segunda-feira, 10 de outubro de 2016

PEC 241 é condenação de morte para milhares de brasileiros, afirma Temporão



Carta Capital

Subfinanciado desde a sua criação, o Sistema Único de Saúde já tinha a sua sustentabilidade ameaçada pelas transformações que o País passa: um acelerado envelhecimento da população, acompanhado do aumento da prevalência de doenças crônicas, a demandar tratamentos prolongados e dispendiosos. A PEC 241, que congela os gastos públicos por 20 anos, apenas agrava o problema, com a perspectiva de perda real de recursos, avalia o médico José Gomes Temporão, ex-ministro da Saúde do governo Lula.
Aprovada por uma comissão especial da Câmara, a proposta deve ir a votação no plenário nesta semana. Para diminuir resistências parlamentares à aprovação, o relator Darcísio Perondi (PMDB-RS) combinou com o governo uma mudança no projeto. O congelamento dos recursos de saúde e educação começaria não em 2017, como previa a proposta original do governo, mas em 2018. Além disso, o novo relatório estabelece que a base de cálculo do piso da saúde em 2017 será de 15% da receita líquida, e não de 13,7%, como previsto inicialmente. 
Mesmo com o alívio no primeiro ano, é prevista uma perda acumulada de centenas de bilhões de reais ao longo dos 20 anos de vigência. “Essa decisão do Congresso é uma condenação de morte para milhares de brasileiros que terão a saúde impactada por essa medida irresponsável”, diz Temporão, em entrevista a CartaCapital. “Estamos falando de fechamento de leitos hospitalares, de encerramento de serviços de saúde, de demissões de profissionais, de redução do acesso, de aumento da demora no atendimento.”
Para o ex-ministro, o País renuncia ao seu futuro ao sacrificar a saúde e a educação no ajuste fiscal. “Se existe um problema macroeconômico a ser enfrentado, do ponto de vista dos gastos públicos, há outros caminhos. Mas este governo não parece disposto a enfrentar a questão da reforma tributária”, afirma. “Temos uma estrutura tributária regressiva no Brasil, que penaliza os trabalhadores assalariados e a classe média, enquanto os ricos permanecem com os seus privilégios intocados”.
CartaCapital: O que representa a PEC 241 para a saúde pública?José Gomes Temporão: Todos nós, especialistas em saúde pública que militam pela reforma sanitária há décadas, estamos estarrecidos com essa proposta. De um lado, ela denota a ignorância do governo sobre a dinâmica do setor de saúde. Bastaria fazer uma consulta ao portalSaúde Amanhã, da Fiocruz, que abriga uma série de estudos prospectivos dos impactos das transformações econômicas, políticas e sociais no campo da saúde para as próximas décadas, para que a PEC 241 fosse repensada.  
Estamos vivendo um período de aceleradas transformações no Brasil do ponto de vista demográfico, epidemiológico, tecnológico e organizacional. Essas mudanças vão pressionar substancialmente o Sistema Único de Saúde, ameaçando, inclusive, a sua sustentabilidade econômica.
CC: Um desses fatores de pressão é o envelhecimento da população brasileira, pois os idosos demandam maior atenção médica.JGT: Sim, esse é um dos aspectos: a transição demográfica. O Brasil está passando por um processo de envelhecimento populacional muito rápido, praticamente na metade do tempo que a França levou para concluir essa mesma transição. Também há uma mudança no padrão das enfermidades.
As doenças infectocontagiosas estão perdendo espaço relativo, enquanto avançam as doenças crônicas, que representam um custo mais alto, não apenas no diagnóstico, mas em virtude do tratamento prolongado, que pode se estender por toda a vida. A Organização Mundial da Saúde projeta que, em 2030, as principais causas de mortalidade no mundo não serão mais as doenças cardiovasculares ou cerebrovasculares, e sim o câncer, que tem um custo de tratamento altíssimo.
CC: Ou seja, os gastos com saúde só tendem a aumentar.JGT: Na verdade, acho equivocado tratar saúde como gasto. Do conjunto de políticas sociais, ela tem uma dinâmica própria que pode, inclusive, fazer parte da solução macroeconômica para sair da crise. Ao contrário de outras áreas, nas quais a tecnologia costuma substituir o trabalho humano, na saúde ocorre justamente o contrário. Quanto mais tecnologia você incorpora, maior será a demanda de mão-de-obra qualificada.
Envelhecimento
'O Brasil está passando por um processo de envelhecimento populacional muito rápido' (Emerson Bressan/SMCS)
Gostaria, porém, de destacar uma profunda injustiça do ponto de vista político: os que estão patrocinando a PEC 241, esse crime contra a saúde pública, estarão protegidos por seus planos e seguros-saúde, inclusive subsidiados pelos contribuintes. Os funcionários públicos dos três poderes têm planos financiados, em parte, pelos impostos pagos por todos os brasileiros. Os legisladores fazem parte dos 20% da população que dispõem de planos de saúde, mas essa decisão afetará profundamente os 80% que só podem contar com o sistema público.

CC: O governo argumenta que não está retirando dinheiro da saúde.JGT: Isso é retórica. Eles também dizem que, para 2017, colocaram recursos a mais. No entanto, a partir de 2018 a saúde estará submetida à mesma regra, de ter o orçamento reajustado pela inflação acumulada no ano anterior. Ora, isso é desconhecer completamente que a inflação e a dinâmica da saúde seguem uma trajetória absolutamente distinta. Todos sabem disso, há toneladas de estudos que comprovam esse descompasso. Uma medida como essa, que vigorará por 20 anos, levará a um profundo desfinanciamento da saúde, que a partir do terceiro ou quarto ano terá uma perda real de recursos, enquanto a demanda só aumenta.
Se existe um problema macroeconômico a ser enfrentado, do ponto de vista dos gastos públicos, há outros caminhos. Mas este governo não parece disposto a enfrentar a questão da reforma tributária. Por que não taxar melhor os 71 mil brasileiros mais ricos? Eles ganharam, em média, 4,1 milhões de reais no ano de 2013 e estão submetidos a uma carga tributária efetiva inferior a 7% (Confira um artigo a respeito, publicado pelo Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo, vinculado ao Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).
Temos uma estrutura tributária regressiva no Brasil, que penaliza os trabalhadores assalariados e a classe média, enquanto os ricos permanecem com os seus privilégios intocados. Deveriam ficar de fora do ajuste fiscal as áreas de saúde, educação, ciência e tecnologia, pois delas dependem o futuro do País, o nosso projeto de desenvolvimento.
CC: Mas quem vai enfrentar os patos da Fiesp? Aquilo parecia ser um recado claro de que os ricos não estão dispostos a pagar mais impostos.JGT: É verdade. Existe uma casta de brasileiros que detém uma fatia muito grande da renda nacional e pagam, proporcionalmente, muito pouco. O Brasil é um dos raros países do mundo que isentam empresários de pagar impostos sobre lucros e dividendos (dos 34 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, apenas México, Eslováquia e Estônia seguem essa tendência). Ou seja, a empresa paga o seu imposto, mas a pessoa física, quando declara essa renda, não é tributada.
Poderíamos fazer uma profunda discussão sobre essas disparidades, mas isso não entra na agenda política, até porque esse governo expressa justamente os interesses dessa casta de privilegiados.
CC: A bem da verdade, nenhum governo enfrentou com seriedade a questão da regressividade da estrutura tributária no Brasil...JGT: Sim. Infelizmente, isso permaneceu intocado mesmo nos governos petistas, de Lula e Dilma Rousseff. Até hoje estamos nessa encruzilhada, com a necessidade de uma reforma política, de uma reforma tributária, com a saúde e a educação como grandes desafios.
CC: Qual é a estimativa de perda de recursos para a saúde pública?JGT: O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada fez uma projeção, antes dessa última mexida no texto da PEC 241, que demonstra um impacto brutal, de centenas de bilhões de reais (em um cenário de crescimento do PIB de 2% ao ano, a perda acumulada em 20 anos seria de 654 bilhões de reais, segundo uma nota técnica divulgada pelo Ipea no fim de setembro. De acordo com umaprojeção feita por uma Consultoria da Câmara, somente no ano de 2025, a perda seria de 63 bilhões de reais – no acumulado de dez anos, chega a 331 bilhões).
SUS
'Desde que nasceu, no final dos anos 1980, o SUS está subfinanciado', diz o ex-ministro (Foto: Fernando Frazão/ABr)
Na verdade, não se trata de números. Estamos falando de mortes. Essa decisão do Congresso é uma condenação de morte para milhares de brasileiros que terão a saúde impactada por essa medida irresponsável. Estamos falando de fechamento de leitos hospitalares, de encerramento de serviços de saúde, de demissões de profissionais, de redução do acesso, de aumento da demora no atendimento.

CC: E os dados da OMS revelam que investimento público em saúde no Brasil é inferior à média mundial, quando se analisa o gasto per capita.JGT: É verdade, e a estrutura de gastos do setor é absolutamente distorcida. Apenas 48% das despesas totais com saúde no Brasil são públicas, o restante, 52%, são gastos privados, das famílias e das empresas. Os mais pobres também investem recursos próprios, toda vez que precisam comprar um medicamento ou ter acesso a algum serviço que não encontram na rede pública. No Brasil, o governo gasta pouco e o ônus do financiamento recai sobre as famílias.
A PEC 241 só agrava essa situação. Para ter um parâmetro de comparação, na Inglaterra, que também tem um sistema de saúde universal, 85% do gasto total é público. Essa é a grande diferença. Desde que nasceu, no final dos anos 1980, o SUS está subfinanciado. E, agora, corre o risco de passar por um processo de desfinanciamento, de retirada de recursos.
CC: O cardiologista e ex-ministro da Saúde Adib Jatene, falecido em 2014, costumava fazer comparações com a situação anterior ao SUS, quando apenas os trabalhadores formais, com carteira assinada, tinham acesso aos hospitais mantidos pelo extinto Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (Inamps). Os demais dependiam da filantropia. O SUS incluiu milhões de brasileiros, mas jamais teve os recursos necessários para contemplar o aumento da demanda.JGT: O que está se defendendo aqui? Que não retornemos à situação pré-SUS, quando havia três categorias de brasileiros: os ricos e muito ricos, que pagavam diretamente pela atenção à sua saúde, a massa de trabalhadores formalmente inserida no mercado de trabalho, que eram garantidos pelo Inamps (e agora beneficiam-se de planos de saúde das empresas), e os demais, que dependiam da caridade.
A PEC 241 ameaça uma cláusula pétrea da Constituição de 1988, que é o direito à saúde. E a responsabilidade intransferível do que vier a acontecer é deste governo e dos congressistas que aprovarem este disparate.

sábado, 8 de outubro de 2016

Resiste Izidora: a maior ocupação urbana da América Latina

Cidade que queremos BH
Do facebook

A Izidora, conjunto das ocupações-comunidades Esperança, Rosa Leão e Vitória, resiste desde junho de 2013, período concomitante às mobilizações populares que tomaram todo o país. Trata-se da maior ocupação urbana da América Latina, reunindo 8 mil famílias e 30 mil pessoas. A região abriga ainda o último cinturão verde da região. 

As 5 mil casas de alvenaria presentes ali foram erguidas pelo próprio povo e organizadas de modo superior ao trabalho de inúmeros gestores públicos. O terreno é dividido em lotes modestos, que acomodam as residências e pequenos quintais, nos quais os moradores cultivam hortas e criam animais – configurando-se também como espaços de trabalho e comércio para a população.

No último dia 28, as dezenas de milhares de ocupantes da comunidade assistiram à 6ª Vara da Fazenda de Belo Horizonte derrubar o mandado de segurança que inibia despejos na Izidora pela PM do governo de Minas e, entre outros pontos, versava sobre a sua (in)capacidade de realiza-los sem colocar em risco a segurança das famílias. Desse modo, ações truculentas da polícia voltam a ser uma ameaça iminente.

Em contrapartida, o Estado não se mostra disposto a oferecer alternativas a toda essa gente. A PBH vem afirmando que, no local, serão construídas 13 mil unidades habitacionais do Minha Casa Minha Vida. No entanto, não explica como isso será feito, tendo em vista os cortes no programa realizados pelo governo ilegítimo de Michel Temer. Além disso, a proposta arquitetônica e urbanística apresentada pelo Estado não leva em consideração os modos de vida do povo dali, uma vez que prevê o empreendimento em blocos de apartamentos.

Não obstante, o caso Izidora é considerado, pela Comissão Especial de Moradia da ONU, como um dos sete mais graves conflitos humanitários do mundo. Será apresentado pela advogada popular Thais Lopes na Conferência das Nações Unidas Habitat III, que acontecerá em Quito, no Equador, dia 17 de outubro de 2016. Sua apreciação se dará na quinta sessão do Tribunal Internacional de Despejo, parte das “Jornadas Mundiais Despejos Zero” e do “Fórum Social Urbano Mundial Alternativo”. Mais informações aqui: http://migre.me/vaLCb 

As Muitas estão juntas com a Izidora nesta luta, pois entendem que o direito à moradia é primordial à sobrevivência da população. Os imóveis desocupados, como rege a Constituição, devem cumprir a sua função social! Só assim poderemos construir uma Belo Horizonte em que caibam todas e todos.


#ResisteIzidora






sexta-feira, 7 de outubro de 2016

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Teori e "os espetáculos. E o "guarda da esquina"

Por Bob Fernandes

Notícias desta quarta-feira, 5: Polícia Federal indicia Lula por contratos do sobrinho em Angola. Odebrecht citada como envolvida. 

Polícia Federal vai investigar corrupção na compra de usinas termoelétricas no governo Fernando Henrique. 

Em depoimento de tempos, que não foi além da internet, Cerveró, ex-diretor da Petrobras, disse:

-A Brasken, da Odebrecht, é um escândalo do governo Fernando Henrique, não foi o Lula que inventou, e não sei por que não investigam...

Notícia de Bela Megale, na Folha, sobre fato real: "Polícia Federal se opõe a novas delações premiadas na Lava Jato".

Querem mesmo igualdade real, e não ficção, na investigação da corrupção multipartidária? Querem mesmo ir além de vazamentos de ocasião? É simples.

Deixem OAS e Odebrecht revelar, legalmente, o que sabem sobre suas relações com presidentes, governadores, prefeitos, legislativos...

O DNA disso, óbvio, já está nos computadores, planilhas e dados apreendidos junto às empreiteiras, há anos. 

A propósito: o ministro Teori Zavascki atacou o mais recente espetáculo encenado. Aquele do procurador Dallagnol e demais à frente do PowerPoint.

Teori, registre-se, manteve em Curitiba os processos contra Lula. 

Mas disse que, ao contrário do fartamente anunciado por procuradores, "não existe" investigação contra Lula por "liderar organização criminosa". Disse mais:

-Essa espetacularização não é compatível nem com o objeto da denúncia nem com a seriedade que se exige...

E dai? Dai nada. Porque o estrago já foi feito. Por duas horas ao vivo, e nas infindáveis reprises e manchetes Brasil e mundo afora. E aquilo na reta final das eleições. 

Eleições num ambiente que cobrou  a presença de 25 integrantes das Forças Armadas em mais de 400 cidades. 

Num ano de rastros de ódio em que foram assassinados 98 candidatos, secretários ou militantes políticos. 

Há dias, ao manter arquivamento de processo disciplinar contra o juiz Moro, juízes defenderam: "Problemas inéditos exigem soluções inéditas". 

Em dezembro de 1968 a ditadura decretou o AI-5, um conjunto de poderes excepcionais. Uma "solução inédita" para "problemas inéditos".

Cobrado sobre sua discordância com o AI-5, o vice-presidente Pedro Aleixo, um civil, valeu-se de metáfora ao alertar para os (d)efeitos inevitáveis:


-O problema é o guarda da esquina.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Trajano: “O macartismo está no ar”

Do blog do Miro:

Por Kiko Nogueira, no blog Diário do Centro do Mundo:

O jornalista José Trajano foi demitido da ESPN depois de 21 anos de casa na semana passada.

Um dos comentaristas esportivos mais conhecidos do país, âncora do “Linha de Passe”, ele tem como marca registrada adjacente a militância política.

Brizolista, Trajano se manifestou em diversas ocasiões contra a escalada da direita, especialmente depois do golpe.

Gravou vídeos chamando para manifestações, falando o que precisava ser dito, e chegou a discursar num caminhão no Largo da Batata, em São Paulo.

Sua dispensa aconteceu após uma participação num ato de apoio a Fernando Haddad na Casa de Portugal. A direção do canal alega que foi por contenção de custos, mas você precisa ser um inocente para não juntar os pontinhos.

“O macartismo está no ar”, disse ele ao DCM do Rio de Janeiro, onde está descansando (ele é um orgulhos filho da Tijuca). Seu depoimento:

*****

Eles dizem que não foi retaliação política, mas não é possível que não tenha sido isso também. Falaram em contenção de despesas.

Quando deixei a direção da ESPN, cinco anos atrás, eu ganhava pela CLT e um plus como comentarista. Fizeram um novo contrato, que incluía a função de “consultor”. Passei a receber por participação nas atrações.

Toda semana, dois programas. Se fosse para fazer economia, podia fazer só o da segunda. No início, ganhava 3 500 reais por participação, mais 4 500 reais no Linha de Passe [onde era titular].

Nos últimos anos, me chamaram umas três vezes por causa de coisas como vídeos que gravei conclamando as pessoas a ir a manifestações. O diretor, German Von Hartenstein, me falava que “isso é chato para nós etc”.

Antes da Olimpíada, me deram um papel para assinar, segundo o qual que os “talents” da ESPN não devem se envolver em questões políticas etc. Diretrizes da matriz nos EUA.

Eles me diziam, nesses encontros, que eu era a cara da ESPN etc. Bom, então mandaram embora a cara da ESPN. Não assinei o documento. Nem sei mais onde está.

Acabou a Olimpíada e eu fui pra Portugal. Eu podia tirar férias, de acordo com o contrato. Voltei numa segunda feira e já fui fazer o programa. Estava de jet lag.

Me chamaram na quinta. Esse período é complicado na empresa. O ano fiscal é o americano, que vai até 31 de setembro. Por isso tem muita demissão nessa época.

O German começou de maneira amistosa. “Viu a lanchonete nova?”, perguntou. Depois de um tempo, soltou: “Tenho uma notícia ruim pra você. Estamos em contenção de despesas e temos de dispensar você. Nossa advogada já está ali e nós vamos pagar a multa”.

Basicamente, foi assim.

Me impressionou muito a solidariedade. No Facebook, pelo WhatsApp, na imprensa… Não sei o que vou fazer, mas agora não tem mais ninguém pra me encher o saco.

Depois de 21 anos no mesmo lugar, eu fui pego de surpresa. A relação com a ESPN era diferente da que eu tinha em outros lugares porque que sou criador do canal. É forte.

Fica claro que eles não gostavam do que eu fazia. Incomodava, inclusive, a direção nos Estados Unidos. Soube disso internamente. Mandaram um vídeo meu para lá.

A briga com o Gentili também foi decisiva [Trajano criticou a presença do ex-comediante no “Bate-Bola Debate’’, referindo-se a ele como “um personagem engraçadinho que se posta como se fosse um sujeito que faz apologia do estupro, em nome do humor”].

A direção tomou como uma coisa desagradável. Minha saída foi a soma disso tudo. Eu era monitorado. Numa dessas reuniões com o German, ele comentou o discurso que fiz no caminhão durante um protesto no Largo da Batata.

“Você falou da união das esquerdas”, ele me disse. Foi mais um pontinho na minha ficha. Dois dias antes da minha demissão, fui à Casa de Portugal num ato em solidariedade a Haddad. Tinha foto minha do lado do Lula. Na manhã seguinte marcaram a conversa com o German.

O episódio do Sidney Rezende não tem a ver com o meu, mas são perseguições diferentes [Sidney foi dispensado da GloboNews em novembro de 2015 após chamar a atenção para a “demonização” do governo Dilma].

Cada caso é um caso, mas todos têm ligação entre si. Eu não me arrependo. Lembro do Niemeyer num Roda Viva, quando ele fez 80 anos. Numa certa altura, ele falou: “No Brasil, só o paredón pode resolver”. Quando cobraram dele essa declaração, ele devolveu que já tinha 80 e podia falar o que quisessem porque iam chamá-lo de gagá.

Eu faço 70 esse mês. A ESPN me deu esse presente. O Juca citou o Darcy Ribeiro, meu mestre, num artigo. O Darcy se orgulhava de suas derrotas.

O macartismo está no ar, em situações diferentes. 

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Considerações sobre os resultados das eleições municipais

Em nove capitais, o número de votos brancos, nulos e de eleitores que não compareceram foi maior do que do candidato que ficou em primeiro lugar. A situação aconteceu nos dois maiores colégios eleitorais do país. Em São Paulo, João Dória (PSDB) ganhou a eleição no 1º turno com 3.085.187 votos. O número é menor do que a soma de votos brancos e nulos e ausências: 3.096.304.

No Rio de Janeiro, a situação também se repetiu. Mesmo que fossem somados os votos dos dois candidatos que passaram para o 2º Turno, o número ainda é menor do que votos inválidos e ausências. O total de brancos, nulos e abstenções no Rio é 1.866.621. Marcelo Crivella (842.201) e Marcelo Freixo (553.424) somam 1.395.625 votos.

Além de São Paulo e Rio de Janeiro, Belo Horizonte (MG), Porto Alegre (RS), Curitiba (PR), Belém (PA), Cuiabá (MT), Campo Grande (MS) e Aracaju (SE) também tiveram mais votos inválidos do que o primeiro colocado nas eleições. 

Abstenções, brancos e nulos superam votos de João Leite e Kalil juntos.

Considerações de Robson Sávio Reis Souza (Prof. PUC Minas) do seu facebook:

Que terrível! Vejam como o discurso da criminalização da política é bom para os "interessados na política":
1º turno em BH:
Abstenções -   417.537
João Leite -     395.952 (PSDB)
Nulos/Branco - 324.378
Kalil -              314.845 (PHS )

O discurso da criminalização da política venceu. Mas, o Apolo Heringer-Lisboa tem razão. Há um outro recado, presente desde as manifestações de 2013: esse tipo de política e de políticos já não nos representam mais. E, os partidos, inclusive de esquerda, não se reciclaram e mantiveram a velha política. Soma-se, ainda, o fator impeachment, ou seja, se os poderosos e a justiça não respeitam as deliberações populares, pra que votar? Acho que essas três variáveis sinalizam a decadência completa do nosso sistema político. Urge uma profunda reforma desse sistema. Mas, com os políticos e partidos que temos, isso é totalmente improvável. O que sobra, então? Uma mudança através das bases populares. Pergunta: será que há consciência política para acionar essa empreitada? No momento, acho que não. Tempos muito difíceis.

Considerações de Apolo Heringer- Lisboa(Prof. Medicina UFMG)
Precisamos também Robson apreciar devidamente novos fenômenos pois do velho nasce o novo. Isto não quer dizer que basta ser novo, já que  o novo pode nascer envelhecido e não passar de novidade. Vamos ter que ter a coragem intelectual de enfrentar as novidades  também não somente o velho.


Ivan Batista Coelho, do seu facebook:

Primeiro turno das eleições em Belo Horizonte
Foi trágco. O número de pessoas que não optaram por candidatos (43% de abstenções, nulos e brancos) supera a soma dos votos dos candidatos que vão ao segundo turno. A indiferença venceu. É a decepção com a política e com a esquerda, o PT em especial... As escolhas de candidaturas que privilegiam o fortalecimento de grupos internos do partido ao invés das melhores alternativas resultaram nesse quadro que estamos vivendo. Pouco mais de 7% dos votos, quarto lugar na preferência de um eleitorado que já foi firmemente aderido a propostas progressistas.




Aldo Fanaziere ( Prof. de Filosofia Política):

As eleições municipais reduziram o PT a pouco mais que escombros. Não faltaram advertências, principalmente a partir de 2013, de que o partido se encaminhava para um desastre...

O poder fez muito mal ao PT: a estrutura partidária e dirigentes se corromperam, a militância se domesticou e os movimentos sociais que orbitavam em torno do PT começaram a orbitar em torno do Estado, sendo cooptados e perdendo a energia combativa na luta por direitos e justiça. O PT se transformou no partido dos palácios, dos gabinetes, do luxo e da arrogância. Ninguém promove tal movimento sem que desabe sobre ele, mais dia menos dia, o merecido castigo do povo.

O PT alimentou a mesma crença que as elites históricas conservadoras alimentaram desde os tempos coloniais no Brasil: a de que a sociedade pode ser moldada e transformada desde o alto, desde o Estado. Esta prática sempre engendrou dominação e não liberdade e cidadania. Enquanto esta crença permanecer vigente, o Brasil permanecerá eternamente deficiente em seu conteúdo nacional e popular e a sociedade carecerá de vínculos societários republicanos, orientados para o bem comum e para o interesse público. Aqueles que chegam ao poder sempre se tornarão representantes de grupos e interesses particularistas, a se apossar do erário público em detrimento dos interesses de caráter universalizante. Será sempre o velho patrimonialismo

Raimundo Bonfim, coordenador da Central de Movimentos Populares e também da Frente Brasil Popular :

Segundo o dirigente não se pode ocultar o fato de que o resultado das eleições municipais deste domingo (2) é também “uma continuidade do roteiro traçado pela direita: golpe midiático, jurídico empresarial e também eleitoral”. Para Raimundo, o desgaste da esquerda e do PT vinha sendo preparado, em relação ao país inteiro.
Mas é fato que a esquerda precisa avaliar os erros que cometeu no processo. “Afastar-se das bases, dos movimentos sociais, não ter feito as reformas necessárias, como a política, foram alguns”, afirma Raimundo.



sábado, 1 de outubro de 2016

Por uma cidade em que todos existam, por Lucas Simões

"Ter casa é o único jeito de começar a existir. Só começar...Quem tem casa, começa a existir. Só começa. Hoje Belo Horizonte tem 148 mil famílias sem casa, gente com fome de comida e de instinto de existência..
A capital da tradicional família mineira vive a maior opressão latifundiária urbana de Minas Gerais. E uma das maiores da América Latina.
Na região da Izidora, o único e maior cinturão-verde restante da cidade, as 30 mil pessoas que ocuparam um terreno abandonado há anos para começar a existir, foram oficialmente informadas que não poderão mais existir..."

Por Lucas Simões
O Tempo
Por uma cidade em que todos existam



O Índio, maluco de BR que conheci na praça 7 em uma noite hostil de Belo Horizonte, dizia que na rua até dá para sobreviver, nem que seja de navalha na mão e sorte no bolso, mas não dá para existir. Ele justificava isso por volta das duas da madrugada, quando armava seus papelões grandes em formato de chalé suíço, simulando um “barracão de um quarto com quintal na calçada suja”, como ele mesmo dizia.

“Ter casa é o único jeito de começar a existir. Só começar”. Era a frase certeira que ele usava quando conseguia simular uma moradia com o papelão – em dias de sorte, claro.

Quem tem casa, começa a existir. Só começa. Por que como arrematou a Eliane Brum na melhor definição da necessidade básica de qualquer pessoa: “Casa é onde não tem fome. Se tem fome, é só o teto”. Ou seja: casa pode ser o começo do fim da fome. Só o começo, veja bem. Mas e quando a gente é impedido até de começar a existir?

Hoje, Belo Horizonte, essa roça bonita que muita gente insiste em transformar em megalópole espelhada no modelo paulistano ou carioca, tem 148 mil famílias sem casa, gente com fome de comida e de instinto de existência. Em uma previsão estarrecedora da Cidade Que Queremos, o movimento ativista mais transparente da capital, os últimos a conquistar uma casa na cidade teriam que aguardar 175 anos na fila para começar a existir. Coisa de três, quatro vidas.

A capital da tradicional família mineira, da Lagoa dos Ingleses de condomínio e wakeboard, da Nova Lima de mansões e cervejas artesanais, da Savassi point-long-neck-blusa-polo e varanda gourmet, vive a maior opressão latifundiária urbana de Minas Gerais. E uma das maiores da América Latina.
Na região da Izidora, o único e maior cinturão-verde restante da cidade, as 30 mil pessoas que ocuparam um terreno abandonado há anos para começar a existir, foram oficialmente informadas que não poderão mais existir.

Ali, onde se formaram as ocupações Rosa Leão, Esperança e Vitória, onde uma comunidade se uniu para erguer um teto e se esconder da fome; onde nasceram projetos autônomos de arquitetura, educação e cultura, onde as construtoras pretendem fundar mais um belo bairro de classe média, a polícia teve autorização para acabar com o projeto de início do fim da fome para 8.000 famílias.

Tudo isso enquanto engenheiros, empresários e políticos tomam banho, jantam e repousam em suas casas depois de traçar planos imobiliários a base de contratos milionários que vão decidir arbitrariamente quem pode existir na cidade. Não sei vocês, mas a cidade que eu desejo, ou melhor, a única cidade que faz sentido é aquela onde todo mundo possa existir – sem exceção.