quinta-feira, 17 de setembro de 2020

O " Grande sertão " é o grande mistério da vida, por Marcos Alvito

 Prof. Marcos Alvito, no curso " Clube de leitura Grande sertão: veredas " :

Por que Grande sertão: veredas se chama assim?

 A primeira pista está nos dois pontos. Deve ser lido de forma pausada, feito samba, com breque. " Grande sertão".................." veredas". 

 Como o próprio Riobaldo explica:

 "Eu queria decifrar as coisas que são importantes. E estou contando não é uma vida de sertanejo, seja se for jagunço, mas a matérias vertente. "

 Ou seja, ele diz claramente que não é uma narrativa de fatos e sim uma reflexão, um conjunto de indagações.

 E para confirmar esta hipótese ele diz logo no parágrafo seguinte de forma ainda mais explícita:

 "Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só uma raríssimas pessoas - e essas poucas veredas, veredazinhas. O que muito lhe agradeço é a sua fineza de atenção. " 


 O " Grande sertão " é o grande mistério da vida, da natureza, dos homens. O grande deserto da falta de sentido que, feito o Liso do Sussuarão, todos nós precisamos ter muita coragem para atravessar. E o que alguns pouco sabem disso são apenas algumas veredinhas, que são caminhos, mas em Minas também são cursos dágua, isto é, representam a oposição entre a aridez da nossa ignorância e a vida e a alegria que a água ( e o conhecimento) nós trazem.

 Por isso: Grande sertão: veredas.

 (Prof. Marcos Alvito, no curso Clube de leitura Grande Sertão: Veredas)



terça-feira, 1 de setembro de 2020

Acordão-despedida faz Dallagnol sair de fininho

 Depois de várias ilegalidades Dallagnol sai de fininho

 ACORDÃO-DESPEDIDA

 por Ricardo Cappelli 

O emérito Conselho Nacional do Ministério Público arquivou as inúmeras representações contra o procurador-chefe da Lava Jato em Curitiba. 

Algumas semanas depois, Deltan Dallagnol pediu o afastamento da função. Coincidência? Tudo indica que foi um belo acordão, feito por gente profissional, daqueles de causar inveja em Eduardo Cunha. Tentaram esconder uma anta debaixo do tapete da sala. Ninguém percebeu? 

Momentos excepcionais são pródigos em produzir figuras caricatas, patéticas. Costumam conduzir ao estrelato efêmero tipos medíocres, sem nenhum preparo intelectual, insignificantes abestalhados pelas luzes das câmeras.

O roteiro é sempre o mesmo. Quando perdem a serventia saem enxotados pela porta dos fundos. 

Rodrigo Janot, o mentor e criador desta excrescência, acabou sua carreira num boteco “fantasiado de Charles Bronson”. Foi fotografado “escondido” atrás de um engradado de cerveja conspirando com o advogado da JBS. Não satisfeito, resolveu lacrar sua sepultura com um dos “livros-suicidas” mais ridículos já produzidos no país. 

Deltan parece ter dosado mais sua “embriaguez midiática”. Mas deve ter sido duro para um personagem tão vaidoso, uma espécie de “Robin da refundação da República”, ver a luz se apagando e o diretor dispensando-o do set de gravações. 

O dia da apresentação do PowerPoint entrou para a história como o dia da vergonha do Ministério Público Federal. Uma peça abjeta, nojenta, um panfleto odioso produzido por políticos, por ativistas ideológicos travestidos de representantes de uma instituição de Estado. Provas? Há inúmeras contra Dallagnol e sua trupe. Contra Lula, goste-se ou não do ex-presidente, apenas infâmias que envergonham dez entre dez juristas renomados.

 É impressionante que o “órgão de controle” do ministério público não tenha visto o outdoor pago pelos “intocáveis de Curitiba”. Verdadeiros fariseus impunes disfarçados de justiceiros mequetrefes. 

Por que a corporação não regula e pune os seus? Corporações defendem os direitos das corporações, os interesses das corporações e, no limite, protegem com a “aposentadoria discreta” a corporação. Por mais que Augusto Aras quisesse o fígado de Dallagnol, como ficaria a imagem dos “colegas” se punissem o famoso “Torquemada”? O desfecho não chega a ser uma novidade. A CIA cansou de usar criminosos e oportunistas como operadores de suas ações na América Latina. 

Ao final, limpar a sujeira faz parte do script. Com o “grand finale”, Dallagnol se junta a Janot e Moro, o trio que demoliu a política nacional, destruiu nossa economia e conduziu ao Palácio do Planalto o obscurantismo miliciano. Sonharam com o glamour e acabaram enxotados pelos cães da extrema-direita. Vamos combinar, não é para qualquer um.l

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Impunidade de Deltan é retribuição a ele pelo golpe e crimes contra a democracia


Impunidade de Deltan é retribuição a ele pelo golpe e crimes contra a democracia

Jeferson Miola                

A impunidade do Deltan Dallagnol é o pagamento das instituições do regime de exceção em retribuição pelos crimes perpetrados por ele e seu bando contra a democracia brasileira.

O arquivamento do processo movido pela defesa do Lula desde 15 de setembro de 2016 – há incríveis 4 anos! – pelo Conselho Nacional do Ministério Público [CNMP] não atesta a inocência e a lisura do Deltan e dos outros elementos da Lava Jato.

Isso porque 8 dos 11 integrantes do CNMP reconheceram que eles agiram ilegalmente na divulgação espalhafatosa do power point contra Lula transmitido ao vivo pela Globo durante horas e repercutido exaustivamente na bancada de “notáveis juristas” da emissora.

Mas, apesar da maioria esmagadora reconhecer as práticas ilícitas dos procuradores, o Conselho decidiu “tecnicamente” arquivar o processo. O motivo? A prescrição dos prazos!

Foi, evidentemente, uma prescrição fabricada; uma prescrição arquitetada pela plutocracia incrustrada no MP e no judiciário com truques institucionais, canalhices processuais, desfaçatezes, ardis, jogadas ensaiadas e toda sorte de patifarias.

Basta lembrar que o CNMP adiou o julgamento ou retirou o processo da pauta por  42 vezes, para assim impedir que criminosos que aparelham as instituições de Estado para fins políticos e pessoais fossem julgados no mérito; como, aliás, aconteceria em qualquer país onde as instituições de fato “funcionam normalmente”.

Com o falso pretexto de combate à corrupção, os elementos da Lava Jato cometeram a mais terrível das corrupções – a corrupção do sistema de justiça do país para propósitos pessoais, políticos e partidários.

A impunidade de criminosos poderosos não só aumenta o descrédito numa justiça apodrecida, corrompida e injusta, mas causa asco e vômito.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

A escravidão na virada do século XX, com Sidney Challoud

 Mauro Lopes e Pedro Vasconcellos conversam com o historiador social Sidney Calhoud. 

Calhoud considera-se um historiador social.

Ele estuda o que as pessoas fazem e o que fazem com elas

O outro lado da história!

Da série "Retalhos da nossa história" (Paz e Bem): conversa com Sidney Chalhoub, um de nossos principais historiadores, dedicado às questões relativas às lutas cotidianas da população nos últimos tempos da escravidão e nos primeiros anos da República, particularmente no que diz respeito ao Rio de Janeiro, então capital de um país cujas elites pretendiam civilizá-lo. O problema eram justamente estes segmentos da população que se pretendia inviabilizar e invisibilizar: é com eles justamente que Chalhoub se ocupa.

Assista:



sábado, 22 de agosto de 2020

Indignação, por Leonardo Boff

 "Aqui ultrapassamos a tudo o que é dignamente suportável, sensato, humano e minimamente racional. É a barbárie instituída como política de Estado, envenenando as mentes e os corações de muitos com ódios e rejeições." 

Por LEONARDO BOFF*

Contra a boçalidade de determinados grupos da população brasileira

Quatro sombras escuras pairam sobre um país solar que nunca puderam ser dissipadas pela nossa consciência e inconsciência coletivas: a sombra do genocídio dos povos originários,os donos primeiros destas terras.De seis milhões que eram, sobraram apenas um milhão, a maioria por não suportar o trabalho escravo ou pelas doenças dos invasores contra as quais não possuíam nem hoje possuem imunidade. A sombra da colonização que depredou nossas terras e florestas e nos tornou sempre dependentes de alguém de fora, impedidos de forjar nosso próprio destino.

sombra da escravidão, nossa maior vergonha nacional, por termos transformado pessoas trazidas de África em escravos e carvão a ser consumido nos engenhos de cana de açúcar. Jamais vistas como pessoas e filhos e filhas de Deus mas como “peças” a serem compradas e vendidas, construíram quase tudo o que existe neste país. E hoje, tidos por preguiçosos e presos, compõem mais da metade de nossa população, jogados nas periferias; suportam o ódio e o desprezo antes imposto aos seus irmãos e irmãs das senzala e agora transferidos a eles com uma violência tal como mostrou o sociólogo Jessé Souza (A elite do atraso:da escravidão à Lava Jato, 2007 p.67) até perderem o sentido de sua dignidade.

sombra das elites do atraso que sempre ocuparam o frágil Estado, usando-o para seu benefício. Nunca forjaram um projeto de nação que incluísse a todos, apenas, com as artes perversas da conciliação entre os endinheirados, apenas um projeto só para eles. Não bastava desprezar os marginalizados, mas rachar-lhes as cabeças, caso se levantassem, como ocorreu várias vezes na sua heroica história da resistência e da rebeldia.

Quando um sobrevivente dessa tribulação, por caminhos de pedras e de abismos, chegou a ser presidente e fez alguma coisa para ajudar a seus irmãos e irmãs, logo criaram as condições perversas para destruir sua liderança, excluindo-o da vida pública e, por fim, a ele e a sua sucessora apeá-los do poder. Essa sombra ganhou contornos de “procelosa tempestade e noturna sombra (Camões) sob o atual governo que não ama a vida, mas exalta a tortura, louva os ditadores, prega o ódio e larga o povo à sua própria sorte, atacado letalmente por um vírus, contra o qual não tem nenhum projeto de salvamento e, desumano, se mostra incapaz de qualquer gesto de solidariedade.

Estas sombras, por serem expressão de desumanização, se aninharam na alma dos brasileiros e brasileiras e raramente puderam conhecer a luz. Agora criaram-se as condições ideológicas e políticas para serem lançadas ao ar como lavas de um vulcão, feitas de boçalidade, de violência social generalizada, de discriminações, de raiva e de ódio de grandes porções da população. Seria injusto culpar a elas. As elites do atraso se internalizaram em suas mentes e corações para fazer que se sintam culpadas de sua sorte e acabem por fazerem seu o projeto deles que, na verdade, é contra eles. O pior que pode acontecer é o oprimido internalizar o opressor com o projeto enganoso de bem estar, sempre lhes sendo negado.

Sérgio Buarque de Holanda em seu conhecido As raízes do Brasil (1936) difundiu uma expressão mal interpretada em benefício dos poderosos, de que o brasileiro é “o homem cordial” pela lhanesa de seu trato. Mas teve um olho observador e crítico para logo acrescentar que “seria engano supor que essa virtude da cordialidade, possa significar “boas maneiras” e civilidade (p.106-107) e arremata;” a inimizade bem pode ser cordial como a amizade, pois, que uma e outra nascem do coração” (p.107 nota 157).

Pois, no atual momento o “cordial da incivilidade” brasileiro irrompe do coração, mostrando a sua forma perversa de ofensa, calúnia, palavras de baixo calão, fake news, mentiras diretas, ataques violentos a negros, pobres, quilombolas, indígenas, mulheres, LGBT políticos de oposição, feitos inimigos e não adversários. Irrompeu, violenta, uma política oficial, ultraconservadora, intolerante, com conotações fascistoides. As mídias sociais servem de arma para todo tipo de ataque, de desinformação, de mentiras que mostram espíritos vingativos, mesquinhos e até perversos. Tudo isso pertence ao outro lado da “cordialidade” brasileira hoje exposta à luz do sol e à execração mundial.

O exemplo vem do próprio governo e de seus fanáticos seguidores, De um presidente se esperaria virtudes cívicas e o testemunho pessoal de valores humanos que gostaria vê-los realizados em seus cidadãos. Ao contrário, seu discurso é eivado de ódio, desprezo, de mentiras e de boçalidade na comunicação. É tão inculto e tacanho que ataca o que é mais caro à uma civilização que é sua cultura, seu saber, sua ciência, sua educação, as habilidades de seu povo e o cuidado da saúde e da riqueza ecológica nacional.

Nunca tanta barbárie, nos últimos cinquenta anos, tomou conta de algum país, como no Brasil, aproximando-o ao nazifascismo alemão e italiano. Estamos expostos à irrisão mundial, feitos país pária, negacionista do que é consenso entre os povos. A degradação chegou ao ponto de o chefe de Estado fazer o humilhante rito de vassalagem e de submissão ao presidente mais bizarro e “estúpido” (P. Krugman) de toda a história norte-americana.

A nossa democracia sempre foi de baixa intensidade. Atualmente se transformou numa farsa, pois a constituição não é respeitada, as leis são atropeladas e as instituições funcionam somente quando os interesses corporativos são ameaçados. Então a própria justiça se torna conivente face a clamorosas injustiças sociais e ecológicas, como a expulsão de 450 famílias que ocupavam uma fazenda abandonada, transformando-a em grande produtora de alimentos orgânicos; arranca crianças agarradas a seus cadernos e lhes arrasa a escola; tolera o desmatamento e as queimadas do Pantanal e da floresta amazônica e o risco de genocídio de inteiras nações indígenas, indefesas face ao Covid-10.

É humilhante constatar que não haja da parte das mais altas autoridades a coragem patriótica para encaminhar, dentro da legalidade jurídica, a destituição ou o impeachment de um presidente que mostra sinais inequívocos de incapacidade política, ética e psicológica para presidir uma nação das proporções do Brasil. Podem fazer-se ameaças diretas à mais alta corte, de fechá-la, de fazer proclamas à volto ao regime de exceção com a repressão estatal que implica e nada acontece por razões arcanas.

As oposições, duramente difamadas e vigiadas, não conseguem criar uma frente compartilhada para opor-se à insensatez do poder atual.

A brutalização nas relações sociais e especialmente entre o povo simples não deve ser imputada a ele, mas às classes oligárquicas do atraso que lograram internalizar neles seus preconceitos e visão obscurantista de mundo. Estas classes nunca permitiram que vingasse aqui um capitalismo civilizado, mas o mantém como um dos mais selvagens do mundo, pois conta com os apoios dos poderes estatais, jurídicos, midiáticos e policiais para abateram qualquer oposição organizada. A “racionalidade econômica” se revela desavergonhadamente irracional pelos efeitos maléficos sobre os mais desvalidos e para as políticas sociais destinadas aos socialmente mais sofridos.

Esse é um texto indignado. Há momentos em que o intelectual se obriga por razões de ética e de dignidade de seu ofício, a deixar o lugar do saber acadêmico e vir à praça e externar sua iracúndia sagrada. Para tudo há limites suportáveis. Aqui ultrapassamos a tudo o que é dignamente suportável, sensato, humano e minimamente racional. É a barbárie instituída como política de Estado, envenenado as mentes e os corações de muitos com ódios e rejeições e levando à frustração e à depressão a milhões de compatriotas, num contexto dos mais atrozes que tiram de nosso meio pelo vírus invisível mais de cem mil entes queridos. Calar-se equivaleria render-se à razão cínica que, insensível, assiste o desastre nacional. Pode-se poder tudo, menos a dignidade da recusa, da acusação e da rebeldia cordial e intelectual.

*Leonardo Boff é teólogo, filósofo e membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra

sábado, 8 de agosto de 2020

Dom Pedro sempre viverá nas lutas contra todas as formas de opressão

 

Dom Pedro Casaldáliga dedicou sua vida aos mais pobres e vulneráveis, especialmente aos camponeses sem terra e povos indígenas. Poderosos o ameaçaram de morte em inúmeras ocasiões.

Ele foi um ícone da luta pelos direitos humanos no Brasil.

terça-feira, 4 de agosto de 2020