segunda-feira, 14 de abril de 2014

Livro sobre a trajetória de Frei Tito, que jamais se recuperou da tortura

Tito, que abraçou a religião e a revolução, morreu com o demônio na alma

 
 
            Por Vitor Nuzzi, da Rede Brasil Atual                               
       
Livro lançado hoje (14) narra trajetória de frei dominicano que jamais se recuperou da tortura. Destruído por dentro, matou-se aos 28 anos. 'O trágico é que ele não pôde esperar', diz autora
reprodução
Frei Tito
Frei Tito nunca conseguiu se recuperar das torturas sofridas a partir da prisão, primeiro no Dops, depois na Oban
 
Rio de Janeiro – "Se ele não falar, será quebrado por dentro, pois sabemos fazer as coisas sem deixar marcas visíveis. Se sobreviver, jamais esquecerá o preço de sua valentia." A frase do capitão Benoni Albernaz, aquele que "deixava o coração em casa" ao sair para trabalhar, revelou-se profética. Em 10 de agosto de 1974, o corpo do frei Tito balançava em uma árvore, no interior da França, pondo fim a anos de angústia, de um homem que nunca conseguiu se recuperar das torturas sofridas a partir da prisão, em 4 de novembro de 1969, primeiro no Dops, depois na Operação Bandeirantes (Oban). O livro Um Homem Torturado, das jornalistas Leneide Duarte-Plon e Clarisse Meireles, que conta a trajetória de Tito de Alencar Lima, será lançado hoje (14), a partir das 19h, no auditório Franco Montoro da Assembleia Legislativa de São Paulo.

"Ele levou o Fleury dentro dele. Via o Fleury em todo lugar. Foi destruído psicologicamente", atesta Leneide, Junto com a filha Clarisse, durante os dois anos e meio de trabalho ela entrevistou mais de 30 pessoas, entre companheiros no Brasil e na França, e a irmã de Tito, Nildes.

Além de Albernaz, o delegado Sérgio Paranhos Fleury foi um dos torturadores de Tito, preso com outros dominicanos no convento de Perdizes, zona oeste de São Paulo, em 4 de novembro de 1969, como parte da Operação Batina Branca. Os religiosos davam suporte a ações da Ação Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella. Escondiam perseguidos políticos ou os ajudavam a sair do país. No mesmo dia em que os dominicanos eram presos, o líder da ALN era fuzilado em uma emboscada na Alameda Casa Branca, em São Paulo.

Para Frei Tito, somava-se ainda o "agravante" de ter sido quem conseguiu encontrar um local para o congresso de União Nacional dos Estudantes (UNE), em 1968, em Ibiúna, interior paulista.
É fato, lembra Leneide, que mesmo no exílio, todos eram vigiados, monitorados. "Mas o Tito via o Fleury. Era o demônio que tinha se instalado nele."

O projeto do livro se originou por sugestão de um amigo e editor, quando ela contou que iria entrevistar, para a revista Carta Capital, o psiquiatra Jean-Claude Rolland, que tratou de Tito. A jornalista, que mora na França há 14 anos, conheceu Rolland durante um colóquio em Paris. "Ele nos escapou", disse o especialista Leneide, referindo-se a Tito.

Vivo, mas sem vida

Um dos grandes amigos de Tito, o frei Xavier Plassat, que hoje assessora a Comissão Pastoral da Terra (CPT), já havia constatado, conforme lembra Leneide: o dominicano morreu, de fato, na sala de tortura. Foi o que escreveu, ainda em 1986, o psicanalista Rolland: "Não há nenhuma dúvida de que Tito de Alencar morreu durante suas torturas".

Pode-se dizer que saiu vivo de lá, mas sem vida. "Tentaram atingir o mais íntimo dele, a fé, a lealdade", diz a jornalista.

Tito deixou o Brasil em janeiro de 1971, como parte do grupo de 70 militantes que foram soltos em troca da libertação do embaixador suíço Giovanni Enrico Bücher. Saiu a contragosto, anota Leneide. "Ele não queria ser banido. Na foto dos libertados, a maioria está feliz, terão um horizonte em suas vidas. Ele aparece triste e cabisbaixo." Tito não queria deixar sua terra, sua gente.

No livro Batismo de Sangue (1983), o escritor Frei Betto, também dominicano, relata uma passagem da chegada dos banidos ao Chile de Salvador Allende. Um companheiro, Cristóvão Ribeiro, anima-se ao ver a recepção e exclama: "Tito, eis finalmente a liberdade!" Ao que ele responde: "Não, não é esta a liberdade". Posteriormente, ele iria para a França. Seu último destino foi o convento Sainte-Marie de la Tourette – em um prédio projetado pelo arquiteto Le Corbusier – em L’Arbresle, perto de Lyon.

Desenraizamento

A jornalista cita um escritor do Togo que considera o exílio uma morte simbólica. Perde-se a identificação – com a família, a cidade, o bairro. A pessoa perde raízes. E esse "desenraizamento vertiginoso só se acentua com o tempo". Tito só piorava com o tempo. "O trágico da vida de Tito é que ele não pôde esperar."

A Igreja, naquele momento, ainda estava sob o impacto do Concílio Vaticano II, convocado pelo papa João XXIII e realizado de 1962 a 1965. Era um período de rediscussão sobre o papel social da Igreja. No livro, as autoras falam sobre o engajamento de Tito e dos dominicanos. "O Evangelho traz uma crítica radical da sociedade capitalista. Nesse sentido, é revolucionário. Os temas da esperança, da pobreza, do messianismo, que são profundamente bíblicos, estão na fonte do movimento revolucionário. Não vejo, realmente, como ser cristão sem ser revolucionário", declarou o jovem religioso em 1972. Nascido em Fortaleza em 1945, Tito ingressou na Juventude Estudantil Católica (JEC). Chegou em 1967 a São Paulo, onde estudava Filosofia.

"Ele era engajado e identificado com o movimento de resistência", observa Leneide. Mas também alimentava dúvidas (Cristo, Marx) e fazia ressalvas. Dizia, por exemplo, que a guerrilha não tinha apoio popular. "Era o mais crítico de todos", diz a jornalista, lembrando de uma frase de Frei Betto: "O Tito, onde a gente punha ponto, ele punha ponto e vírgula".

E se ele tivesse permanecido no Brasil, poderia reestruturar sua vida? Não há como saber, pondera Leneide. "Talvez, ele tivesse se reconstruído." E lembra de outro mineiro, Henfil . (Ainda em Belo Horizonte, em início de carreira, ele se inspirara nos dominicanos para para criar os fradinhos, seus personagens Baixinho e Cumprido. O primeiro teve como fonte Carlos Alberto Ratton, irmão de Helvécio Ratton, que, em 2006, filma Batismo de Sangue, baseado no livro de Frei Betto).

Mas a lembrança é de uma homenagem de Henfil, ao dizer que todos voltaram, menos um.
Os restos mortais do religioso voltaram ao Brasil em março de 1983. Frei Betto lembra que, em liturgia na catedral da Sé, o cardeal-arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, disse que Tito encontraria, enfim, do outro lado da vida, a unidade perdida.

A jornalista assume o livro como militante, no sentido da denúncia. "O número de pessoas mortas por tortura no Brasil, ainda hoje, é assustador. O homem é a única espécie que tortura seu semelhante. Nenhuma causa é mais nobre do que denunciar a tortura", afirma, citando observação do frei Oswaldo Rezende, para quem lembrar a história de Tito é mais do que recordar o que se passou, "mas criar também um dever, uma exigência de justiça".

No momento em que se completam 50 anos do golpe, o termo "justiça" ganha nova expressão. "Lembrar todo mundo faz bem, até a quem se beneficiou do golpe. Mas só pode haver reconciliação se quem torturou, quem matou, pedir perdão."

Em seu comentário de hoje (14), na Rádio Brasil Atual, Frei Betto ressaltou que frei Titto foi preso e torturado com ele em 1969. "De todo o grupo de frades dominicanos que lutou contra a ditadura, foi o que mais sofreu no Dops de São Paulo com choques elétricos, queimaduras de cigarro no corpo, pancadas na cabeça", lamenta.

Segundo Frei Betto, o livro descreve em detalhes o que ele sofreu, as alucinações que teve depois de solto, a sua resistência heróica durante a tortura, todo o pensamento que ele desenvolveu a partir de sua militância cristã, de sua experiência de fé e de seu combate à ditadura.

"É um exemplo para os nossos jovens, para as novas gerações, e nós devemos cada vez mais divulgar este exemplo para que a juventude possa novamente ficar incutida de idealismo, de utopia e de projetos para mudar o mundo e o Brasil", conclui.

domingo, 13 de abril de 2014

Frei Cláudio no programa do Jô



PROGRAMA DO JÔ
Frei Cláudio participou do programa do Jô Soares em 02 de abril/14, na Rede Globo. Uma entrevista descontraída. Um bate papo divertido, contando um pouco da história do frei e alguns ​casos do dia a dia.  


Link para entrevista : www.freiclaudiovanbalen.com e clique em Vídeos
Também pode assistir outra entrevista no programa do Fernando Gabeira.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Rio das Velhas: População de Santa Luzia cobra respostas

 Em novembro de 2013 o site domtotal.com afirmava:

¨As intervenções realizadas no Rio das Velhas, no decorrer dos últimos anos, ferem a legislação e causam degradação ambiental, cujas consequências podem ser de grandes proporções. O alerta é feito pelo grupo de pesquisa ‘Direito à cidade e desenvolvimento sustentável’, da Escola Superior Dom Helder Câmara, que desde o início de 2013 estuda a situação do curso d’água na Região de Santa Luzia, em Minas Gerais.

De acordo com a equipe, diversos aterros particulares suprimem a mata ciliar que margeia a calha do rio e dão origem a um ‘solo criado’, alimentado pela especulação imobiliária. Tudo ocorre a olhos vistos sem que haja manifestação e fiscalização do poder público.

“A omissão pública e a contínua ação danosa de particulares vêm provocando esses danos ambientais irreversíveis que podem atingir a população de Santa Luzia. A supressão da mata ciliar e o aterramento da área natural inundável que margeia o Rio das Velhas fará com que a lixiviação carregue sedimentos e detritos para a calha do rio, causando seu estreitamento, perda da capacidade de depuração, diminuição da área de vazão das águas e aumento da velocidade de corredeira”, explica a professora Mariza Rios, coordenadora do grupo de pesquisa.

Segundo ela, esse processo de degradação causará inundações na parte baixa da cidade, com sérios transtornos socioeconômicos e ambientais, ameaçando vidas humanas, a flora e a fauna regional.¨
No dia 10 de abril de 2014, a população cobrou respostas:

 RIO DAS VELHAS: POPULAÇÃO COBRA RESPOSTAS
Ação do homem e omissão do poder público de Santa Luzia pode transformar o rio em ribeirão.

Por Caroline Machado
Repórter DomTotal

“Quem passa às margens do Rio das Velhas pensa: ‘meu Deus, será que essas pessoas não vão acordar?’ Porque quando o povo quer ele faz. A população vai me desculpar, mas Santa Luzia é um lixo em termos de meio ambiente”. Foi este o desabafo de uma luziense durante encontro que discutiu os impactos socioeconômicos e ambientais das intervenções em trecho do Rio das Velhas, em Santa Luzia, Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Com o apoio do grupo de pesquisa “Direito à cidade e desenvolvimento sustentável”, formado por acadêmicos e professores da Escola Superior Dom Helder Câmara, e do Observatório de Políticas Públicas de Santa Luzia (Osluz), a comunidade local se reuniu, nessa quinta-feira (10), no salão da Paróquia São João Batista, para cobrar explicações do município e expor a realidade vivida às margens do Rio das Velhas. Foi formada uma mesa debatedora com a presença de moradores, autoridades e profissionais. Eles responderam aos questionamentos da população sobre a degradação do rio.

“É preciso reverter o estado de falecimento do rio. A mobilização popular é de fundamental importância para pressionar os entes públicos, as autoridades para tomar medidas cabíveis. Demonstramos a situação atual, o rio está em fase terminal e precisamos reverter essa realidade. Precisamos trazer a teoria para a prática e ressuscitar o Rio das Velhas”, destacou o desembargador e membro do grupo de pesquisa, Newton Teixeira.

A indignação dos moradores presentes era geral. “Santa Luzia está a cada dia entrando em um colapso maior. Somos uma cidade ambientalmente, sustentavelmente e urbanisticamente desestruturada. Vivemos um crescimento desordenado, irresponsável e precário”, declarou a moradora Graça Frederico. Mas o sentimento de esperança também se fez presente na reunião. “Moro há 15 anos em Santa Luzia e fiquei super entusiasmado com o encontro. O que mais me encantou, às vezes por ser professor, foi a presença de jovens, que no futuro serão cidadãos mais críticos e saberão cobrar seus direitos”, disse Rômulo Sérgio Arreguy.

O outro lado da moeda

Convidado pela Osluz, o secretário municipal de Meio Ambiente, Deusdedite Ferreira de Aguiar, participou apenas do começo da reunião e deu a versão da prefeitura sobre os problemas ambientais. “Entendo a sociedade, a comunidade e suas diferenças de interpretação e percepção, mas discutir se o rio precisa ter 30, 50 ou 1.000 metros são questões técnicas que nós, aqui presentes, não abarcamos no nosso dia a dia. Cuidar do direito ambiental é extremamente relevante, porém a dimensão econômica não é menos importante do que qualquer outra. Ninguém sobrevive, ninguém leva sustento pra casa se não tiver emprego, renda, investimento econômico”, disse o secretário.

Além de mostrar a preocupação com a questão econômica, Deusdedite culpou a administração anterior pelos graves problemas ambientais do munícipio. “O que eles fizeram não cabe a mim”, declarou. Após apresentar seu posicionamento, o secretário deixou a reunião, alegando um compromisso particular. Antes de sair Deusdedite desejou parabéns ao povo de Santa Luzia e disse que “a situação está colocada”.

A saída repentina do secretário causou revolta entre os moradores. “Nós elegemos e damos poder aos nossos administradores, mas o grande problema é que eles não olham para frente e sim para trás. Nós entendemos que a água que passou debaixo da ponte não volta. Por isso precisamos avançar, o passado não trará soluções, o que vai resolver as questões é a união da sociedade com o poder legislativo e executivo”, afirmou a luziense Euza Maria da Silva.

Em busca de soluções

Para o ouvidor geral da OAB/MG e membro do grupo de pesquisa, André Luiz Lopes, o objetivo proposto para o encontro, de mobilização e conscientização social, foi atingido. No entanto, Lopes ressaltou que cabe agora ao povo de Santa Luzia se movimentar para combater, junto ao poder público, as irregularidades ambientais da cidade. “O grupo, através do Instituto Socioambiental, oferece apoio jurídico e propõe ações efetivas, como uma ação popular, ou mesmo uma ação civil pública”, disse o ouvidor.

De acordo com o presidente da Osluz e mediador da mesa debatedora, Raimundo de Paula, será feito um apanhado do que foi discutido no encontro e em seguida o Observatório encaminhará um requerimento de posicionamento de ações ao poder público. “Se não obtivermos respostas, vamos contar com o apoio da 100ª Subseção da OAB/MG e da Escola Superior Dom Helder Câmara”, declarou Raimundo.

Componentes da mesa:
Newton Teixeira Carvalho, Desembargador e membro do grupo de pesquisa;

André Luiz Lopes, Ouvidor Geral da OAB/MG e membro do grupo de pesquisa;

Paulo Eugênio Nogueira, estudante de direito e membro do grupo de pesquisa;

Raimundo de Paula, Presidente do Observatório de Políticas Públicas de Santa Luzia;
Sandra Gabrih, moradora de Santa Luzia;
Francisco Massara Gabrich, Presidente da 100ª Subseção da OAB/MG;

Vereador Pedro Damião, Presidente da Casa Legislativa;

Deusdedite Ferreira de Aguiar, Secretário Municipal de Meio Ambiente;


Redação DomTotal

quinta-feira, 10 de abril de 2014

O Papa se mostra consternado com os linchamentos na Argentina



O Papa Francisco escreveu uma carta a amigos argentinos em que se referiu ao linchamento, em Rosário, de David Moreira, de 18 anos. David foi morto após um espancamento promovido por dezenas de pessoas. Fora flagrado roubando a bolsa de uma mulher.

“A cena doeu em mim”, escreveu Francisco na carta. ¨ Sentia os chutes na alma. Não era um marciano, era um rapaz de nosso povo; é verdade, um delinquente. E me lembrei de Jesus. O que ele diria se estivesse de árbitro ali? Quem esteja livre de pecado que dê o primeiro chute”.

“Me doía tudo”, prossegue Francisco. “Me doía o corpo do rapaz, me doía o coração dos que o chutavam. Pensei que esse garoto foi feito por nós, cresceu entre nós, foi educado entre nós. O que falhou? O pior que pode acontecer é que nos esqueçamos da cena. E que o Senhor nos dê a graça de poder chorar… chorar pelo rapaz delinquente, chorar também por nós”.


O jovem David Moreira, morto após um linchamento.

Por Francisco Peregil (brasil.elpais.com):

Na carta, Francisco lamenta: "A cena doeu em mim. Fuenteovejuna, eu me disse. Sentia os chutes na alma. Não era um marciano, era um rapaz de nosso povo; é verdade, um delinquente.

E me lembrei de Jesus. O que ele diria se estivesse de árbitro ali? Quem esteja livre de pecado que dê o primeiro chute". Na mensagem fez referência à obra publicada no século XVII de autoria do espanhol Lope de Vega, Fuenteovejuna, que conta a história de um povo que se une para se vingar da tirania e injustiça a que é submetido.

Carlos Luna relatou à Radio Vorterix que enviou para o Papa a documentação sobre o linchamento no último sábado e no dia seguinte, no domingo, recebeu sua carta.

"Me doía tudo", lamentava Francisco, "me doía o corpo do rapaz, me doía o coração dos que o chutavam. Pensei que esse garoto foi feito por nós, cresceu entre nós, foi educado entre nós. O que falhou?
O pior que pode acontecer é que nos esqueçamos da cena. E que o Senhor nos dê a graça de poder chorar... chorar pelo rapaz delinquente, chorar também por nós".

Os sucessivos linchamentos geraram declarações de todo tipo por parte dos políticos argentinos. A presidenta, Cristina Fernández de Kichener, evitou pronunciar a palavra "linchamento" mas fez um chamado em várias ocasiões para evitar a violência. Em um discurso emitido na terça-feira pela emissora nacional -isto é, em todos os canais de rádio e televisão-, disse: "Uma das coisas que nos distinguem do Reino Animal é poder falar, embora alguns não pareçam porque falam. Mas realmente o que nos distingue verdadeiramente do resto da escala animal é que podemos pensar, raciocinar e falar. Não percamos, por favor, esses traços que nos distinguem como humanidade, ainda que tenhamos que enfrentar dificuldades ou fatos que nos provocam raiva e indignação. Transformemos isso".
 

quarta-feira, 9 de abril de 2014

A íntegra da entrevista do ex-presidente Lula


Entrevista coletiva realizada no Instituto LULA com o ex-presidente tratando de diversos temas da conjuntura política dos 11 anos do governo do PT no Brasil:



O ex-presidente, que foi o primeiro mandatário a realizar uma entrevista coletiva com blogueiros no Brasil, em 2010, voltou hoje a falar para os profissionais da internet sobre diversos assuntos. Lula falou sobre eleição, manifestações, democracia, PT, Petrobras, economia, saúde, Copa do Mundo, mensalão, reforma política e outros assuntos.

Ele explicou aos participantes que não fala há muito tempo com a imprensa por ser ex-presidente, e que a sua percepção é de que “os meios de comunicação no Brasil pioraram do ponto de vista da neutralidade”. Lula disse ainda que a imprensa tem que colocar a verdade para a população. “Têm que ser pelo menos verdadeiros. Contra ou a favor, que a verdade prevaleça”.

Com relação à Copa do Mundo, Lula lembrou a comoção nacional quando o Brasil venceu a disputa para ser a sede do mundial e questionou: “por que a anulação disso agora?” O ex-presidente explicou que o dinheiro que está sendo utilizado na Copa do Mundo não foi retirado da saúde, por se tratar de dinheiro do BNDES destinado a empréstimos. “Para o BNDES emprestar dinheiro para construir um hospital, precisa haver um empresário querendo construir um hospital”. Lula, disse ainda “não teve nenhum país no mundo em que não teve protesto durante a Copa”, e que “temos que ver que teremos o encontro das civilizações no Brasil proporcionado pelo esporte e isso é fantástico”.

Sobre o julgamento da AP 470, chamado de mensalão, Lula disse que espera viver para ver essa história ser contada novamente e disse aos blogueiros. “Quem sabe sejam vocês que vão recontar essa história?” O ex-presidente afirmou que precisa ser estudada a “participação e o poder de condenação” que a grande mídia teve durante este julgamento. Sobre a decisão do STF sobre o julgamento do chamado mensalão tucano, o ex-presidente chamou de dois pesos e duas medidas. “Os mesmos que defendiam a forca para José Dirceu, defendem um julgamento tranquilo para outros”.

Questionado sobre a atual conjuntura da Petrobras, o ex-presidente afirmou que em todos os anos eleitorais a oposição tenta emplacar uma CPI para investigar a estatal. “Eu penso que são pessoas que trabalham para enfraquecer a Petrobras. Se ela hoje vale 98 bilhões, no governo FHC ela valia 15 bilhões”. Lula disse ainda que a empresa deve ser motivo de orgulho para todos os brasileiros e que se for para investigar, que seja investigado. “A gente não pode é ficar permitindo que por omissão nossa, as mentiras continuem prevalecendo”.

Quando perguntado sobre a Lei Antiterrorismo, que foi proposta no Congresso, Lula foi enfático. “Não acho que o Brasil precisa dessa Lei, porque não tem terrorismo no Brasil. No país do carnaval, fazer uma lei contra alguém que usa máscaras é impensável”. O ex-presidente disse que as manifestações representam a “sociedade em processo de evolução, tentando conquistar cada dia mais coisa. Aprendemos a fazer política, fazendo manifestação, fazendo greve. A democracia não é um pacto de silêncio”.

Sobre a reforma política, Lula disse que é favor de uma constituinte exclusiva para fazer a reforma Brasil. “A reforma política é a mais importante reforma que tem que acontecer neste país, sem ela todas as outras ficam muito mais difíceis”. Com relação ao financiamento público de campanha, o ex-presidente disse estar convencido que é “a forma mais barata, mais honesta, de fazer eleição no Brasil, para o cidadão saber quanto custa o voto”.

Entrevistaram o ex-presidente, os blogueiros Renato Rovai (Revista Fórum e Blog do Rovai), Altamiro Borges (Blog do Miro), Conceição Lemes (Viomundo), Fernando Brito (Tijolaço), Marco Weissheimer (Sul 21 e Carta Maior), Eduardo Guimarães (Blog da Cidadania), Rodrigo Viana (Escrivinhador), Kiko Nogueira (Diário do Centro do Mundo) e Miguel do Rosário (O Cafezinho).


 

terça-feira, 8 de abril de 2014

Papa convida Bispo do Xingu para colaborar na encíclica sobre ecologia

Francisco convida Ervin Kräutler, bispo do Xingu, como colaborador na elaboração da encíclica sobre ecologia
  
Erwin Kräutler, bispo de origem austríaca, missionário no Brasil, foi chamado pelo Papa Francisco para ajudá-lo na redação da próxima encíclica sobre os pobres e o cuidado do ambiente, como ele mesmo informou na entrevista concedida ao Orff Journal. A notícia foi divulgada pela agência KathPress.

A informação é de Maria Teresa Pontara Pederiva, publicada por Vatican Insider, 06-04-2014. A tradução é da IHU On-Line.

Kräutler, nascido em Hohenems (Vorarlberg), em 1939, primogênito de seis irmãos, pertence à Congregação dos Missionários do Preciosíssimo Sangue. Depois dos estudos de filosofia e teologia em Salzburg, em 1965 partiu como missionário na Amazônia e em 1980 foi nomeado bispo na maior diocese, em extensão geográfica, do Brasil: a diocese de Altamira-Xingu, tornando-se bispo auxiliar do seu tio Eurico, e, um ano depois, o seu sucessor.

De 1983 a 1991, Kräutler foi presidente do Conselho Indigenista Missionário – CIMI, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB. Em 2006, quando D. Gianfranco Masserdotti, presidente em exercício morreu num acidente, Kräutler foi reconduzido à presidência do CIMI.

Em 1997 foi um dos quinze delegados eleitos para participar do Sínodo para a América e naquela ocasião foi o porta-voz do povo brasileiro cujo território estava sendo brutalmente saqueado.
Sempre na primeira linha na defesa das populações locais ameaçadas pelo desmatamento ao longo dos rios da Amazônia, o bispo austríaco recebeu, em 2010, o Prêmio Nobel alternativo “pelo seu compromisso a favor dos direitos humanos das populações indígenas e pela sua luta pela conservação da floresta pluvial na Amazônia”.

Muitas vezes ameaçado de morte (em 1987 sobreviveu a um atentado onde foi morto o seu motorista), continuou a se posicionar ao lado das populações na defesa da dignidade humana e do ambiente da Amazônia.

A relação pobres-ambiente, muito cara a Papa Francisco desde o início do seu pontificado, para o bispo Kräutler é algo que está presente na sua ação cotidiana com a mais genuína Teologia da Libertação: a sua luta é contra a pobreza para que seja garantido a cada pessoa um trabalho e um salário justo acompanhado da promoção do reconhecimento dos direitos fundamentais, como a saúde e a defesa do território.

Kräutler, que no próximo mês de julho completa 75 anos, provavelmente apresentou ao papa Francisco, na audiência da última sexta-feira, 5-04-2014, a sua demissão. Os temas da audiência foram, segundo Orf, os direitos dos povos indígenas, as ameaças a que são submetidos os povos indígenas com a construção das grandes barragens, os impactos e as consequências da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte e algumas propostas para enfrentar a falta de padres numa diocese que tem a extensão geográfica equivalente à Alemanha. Kräutler informou que o Papa esperava dele “propostas corajosas e audazes”.

Sobre a encíclica, se de um lado a nomeação de Kräutler (em alemão se fala de “Mitautor”, isto é, co-autor, mas na realidade tratar-se-á de uma colaboração estreita) faz pensar na articulação que o Papa Bergoglio  reconhece entre o cuidado da criação e a promoção da justiça (são os pobres que sofrem as mais dramáticas consequências), como o Papa lembrou na recente entrevista aos jovens flamengos, por outro lado, trata-se de um sinal que a redação da encíclica está em curso, ou, pelo menos, em fase de estudos.
 

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Nota da CNBB sobre o descaso do Poder Público com o Projeto Saúde +10




Brasília (RV) - A Presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou nesta quinta-feira, dia 3, uma nota sobre o "descaso do Poder Público com o Projeto Saúde +10".

No texto, aprovado pelo Conselho Episcopal Pastoral, os bispos recordam que "o Projeto recolheu mais de dois milhões de assinaturas de eleitores, devidamente identificadas" e lamentam "que, até agora, nenhum esforço tenha sido feito para iniciar sua tramitação, num total desrespeito à vontade popular". O projeto de lei prevê a garantia do repasse efetivo e integral de 10% das receitas correntes brutas da União para a saúde pública brasileira.

Leia, na íntegra, a nota:

Nota da CNBB
DESCASO DO PODER PÚBLICO COM O PROJETO SAÚDE + 10

O Conselho Episcopal Pastoral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, reunido em Brasília-DF, dias 1º e 2 de abril de 2014, vem a público manifestar sua indignação com o descaso e omissão explícita dos chefes dos Poderes Públicos em relação ao Projeto de Lei de Iniciativa Popular (PLP 321/2013), conhecido como Saúde + 10. Entregue no dia 5 de agosto do ano passado ao presidente da Câmara, o Projeto recolheu mais de dois milhões de assinaturas de eleitores, devidamente identificadas. Lamentamos que, até agora, nenhum esforço tenha sido feito para iniciar sua tramitação, num total desrespeito à vontade popular.

Diferentemente de outros projetos de iniciativa popular, que versavam sobre direitos políticos, o Saúde + 10 trata de direito social, com incidência direta na distribuição da renda tributária da União destinada à saúde pública. O PLP 321/2013 visa elevar a aplicação compulsória do setor púbico, cuja despesa per capita atual é R$ 2,50/dia no Sistema Único de Saúde (SUS), reconhecidamente baixa em comparação aos padrões internacionais. Isto tem implicações diretas no atendimento da população mais pobre, com a classe média recorrendo à medicina privada.

A urgência do Projeto, que objetiva equacionar o problema crônico do subfinanciamento de recursos públicos para a saúde, aliada à legitimidade da mobilização popular que o originou, exige que tanto o Congresso quanto o Executivo tenham conduta mais respeitosa à sua tramitação. É inaceitável que, passados oito meses de sua entrada no Congresso, ele ainda se encontre parado da Casa Legislativa.

Diante da falta de resposta e de diálogo com a iniciativa popular sobre tema de tamanha relevância para a vida social do país, especialmente dos mais pobres, a CNBB solicita dos Presidentes das Casas Legislativas e da Presidente da República a manifestação de seu posicionamento favorável ao projeto. O silêncio, nesse caso, é uma omissão com graves consequências para os cidadãos brasileiros. Ignorar o Saúde + 10 é aumentar ainda mais o descrédito e o desencanto do povo com a política e com os políticos.

A aprovação do PLP 321/2013 é uma resposta concreta à Campanha da Fraternidade de 2012 que mobilizou a sociedade brasileira num único sonho: “Que a saúde se difunda sobre a terra”. Aos legisladores de nosso país não é permitido matar esse sonho.

Deus, na sua infinita bondade, envie sobre todos a luz que nos faz ver os caminhos da justiça e da solidariedade.

Cardeal Raymundo Damasceno Assis
Arcebispo de Aparecida
Presidente da CNBB

Dom José Belisário da Silva, OFM
Arcebispo de São Luís do Maranhão
Vice Presidente da CNBB

Dom Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário Geral da CNBB




Texto proveniente da página http://pt.radiovaticana.va/news/2014/04/04/nota_da_cnbb_sobre_o_descaso_do_poder_público_com_o_projeto_saúde_+10/bra-787893
do site da Rádio Vaticano