terça-feira, 22 de agosto de 2017

A aberração e a cegueira estratégica da venda da Eletrobras

Investe-se contra uma empresa estratégica, maior produtora de energia do planeta, dona de linhas de transmissão

O anúncio de venda da Eletrobras para fazer caixa é uma das iniciativas mais aberrantes do governo Temer. 

A ideia da “democratização do capital” e a comparação com a Vale e a Embraer é esdrúxula. Ambas estão na economia competitiva enquanto a Eletrobrás é uma concessionária de serviços públicos, estratégica para o país.

A avaliação de R$ 20 bilhões equivale a menos da metade de uma usina como Belo Monte. A Eletrobrás tem 47 usinas hidroelétricas, 114 térmicas e 69 eólicas, com capacidade de 47.000 MW, o que a faz provavelmente a maior geradora de energia elétrica do planeta. É uma empresa tão estratégica quanto a Petrobras.

A Eletrobras está sendo contruída desde 1953 e exigiu investimentos calculados em R$ 400 bilhões do povo brasileiro. Além da capacidade geradora, que equivale a meia Itaiupu, a Eletrobras controla linhas de transmissão, seis distribuidoras e a Eletronuclear, empresa estratégica que detém as únicas usinas nucleares brasileiras

O modelo elétrico brasileiro é uma obra de engenharia fanrtástica, resultado do pensamento estratégico de especialistas como Octávio Marcondes Ferraz, Mário Thibau, Mário Bhering, um conjunto de técnicos da Cemig – que também corre risco idêntico.

No governo Fernando Henrique Cardoso, o desmonte irresponsável desse modelo promoveu um encarecimento brutal das tarifas, que acabou tirando a competitividade brasileira em vários setores eletro intensivos. Lá, como ágora, moviam-se exclusivamente por visão ideológica, sem um pingo de preocupação com a lógica de um sistema integrado.

O comprador com toda probabilidade será um grupo chinês que por 20 bilhões de reais assumirá o provavelmente maior parque de geração hidroelétrica do planeta. É realmente inacreditável o nível de improvisação, cegueira estratégica, leviandade suspeita atrás desse tipo de decisão de quebra-galho financeiro.

Nos EUA, o parque hidroelétrico, que corresponde a 15% da matriz energética , é estatal federal, porque lá se acredita que energia elétrica, que envolve recursos hídricos são de interesse nacional e não podem ser privados. Lá há muito cuidado com água, rios e represas e nunca se pensou em privatizar.

A ideia de privatizar estava obvia quando a rainha das privatizações da Era FHC  Elena Landau foi colocada como presidente do Conselho da empresa. Há um mês pediu demissão para não ficar evidente demais sua presença com o anúncio da privatização, ligando a lembranças de sua atuação no governo tucano.

Para completar o pesadelo, o Ministro de Minas e Energia é um rapaz de 33 anos, formado em administração de empresas pela FAAP, sem qualquer especialização na área e representando o histórico PARTIDO SOCIALISTA BRASILEIRO, de ilustres nomes como João Mangabeira, que deve estar se revirando na tumba com tal iniciativa por  um "socialista" pernambucano.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

A volta do ovo da serpente?


Maria Clara Lucchetti Bingemer *, Jornal do Brasil

O famoso filme de Ingmar Bergman, de 1977, é considerado uma das melhores interpretações cinematográficas do surgimento do nazismo e suas posteriores e funestas consequências para a Alemanha e o mundo inteiro. 
Denotando meticulosa pesquisa histórica feita pelo grande cineasta sueco, o filme mostra com extrema fidelidade e realismo os primeiros passos de uma sociedade que já se encontra dividida e ameaçada.  Deixa entrever o insidioso e silencioso processo que desembocaria no nacional-socialismo a partir de 1933 e resultaria no mais monstruoso genocídio que a humanidade já conheceu: o holocausto nazista. 
Em seu filme, Bergman profetiza, a partir do que está acontecendo na sociedade alemã, aquilo que a espera.  E compara a um ovo de serpente.  É inesquecível a frase pronunciada pelo personagem do Dr. Hans dirigida ao trapezista judeu Abel Rosemberg já no final do filme:  qualquer um que fizer o mínimo esforço poderá ver o que nos espera no futuro. É como um ovo de serpente. Através das membranas finas pode-se distinguir o réptil já perfeitamente formado. 
Trata-se de um sentimento parecido àquele que experimentamos ao ler a surpreendente notícia de que um hotel suíço de uma estação de esqui – o Aparthaus Paradies – afixou em suas dependências um cartaz com a seguinte advertência: “Aos nossos hóspedes judeus – mulheres, homens e crianças – por favor tomem uma ducha antes de nadar... Se quebrarem as regras serei forçado a fechar a piscina para vocês. Obrigado por sua compreensão. “
Como se não bastasse, na porta do freezer do hotel, onde os hóspedes judeus haviam pedido para guardar sua comida “kosher”, de acordo com as regras de sua religião, apareceu outro cartaz, também dirigido apenas aos hóspedes judeus: "Aos nossos clientes judeus: podem ter acesso ao freezer somente nos seguintes horários: das 10h às 11h e das 16h30 às 17h30. Espero que compreendam que nossa equipe não gosta de ser incomodada o tempo todo".
A primeira reação veio imediatamente, provavelmente por parte de outro hóspede que se sentiu indignado com a recomendação.  No mesmo cartaz da piscina, na parte de cima, foi escrito: “Eu não sou um hóspede judeu e achei isso muito racista”. A partir daí o cartaz foi fotografado, espalhado pelo mundo inteiro, viralizado nas redes sociais.  
Israel exigiu desculpas oficiais, classificando o ato de antissemita da pior espécie. O ministério suíço das Relações Exteriores afirmou em um comunicado que destacou ao embaixador de Israel que a Suíça "condena o racismo, o antissemitismo e qualquer discriminação".
Poderia ser apenas um sintoma isolado.  Mas não será ingenuidade considerá-lo assim?  Não será ingenuidade extrema, uma semana após os episódios de Charlottesville, onde um jovem militante da supremacia branca investiu com um carro violentamente contra ativistas antirracistas.  Os grupos da direita radical, defensores da supremacia branca, se opuseram ao projeto de retirar da cidade a estátua do general que lutou a favor da escravidão.  Houve mortos e muito feridos. 
Os supremacistas brancos e direitistas marcharam pelas ruas da pacata cidade da Virginia carregando tochas e incluindo em seu ódio discriminatório não apenas os negros, mas igualmente gays, judeus e outros grupos que, há pouco mais de 70 anos, Hitler também perseguia no seu intento de limpar a Europa de tudo e todos que não compusessem a raça ariana, “única pura e digna de viver”. 
Ao lado desses há outros sintomas.  O renascimento dos partidos direitistas na Europa, que estiveram perto de ganhar as eleições presidenciais na França.  O repúdio de tantos países europeus à entrada dos imigrantes, que são em sua quase totalidade de outra ascendência, outra etnia, outra religião.  O mesmo repúdio crescendo em surpreendente escala nos Estados Unidos de hoje, com correspondente legislação que o sustenta. 
No Brasil, protesta-se contra o sistema de cotas. Os negros e os pobres sofrem as consequências da crise mais do que todos e são obrigados a conviver com o desmentido de que a escravidão foi abolida. Os negros são orientados a entrar pela porta de serviço em prédios de bairros de classe média alta. As vítimas do tráfico são em geral jovens e negras.  A Lei Áurea parece ter sido algo episódico, que não chegou ainda a acontecer. 
O preconceito é algo diabólico porque situa determinados grupos de seres humanos em um degrau inferior de humanidade.  E lança-se sobre eles e elas várias atitudes negativas a priori que vão limitar sua cidadania e sua pertença na sociedade em que vivem.
De onde se tirou que os judeus necessitam mais de banho do que outros?  Por que os negros ensombreceriam a imagem da nação mais poderosa do mundo? Qual a fonte da concepção de que os migrantes entram nos países mais desenvolvidos do primeiro mundo para roubar o emprego dos cidadãos nativos e locais? 
A imensa dificuldade de lidar com a diferença do outro, com sua identidade que não é a minha, começa a tomar corpo e tornar-se um fenômeno coletivo com avassaladora força destrutiva. Ingmar Bergman olhava para o passado recente de seu continente ao fazer seu célebre filme.  Hoje somos convocados a olhar o presente e procurar perceber a silhueta do réptil que se delineia na parte interior do ovo que choca a catástrofe. 
Não é possível que a humanidade não haja aprendido as mais amargas lições pelas quais passou na tentativa homogeneizadora racial. Não bastaram continentes destruídos, milhões de mortos, a memória macabra dos campos de extermínio? Não por nada a imagem da serpente no livro do Gênesis é a personificação do demônio que tenta o ser humano. Deus queira tenhamos forças para esmagar a cabeça da serpente no seu nascedouro.  Somente assim poderemos seguir perseguindo a vocação humana que é a nossa. 
* A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc). Professora do departamento de teologia da PUC-Rio

sábado, 19 de agosto de 2017

Diante da falta de postura eis a pergunta: quem pode parar Gilmar? 


O Tempo

RICARDO CORRÊA

Quem vai parar Gilmar?
PUBLICADO EM 19/08/17

Gilmar Mendes tentou soltar Jacob Barata Filho, magnata dos transportes no Rio de Janeiro. Não se declarou impedido mesmo sendo o empresário pai de Beatriz, de quem o ministro foi padrinho de casamento. Não se importou com o fato de o noivo, Francisco, ser sobrinho de sua mulher, Guiomar. Também não deu bola para o fato de a Fetranspor, presidida por Lélis Teixeira, outro que ele tentou soltar, ter contratado o escritório de Sérgio Bermudes, que tem como sócia a mesma Guiomar Mendes. É bom lembrar que foi uma decisão de Gilmar, no Supremo Tribunal Federal (STF), que tirou da cadeia Eike Batista, outro cliente do escritório onde atua a mulher do ministro. Não se esperava outra coisa de Gilmar, porém.

Hoje, o ministro parece fazer o que quer, e não há quem o impeça – seja no STF ou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Nesta Corte, foi o líder da articulação que salvou o presidente Michel Temer (PMDB) de perder o mandato. Isso depois de dar um nó em suas próprias palavras, proferidas quando, lá atrás, defendeu que a ação fosse adiante quando a maior prejudicada era a então presidente Dilma Rousseff (PT). Mesmo comandando a Justiça Eleitoral, não achou inadequado dizer que é possível fazer caixa 2 sem corrupção.

Ontem, Gilmar mostrou que manda mais do que ninguém no TSE. A Corte escolheu, para a lista tríplice de indicados a uma vaga para o cargo de ministro substituto, três professores do IDP, instituição de ensino da qual Gilmar é sócio. O mesmo IDP que faz eventos com patrocínio do governo federal e que recebeu, de 2004 a 2016, 1.766% a mais em repasses do Fies, um fundo de financiamento duramente criticado pelo ministro.

Gilmar acha normal manter contato com os investigados, reunir-se fora da agenda ou secretamente com o presidente, tal qual fez Joesley Batista, e meter-se em assuntos políticos de toda espécie. Não se constrange de apadrinhar a proposta de parlamentarismo escolhida pelo partido (PSDB)  com o qual sempre foi identificado nem acha constrangedor ser flagrado em ligações telefônicas sendo instigado por um senador (Aécio)  a pressionar pela aprovação de projeto A ou B.

Gilmar também não vê nenhum problema em questionar o Ministério Público Federal (MPF) se quer mesmo investigar esse mesmo parlamentar nem em assumir a relatoria de diversos processos contra o mesmo senador. Também não acha ofensiva a forma como se refere ao órgão. É baixo ao falar do procurador geral da República, Rodrigo Janot, mas também já disparou contra o vice-procurador eleitoral Nicolao Dino e contra a própria instituição. Não se controla nem quando debate com os colegas. Já trocou desaforos com Joaquim Barbosa, Marco Aurélio Mello, Ricardo Lewandowski e Luís Roberto Barroso. Desse, ouviu que tem que aprender a perder. Minutos depois, deixou o interlocutor falando sozinho e saiu do plenário. Seus colegas de Corte nada fizeram.

Diante da evidente falta de postura do magistrado, eis a pergunta: quem pode parar Gilmar? O Senado, que pode impedir um ministro do STF, não será. A eles interessa muito mais ter Gilmar no Judiciário. Assim, se seus pares não tiverem coragem de fazê-lo, o país será o que ele quiser que seja. Ou o que seus amigos precisarem que se torne ou continue sendo.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Governo Temer decidiu acabar com o Brasil Sorridente, afirma Paulo Capel Narvai


Paulo Capel Narvai

Professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP) e integrante do Grupo Temático Saúde Bucal Coletiva (GTSB/Abrasco), Paulo Capel Narvai debate os efeitos da revisão da Política Nacional de Atenção Básica (PNAB) na Política Nacional de Saúde Bucal (PNSB) em artigo no siteJornal Odonto. O pesquisador vaticina: “Não há dúvida: o governo Temer decidiu acabar com o Brasil Sorridente. Como símbolo e como política pública.” Leia abaixo o artigo na íntegra e confira no link a publicação original.
O fim do Brasil Sorridente? – Por Paulo Capel Narvai*
A Política Nacional de Saúde Bucal (PNSB), conhecida popularmente como programa “Brasil Sorridente” acabou. Este é apenas mais um dos muitos legados negativos do golpe institucional de 2016, que depôs o governo democrático de Dilma Rousseff. Trata-se do fim do Brasil Sorridente tal como o conhecemos e foi concebido desde o final da ditadura civil-militar, sua estruturação e implementação no governo Lula, bem como os processos avaliativos que o acompanharam desde a institucionalização, em 2003.
Por certo que uma decisão política dessa natureza não é anunciada com longos discursos e profusão de fogos de artifício. Ao contrário, tudo se faz com medidas que levam ao óbito, sem maiores alardes. No caso do fim do Brasil Sorridente tal como o conhecemos, e que foi reconhecido e aplaudido internacionalmente (eu mesmo testemunhei esse reconhecimento ao apresentar um trabalho acadêmico sobre o assunto em Barcelona, no Congresso da IADR, e em eventos científicos no Peru e na Colômbia), a virada fatal na orientação governamental veio com mudanças na Política Nacional de Atenção Básica, a PNAB, que desobriga gestores estaduais e, sobretudo, municipais de desenvolverem ações de saúde bucal. Para isto, o Ministério da Saúde deixou livre a aplicação de recursos transferidos pelo governo federal a esses entes federativos. Aparentemente, isto parece positivo. Mas apenas aparentemente.
Indo além das aparências e levando em conta o conjunto das decisões de governo na Saúde, o cenário não é de difícil compreensão e, então, as aparências não enganam. Tenho dito a colegas com os quais venho analisando as ações do governo Temer e, mais especificamente, os efeitos de decisões relativas a políticas públicas especificamente sobre a PNSB, que o debate sobre a PNAB é, e ao mesmo tempo não é, um debate sobre a PNAB. Explico-me: é sobre a PNAB, pois o governo federal abriu uma consulta pública sobre a reformulação da PNAB e, antes do encerramento do período da consulta, anunciou oficialmente o que faria. Um desrespeito como há muito não se via no setor Saúde. Conforme alertaram entidades como a Abrasco e o Cebes, a PNAB que o governo impõe ao País revoga a prioridade do modelo assistencial da Estratégia Saúde da Família no âmbito do SUS, pois institui financiamento específico para quaisquer outros modelos na atenção básica que não contemplam a composição de equipes multiprofissionais (por exemplo, com a presença de agentes comunitários de saúde, equipes de saúde bucal, dentre outras). Fica aberta a possibilidade de um município organizar seu sistema público de saúde sem incluir a Saúde Bucal.
Essa decisão acaba, na prática, com o Brasil Sorridente, tal como o conhecemos.
O blablabla sobre expansão e consolidação da Atenção Básica, que tem origem no Ministério da Saúde, é apenas isto: blablabla ou, em bom português, conversa para boi dormir. As consequências já começam a aparecer, conforme se vê neste momento no Rio de Janeiro, com anúncios de demissões de dezenas e dezenas de equipes de saúde bucal. Os profissionais de saúde, comprometidos com o direito à saúde e, portanto, à saúde bucal, resistem como podem e colocam-se na defesa do SUS, dos seus postos de trabalho e, sobretudo, do direito de todos à saúde bucal.
Entidades de profissionais e movimentos sociais de saúde têm denunciado que em um contexto de retração do financiamento e sem perspectivas de recursos adicionais, não é absurdo considerar que o financiamento destas novas configurações de atenção básica será desviado da Estratégia Saúde da Família. Tendo em vista o modelo hospitalocêntrico que persiste no SUS, é grande o risco de recursos públicos da saúde diminuírem ainda mais para áreas como a Saúde Bucal. Deve-se registrar que, bem ao contrário do que pretende o governo federal, as lutas que vêm sendo travadas nos últimos anos pelo fortalecimento da Atenção Básica defendem a manutenção da Estratégia Saúde da Família como eixo ordenador do modelo de atenção nos municípios e, para dar conta disso, um aumento considerável do PAB (Piso da Atenção Básica). O PAB (nas categorias fixo e variável) é uma modalidade de bloco de financiamento do SUS (dinheiro transferido pela União aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios, fundo a fundo, em conta única e específica). O valor médio nacional do PAB Fixo é R$ 24,00 per capita ao ano. Trata-se, conforme reiteradas manifestações de secretários de saúde, de Estados e Municípios, de um volume de recursos quase irrisório, insuficiente para fazer frente aos custos de manutenção e desenvolvimento dos serviços necessários para responder às necessidades de saúde da população, sendo urgente sua atualização e redimensionamento, para ampliar as capacidades e a autonomia das secretarias municipais de saúde, com vistas à melhoria da qualidade dos serviços públicos, tão reclamada pela sociedade.
Não há dúvida: o governo Temer decidiu acabar com o Brasil Sorridente. Como símbolo e como política pública. Para compreender essa decisão, que não se anunciou e da qual não se fez alarde, deve-se levar em conta que a imposição da nova PNAB é parte de um processo em cujo início está a chamada “PEC da Morte” (EC 95), que reduz progressivamente por 20 anos os recursos para o SUS. Em seguida veio a decisão sobre a “desregulamentação” dos repasses federais, algo, em princípio, positivo, mas que do modo como foi efetivada, não atendeu ao interesse público na Saúde, conhecida como o “fim dos blocos de financiamento do SUS”. Por essa razão, venho afirmando que a decisão sobre a PNAB é uma decisão que expressa uma disputa feroz, muito pesada, por recursos do SUS – que, apesar do estrangulamento financeiro, representa bastante dinheiro. Estou entre os que acreditam que o melhor a fazer com esses recursos que ainda temos, é aloca-los aos serviços públicos, de propriedade do Estado. Mas o ministro Barros, e uma parte da sociedade, quer que esses recursos sejam transferidos para a iniciativa privada, que seria “mais eficiente” em sua alocação e gestão.
Por isto, as decisões de governo a que estou me referindo representam o fim do Brasil Sorridente tal como o conhecemos, que foi uma prioridade de governo, com recursos razoáveis (ou seja, cronicamente subfinanciado como é de amplo conhecimento, mas em equidade com outras “saúdes”). Nesta disputa sobre o destino dos recursos públicos, dentro do SUS e envolvendo a Saúde Complementar, a Saúde Bucal é considerada uma “parte fraca”, que deve ceder às pretensões do governo federal. Neste contexto, se não houver organização e reação forte, se o projeto de lei que tramita no Senado, conhecido como PL do Brasil Sorridente, apoiado por várias entidades odontológicas, dentre as quais a FIO, a Federação Interestadual dos Odontologistas, não for aprovado, a Saúde Bucal perderá mais do que todas as outras “saúdes”. É muito importante a esse respeito, não confundir a defesa da saúde bucal como direito de cidadania com a defesa de supostos interesses corporativistas das profissões odontológicas. Esses interesses existem, é inegável, mas não devem ser colocados à frente do direito à saúde. Por isso, discordo dos que entendem que não temos que discutir de modo específico “a saúde bucal”, mas o conjunto da política de saúde do atual governo. A meu juízo, opor uma dimensão à outra não é um bom caminho, pois essas dimensões não são antagônicas e também porque, posto desse modo, fica muito empobrecido o debate sobre os rumos da saúde no governo golpista. Assim, a defesa da Saúde Bucal no SUS é ao mesmo tempo a defesa da integralidade da Saúde e, sobretudo, da reafirmação do direito de todos à saúde.
*Paulo Capel Narvai é cirurgião-dentista sanitarista. Especialista, Mestre, Doutor e Livre Docente em Saúde Pública. Professor Titular de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). Autor de ‘Odontologia e saúde Bucal Coletiva’ (Ed.Santos) e de ‘Saúde Bucal no Brasil: Muito Além do Céu da Boca’ (Ed.Fiocruz), dentre outras obras científicas.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Abrace Macaúbas: Vamos juntos ajudar a preservar esse monumento de fé e cultura





“Após comemorar 300 anos de fundação, nosso querido Mosteiro de Macaúbas – Antessala do Céu – precisa da colaboração da comunidade e amigos para preservar esse monumento da fé e cultura do povo mineiro. Vamos juntos, abraçá-lo e permitir que as gerações vindouras possam dele ter o testemunho da fé, arte e cultura dos nossos precedentes”. 

Com o testemunho da madre Maria Imaculada de Jesus Hóstia, abadessa do Mosteiro de Macaúbas, é que iniciamos a campanha Abrace Macaúbas. Em ação coordenada após reunião na 6ª Promotoria de Justiça da Comarca de Santa Luzia, as várias instituições partícipes dessa preservação estão se articulando em frentes diversas para garantir que o Mosteiro possa ser atendido em suas necessidades, evitando danos graves ao importante patrimônio cultural brasileiro. 

Acompanhe as informações da campanha pelos seguintes canais de informação:
Site: www.abracemacaubas.com.br
Facebook: Abrace Macaúbas
Instagram: abracemacaubas






A campanha Abrace Macaúbas surgiu a partir de uma reunião na 6ª Promotoria de Justiça da Comarca de Santa Luzia, com a presença das irmãs concepcionistas e de várias instituições partícipes da preservação do Mosteiro de Macaúbas que irão se articular em frentes diversas para garantir o atendimento das necessidades do complexo histórico, evitando danos ao importante patrimônio cultural brasileiro.
Entre as principais obras enumeradas para a campanha, estão a substituição do defasado sistema elétrico, a desinfestação de cupins presentes em todo o prédio, a restauração dos elementos artísticos (nunca restaurados) e a organização e catalogação de toda a documentação, todos protegidos por atos de proteção nas instâncias federal, estadual e municipal.

O Mosteiro

Construído a partir da iniciativa do ermitão Félix da Costa no sertão das Minas Gerais, o Mosteiro de Macaúbas é a única construção colonial do estado com características conventuais. Localizado no município de Santa Luzia, o mosteiro comemorou em 2014 os trezentos anos do início de sua construção, que serviu ao primeiro recolhimento feminino do estado.
Monumento religioso, histórico, artístico, cultural e paisagístico, o Mosteiro foi tombado, em 1963, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em 1978, pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA/MG), e, em 1989, pela Prefeitura Municipal de Santa Luzia.

"Trata-se de um conjunto do maior interesse histórico e arquitetônico. Pelo seu vulto, grandeza e destino é edifício digno de apreço."
"Arquiteto Paulo Thedim Barreto (SPHAN - 1962)


O desafio para se preservar uma construção colonial de mais de 6mil metros quadrados é enorme. E, como se não bastasse o tamanho da construção, em grande parte ainda original do século dezoito, o Mosteiro de Macaúbas conta com espaços diferenciados como suas capelas e oratórios que exibem o estilo rococó. Com grande destaque para a Capela de Nossa Senhora da Conceição e Capela dos Aflitos, os elementos artísticos do Mosteiro nunca receberam nenhuma ação de restauração e o tempo e o ataque de cupins tem levado a uma degradação crescente. Somado a essas peculiaridades, a necessidade da organização e restauração de documentos que contam toda a trajetória da instituição, fundada como um recolhimento feminino.
Para a primeira fase da campanha, foram enumeradas algumas ações, como: a substituição do defasado sistema elétrico, a desinfestação de cupins presentes em todo o prédio, a restauração dos elementos artísticos e a organização e catalogação de toda a documentação, todos protegidos por atos de proteção nas instâncias federal, estadual e municipal.
  • Restauração do ‘Muro da Lenha’ (muro construído no século dezoito na técnica construtiva do adobe e cobertura de beira-seveira): Valor estimado: R$250.000,00
    Projeto elétrico (projeto referente à troca do sistema elétrico de todo o prédio para adequação às normas vigentes e garantindo a segurança das irmãs e visitantes do Mosteiro): Valor estimado: R$200.000,00
    Obra de restauração de elementos artísticos (projeto para restauração da Capela dos Aflitos, localizada na Ala do Serro): Valor estimado: R$400.000,00
  • Após captação dos recursos, execução das obras.

COMO PARTICIPAR


Abrace Macaúbas espera contar com a participação de amigos e benfeitores para conquistar as metas da campanha. Para isso, foi nomeada uma comissão específica para a coordenação da captação de recursos composta pelas seguintes instituições: Mosteiro de Macaúbas, Associação Cultural Comunitária de Santa Luzia, Memorial da Arquidiocese de Belo Horizonte, Paróquia de Santa Luzia e Vicariato da Ação Missionária das Cidades Históricas. Foi aberta uma conta bancária específica para receber as doações que poderão ser de pessoas físicas e jurídicas.
Para doar qualquer quantia:
Banco: Caixa Econômica Federal
Nome: Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição Macaúbas
Agência:1066
Operação 013
Conta Poupança: 75.403/4
Todas as ações serão acompanhadas pela 6ª Promotoria de Justiça da Comarca de Santa Luzia e fiscalizadas pela Comissão Técnica constituída pela Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Santa Luzia, Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA/MG) e Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

O BRASIL ENTRE A DITADURA DOS BANCOS E A CARAVANA DA ESPERANÇA

Emir Sader
Brasil 247



O Brasil foi arrebatado pelos golpistas e entregue nas mãos dos banqueiros. O país é muito pior, mais pobre, mais desigual e injusto. Cinco milhões de pessoas voltam à situação de pobreza. O Bolsa Família foi tirado de milhões de pessoas carentes. Milhões penam o desemprego, outros tantos trabalham de forma absolutamente precária, a grande maioria tem medo de perder o emprego e ficar ao desalento
A imagem internacional do país nunca foi tão ruim, ninguém mais o respeita. O governo corta recursos do orçamento o tempo todo, penalizando os mais pobres, mas o déficit público só aumenta, pela farra do Temer para escapar dos processos, aí o governo dilapida o pré-sal para manter o presidente corrupto.

O país é dirigido por banqueiros, diretamente, ou por seus representantes. Se impõem os interesses do capital financeiro, se perdoam dívidas dos bancos privados, enquanto se tira o Bolsa Família de milhões de pessoas carentes. O Brasil está sendo sucateado em favor da especulação financeira. A economia se desnacionaliza, o Estado é destruído, a sociedade se fragmenta e os trabalhadores perdem seus direitos.
Para consolidar o atentado contra a democracia, se busca destruir os partidos e os sindicatos. Os partidos, pelo Distritão, que os reduz a barrigas de aluguel de parlamentares corruptos que buscam reeleger-se e se proteger das acusações de corrupção. Os sindicatos, mediante reformas da CLT que deixam os trabalhadores absolutamente desprotegidos diante da sanha patronal.

Um ano e meio depois, esse é o Brasil que a direita impõem pela via da força, diante da passividade cúmplice do STF, do apoio desconcertado da mídia que promoveu o golpe, diante das arbitrariedades de promotores mancomunados com a mídia e da PF. Esse o país dos bancos e da gangue corrupta que entregou o Brasil nas mãos dos rentistas, que vivem do endividamento alheio
Nesse momento o Lula sai para uma Caravana da Esperança pelos 9 estados do nordeste do Brasil. Um Lula que volta às suas origens depois de ter se consagrado como o presidente que transformou o Brasil para um país muito melhor, menos injusto, orgulhoso de si mesmo, confiante na sua capacidade de superar seus problemas, respeitado pelo mundo.

Um Lula muito mais experiente, que sabe que o Brasil é viável, que pode retomar o caminho do desenvolvimento e da distribuição de renda. Que sabe que é indispensável o resgate do Estado para fazer o país voltar a crescer e a garantir as políticas sociais contra o abandono do povo e os direitos dos trabalhadores.

Lula chega ao nordeste para ver as transformações fundamentais que os governos do PT levaram a cabo, que mudaram radicalmente a fisionomia da região e, ao mesmo tempo, constatar os retrocessos que o governo golpista dos banqueiros está produzindo. Lula vai ouvir e falar, abraçar e ser abraçado, ver e anotar, agradecer a confiança do povo do nordeste e retribuir essa confiança.

Lula leva a palavra de esperança, na hora em que querem não apenas terminar com o Brasil menos desigual, como acabar com a esperança dos brasileiros. Sabem que só podem governar se o povo se desmoralizar, se perde a perspectiva de recuperar seus direitos. Só um país sem esperança pode ser massacrado pelos chacais que odeiam o Brasil, o povo e a democracia.

Um regime ditatorial tem que ser derrotado, mas tem que ser derrubado, para terminar. Não vai se entregar facilmente, porque tem muito a perder. Essa primeira Caravana da Esperança é um marco divisório no futuro do Brasil. Ela vai contribuir para levantar a disposição do povo em derrubar a ditadura dos bancos por demonstrações cada vez maiores de que os brasileiros não aguentam mais, que não suportam mais ver o país e suas próprias vidas entregues nas mãos dos que estão tirando o pão e a esperança dos brasileiros.


Vai ser uma Caravana histórica, épica, emocionante, de reencontro do Lula com o seu povo, do povo com a esperança. O Brasil todo tem os olhos postos nessa caminhada, milhões participarão diretamente dela, muitos milhões mais a acompanharão com o seu coração e os olhos postos nessa linda trajetória pelo nordeste, que apenas reinaugura a batalha da esperança contra a dilapidação com querem destruir o Brasil e a esperança dos brasileiros.

São essas as duas possibilidades que o pais tem hoje diante de si: a ditadura dos bancos, da especulação e da super exploração do seu povo ou a recuperação da esperança e do projeto que resgatou o Brasil da miséria e da desesperança.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Kennedy Alencar: Meirelles fracassou

Tijolaço:

Kennedy Alencar: Meirelles fracassou. Veja

Kennedy Alencar, agora à noite no SBT, vai ao ponto –que este Tijolaço já vem batendo há duas semanas – o aumento do déficit na meta fiscal para R$ 159 bilhões está politicamente inviável e há forte possibilidade que ele vá a R$ 170 bi, o que será um desastre para o que resta de credibilidade para Henrique Meirelles:
O vaivém para mudar as metas fiscais deste e do próximo ano deve abalar a credibilidade da equipe econômica. O time capitaneado pelo ministro Henrique Meirelles (Fazenda) vem sinalizando para o mercado desde a quinta-feira passada que as metas ficariam por volta dos R$ 159 bilhões em cada ano _talvez uns quebrados a mais.
Um número maior parecerá improviso e soará como uma derrota para a ala política. O Congresso não garante votar a reforma da Previdência nem um novo refinanciamento de dívidas de empresas que gere R$ 13 bilhões de receita. A Câmara desfigurou a proposta do novo refis feita pela equipe econômica.
Há dúvidas sobre privatizar a Cemig neste ou no próximo ano. E existe oposição à ideia de vender Congonhas, aeroporto que sustenta financeiramente a Infraero. A privatização está sendo pensada para tapar buraco de despesas correntes e não como ação estratégica.
Em resumo, o ajuste fiscal de Henrique Meirelles fracassou. O resultado principal foi aumentar a dívida pública.
O principal problema é que o governo não consegue ter segurança em relação ao tamanho do buraco nas contas públicas. A equipe econômica chegou a fechar um acordo com o presidente Michel Temer para fixar as metas de 2017 e 2018 em pouco mais de R$ 159 bilhões de reais negativos para cada ano.
Mas a ala política diz que não tem como garantir receitas que dependem da aprovação do Congresso e recomenda prever um buraco ainda maior, na casa dos R$ 170 bilhões neste e no próximo ano.
Veja o comentário do repórter no SBT: