terça-feira, 24 de janeiro de 2017

No horizonte, o enfrentamento das iniquidades em saúde


Fiocruz:

“O desafio é claro: a população brasileira está envelhecendo, demandará cada vez mais cuidados assistidos e o Estado não tem, hoje, uma política de apoio e suporte para essas pessoas. Se seguirmos este caminho, o resultado será uma desigualdade ainda maior no acesso à saúde, justamente no momento da vida que requer mais atenção”. A conclusão é da médica Deborah Malta, pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e uma das coordenadoras da Pesquisa Nacional de Saúde 2013 (PNS 2013). Nesta entrevista, ela comenta as principais conclusões do maior inquérito populacional sobre saúde já realizado no Brasil e aponta tendências preocupantes para o futuro, como a intensificação das doenças crônicas não transmissíveis e a necessidade de mais investimentos e ações intersetoriais. Deborah alerta: “É preciso antever a ‘cidade do futuro’ e somar esforços da Saúde, da Educação, da Assistência Social, dos Transportes, enfim, de todos os setores da sociedade, para que o cuidado aos idosos se desenvolva de forma integral”.
Quais as contribuições da PNS 2013 para a prospecção do futuro do sistema de saúde brasileiro?
A PNS 2013 é o maior inquérito populacional sobre saúde já realizado no país: foram 60 mil domicílios, 64 mil respondentes. Mil coletadores de informações precorreram todas as unidades federadas, no meio urbano e rural, para traçar o perfil de saúde dos brasileiros. Os resultados nos dão um amplo panorama sobre o estilo de vida da população, a prevalência de doenças crônicas não transmissíveis e o acesso ao sistema de saúde, dentre outras informações valiosas para o planejamento do setor Saúde em médio e longo prazo. A PNS 2013 nos dá, de fato, uma linha de base para que seja possível monitorar o conjunto de indicadores de saúde, avaliar as ações e estratégias desenvolvidas até o momento e planejar o futuro.
Um dos aspectos mais relevantes da Pesquisa é a geração de conhecimentos sobre a forma como a população brasileira está envelhecendo. Foram mensurados indicadores que medem a fragilidade e o grau de incapacidade dos idosos, como a realização de atividades instrumentais, como se movimentar sozinho ou ir ao banco, por exemplo, e os cuidados básicos com a saúde, como a própria higiene. A PNS 2013 também trouxe informações sobre o acesso de idosos a cuidadores profissionalizados, revelando iniquidades que devem ser consideradas no planejamento de políticas públicas voltadas a este segmento da população. Em síntese, percebemos que já existe uma parcela da população idosa que está bastante frágil e nem sempre tem acesso aos serviços e cuidados de saúde de forma integral. Monitorar essas pessoas e suas condições de vida é imprescindível se desejamos ter uma população saudável no futuro.
Que tendências futuras sobre a saúde da população brasileira podem ser vislumbradas a partir dos resultados da PNS 2013?
O desafio é claro: a população brasileira está envelhecendo, demandará cada vez mais cuidados assistidos e o Estado não tem, hoje, uma política de apoio e suporte para essas pessoas. Se seguirmos este caminho, o resultado será uma desigualdade ainda maior no acesso à saúde, justamente no momento da vida que requer mais atenção. Os dados da PNS 2013 sobre as doenças crônicas não transmissíveis demonstram claramente essa tendência: 45% dos idosos brasileiros referem algum desses problemas. Dentre eles, 55% têm baixa escolaridade. Esses dados podem, sim, ser interpretados positivamente. Afinal, foi a universalidade e a equidade do SUS que permitiram o maior acesso ao sistema de saúde, levando mais pessoas a receber o diagnóstico. Por outro lado, precisamos reconhecer que pessoas com doenças crônicas são mais vulneráveis, apresentam mais incapacidades para a vida diária e demandarão cuidados mais frequentes e complexos do sistema de saúde. Portanto, esse tema é um importante objeto de monitoramento no horizonte dos próximos 20 anos.
Outra questão relevante é a obesidade. Comparando os dados da PNS 2013 com os obtidos em 2008 pela Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), verificamos o aumento do excesso de peso da população brasileira. Hoje, a obesidade acomete 24% das brasileiras e 18% dos brasileiros. O compromisso firmado pelo Brasil no Plano Nacional de Enfrentamento às Doenças Crônicas Não Transmissíveis, em 2011, e no Plano Global de Enfrentamento às Doenças Crônicas Não Transmissíveis, lançado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2015, era conter a expansão desses problemas de saúde. Nós não cumprimos esta meta, ao contrário, registramos uma tendência de crescimento da obesidade e de outras condições crônicas. Sem dúvida, esse conjunto de doenças será um objeto contínuo de monitoramento, inclusive com compromissos globais.
Quais as perspectivas para os próximos 20 anos em relação à prevalência e ao controle das doenças crônicas não transmissíveis no Brasil?
Dentre os indicadores dos planos Nacional e Global de Enfrentamento às Doenças Crônicas Não Transmissíveis estão a contenção dos casos de hipertensão arterial e de diabetes. Os resultados de diversas pesquisas apontam que a prevalência da hipertensão não está aumentando no Brasil. Porém, a realidade não é a mesma para a diabetes. Acompanhando as tendências de sobrepeso e envelhecimento da população, esta doença está crescendo no Brasil. Certamente daqui a vinte anos a prevalência da diabetes ainda será uma medida muito importante da PNS. Poderemos comparar os índices de 2033 com os de 2013 para inferir as condições de acesso ao diagnóstico e ao tratamento e questionar se os esforços empreendidos geraram resultados satisfatórios. Por isso é fundamental que a PNS seja realizada periodicamente, mantendo parâmetros que permitam a comparação de cenários e a avaliação crítica das políticas públicas.
A edição de 2013 da PNS traz informações interessantes sobre a hipertensão: somente 3% da população brasileira nunca mediu a pressão arterial. Isso significa que 97% já teve acesso ao procedimento ou, em outras palavras, à possibilidade de receber o diagnóstico de uma doença crônica não transmissível. Com isso, hoje sabemos que mais de 20% da população brasileira tem hipertensão e que quase 90% dos pacientes usam medicamentos para controlá-la, ou seja, têm acesso ao tratamento. O inquérito também revelou que mais de 50% dos hipertensos em tratamento obtém os medicamentos nos centros de saúde; de 25% a 30% nas farmácias populares; e menos de 25% no setor privado. E são pessoas com menor escolaridade que têm acesso aos medicamentos necessários para controlar a hipertensão pelo setor público. Isso mostra de forma muito positiva como o SUS provê o diagnóstico, o tratamento e o acompanhamento dessa população.
A Pesquisa constatou, ainda, que 85% desses pacientes tiveram acesso a médicos especialistas e que, em 56% do casos, o paciente é acompanhado pelo mesmo cuidador. A partir dessas informações concluímos que o manejo dos hipertensos vem sendo realizado de forma bastante adequada no Brasil. As mesmas perguntas foram aplicadas às pessoas com diabetes. Verificamos que 15% da população nunca tinha feito exame de sangue. Por outro lado, quase 60% dos pacientes são acompanhados pelo mesmo cuidador e mais de 90% têm acesso ao tratamento – e tudo isso é muito positivo. Os principais problemas no manejo do paciente diabético dizem respeito a exames dos pés e das vistas: somente um terço dos pacientes teve acesso a este tipo de cuidado. Portanto, ainda temos muito a avançar.
Metodologicamente, como foi possível realizar este trabalho, sobretudo um país tão extenso e diverso como o Brasil?
A PNS 2013 é resultado de um esforço interinstitucional. Participaram diversas secretarias do Ministério da Saúde, a Fiocruz e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), hoje a instituição brasileira com o maior nível de capilaridade para executar uma pesquisa como esta, com qualidade e em todo território nacional. Um comitê gestor liderado pela Fiocruz e pela Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde e composto por pesquisadores de diferentes especialidades definiu os questionários, os temas, as abordagens e, também, a metodologia utilizada na Pesquisa. A amostra populacional foi desenhada pelo IBGE, que acumula experiência nesta área, com o auxílio muito próximo da Fiocruz.
Alguns aspectos metodológicos inovadores merecem destaque. Esta foi a primeira vez que o IBGE coletou amostras específicas das capitais. Trabalhamos com as dimensões Brasil, Regiões, Unidades Federadas e Capitais, nos meios urbano e rural. Além disso, até então o IBGE trabavalha com uma pessoa da casa respondendo por todo o domicílio. Para a PNS 2013 esse método seria insuficiente. Nós precisávamos selecionar por sorteio, em cada domicílio, quem seriam os respondentes. E o IBGE aceitou o desafio, concretizando essa inovação metodológica. Outra novidade foi o registro de dados físicos da população: a ocorrência ou não de hipertensão arterial, a medida antropométrica e a realização de exames laboratoriais.
De que forma ações focadas nos determinantes sociais da saúde e na superação de iniquidades podem, em médio e longo prazo, assegurar melhores condições de vida para os idosos no Brasil?
A ação sobre os determinantes sociais extrapola o setor Saúde. São necessárias, também, políticas de Educação, de geração de emprego e renda, de garantia da Previdência Social. Esse planejamento deve ser feito cada vez mais de forma integrada. O aumento do número de idosos na população gera mais demandas para o serviços de saúde, requer mais profissionais especializados, gera novas necessidades de acessibilidade e mobilidade, dentre muitos outros fatores. Então é preciso pensar, antecipadamente, em quais serão os profissionais necessários para assistir essa população, quais serão as transformações necessárias para tornar as cidades mais adequadas às pessoas mais velhas. É preciso antever a ‘cidade do futuro’ e somar esforços da Saúde, da Educação, da Assistência Social, dos Transportes, enfim, de todos os setores da sociedade, para que o cuidado aos idosos se desenvolva de forma integral.
É preciso refletir, também, sobre como a sociedade acolhe os seus idosos e como as comunidades irão se preparar para acompanhar as pessoas mais velhas. Sabemos que nem todo idoso terá cuidadores pagos. O Estado e as famílias não dispõem de recursos para isso. Portanto, a solidariedade será fundamental para garantir qualidade de vida aos brasileiros com mais idade, inclusive para evitar problemas como a depressão. Outra preocupação muito grande é em relação à Previdência Social. Inegavelmente serão necessários mais recursos. Todos esses são grandes desafios para o Brasil do século XXI, do século XXII. A PNS 2013 nos mostra que avançamos muito nos últimos anos – sim, nós reduzimos consideravelmente as iniquidades em saúde – mas ainda há muito a superar. E isso só será possível com planejamento de longo prazo, políticas públicas integradas e investimentos massivos, sobretudo nos grupos mais vulneráveis, que acumulam fatores de risco e, portanto, adoecem mais.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Depois dos papados conservadores chegou a primavera da Igreja promovida pelo Papa Francisco

Padre Paulo: papados conservadores “destruíram Igreja inserida na vida dos pobres” no Brasil e AL

Outras Palavras
Padre Paulo ao fim de um batizado em 2015
Padre Paulo Sérgio Bezerra não cede um milímetro sequer no seguimento dos ensinamentos da Igreja à luz do Evangelho e da renovação do Concílio Vaticano II, como um dos protagonistas da Teologia da Libertação na periferia de São Paulo. Padre desde 1980, há 34 anos está na Paróquia Nossa Senhora do Carmo, na Diocese de São Miguel Paulista, em Itaquera, bairro pobre da zona leste da cidade.
O sacerdote, de 63 anos, foi formado pela escola do cardeal dom Paulo Evaristo Arns, falecido em dezembro de 2016 e dom Angélico Sândalo Bernardino, bispo da região Leste II da cidade de São Paulo e hoje emérito da diocese de Blumenau (SC), aos 84 anos. Isso anos antes que João Paulo II dividisse a Arquidiocese em 1989, numa articulação para esvaziar a liderança de dom Paulo e nomear bispos conservadores para as novas dioceses, que trataram de demolir toda a construção da “Igreja rumo à periferia” na antevisão de dom Paulo, agora retomada pelo Papa Francisco, que tem convocado os católicos para novamente partirem “às periferias existenciais” de uma “Igreja em saída”.
A matriz e as capelas das sete comunidades da paróquia estão sempre cheias, quase duas mil pessoas frequentam as celebrações e participam da vida da Igreja local.  Acorrem às missas presididas por padre Paulo gente de toda a cidade, em busca de uma liturgia que fuja ao rigorismo dos tradicionalistas ou ao estilo neopentecostal dos carismáticos. “Aqui não tem ‘milagres’ nem se fala em línguas”, diz ele, desolado com o ambiente da Igreja em boa parte da cidade: “A questão para os padres hoje, em larga escala, é indumentária. Tem padre que usa barrete, solidéu preto, é um fetiche indumentário que sequer é propriamente uma teologia tradicionalista, conservadora, apesar de serem conservadores, reacionários”. Ele não desanima, está empolgado com a primavera da Igreja promovida por Francisco: “Quando em 2013 aquele homem curvou-se para a multidão no dia do anúncio de seu nome, na praça São Pedro, nem precisei ir ao Google pra saber quem era; entendi que havia chegado um novo tempo”.
Um tempo novo que se abre depois da terra arrasada. Para ele, a ofensiva conservadora de 35 anos dos papados de João Paulo II e Bento XVI quase liquidou com a Igreja na América Latina e no Brasil, com a perseguição aos leigos, leigas, padres, freiras, teólogos, teólogas e até bispos vinculados à Igreja dos pobres, à Teologia da Libertação e, sobretudo, às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs): “Eles destruíram com a Igreja organizada em comunidades, pequenos círculos, inserida na vida das famílias pobres ao redor do país e da região”.
Entre outubro e novembro de 2016, padre Paulo sofreu uma campanha agressiva promovida por blogs católicos ultraconservadores. Motivo: ter recebido em celebrações na Igreja, durante a novena de Nossa Senhora do Carmo, pessoas como o deputado Chico Alencar (PSOL), Guilherme Boulos, líder nacional do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), a filósofa Marilena Chauí e, sobretudo, a drag queen Albert Roggenbuck (Dindry Buck). No caso da de Buck, os rigoristas deixaram de informar que a jovem é catequista em outra paróquia da região. Os integristas moveram intensa campanha de ódio contra o padre nas redes sociais, incentivaram um abaixo assinado pela remoção dele e mantiveram uma reunião constrangedora e inquisitorial com o bispo, dom Manuel Parrado Carral. Não deu em nada. “No abaixo assinado deles tinha até gente do Acre, no norte do país, mas aqui na paróquia pouquíssimas pessoas deram bola para isso”, afirmou padre Paulo. Em reportagem da TVCarta sobre as ações da paróquia, padre Paulo questionou: “Porque o Alckmin, por exemplo, chega e fala na basílica nacional (de Aparecida) e ninguém questiona?” (veja aqui).
Ele concedeu entrevista ao blog Caminho pra Casa em duas rodadas de conversas, entre 12 e 16 de janeiro –todas as observações entre colchetes são intervenções do autor deste blog.
Caminho pra Casa: As celebrações na paróquia Nossa Senhora do Carmo estão sempre cheias e a mobilização da comunidade é sempre muito forte. O que acontece aqui?
Padre Paulo Sérgio Bezerra: Bem, talvez seja melhor dizer o que não acontece aqui. Aqui não tem ‘milagres’ nem se fala em línguas (risos). Há mais de 30 anos o que fazemos aqui é manter a linha do Vaticano II. Seis anos depois de minha ordenação decidi fazer pós-graduação em Liturgia e sempre procurei inspirar-me na renovação do Concílio que pretendeu uma caminhada litúrgica dinâmica, com o povo. Ao longo dos anos houve um enrijecimento litúrgico notável, que negou em boa medida o espírito do Vaticano II, ao lado do surgimento da onda de padres cantores e celebrações com acento neopentecostal, mas buscamos nos manter fiéis e eu tentei manter-me amparado no ensinamento de dom Paulo (Evaristo Arns) e dom Angélico (Sândalo Bernardino). Para eles, como filhos diretos do Vaticano II, a Liturgia deveria refletir e ser concretização de uma vida pastoral de compromisso com os pobres. Não se sacralizavam as normas litúrgicas, mas elas eram adaptadas à vida da Igreja como Povo de Deus. Com os anos a liturgia virou uma “vaca sagrada”; ninguém toca. E não tem mais vida, não pulsa.
É mesmo impressionante o que aconteceu. Onde estão os profetas da Igreja?
Há muitos profetas ainda, mas o fato é que em largas fatias do clero há três palavras que são imperativas: dinheiro, dinheiro, dinheiro. A questão para os padres hoje, em larga escala, é indumentária. Tem padre que usa barrete, solidéu preto, é um fetiche indumentário que sequer é propriamente uma teologia tradicionalista, conservadora, apesar de serem conservadores, reacionários.
Padre Paulo na abertura da Campanha da Fraternidade de 1985, sob o tema “Pão para quem tem fome” – na Zona Leste de São Paulo.
Vocês viveram uma experiência muito forte em São Paulo e especialmente nas periferias e aqui na Zona Leste sob a liderança de dom Paulo Evaristo Arns, dom Angélico Sândalo Bernardino e todo o processo efervescente da Teologia da Libertação, mesmo debaixo da ditadura no Brasil. Como foi viver este tempo?
 Com a Teologia da Libertação houve o início de um processo de unir o culto (liturgia) à vida cotidiana; antes disso, até os anos 70, a religiosidade popular era vivida apenas na base de devoções de origem medieval, medieval, portuguesa, europeia: reza do terço, coroações de Nossa Senhora –o que, por incrível que pareça, voltou com força nos últimos anos com terço dos homens, cerco de Jericó, bênçãos do Santíssimo, que derruba as pessoas em transe…é o devocionário novo-velho.
Mas o intervalo da Teologia da Libertação foi um tempo muito intenso, começando pelos círculos bíblicos: o povo se apropriou da Bíblia, que era proibida às pessoas comuns! Experimentamos o aprendizado com as equipes do Marins [o padre José Marins foi e é um dos maiores animadores das CEBs no Brasil e no mundo –leia aqui uma entrevista excepcional dele ao padre Luis Miguel Modino, publicada em 08 de janeiro no site Religion Digital e, a seguir, em português, no IHU, que você pode ler aqui].
Ao mesmo tempo, tivemos um período de formação pastoral muito relevante do clero a partir das linhas mestras do Vaticano II, à luz das Conferências Episcopais Latino Americanas de Medellín e Puebla. Um tempo de grande coesão entre a Igreja institucional e o povo. Éramos todos agentes pastorais, povo de Deus, sem essa coisa terrível e medíocre de clero e clientela, que voltou com a restauração conservadora.
Como foi o processo de restauração na região?                                   
Isso aqui era uma maravilha, a Igreja viva dos primeiros tempos, com dom Paulo e dom Angélico exercendo uma liderança verdadeiramente profética, formando os padres, as freiras, os leigos e as leigas. A presença das freiras, as irmãs inseridas, tinha uma relevância enorme – as mulheres foram líderes no processo de ir às periferias no início dos anos 1980. Mas a maré conservadora do Vaticano chegou. Em 1989 houve a divisão da Arquidiocese para enfraquecer dom Paulo e o bispo que foi nomeado pelo Papa João Paulo II, como primeiro bispo diocesano da nova Diocese de São Miguel Paulista, clericalizou tudo e engessou a liturgia e terminou com a pastoral de conjunto. Com o tempo, foram liquidadas todas as pastorais: Pastoral da Juventude, Pastoral Operária, e total desinteresse pelos movimentos sociais…; foram desarticulados e esvaziados os conselhos paroquiais da então região episcopal, que eram uma experiência fantástica de colegialidade na Igreja entendida como Povo de Deus, como o Papa Francisco retoma agora. A estrutura eclesial na região, que se assentava sobre as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) tornou-se paroquial, clerical. O desrespeito com o povo e a autodoação das pessoas ao projeto do Reino pode ser exemplificado com a fofoca, por sinal um tema recorrente do Papa [veja aqui] que, entre outros, teve também as freiras como alvo: elas eram chamadas pelos restauradores de “irmãs enxeridas”, em vez de inseridas, de maneira insistente, desrespeitosa.
A esse processo local correspondeu um movimento retrógrado em âmbito nacional, não foi?
Sim, foi terrível. Foi um processo violento de cima pra baixo, o que aconteceu aqui foi reflexo do que aconteceu no mundo todo, especialmente na América Latina e no Brasil. João Paulo II pode ser um santo, mas ele enxergava o mundo como se fosse uma grande Polônia sob o horror comunista. Há nuances no pensamento dele, algumas concessões à doutrina social da Igreja, mas ele via comunismo em todos os lugares e governou a Igreja em aliança com Margareth Tatcher e sobretudo Ronald Reagan. Houve uma clara articulação entre o Vaticano e Washington na Europa do leste e em nossa região. Pagamos o altíssimo preço do projeto de Wojtyła de aliança contra o comunismo com os EUA. Começou um processo de nomeação de bispos pelo critério de adesão à disciplina da Cúria romana e não à profecia. O centro desta articulação aqui no Brasil foi a Arquidiocese do Rio, que começou a cooptar bispos do Brasil inteiro para seminários organizados pela Congregação da Doutrina da Fé [sucessora do Santo Ofício] para enquadrar todo mundo –até onde sei o então cardeal Raztinger, então prefeito da Congregação, e que nesta qualidade perseguiu muita gente, esteve no Rio mais de uma vez para esses cursos. Foi uma avalanche: cursos, nomeações, censuras, punições, perseguições…
Começou uma conversa de que a Igreja no Brasil era comunista, que não se rezava, não se ajoelhava nos bancos das catedrais e matrizes e voltamos a ser a Igreja das devoções, como antes do Vaticano II. O discurso era –como ainda escutamos hoje- de volta à tradição da Igreja, mas a verdadeira tradição da Igreja está no primeiro milênio, e não no segundo, como rezam os restauradores. A verdadeira tradição havia sido resgatada no Vaticano II, com a redescoberta dos Padres da Igreja por Ives Congar, Lubac e tantos outros, que foram igualmente perseguidos por décadas antes do concílio.
Recomeçou o tempo triste a que me referi antes, das devoções, do terço, das adorações e da clericalização. Os ministros e agentes de pastoral foram afastados ou se afastaram; resistir foi muito duro. Começou o processo de liquidação, esvaziamento ou domesticação dos conselhos diocesanos e paroquiais em todo o Brasil.
Um processo doloroso…
Sim. Eles destruíram com a Igreja organizada em comunidades, pequenos círculos, inserida na vida das famílias pobres ao redor do país e da região. Os seminários foram se transformando em verdadeiros “centros de formação profissional”, e o sonho dos jovens passou a ser o de fazerem carreira para bispos, e não de tornarem-se profetas, com exceção dos centros de algumas poucas dioceses e de algumas ordens e congregações.
As Bem Aventuranças deixaram de ser a  Lei Magna da Igreja –este lugar passou a ser ocupado pelo Código de Direito Canônico. Alguém me disse que um bispo, hoje emérito, afirmou num retiro de seminaristas, aos jovens, que a Igreja é a hierarquia, que a Igreja é Pedro, sobre quem repousa a tradição: o papa, cardeais, padres e diáconos. “O povo é lama”, disse ele. Isso entra em confronto direto com o pensamento original do cristianismo e o Vaticano II, que definiu a Igreja como Povo de Deus.
E agora, com Francisco?
É até difícil de dizer. O Papa está séculos à frente dessa mentalidade. As pessoas ainda têm muito medo, tudo é dito pelos cantos, a conspiração contra ele é brutal, e agora está se tornando pública. É um ressurgimento ainda frágil, que demanda novos caminhos e novos protagonistas; nós, da Teologia da Libertação, estamos todos de cabelos brancos, muitos morreram. Precisamos confiar no sopro do Espírito e dar tempo para que este processo de abertura de portas e janelas dê frutos.
Muitos morreram, às vezes no ostracismo ou abandonados ou sob a indiferença da hierarquia, como dom Oscar Romero. Mas é uma enorme alegria poder ver Leonardo Boff, Gustavo Gutierrez Jon Sobrino e tanto outros sendo redimidos em vida, depois de tudo o que sofreram injustamente.
Estamos começando a sair de uma situação difícil, muito difícil. Como superar esses anos de fechamento e esclerose? Como enfrentar a Teologia da Prosperidade que se tornou como uma praga dentro da Igreja, seduzindo fiéis, padres, bispos, tanto teologicamente como pessoalmente? Sim, a prosperidade financeira tornou-se “projeto de vida”. É uma virada enorme a ser feita. Comblin perguntava: quem na Igreja realizará a missão continental? Dom Angélico disse-me mais de uma vez, depois de tantos livros publicados sobre o Papa Francisco: “é preciso parar com essa coisa de escreve livros e passar à pratica pastoral que ele aponta para a Igreja.
Padre Paulo preparando homilia dominical
Isto ficou claro desde o começo, não?
Sim. Quando em 2013 aquele homem curvou-se para a multidão no dia do anúncio de seu nome, na Praça São Pedro, nem precisei ir ao Google pra saber quem era; entendi que havia chegado um novo tempo.
Está tudo na Evangelii Gaudium! [a Exortação Apostólica de Francisco, A Alegria do Evangelho, sobre o anúncio do Evangelho –a íntegra aqui]
Ela foi lançada em novembro de 2013 e será que os cardeais rebelados não leram? Tenho certeza que sim, mas esperaram o momento para atacar, que é o que vemos hoje.
A Igreja do Vaticano II, a Igreja das primeiras comunidades, está tudo lá na Evangelii Gaudium. Com ela, Francisco liquidou todo o edifício hierárquico de fundo monárquico que foi construído nesses anos todos. Olha! [Pega um exemplar da carta apostólica e indica] O Papa fala nos novos caminhos logo no tópico 1, anuncia um novo desenho de Igreja, a partir dos processos e de uma amarração de elaboração coletiva… Leia aqui no número 16: “(…) não se deve esperar do magistério papal uma palavra definitiva ou completa sobre todas as questões que dizem respeito à Igreja e ao mundo”.[1]
Tudo o que a Igreja experimentou no Sínodo da Família e com a Amoris Laetitia estava indicado desde a Evangelii Gaudium. É a Igreja das autonomias, dos processos, não mais das decisões monárquicas; por isso os que estavam no poder estão reagindo desse jeito brutal. Eles querem manter o poder!
O cenário é muito tenso. Há muita gente na estrutura da Igreja rezando por uma morte rápida de Francisco. Mas precisamos ter coragem de mudar. Os planos pastorais, que hoje são verticais e inspirados nos planos das empresas, precisam ser refeitos todos, com a participação e decisão do povo. Houve um tempo, o da Teologia da Libertação, em que a liderança da vida da Igreja estava com o episcopado profético; depois foi esse desastre; o futuro está nas mãos dos leigos.
Há muito trabalho pela frente.
Com Francisco, a Igreja, que se tornou nos últimos 35 anos totalmente irrelevante, domesticada volta a cumprir sua missão: ser luz do mundo, incomodar, ser profética. Precisamos ser esta luz não apenas em Roma, mas em todos os cantos.
O que está acontecendo na paróquia em que o senhor atua?
Bem, tentamos manter uma pequena chama acesa esses anos todos. Há sinais aqui e ali, parece que a Igreja começa, lentamente, a acordar da  anestesia, em meio aos  conflitos internos brutais.
Buscamos ter um governo da Igreja partilhado com todos, dentro de nossas fragilidades.
Um aspecto importante de nossa dinâmica, além do cotidiano de viver e compartilhar com as pessoas é a celebração anual de Nossa Senhora do Carmo, nossa padroeira. Desde 2006 tornamos a novena preparatória da festa como espaço privilegiado de reflexão; em cada ano foi um tema: democracia, meio ambiente, mulheres, saúde… É um período de distribuição de documentos, cartas e da encíclica Laudato Sii sobre o planeta. Convidamos pessoas que refletem sobre essas questões para partilhar com nossa comunidade, aqui estiveram nesses anos todos gente como Vladimir Safatle, Marilena Chauí, Guilherme Boulos, o padre Luiz Lima, Chico Alencar, Marcelo Barros, Boff…
A partir de 2015 mudamos a novena para um ciclo em sete domingos, um septenário, que permite uma reflexão mais aprofundada e é mais adaptado à esse ritmo frenético da vida  das pessoas.
O senhor é alvo de uma perseguição constante de grupos católicos ultraconservadores, que foram até pedir sua remoção ao bispo
Sim. Essa história foi quando trouxemos a drag queen Dindry Buck [Alberto Roggenbuck] para dar testemunho, como católica e drag, sobre as provocações que a vida lhe traz e como vive a sua fé. Ela sequer estava caracterizada assim durante a celebração. Por sinal, o que os conservadores não dizem é que ela é catequista numa paróquia vizinha. Fizeram um escarcéu porque ela falou na missa, levantou o cálice durante a consagração e ajudou na distribuição da eucaristia. Quando veio a Marilena Chauí fizeram um escândalo porque ela teria comungado da “hóstia do padre”. Mas isso só revela ignorância litúrgica, pois a hóstia é da assembleia.
No abaixo assinado deles tinha até gente do Acre, no norte do país, mas aqui na paróquia pouquíssimas pessoas deram bola pra isso.
Eu fico tranquilo, porque sei que não sou o alvo. O alvo verdadeiro é a eclesiologia do Papa Francisco.
Padre Paulo e padre Júlio Lancelotti visitam Guilherme Boulos, preso durante repressão da PM a sem teto em São Paulo em 17 de dezembro
Quais as perspectivas em curto prazo?
A comunidade aqui da região fundou em 2010 o IPDM (Igreja Povo de Deus em Movimento), que pretende ser um núcleo de articulação, reflexão e oração em torno da proposta do Papa para a Igreja, numa perspectiva ecumênica. Com isso, começamos a “expandir” as fronteiras da paróquia para dialogarmos com pessoas e movimentos em outros cantos, estabelecer novas pontes. É uma prioridade para mim e muita coisa já está sendo feita.
Além disso, fomos “provocados” pelo Boulos [Guilherme Boulos, líder nacional do MTST].  Em dezembro ele nos convidou para assumirmos a evangelização nas ocupações de sem teto a partir de uma perspectiva também ecumênica. Estamos nos organizando para isso. É um desafio. E pensar que nos anos 80 em todas as ocupações aqui na zona leste (e não só aqui) estavam presentes padres e seminaristas aos montes, era a Igreja “em saída”, “nas periferias existências”, desafio para o qual o Papa Francisco nos re-convoca. É um começar de novo, mas entendendo que vivemos uma época totalmente nova; há ocupações de milhares de pessoas sem moradia em toda a cidade e a Igreja ou inexiste ou tem uma presença tímida, e mesmo essa presença tímida sofre em muitos casos a perseguição dos católicos reacionários. [em 17 de janeiro, dia seguinte à segunda rodada da entrevista, Guilherme Boulos foi preso numa desocupação violenta realizada pela PM no leste de São Paulo e o padre Paulo, ao lado dos padres Júlio Lancelotti, vigário da Pastoral do Povo da Rua, e Tarcísio Mesquita, da Paróquia Nossa Senhora do Bom Parto, também na Zona Leste, acorreram para a delegacia, em solidariedade –e foram todos os três sacerdotes alvos de postagens agressivas e ofensivas dos movimentos católicos integristas nas redes sociais]
[por Mauro Lopes]
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[1] “Com prazer, aceitei o convite dos Padres sinodais para redigir esta Exortação. Para o efeito, recolho a riqueza dos trabalhos do Sínodo; consultei também várias pessoas e pretendo, além disso, exprimir as preocupações que me movem neste momento concreto da obra evangelizadora da Igreja. Os temas relacionados com a evangelização no mundo atual, que se poderiam desenvolver aqui, são inumeráveis. Mas renunciei a tratar detalhadamente esta multiplicidade de questões que devem ser objeto de estudo e aprofundamento cuidadoso. Penso, aliás, que não se deve esperar do magistério papal uma palavra definitiva ou completa sobre todas as questões que dizem respeito à Igreja e ao mundo. Não convém que o Papa substitua os episcopados locais no discernimento de todas as problemáticas que sobressaem nos seus territórios. Neste sentido, sinto a necessidade de proceder a uma salutar ‘descentralização’” (16).

domingo, 22 de janeiro de 2017

Como fica a Lava-Jato com a morte de Teori?

A Lava-Jato com a morte de Teori

Por Luis Nassif, no Jornal GGN:

Figura curiosa, a do Ministro Teori Zavascki.

No cargo, personificou a figura do magistrado, com as virtudes públicas da discrição, da firmeza, em tempos em que Ministros passaram a se comportar como celebridades e figuras públicas se confundem com perfis de Facebook e, para se tornar presidenciável basta cometer frases como “não se mude do Brasil, mas mude o Brasil”.

Em um país em que a única forma de julgamento é midiático, Teori foi discreto ao extremo, no trabalho e na vida pessoal. Tanto que passou a ideia de um ser sisudo e, pelos depoimentos de amigos e parentes, aparece o cidadão bem-humorado, com a ironia fina e o afeto discreto dos tímidos, que cativou de Gilmar Mendes a Eugênio Aragão, de Dilma e Lula a Joaquim Barbosa.

Era capaz de transmitir gentileza nos menores gestos. E de não ceder um milímetro ao deslumbramento que acometeu muitos de seus colegas, dos jovens aos decanos imaturos.

Foi a peça central da Lava Jato, a segurança técnica, a maturidade, contrapondo-se ao histrionismo dos procuradores paranaenses, ao deslumbramento do juiz Sérgio Moro e à falta de pulso do Procurador Geral Rodrigo Janot.

Na Lava Jato, seus maiores conflitos foram justamente com Janot.

Na primeira leva de denúncias encaminhada ao Supremo, comentou com o filho sua estranheza pelo fato de Janot ter proposto a absolvição do senador Aécio Neves contra quem, segundo Teori, havia evidências muito mais fortes do que contra outros políticos denunciados.

Quando as arbitrariedades da Lava Jato atingiram o ápice – com a condução coercitiva de Lula – havia a esperança da montagem de uma aliança liberal no Supremo, capaz de segurar os abusos e restaurar o estado de direito.

Hipoteticamente, seriam Teori, Ricardo Lewandowski, Luís Roberto Barroso, Marco Aurélio de Mello, Luiz Edson Fachin, Celso de Mello e Rosa Weber. Um a um pularam fora, constrangidos pela virulência da opinião pública e pelos ataques da mídia e através das redes sociais. Escracho na frente de sua casa, ameaças anônimas denunciadas pelo próprio filho, certamente contribuíram para arrefecer a resistência de Teori.

Cometeu fraquezas e praticou inconstitucionalidades, como o pedido de prisão do então senador Delcídio do Amaral e o reconhecimento da ilegalidade do vazamento das conversas de Lula e Dilma, não acompanhado das sanções devidas.

Mesmo com essas fraquezas, foi o que mais resistiu à pressão de uma opinião pública que comprara a tese do direito penal do inimigo. Tornou-se o único elo de toda a cadeia da Lava Jato de quem se podia esperar alguma espécie de isenção, o acatamento de argumentos jurídicos. E, certamente, a severidade isenta na hora de analisar as delações, sem, se curvar à parcialidade flagrante do PGR.

Era chocante, aliás, a diferença de dimensão entre ele e outros personagens da Lava Jato, como o deslumbramento provinciano de Sérgio Moro nos regabofes de João Dória ou nos eventos da American Society, ou do Procurador Geral Rodrigo Janot em Davos, se anunciando como pró-mercado, dois jecas na corte do Rei Arthur.

Da teoria conspiratória à conspiração

Apostar em teoria conspiratória é tão irresponsável como negar a possibilidade de conspiração. Se foi acidente ou não, apenas investigações criteriosas dirão.

De qualquer modo, a morte de Teori abre um leque inédito de possibilidades estratégicas para a Lava Jato que estão sendo analisadas pelos ínclitos Michel Temer e Eliseu Padilha, o político notório que, com a determinação férrea dos grandes comandantes e a falta de sutileza total dos que conhecem a natureza humana, conseguiu comprar toda imprensa com toneladas de publicidade.

Há três possibilidades:

1. Temer escolhendo um Ministro que mate no peito. Baixa probabilidade, dada a sua falta de legitimidade.

2. A presidente do STF Carmen Lúcia procedendo a uma distribuição isenta dos processos sob análise de Teori.

3. O que é mais provável, um arranjo político no âmbito do próprio STF.

No Judiciário, há uma distribuição eletrônica dos processos através de sorteios definidos por algoritmos. Esses sorteios podem e são manipulados.

Na história recente, há inúmeros exemplos dessa manipulação, como no sorteio de Gilmar Mendes para relator das contas de Dilma Rousseff e do PT no TSE, tendo como presidente Dias Toffoli.

Nem se pense em nada mais desabonador para o Supremo, do que o receio dos bons Ministros em pegar esse rabo de foguete. O último que pegou - Marco Aurélio de Mello - ficou ao relento. A proatividade no STF resume-se a Gilmar Mendes.

Em março de 2015, já ocorrera um primeiro movimento estratégico no STF, quando Dias Toffolli solicitou e foi autorizado a mudar da 1a para a 2a Turma – justamente a que iria mais à frente julgar a Lava Jato.

Até agora, a 2a Turma era composta por Gilmar Mendes (presidente), Celso de Mello, Ricardo Lewandowski, Teori e Toffoli. Com Teori, estava assegurada a maioria contra conchavos. Quem assumirá o seu lugar na 2a Turma?

Além disso, qual dos atuais Ministros teria condições de assumir a relatoria da Lava Jato? Dias Toffoli e Gilmar, com sua flagrante parcialidade? Barroso, que muda de pomba a falcão ao primeiro berro da besta? Celso de Mello que já expôs publicamente seu partidarismo em um shopping center? Luiz Fux, o homem de Sérgio Cabral Filho?

Trata-se de uma época tão ingrata para o Supremo, que o acidente que vitimou Teori tornou-se simbólico: o mais discreto e sisudo dos Ministros do Supremo morre em uma viagem a passeio no avião particular de um empresário famoso por ser um grande farrista.

sábado, 21 de janeiro de 2017

IPHAN: 80 anos de um resiliente e combativo orgão da cultura no Brasil

Dom Total:

Pátria e Patrimônio - contra a morte da memória nacional

Mil vivas, então, a essa instituição-salvaguarda da cultura brasileira.
Igreja São Francisco de Assis em Ouro Preto.
Igreja São Francisco de Assis em Ouro Preto. (Reprodução)
Por Eleonora Santa Rosa*
País de memória curta, legados relegados, bens abduzidos e patrimônio constantemente ameaçado por gregos, gringos, troianos e os de casa também, merecem ser louvados e celebrados os oitenta anos de um resiliente e combativo órgão, quiçá o mais importante na estrutura governamental da cultura no Brasil - o Iphan, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Sphan, Dphan, IBPC, não importa a nomenclatura ao sabor dos tempos políticos, o Iphan sobreviveu, heroicamente, nessas oito décadas.
Instituição velha de guerra e de batalhas sofridas, detentora de missão de nobreza infinita e de penúria sem fim, segurou a duras penas a pressão e a destruição do nosso patrimônio cultural. Seu devotado e franciscano corpo técnico, tributário dos ditames modernistas de Rodrigo de Mello Franco e Mário de Andrade, amassou o pão do diabo para salvar/documentar igrejas, capelas, imagens, obras, ritos, expressões, festas e devoções, materialidades e imaterialidades de todos os recantos do território.
Árduo e extenso trabalho a cargo de tão poucos, com muitos erros, por certo, mas infinitos acertos, por justiça.
Nada fácil defender a memória de um país que nunca deu a devida relevância e prioridade a um assunto tão estratégico, cuja história resvala e esbarra até os dias de hoje em uma frágil infra-estrutura composta por arquivos, fundações, institutos, centros de documentação assoberbados por problemas básicos de subsistência e atuação.
Mil vivas, então, a essa instituição-salvaguarda da cultura brasileira, formada e curtida na incansável superação da indigência material, da insolvência financeira e da burocracia procrastinadora, que não entrega os pontos e não abdica de suas atribuições e responsabilidades.
Louvemos, hoje, sua constituição, esqueçamos seus erros, idiossincrasias e desacertos. Sua luta é a de todos nós, na preservação de nosso DNA cultural, de nossa identidade como nação.
Há trinta anos, na celebração de seu cinquentenário, perguntava o mestre Affonso Ávila em plena mobilização para a Constituição de 1988: “por que não buscar-se sacramentar, em dispositivo básico, um conceito político de consciência social e dignidade orçamentária para com o Patrimônio Histórico e Artístico. Que aprendam os legisladores que pátria e patrimônio têm a mesma raiz semântica”. Recado curto e certeiro.
Dizia ainda o visionário poeta: “sopremos as 50 velinhas, mas com cuidado, para que as fagulhas não se propaguem e não tenhamos mais cinzas sobre cinzas nessa já calcinada memória daquilo que deveria ser antes pilar de cultura viva e estimulante”.  
Feliz aniversário Iphan, que as guardas de congo, os santos e santas de tantas igrejas salvas do incêndio e da destruição, ao som dos dobres dos sinos, te protejam per saecula saeculorum.
*Eleonora Santa Rosa - jornalista, editora, produtora e empreendedora cultural.
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O IPHAN, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, é uma autarquia federal, criada na década de 30 (13 de janeiro de 1937) com o intuito de proteger “...os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: I – as formas de expressão; II – os modos de criar, fazer e viver; III – as criações científicas, artísticas e tecnológicas; IV – as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais. V – os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.”
Este trecho é parte do Artigo 216 da Constituição Brasileira que estabelece ao poder público, com o apoio da sociedade, o dever de zelar pelo patrimônio brasileiro, motivo pelo qual foi criado o IPHAN.
Criado ainda pelo Governo de Getúlio Vargas, através da Lei N.º 378, o IPHAN, que hoje se encontra vinculado ao Ministério da Cultura, teve seu projeto de Lei elaborado por ninguém menos queMário de Andrade e ainda contou com a colaboração ilustre de figuras comoOswald de Andrade, Manuel Bandeira,Lúcio Costa, Carlos Drummond de Andrade e Afonso Arinos.
Cabe ao IPHAN preservar, identificar, fiscalizar, revitalizar, restaurar e divulgar os bens culturais do Brasil. Para tanto, o IPHAN mantém parcerias com diversas instituições, Ong’s, associações e fundações com as quais mantém mais de 20 mil edifícios e 83 centros e conjuntos urbanos tombados, além de um cadastro com cerca de 12.000 sítios arqueológicos, mais de um milhão de objetos e 250 mil volumes bibliográficos.


sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Com cortes na saúde, governo Temer lança o programa "menos médicos"

Além de reduzir o número mínimo de médicos em Unidades de Pronto Atendimento, governo não renova contrato de milhares de profissionais cubanos que atendiam a saúde básica no interior do país
por Helena Sthephanowitz. Rede Brasil Atual
BETO BARATA/PR
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Temer corta verbas da saúde pública e privilegia mercado de planos privados, grande doador de campanhas eleitorais
O ministro da Saúde do governo Temer, Ricardo Barros, mais uma vez com a desculpa de fazer economia, abre o saco de maldades contra a população de baixa renda, ao criar uma regra que diminui o número mínimo exigido de médicos a serem contratados para atuar em Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). Tais equipamentos públicos recebem resolver grande parte das urgências e emergências da população, como pressão e febre alta, fraturas, cortes, infarto e outras.
Com a mudança inventada sob orientação de Temer, as unidades que atendem 24 horas terão obrigatoriamente apenas dois médicos para atendimento por dia – em vez de quatro, como era o mínimo exigido nos governos Lula e Dilma – , em turnos de 12 horas cada. De acordo com levantamento publicado no portal de notícias UOL, atualmente, há 165 unidades que funcionam em tempo integral no país. Há ainda outras 275 que tinham as obram em andamento até o afastamento da presidenta Dilma, das quais, 170 já com mais de 90% das obras finalizadas, de acordo com o portal do Ministério da Saúde na internet.
Questionado se a redução do total de médicos não poderia trazer redução na qualidade de atendimento, Barros foi irônico: “É melhor dois do que nenhum. O Brasil precisa cair na real. Não tem mais capacidade de contratar pessoal. É melhor ter essa UPA funcionando com um médico de dia e um de noite do que fechada.” Simples assim, só que não.
Com as novas regras, prefeitos e demais gestores responsáveis por UPAs 24 Horas terão de optar por um entre oito tipos diferentes de equipes, que variam em número de médicos e em custos, arcados por repasses do Ministério da Saúde.
O modelo varia entre equipes com dois médicos por dia – um durante o dia e um durante a noite – e que devem realizar no mínimo 2.250 atendimentos por mês, a até nove médicos e ao menos 13.500 atendimentos mensais. No governo Dilma, a regra previa três tipos de equipes, com regras mínimas que previam quatro, seis ou nove médicos cada. O número de outros profissionais de saúde que devem fazer parte das equipes não foi divulgado.
Questionado se a redução no número mínimo de profissionais exigidos não poderia trazer custos maiores ou deixar equipamentos ociosos, o ministro disse que o modelo prevê compartilhamento desses serviços dentro da rede de saúde. Ou seja, a ideia é que o paciente que antes tinha certeza de encontrar atendimento em uma UPA, agora pode ter que se deslocar a outra (ou outras) unidades(s), para encontrar um profissional ou um exame que precise.
Ricardo Barros só não pensou em fazer economia quando sugeriu a seus pares no Congresso, quando foi deputado federal, antes do golpe, a duplicação da verba destinada aos partidos políticos, via Fundo Partidário, aumentando os repasses, de R$ 311 milhões para R$ 600 milhões.
Parece que o ministro da saúde está sugerido aos brasileiros que paguem planos de saúde privados. Ele é defensor da criação de planos populares de saúde, com acesso a menos serviços do que a cobertura mínima obrigatória determinada pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), mas com menor custo ao consumidor. A ANS, órgão vinculado ao Ministério da Saúde, é responsável pela fiscalização e regulação dos planos de saúde no Brasil, setor que, com a atual crise econômica, perdeu 1,7 milhão de beneficiários.
Coincidência ou não, o maior doador individual da campanha eleitoral de Barros, nas cinco vezes que disputou e venceu as eleições para deputado federal pelo Paraná, foi um dos principais operadores de planos de saúde do país, o empresário Elon Gomes de Almeida, presidente da administradora de benefícios de saúde Aliança. Mas a relação de Barros com o setor privado de saúde não é recente. Na campanha eleitoral de 2006, o ministro recebeu polpuda doação da Unimed de Maringá (PR).
Recentemente ainda, Ricardo Barros disse que “em algum momento, o país não conseguirá mais sustentar os direitos que a Constituição garante – como o acesso universal à saúde – e que será preciso repensá-los”.
E aí a gente pensa logo em mais "coincidências". A operadora Amil lança este mês o Next Saúde, voltado para pessoas de menor poder aquisitivo e que contempla a ideia do ministro de planos populares de menor cobertura – iniciativa bastante combatida por especialistas em saúde pública.
Curiosamente também, depois de o ministro defender que os brasileiros de baixa renda tenham um plano de saúde "barato" e com menos opções de serviços médicos, nada menos que 4 mil cubanos que trabalhavam em municípios carentes do interiorzão do Brasil, foram dispensados e retornaram a Cuba no inicio do mês. “Fiz um agradecimento formal à colaboração de Cuba, mas o “Mais Médicos é provisório, a intenção é de que a prioridade do programa seja dada a médicos brasileiros”, afirmou Barros.
Se o Mais Médicos é provisório, o "menos médicos" será definitivo.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

STF e Lava Jato perdem fator de equilíbrio


Por Kennedy Alencar

O acidente que matou o ministro Teori Zavascki abre uma fase de incerteza em relação ao futuro da Lava Jato e do STF (Supremo Tribunal Federal). Motivo: Teori era um fator de equilíbrio no Supremo e na maior investigação de corrupção em curso no país.
Em momentos nos quais houve abusos na Lava Jato, Teori funcionou como um freio a decisões e tentações autoritárias do juiz federal Sérgio Moro e do Ministério Público. Em sessão do STF, manifestou desconforto em relação a colegas que criticavam seus pares publicamente.
A presidente do STF, Cármen Lúcia, tem enorme responsabilidade para tratar do destino dos processos que estavam sob os cuidados de Teori. Há especulações sobre a possibilidade de redistribuir casos para atuais ministros ou aguardar a chegada do substituto.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Bob Fernandes/6 mais ricos do Brasil têm fortuna igual a soma da grana de 100 milhões de pobres


Bob Fernandes

O Brasil tem 12 milhões de desempregados. O mundo tem mais de 200 milhões de desempregados.

Desde a crise de 2007/2008 o mundo perdeu 70 milhões de empregos.

Para enfrentar esse desastre, gerado pela subprime e voracidade financeira, foram torrados US$ 16 trilhões.

Há 3 anos o lucro de 4 bancos brasileiros era maior do que  a soma do PIB de 83 países.

Há 3 meses o Papa Francisco pregava: "A Internacional do dinheiro governa o mundo".
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Alerta o Papa: "Governa com o chicote do medo, da desigualdade, da violência econômica, social, cultural e militar que gera sempre mais violência..."

O asneirol clichê, tapado ou cínico, espalha ser o Papa um "boliviariano, um comunista".

No Fórum Mundial de Dávos, na Suíça, estão reunidos líderes empresariais e políticos do planeta. De Davos, alertas sobre essa brutal, perigosa desigualdade.

Informam: apenas 8 homens têm mais dinheiro do que 3,6 bilhões de humanos; metade da população da Terra.

E informam: no Brasil, os 6 homens mais ricos têm US$ 80 bilhões em patrimônio...

...É preciso somar tudo que têm 100 milhões de brasileiros mais pobres para alcançar a fortuna destes 6 homens e seus grupos..

A Oxfam, Confederação com 17 organizações e 3 mil parceiros, atua contra "pobreza e injustiça" em mais de 100 países. Em Davos essa Confederação definiu como "obscena" tamanha desigualdade.

"Efeitos corrosivos" da desigualdade produziram as vitórias de Trump, e do Brexit na Inglaterra, entende a Oxfam.

Que detecta nesse ciclo, e momento, "ressentimento contra elites" e "um surto de populismo político". Leia-se: ascensão da extrema-direita e direita mundo afora.

O que porções da elite do mundo e o Papa estão pregando é uma reforma do Sistema; Sistema Capitalista.

Antes que, como advertem, tudo saia definitivamente do controle e exploda.

O que isso tem a ver com nossa barbárie e horror nos presídios, hospitais públicos, com a violência nas ruas, discursos de ódio...?

O que tem a ver com quebradeira, com "cortes" que multiplicam desemprego e miséria...?

Tem muito, quando não tudo a ver. O Brasil, como se sabe, embora tantos não percebam, é parte periférica desse mundo.