foi lançar as bases para a reunificação de sua Igreja Romana com a Igreja Católica Turca, isso após dez séculos de divisão e isolamento; e ao mesmo tempo abriu janelas para o diálogo com o Islã, repudiando de maneira veemente toda forma de fundamentalismo religioso. Há poucos meses havia declarado: “Os judeus são nossos irmãos mais velhos.”
 
Temas considerados espinhosos pela Igreja ao longo dos séculos vêm sendo tratados por Francisco com simplicidade, objetividade e sobretudo, clareza. É o caso do homossexualismo. Acerca do tema, aliás como bem pontuou o jornalista Clóvis Rossi "(o Papa Francisco) ao saltar da qualificação para os homossexuais de "intrinsecamente desordenados" para eventuais portadores de "dons e qualidades a oferecer", o Vaticano dá um gigantesco passo, mesmo sem mudar a doutrina (por enquanto) em uma única vírgula." Em outra ocasião inferiu que para a Igreja não existiam prostitutas e sim mulheres, não existiam mães prostitutas e sim mães.
 
E, provavelmente, caso único na história da Igreja Romana, é um pontífice conectado com as modernas tecnologias. E não faz como a maioria dos mortais, que geralmente é para autopromoção ou para desperdiçar nosso bem vital mais escasso – o tempo. Há poucas semanas Francisco postou em sua conta no Twitter (@pontifex) o poderoso pedido: "Rezem por mim", em inglês e "Orate pro me" em latim. O papa tuíta em mais nove línguas, incluindo além do inglês, latim, árabe e espanhol. 
 
Tem mais de 12 milhões de seguidores. Segui-lo no twitter é uma experiência muito interessante: em tudo se posiciona, nada é dogma, nada parece ser tabu e o que importa mesmo para o Papa é manter esse que é o maior luxo humano – o luxo das relações humanas. Mas não bastaria saber usar a rede social, no caso de Francisco os bons resultados brotam de seu – digamos - estilo, a sua linguagem direta do Papa, as suas atitudes, e o seu estilo de vida bastante despojado para um Papa. O conjunto é que toca em profundidade e suscita um grande interesse, um grande entusiasmo por parte de milhões de pessoas em todo o mundo, católicos ou não, uma vez que a espiritualidade não tem proprietário e nem é marca registrada deste ou daquele credo. 
 
Sem estrelismos pop, sem legalismos boçais e sem pendor pelo exercício puro e simples de qualquer forma de autoritarismo, Francisco parece ter sido permeado pela aura de sinceridade, pureza de intenções, e amor pela justiça, características estas tão associadas à vida de seu xará inspirador, o Santo de Assis.
 
Durante uma homilia na manhã do dia 9 de novembro de 2014, na casa de Santa Marta, no Vaticano, o papa Francisco afirmou que “a Igreja deve sempre ser reformada porque seus membros são todos pecadores e precisam se converter.”  O Papa insiste muitíssimo sobre um Deus que ama, um Deus de misericórdia, um Deus sempre pronto a perdoar a quem se dirige a Ele com humildade. Ele sabe o quanto, frequentemente, nós humanos, somos feridos: feridos por tantas experiências difíceis, por tantas frustrações, por tantas injustiças, por tanta pobreza e tão odiosa marginalização no mundo de hoje.  Nessa mesma toada declarou: ‘Todos expressamos extravios, incertezas, dúvidas, quem não experimentou? Todos. Eu também. Faz parte da fé.”
 
Nada, absolutamente nada, escapa ao imperativo da época em que vivemos: a percepção de que a unificação da espécie humana encontra-se ao nosso alcance. Somos, com efeito, cidadãos e cidadãs de um único e mesmo país – o planeta Terra.
 
E neste contexto, só pode ser motivo de enorme satisfação para milhões de homens e mulheres de boa vontade perceber que o Efeito Francisco torna ainda mais receptivos corações e mentes para ouvir a sempre aguardada promessa da Paz Mundial, aquela época dourada em que todos os horizontes da humanidade estariam iluminados pela luz da unidade.
 
 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Historiadores traduzem única autobiografia escrita por ex-escravo que viveu no Brasil

Do Globo
Por Leonardo Vieira:
Que aqueles ‘indivíduos humanitários’ que são a favor da escravidão se coloquem no lugar do escravo no porão barulhento de um navio negreiro, apenas por uma viagem da África à América, sem sequer experimentar mais que isso dos horrores da escravidão: se não saírem abolicionistas convictos, então não tenho mais nada a dizer a favor da abolição.”
As palavras são de Mahommah Gardo Baquaqua, ex-escravo nascido no Norte da África no início do século XIX e que trabalhou no Brasil antes de fugir das amarras da servidão em Nova York, em 1847. O trecho consta do livro “An interesting narrative. Biography of Mahommah G.
Baquaqua” (“Uma interessante narrativa: biografia de Mahommah G. Baquaqua”, em tradução livre), lançado assim mesmo, em inglês, pelo próprio ex-escravo, em Detroit, no ano de 1854, em plena campanha abolicionista nos EUA. A obra jamais foi traduzida para o português, permanecendo desconhecida do público brasileiro.

No entanto, com apoio do Ministério da Cultura e do Consulado do Canadá, o professor pernambucano Bruno Véras, de 26 anos, resolveu se debruçar sobre o documento, ajudado por outros dois pesquisadores. Ele viajou ao Canadá, onde buscou vestígios de Baquaqua e consultou os originais do livro, cuja primeira edição em português deve ser lançada no Brasil até o fim do ano que vem.
– Baquaqua sempre foi um personagem que me intrigou. Ele escreveu a única autobiografia de um africano escravizado em terras brasileiras. Nos EUA e na Inglaterra existem vários desses relatos, que tinham uma função abolicionista. No Brasil, só um. E, apesar disso, Baquaqua não é conhecido em nossa História nem em nossos livros didáticos – conta Véras.
Os historiadores Paul Lovejoy e Robin Law, por exemplo, republicaram o livro nos anos 2000, ainda no idioma de Shakespeare. Segundo consta dos registros da edição original, parte da obra foi ditada para o escritor Samuel Moore, responsável também por editar a história do escravo.
DUAS VEZES ESCRAVIZADO
A trajetória extraordinária desse personagem começa nos anos 1820, em Dijougou, onde hoje é o Norte do Benim. Filho de um proeminente comerciante, o pequeno Mahommah Baquaqua estudou em uma escola islâmica para ter acesso ao Corão, adquirindo conhecimentos de leitura e de matemática. Suas habilidades logo lhe permitiram atuar em importantes rotas comerciais que ligavam o então califado de Socoto e o extinto Império Ashanti, que rivalizavam no tráfico de escravos e no domínio de regiões da África Ocidental.
Baquaqua foi preso e feito escravo pelos Ashanti enquanto vendia grãos, noz de cola e outras especiarias para o front de guerra. Mesmo sendo recomprado e libertado pelo seu irmão, acabou novamente detido pouco tempo depois por tentar roubar e ingerir bebida alcoólica perto de Dijougou, algo próximo a um pecado capital para uma localidade dominada pelo Islã.
Baquaqua não pôde contar com a sorte daquela vez. Novamente escravizado, foi levado para a cidade litorânea de Uidá, importante porto de onde saía grade parte dos cativos destinados ao Novo Mundo. É a partir desse ponto que a autobiografia ganha seus contornos mais emocionantes:
“Quando estávamos prontos para embarcar (para as Américas), fomos acorrentados uns aos outros e amarrados com cordas pelo pescoço e, assim, arrastados para a beira-mar. Uma espécie de festa foi realizada em terra firme naquele dia. Não estava ciente de que essa seria minha última festa na África. Feliz de mim que não sabia”, escreveu o escravo.
Se, antes, os brasileiros tinham conhecimento do ambiente de um navio negreiro por meio das descrições de historiadores ou de famosos poemas como o de Castro Alves, agora poderão ter um relato vivo de uma testemunha de um dos piores capítulos da História da humanidade:
“Fomos arremessados, nus, porão adentro, os homens apinhados de um lado, e as mulheres de outro. O porão era tão baixo que não podíamos ficar de pé, éramos obrigados a nos agachar ou nos sentar no chão. Noite e dia eram iguais para nós, o sono nos sendo negado devido ao confinamento de nossos corpos.”
Comida e bebida eram escassos na viagem, havendo dias em que os escravos não ingeriam absolutamente nada. “Houve um pobre companheiro que ficou tão desesperado pela sede que tentou apanhar a faca do homem que nos trazia água. Foi levado ao convés, e eu nunca mais soube o que lhe aconteceu. Suponho que tenha sido jogado ao mar”, conta Baquaqua.
Pernambuco foi o destino do navio que levava nosso personagem, que desembarcou em 1845. De início, foi levado para uma lavoura nos arredores de Olinda, onde conheceu a dureza da escravidão brasileira: “o fazendeiro tinha grande quantidade de escravos, e não demorou muito para que eu presenciasse ele empregando livremente seu chicote contra um rapaz. Essa cena causou-me uma impressão profunda, pois, é claro, imaginei que em breve seria o meu destino”.
Baquaqua tratou da violência do senhor, chamando-o de “tirano”. Trabalhando como padeiro, o escravo inicialmente prestava os serviços com dedicação, mas ao ver que seu “patrão” nunca ficava satisfeito, entregou-se às bebidas e evitou o serviço. Acabou revendido para outro comerciante, desta vez no Rio de Janeiro.
“Meus companheiros não eram tão constantes quanto eu, sendo muito dados à bebida e, por isso, eram menos rentáveis para o senhor. Aproveitei disso para procurar elevar-me em sua opinião, sendo muito prestativo e obediente, mas tudo em vão; fizesse o que fizesse, descobri que servia a um tirano e nada parecia satisfazê-lo. Então comecei a beber como os outros e, assim, éramos todos da mesma laia, mau senhor, maus escravos.”
Na capital do Império, devido aos seus conhecimentos de matemática e literatura, o escravo atuou dentro de um navio especializado no comércio de charque entre o Rio Grande do Sul e a Corte.
Mas foi uma encomenda de café para Nova York que mudou sua vida completamente. Naquela época, os estados do Norte dos Estados Unidos já tinham abolido a escravidão, fato que não passou despercebido por Baquaqua. “A primeira palavra que meus dois companheiros e eu aprendemos em inglês foi F-R-E-E (L-I-V-R-E); ela nos foi ensinada por um inglês a bordo e, oh!, quantas e quantas vezes eu a repeti.”
Baquaqua tentou fugir do navio ao desembarcar em Nova York, mas logo acabou preso. Com a ajuda de abolicionistas locais, o escravo conseguiu escapar da prisão e rumou para o Haiti. Ficou por lá durante dois anos, período em que se converteu ao cristianismo, ingressando na Igreja Batista Abolicionista. De volta aos Estados Unidos, em 1850, o já liberto africano frequentou aulas de inglês por três anos no Central College, numa localidade então conhecida como MacGrawville, hoje parte de Nova York.
RELATO SIMILAR AO DE FILME QUE GANHOU OSCAR
Mas foi em Detroit que Baquaqua publicou seu livro, numa tentativa de arrecadar fundos para a campanha abolicionista. A autobiografia – chave do seu engajamento na luta abolicionista (que o levou até mesmo à inglesa Liverpool, em 1857, último lugar onde se teve notícia de Baquaqua) – é contemporânea e guarda similaridade com a de Solomon Northup. Americano nascido livre e escravizado no Sul dos Estados Unidos, ele teve sua obra adaptada para o cinema
em 2013, com o título “Doze anos de escravidão”. O filme americano venceu o Oscar em três categorias, inclusive a de melhor longa-metragem.

– O contexto em que o livro de Solomon Northup foi publicado é o mesmo do de Baquaqua. Abolicionistas incentivavam ex-escravos a escrever relatos do cativeiro e mobilizar a opinião pública. Nada melhor do que o próprio escravo para contar como era a escravidão – afirmou Véras, que também trabalha para lançar um site somente sobre o ex-escravo, reunindo vídeos, fotos e arquivos de época.
Essa fascinante história também virou tema de um pequeno documentário em 2012, produzido por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em parceria com professores da rede de ensino do estado. Paulo Alexandre, conhecido nacionalmente por reproduzir os principais acontecimentos da Segunda Guerra Mundial no Facebook, foi um dos que participaram da produção.
Segundo ele, o personagem pode ser trabalhado em sala de aula como uma história de superação e de luta contra os estereótipos em torno do escravo:
– Meus alunos ficam impressionados quando lhes conto sobre Baquaqua, pois todos tinham aquela velha ideia de escravo submisso, aquele indivíduo sem nome nem identidade, que só sabia apanhar e trabalhar. Ninguém imagina que ele poderia ser uma pessoa inteligente, empreendedora, que consegue a liberdade a partir do próprio esforço.