A prisão de Guilherme Boulos é recado do Estado a quem quiser resistir
Pot Leonardo Sakamoto
A acusação de que Guilherme Boulos incita ao crime por mediar uma reintegração de posse e sua detenção são tão bizarras quanto as ações que foram movidas contra o coordenador do MTST por ter afirmado que parte da sociedade iria resistir nas ruas às reformas que reduzem direitos propostas pelo governo Michel Temer.
A Polícia Militar de São Paulo deteve Guilherme Boulos, coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), na manhã desta terça (17). Ele dava apoio a cerca de 700 famílias em uma reintegração de posse na ocupação ''Colonial'', em São Mateus, na Zona Leste de São Paulo.
Boulos tentava mediar, junto com outras pessoas, o diálogo entre os moradores e a Tropa de Choque e foi acusado de incitação à violência e desobediência. ''Cometem a violência de despejar 700 famílias e eu que sou preso por incitação à violência?'', afirmou Boulos a este blog. Um comandante da polícia militar que participava da reintegração afirmou que o caso de incitação à violência era uma reincidência e citou manifestações realizadas com a participação de Boulos perto da casa de Temer.
Levado para o 49o Distrito Policial, em São Mateus, ele foi ouvido pelo delegado e, até a publicação deste post, não havia sido solto. A PM afirmou, em nota, que atendeu a uma solicitação de apoio aos oficiais de Justiça e que moradores resistiram à reintegração de posse com pedras, tijolos e barricadas com fogo. A situação de acalmou e a reintegração seguiu com a retirada de móveis.
Resistência significa utilizar os meios possíveis e ao alcance de cada um para demonstrar sua insatisfação. Isso ocorre com as elites econômica e social brasileiras, que não fazem de rogadas ao usar recursos financeiros para fazer valer sua vontade. Mas quando trabalhadores e movimentos sociais prometem resistência, ocupando ruas, avenidas e outros espaços, a ação vira caso de polícia? Onde o pessoal acha que está? Ou quando gostaria que estivéssemos? No Brasil do final do século 19 ou em plena ditadura civil-militar?
A criminalização da resistência de apenas um dos lados mostra o quanto os atores de nosso sistema político são incapazes de entender o que é, de fato, uma democracia. Chamar de violenta toda forma de resistência com a qual não concordamos é, no mínimo, infantil. Como, por exemplo, mostrar resistência diante de uma injustiça, como aquela que ocorre quando se retira centenas de famílias em um dia de chuva, sem saberem para onde ir, nem como.
PM cumpre reintegração de posse de terreno em São Mateus, na zona leste da capital paulista. Foto: Peter Leone/Futura Press/Estadão Conteúdo
Dessa forma, ao que tudo indica, a detenção de Guilherme Boulos não ocorre por sua atuação na mediação da manhã desta terça, mas por seu papel na resistência social e política brasileira. Sua voz tem sido uma das principais nas críticas ao governo Michel Temer, assim como também era durante o governo Dilma Rousseff. Ou seja, essa é sim uma prisão política.
Por isso, é preciso calá-lo ou reduzir sua credibilidade. Para que a narrativa da criminalização de movimentos sociais seja efetiva na mídia, nas redes sociais, nos espaços políticos. Narrativa que quer inverter os sentidos das palavras e transformar resistência popular em ameaça à democracia e à governabilidade.
Boulos é liderança do principal movimento social de massa deste país em termos de centralidade da pauta, capacidade de mobilização e visão de atuação hoje. Um movimento com uma agenda antiga, mas com uma equipe que sabe se comunicar e influenciar a disputa simbólica da narrativa, pela mídia, pelas redes sociais.
E vem exatamente do posicionamento crítico adotado contra a administração federal anterior o respeito de vários setores da esquerda para com o movimento e com ele. Esse respeito e essa capacidade de mobilização, que conseguem colocar dezenas de milhares de militantes nas ruas quando preciso, assusta muita gente.
Que prefere vê-lo preso do que articulando ou em cima de um caminhão de som.
Essa seria uma forma do poder público de São Paulo, mas não apenas ele, dar um ''recado'' aos movimentos sociais, de acordo com fontes ligadas a ele ouvidas por este blog. Daqui para a caça aberta nas ruas, escolas e empresas é um pulo. Esse tipo de ação é uma amostra do que está acontecendo com parte da esquerda brasileira, com um macarthismo à brasileira se instalando aos poucos, como ação sistemática de limpeza ideológica. Já vimos, aqui e ali, a perseguição a quem usa roupas vermelhas e a agressão em espaços públicos contra quem defende determinado ponto de vista. Até o juramento de Hipócrates foi rasgado por médicos que acham normal não prestar atendimento a alguém que não compartilha da mesma opinião política que eles.
Daqui para a caça aberta nas ruas, escolas e empresas é um pulo.
Apesar de conquistas sociais obtidas na última década, o governo do PT não atendeu às pautas históricas propostas pelos movimentos sociais – o que, como já disse aqui, não seria nenhuma ''revolução'', mas melhoraria a vida de milhões de brasileiros que se mantêm excluídos. Pelo contrário, em nome da ''governabilidade'' fez alianças espúrias, apoiando forças econômicas e políticas que eram contrárias a esses interesses populares, ignorando o suporte oferecido por esses mesmos movimentos para um mandato que significasse uma mudança de paradigma.
E o Brasil sob Michel Temer só piora esse quadro, com o desmonte do simulacro de Estado de bem-estar social que temos por aqui por conta da Constituição Federal de 1988 e por décadas de lutas do sociais.
Todos os movimentos sociais sabem o que é serem considerados criminosos simplesmente por lutarem pelos direitos que lhes são garantidos pela Constituição. Sabem o que é levar cacete por representar o que está em desacordo com a visão hegemônica de ''progresso'' e crescimento econômico, seja no campo ou na cidade. E ainda guardam na memória as cicatrizes deixadas pelo passado, temendo que voltem a ser caçados dependendo do clima político do país.
Você pode não gostar de Guilherme Boulos. Mas, se preza pela liberdade, deveria repudiar a sua criminalização e dos movimentos sociais populares, da mesma forma que deve ser repudiada a criminalização de qualquer liderança social, de direita ou esquerda.
Pois, hoje é com ele. Depois, com uns sindicalistas, operários, padres, jornalistas…
Alguma surpresa com a última operação da Polícia Federal, revelando que Geddel Vieira Lima e Eduardo Cunha, eminências do golpe, cobravam propina para liberar créditos na Caixa Econômica Federal? Nenhuma. E também não se registra qualquer indignação, qualquer panelaço, qualquer ato na Avenida Paulista contra a corrupção oceânica todo dia revelada.
O golpe anestesiou o Ethos da sociedade brasileira - entendido como seu "caráter moral", seu conjunto de crenças e valores - a um ponto tal que até mesmo uma manifestação extrema de barbárie e regressão ao primitivo, o banho de sangue e as degolas nos presídios, não arrancaram um soluço coletivo, um grito de compaixão em forma de protesto contra o inaceitável.
Mas fiquemos na corrupção, pois até há poucos meses ela mobilizava milhares, produzia passeatas em que uma classe média supostamente portadora de maior exigência ética pedia o impeachment da presidente eleita e bradava contra a corrupção. Vestia de presidiários os bonecos de Lula e Dilma, enforcava-os na avenida estimulando o ódio social que anda solto entre nós. Derrubado o PT e entronizado outro governo, tornaram-se cotidianas a revelações de que o poder foi açambarcado por um grupo político essencialmente corrupto, que corre desesperadamente contra o tempo para implementar a agenda socialmente regressiva prometida aos capitais e para realizar os negócios de Estado que ainda podem render um butim. As privatizações, as concessões, as vendas dos nacos da Petrobrás, a contratação de empresas estrangeiras para substituir as brasileiras, o desmonte da rede social, tudo é para ontem.
Geddel não é mais ministro mas era um dos homens fortes do Planalto até há poucas semanas. No entorno do presidente não restam auxiliares importantes inalcançados por uma denúncia, seja da Lava Jato ou de outras investigações. Resta o ministro da Fazenda, mas este vem tendo a biografia carbonizada pelos resultados desastrosos na economia. O próprio presidente tem explicações a dar sobre recursos recebidos de empreiteiras. E no entanto, cadê as panelas? Cadê a Janaína Paschoal e os garotos amestrados pela cada vez mais revelada ação americana no golpe? Estes não irão mesmo admitir que ajudaram a embarcar o Brasil num trem fantasma que corre célere para um buraco negro. Mas os outros, os que estão perdendo empregos, tendo direitos ameaçados, a renda subtraída, a dignidade afrontada, como os aposentados por invalidez convocados a provar que são doentes? Ou os que, mesmo preservando um território social e econômico melhor, historicamente defenderam um país mais justo, mais soberano e menos cruel, capaz de admitir e respeitar “o outro”, apesar das divergências? Onde está a classe média iluminista ou melhor iluminada? Todos anestesiados pela vertigem da derrocada, pela velocidade com que os fatos graves e chocantes se sucedem, “naturalizados” pela ausência de contraditório.
Por isso, tudo bem, tudo natural com a Operação Cui Bono, informando que Geddel integrava uma “verdadeira organização criminosa”. Não fosse o berro do ex-ministro da Cultura Marcelo Calero, aí estaria ele bem faceiro, comandando a maioria reacionária do Congresso. Tudo normal, tudo natural, mas anestesias uma hora passam.
A frente de esquerda não saiu. A unidade das oposições muito menos, pois não há oposição liberal neste momento. Só a de esquerda. Lula anuncia que passará 2017 percorrendo o Brasil e debatendo a tragédia política e econômica. Ela exige, porém, mais que sua liderança e sua identidade com o povo brasileiro. Exige a unidade, a frente que as lideranças de oposição não entenderam ainda como imperiosa, assim como o foi em outros momentos da História do Brasil e da humanidade diante dos arreganhos do atraso.
O “patrimônio inútil” fechou 2016 produzindo 56% de todo o petróleo e gás natural extraídos no Brasil, mesmo sendo ainda uma fronteira exploratória ainda muito pouco desenvolvida.
Foram 1,58 milhão de barris de óleo equivalente, somados líquido e gás, dos 2,82 milhões retirados no país.
Entre dezembro de 2015 e dezembro de 2016, a produção total do pré-sal aumentou nada menos que 45%. Em termos de indústria do petróleo, quando se trata de grandes volumes, isto é gigantesco.
O pré-sal, sozinho, seria hoje o 15° maior produtor de petróleo do mundo. Gera, por dia, US$ 83 milhões em valores brutos, ou US$ 30 bilhões de dólares por ano, isso se não aumentasse em uma gota a quantidade de óleo extraído.
Mas tem capacidade comprovada de dobrar esta quantidade com a entrada em operação dos campos de Libra e de Franco.
Será que é preciso mais para que se veja que a entrega desta riqueza, como está se fazendo, desavergonhadamente, é um crime de traição nacional?
Nascimento: 11 de Janeiro de 1957, em Ponte Nova (MG), Brasil.
Posição: Centroavante
Clubes: Atlético Mineiro-BRA (1973-1985), Palmeiras-BRA (1985), Cruzeiro-BRA (1986), Rio Negro-BRA (1986), Häcken-SUE (1987) e Telstar-HOL (1987-1988).
Principais títulos por clube: 8 Campeonatos Mineiros (1976, 1978, 1979, 1980, 1981, 1982, 1983 e 1985), 1 Torneio Internacional de Paris (1982), 1 Torneio de Bilbao (1982), 1 Torneio de Amsterdã (1984) e 2 Vice-Campeonatos Brasileiro (1977 e 1980) pelo Atlético Mineiro.
Principais títulos individuais e artilharias:
Bola de Prata da Revista Placar: 1977 e 1983
Artilheiro do Campeonato Brasileiro: 1977 (28 gols)
Maior artilheiro da história do Atlético Mineiro: 255 gols em 475 jogos
Maior artilheiro da história do Mineirão: 157 gols
Eleito por unanimidade para o “Time dos Sonhos” do Atlético Mineiro pela revista Placar: 2006
“REInaldo”
Se você perguntar para algum apaixonado por futebol quem foi o rei do futebol, certamente a pessoa irá dizer “Pelé”. Mas, se essa mesma pergunta for feita para algum dos milhões de torcedores atleticanos espalhados pelo Brasil, a resposta será outra, com uma maior entonação na primeira sílaba: “REInaldo!”. Para o atleticano, José Reinaldo de Lima, o Reinaldo, foi o maior rei da história do futebol, o maior artilheiro do Clube Atlético Mineiro em todos os tempos e também o maior craque do alvinegro. Durante uma década, Reinaldo foi mítico dentro do estádio do Mineirão, sua casa, seu Coliseu, onde vestia a armadura pintada em branco e preto e destruía sem dó o adversário que fosse: Fluminense, Corinthians, Flamengo, Palmeiras e, em especial, o Cruzeiro, sua vítima predileta. Seus dribles eram desconcertantes, sua velocidade exuberante e seus gols quase sempre lindos, formosos, capazes de enlouquecer por completo aquela nação atleticana que criou até um refrão para o seu maior ídolo: “Rei, rei, rei, Reinaldo é nosso rei!”. E era mesmo. No entanto, é de se lamentar profundamente a violência pela qual o atacante arisco e talentoso sofreu ao longo da carreira, que dilacerou seus joelhos, o fez jogar baleado uma Copa (em 1978) e abreviar precocemente seus tempos de craque. Outra lamentação foi a oposição ao regime ditatorial que predominava no Brasil naqueles anos 70 e 80, que custaram, segundo o próprio Reinaldo, o título brasileiro de 1977 e a não convocação para a Copa de 1982. Mas ainda sim o craque conseguiu dar glórias e alegrias eternas para a sua massa atleticana, apaixonada até hoje pelos feitos de Reinaldo, o Rei do Mineirão. É hora de relembrar a carreira desse inesquecível artista dos gols.
Garoto abusado
O pequeno Reinaldo nasceu em Ponte Nova, sexto de oito irmãos que se dividiam exatamente em quatro homens e quatro mulheres. Desde pequeno, Reinaldo mostrava uma habilidade fantástica com a bola nos pés e jogava em pequenos clubes de Minas, até mesmo junto aos padres do Colégio Salesiano, de batina e tudo. Em 1971, o garoto foi visto por Barbatana, técnico da equipe juvenil do Atlético Mineiro, que ficou arrebatado com o futebol do garoto. Naquele mesmo ano, o jovem foi levado à Belo Horizonte e passou a integrar as equipes de base do clube. Num dos muitos coletivos entre juvenis e titulares, o garoto deixou todos de boca aberta quando, na maior naturalidade do mundo, entortou simplesmente os zagueiros Vantuir e Grapete, do time atleticano campeão brasileiro de 1971. Telê Santana, técnico da equipe principal, ficou maravilhado e, já em 1973, promoveu o garoto Reinaldo, com apenas 16 anos, à equipe principal do Galo.
As primeiras contusões
Em 1973, Reinaldo disputou suas primeiras partidas entre jogadores profissionais. Como tinha apenas 16 anos, ele sofreu por ter de entrar em divididas com atletas já desenvolvidos fisicamente. Franzino e ainda em formação, o atacante foi presa fácil de maldosos zagueiros, que o lesionaram pela primeira vez no joelho esquerdo naquela temporada. Em 1974, outra lesão o levou à mesa de cirurgia pela primeira vez, quando extraiu um dos meniscos. Aquilo seria uma dura rotina na carreira do craque. Mas, mesmo com dores e a fragilidade dos joelhos, saberia dar a volta por cima com um só objetivo: mostrar para todos que era um craque irresistível.
Instinto predatório
Reinaldo e Dadá: artilharia pesada da história do Galo.
A partir de 1975, Reinaldo começou a fazer história no Atlético. Beneficiado por uma safra de ouro do clube, que duraria até meados dos anos 80, o craque começou a fazer gols em profusão e jogar partidas brilhantes. Seu desempenho já lhe rendeu naquele ano a primeira convocação para a seleção brasileira, para a disputa da Copa América. Em 1976, conquistou seu primeiro título com o Galo no Campeonato Mineiro. O time alvinegro fez uma campanha inesquecível e invicta com 26 vitórias e cinco empates em 31 jogos. Na grande decisão contra o Cruzeiro, Reinaldo marcou gol nas duas partidas (vencidas pelo mesmo placar, 2 a 0) e deu ao Galo o título estadual. Curiosamente, mesmo com tantos gols, Reinaldo nunca seria artilheiro do campeonato mineiro em sua carreira.
Em 1977, Reinaldo viveu um de seus melhores anos. Livre momentaneamente dos problemas no joelho, o craque conduziu o Atlético Mineiro a uma campanha maravilhosa e histórica no Campeonato Brasileiro. Presente em 18 jogos, Reinaldo marcou absurdos 28 gols, com uma insuperável média de 1,55 gol por jogo. O Rei do Mineirão assinou verdadeiras obras primas naquele ano, como num jogo contra o América-RN, quando fez um golaço por cobertura. No entanto, a temporada que tinha tudo para ser histórica para o craque reservou para ele uma imensa sacanagem bur(r)ocrática justo na partida final do torneio, contra o São Paulo. O time atleticano chegou invicto, mas graças ao “genial” regulamento teve apenas a vantagem de fazer a decisão em casa, não podendo nem ao menos empatar para ser campeão. Era preciso vencer. Porém, naquele jogo, Reinaldo não jogou por conta de uma expulsão que sofrera na primeira fase do campeonato e que só foi julgada às vésperas da final, por causa da ausência de Serginho Chulapa pelo lado do São Paulo. Depois de um 0 a 0 no tempo normal, os alvinegros perderam nos pênaltis para o São Paulo e ficaram com o vice-campeonato invicto. O próprio Reinaldo classificou aquilo como o momento mais triste de sua carreira:
“Em 77, a ditadura era explícita. Fui expulso na primeira fase do campeonato, mas guardaram o julgamento. Como o Chulapa tinha sido expulso na semifinal, resolveram me julgar. Uma força de interesses superior. Eu era o artilheiro do campeonato, fiz gol em todos os jogos, minha melhor fase. Já tinha trocado de roupa no vestiário quando veio a ordem [para não jogar]. Esse foi o dia mais triste de Belo Horizonte: 5 de março de 1978 [data da decisão do Brasileiro de 77]”.Reinaldo, em entrevista ao site da Placar – Setembro de 2012.
O vice-campeonato foi dolorido e deixou mágoas profundas no atacante, que começava a despertar a ira do regime militar da época por sua postura contrária ao governo e pelas comemorações de gols sempre com o punho direito cerrado e levantado, num claro sinal de protesto. Ainda em 1977, Reinaldo marcou pela seleção brasileira um dos gols mais bonitos de sua carreira, num amistoso contra a Polônia, no Morumbi, quando deu um chapéu no zagueiro e chutou para fazer um dos gols da vitória por 3 a 1. Uma obra prima inesquecível.
A primeira Copa e a nova lesão
Talentoso e com um repertório cada vez maior de jogadas, Reinaldo era a grande esperança do Brasil para a Copa de 1978, na Argentina. Mas, em terras portenhas, o craque não esteve em sua melhor forma e jogou baleado. Mesmo com toda uma parafernália especial para treinos, musculação e fisioterapia, o atacante marcou apenas um gol, na estreia contra a Suécia, e jogou no sacrifício outras duas partidas. O Brasil não levou o título, ficando na terceira colocação. Depois do mundial, foi constatada uma lesão grave no joelho do craque, que teve de ser submetido a mais uma cirurgia, dessa vez mais complexa e feita nos EUA, pelo especialista James Nicholas, um dos maiores cirurgiões e especialistas em Ortopedia da época, célebre por tratar de celebridades como Muhammad Ali, John Kennedy, Frank Sinatra e Peter Frampton. Reinaldo ficou um ano sem jogar, passou por infiltrações e difíceis sessões de fisioterapia até conseguir voltar à forma física. Seu retorno aconteceu num amistoso contra o Santos, no Mineirão, quando as luzes do estádio inteiro foram apagadas e a torcida alvinegra acendeu isqueiros para homenagear a volta do Rei. Porém, a velocidade em campo de Reinaldo começaria a ficar comprometida por causa das articulações dos joelhos e pelas extrações de todos os seus meniscos. Mas nada que sua genialidade não desse um jeito de resolver…
Em 1978, pouco depois da cirurgia, Reinaldo recebeu a visita de outro rei: Pelé.
O crime de José de Assis Aragão
Reinaldo e Cerezo: dupla inesquecível dos anos 70 e 80 no Galo.
No começo dos anos 80, Reinaldo e seu Atlético estavam tinindo. Sem rivais em Minas Gerais, o esquadrão alvinegro, composto por estrelas como João Leite, Luisinho, Cerezo, Palhinha, Pedrinho, Éder e Reinaldo jogava por música, pra frente, na mais pura arte. Aquele time era um dos maiores esquadrões já formados pelo clube em todos os tempos, que arriscava até mesmo um 4-2-4 em muitas partidas. Entre 1978 e 1983 o clube foi hexacampeão mineiro, recorde absoluto da Era Mineirão. Cerezo e Éder deixavam constantemente Reinaldo na cara do gol, um trio de ouro e imortal do clube mineiro. Mas aquela equipe precisava de um título grande, nacional, para consagrar de vez aqueles craques. E o foco se voltou para o Campeonato Brasileiro de 1980.
O alvinegro foi despachando seus rivais nas fases iniciais, sempre marcando muitos gols e sofrendo pouco. Na semifinal, um show contra o Internacional, então campeão nacional de 1979, que levou de 3 a 0 em pleno Beira Rio. Parecia barbada: o Galo seria o campeão brasileiro. Seria, não fosse pelo fato de enfrentar um rival duplo na decisão: o Flamengo de Zico e o árbitro José de Assis de Aragão. Na primeira partida, no Mineirão, o Atlético venceu por 1 a 0, gol do Rei, claro. No segundo jogo, o craque atleticano disputou aquela que foi a partida mais emocionante de sua carreira, segundo o próprio. O Flamengo jogava no Maracanã e tinha mais de 154 mil torcedores ao seu lado. O esquadrão rubro-negro contava com craques do naipe de Raul, Marinho, Júnior, Andrade, Carpegiani, Zico, Tita e Nunes, com Cláudio Coutinho no banco. Era um timaço. Mas o Atlético não ficava atrás e contava com João Leite, Osmar, Luisinho, Cerezo, Palhinha, Pedrinho, Éder, e o Rei, com Procópio Cardoso no banco. Seria uma final de arrepiar. E foi mesmo.
O Flamengo abriu o placar com Nunes aos sete minutos. Um minuto depois, Reinaldo se livrou de três marcadores e empatou num golaço, calando o Maracanã. No final do primeiro tempo, Zico deixou o Flamengo em vantagem novamente. No decorrer do jogo, Reinaldo sentiu uma distensão e foi provocado pela torcida carioca, que gritava “bichado, bichado”. O atacante, porém, encontrou forças para superar aquela dor e empatou o jogo no segundo tempo. Maracanã em silêncio novamente. Era o placar necessário para o bicampeonato atleticano. Mas o árbitro daquele jogo, José de Assis de Aragão, expulsou Reinaldo de maneira injusta, além de outros dois jogadores do Galo, que ficou com apenas oito homens em campo e completamente sem chances de segurar o resultado. Aos 37´, Nunes fez o terceiro do Flamengo, e o Galo foi outra vez vice-campeão. Naquele Brasileiro, Reinaldo foi o artilheiro do Atlético com 11 gols marcados e ficou com o gosto amargo de mais um título nacional que acabara de escapar.
Glórias internacionais e ausência em 1982
Depois do vice de 1980, o Atlético seguiu com sua hegemonia em Minas e foi brilhar fora do Brasil, quando disputou, entre outras competições, o Torneio de Paris de 1982, vencido diante do Dinamo Zagreb-CRO com um gol de Reinaldo, e o Torneio de Amsterdã de 1984, quando o Galo derrotou o Feyenoord-HOL por 3 a 2 (um gol de Reinaldo) e o Ajax-HOL, nos pênaltis, após empate em 2 a 2 no tempo normal. Embora tenha conquistado esses importantes títulos na época, Reinaldo viveu outra decepção pela seleção. Em meados de 1982, às vésperas da Copa do Mundo da Espanha, o craque poderia ter sido o camisa 9 do Brasil no lugar de Careca, que se contundiu, mas uma série de fatores o tiraram do mundial. O primeiro deles foi Telê Santana, que tinha posições reacionárias a determinados estilos de vida de jogadores, sendo que o de Reinaldo não agradava ao técnico. Outro foi a influência política, pois os militares há anos eram contrários a presença do craque no time nacional. E por último, os sempre doloridos joelhos, que desde 1978 davam mais dores ao craque do que prazer em campo, como Reinaldo afirmou:
“O futebol só me deu prazer até a Copa de 78. Depois disso, foi muita dor. De tanto remédio, o músculo ficou calcificado. Essa é a herança que o futebol me deixou”.Reinaldo, ao site da Placar – setembro de 2012.
Reinaldo ainda jogaria pela seleção até 1985, ano de suas últimas convocações. O craque disputou 37 partidas pelo Brasil e marcou 11 gols.
Últimos anos e o fim
Em 1985, Reinaldo deixou o Atlético depois de 475 jogos e 255 gols marcados, recorde que permanece até hoje. O atacante jogou pelo Palmeiras, Rio Negro, Cruzeiro, Häcken e Telstar, este seu último clube na carreira, quando se aposentou, em 1988, com apenas 31 anos, sem condições de continuar pelos joelhos baleados. Depois de largar o futebol, Reinaldo se arriscou na política, foi deputado, vereador e criou o Belo Horizonte Futebol e Cultura, com o intuito de oferecer iniciação esportiva e cultural aos jovens. Na segunda metade da década de 90, o craque teve um obscuro caso com drogas, mas deu a volta por cima e se reergueu.
A trajetória de Reinaldo no futebol poderia ter sido melhor não fosse seu início tão precoce, as lesões e a ditadura. Mesmo assim, o craque ficou marcado para sempre como um dos mais talentosos atacantes da história do futebol brasileiro, ágil, habilidoso, oportunista, com um faro de gol único e extremamente técnico. Reinaldo foi Rei durante uma década no Mineirão e é até hoje para uma nação apaixonada que diz apenas um nome quando questionada sobre qual foi o maior ídolo do centenário Clube Atlético Mineiro: REInaldo, um craque imortal.
Números de destaque:
Maior artilheiro da história do Atlético Mineiro: 255 gols
Maior Artilheiro da história do estádio do Mineirão: 157 gols
Maior artilheiro da história do clássicoAtlético Mineiro x Cruzeiro: 16 gols
Artilheiro com a maior média de gols em um único Campeonato Brasileiro: 28 gols em 18 partidas – 1,55 gol por jogo.
Extras:
Obra prima – 1
Veja o golaço de Reinaldo com a camisa da seleção brasileira em 1977, contra a Polônia.