terça-feira, 6 de setembro de 2016

Golpe de 1964 e de 2016: o mesmo golpe de classe

Leonardo BoffJornal do Brasil
Entre o golpe de 1964 e o golpe de 2016 há uma conaturalidade estrutural. Ambos são golpe de classe, dos donos do dinheiro e do poder: o primeiro usa os militares, o outro o parlamento. Os meios são diferentes mas o resultado é  o mesmo: um golpe com a ruptura democrática e violação da soberania popular.
Vejamos o golpe de 1964. René Armand Dreifuss em sua monumental tese  na Universidade de Glasglow: “1964: a conquista do Estado, ação política, poder e golpe de classe” (Vozes 1981), um livro de 814 páginas das quais 326 são de documentos originais, deixou claro: “o que houve no Brasil não foi um golpe militar, mas um golpe de classe com uso da força militar”(p.397).


Golpe de 1964 e de 2016: o mesmo golpe de classe, diz Leonardo Boff   
Golpe de 1964 e de 2016: o mesmo golpe de classe, diz Leonardo Boff   

O assalto ao poder de Estado foi tramado pelo general Golbery de Couto e Silva utilizando-se de quatro instituições que difundiam a ideia do golpe: o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), o Grupo de Levantamento de Conjuntura (GLC) e a Escola Superior de Guerra (ESG). O objetivo manifesto era: “readequar e reformular o Estado” para que fosse funcional aos interesses do capital nacional e transnacional. Eis o caráter de classe do golpe.
O assalto ao Estado se deu em 1964 e severamente em 1968 com repressão, tortura e assassinatos. O regime de Segurança Nacional  passou a ser o Regime de Segurança do Capital.
Para o golpe de 2016 temos uma minuciosa investigação do sociólogo e ex-presidente do IPEA Jessé Souza “A radiografia do golpe” (Leya 2016). Semelhante ao golpe de 1964, Jessé desvela os mecanismos que permitiram a elite do dinheiro a ser a “mandante” do golpe, realizado em seu nome pelo parlamento. Portanto, trata-se de um golpe de classe e parlamentar.
Jessé enfatiza além disso “que todos os golpes, inclusive o atual, são uma fraude bem perpetrada dos donos do dinheiro, que são os reais ‘donos do poder”. Quem compõe essa elite? “A elite do dinheiro é antes de tudo a elite financeira, que comanda os grandes bancos e fundos de investimento e que lidera outras fracções de endinheirados como a do agronegócio, da indústria (FIESP) e do comércio, secundada pelos meios de divulgação que distorcem e fraudam sistematicamente a realidade social como se fosse “terra arrasada e país falido” (é exagero), escondendo os  interesses corporativos por trás da fraude golpista.
O motor de todo o processo, reafirma Jessé, é a voracidade da elite do dinheiro de se apropriar da riqueza coletiva sem peias, com outros sócios como a mídia ultra-conservadora, o complexo jurídico-policial do Estado e parcela do STF (pense-se em Gilmar Mendes).
O processo de impeachment foi parar no Senado. Este promoveu a destituição da Presidente Dilma por crime de responsabilidade fiscal. Os principais juristas e economistas, além de notáveis testemunhas nas oitivas e os relatórios oficiais de várias instituições, negaram rotundamente a existência de irresponsabilidade. A maioria dos senadores nem se deu ao respeito de ouvir as oitivas de especialistas altamente qualificados pois já haviam tomado previamente a decisão  de depôr a presidenta.
O áudio vazado entre Romero Jucá, ministro do planejamento  e o ex-diretor das Transpetro Sergio Machado, revela a tramóia: “botar o Michel num grande acordo nacional com o Supremo e com tudo; aí pára tudo…e estanca a sangria da Lava Jato.” Um dos motivos do golpe era também livrar  do braço da justiça os 49 senadores, sobre 81, indiciados ou metidos em corrupção. Desta forma, com exceção dos valorosos defensores de Dilma, esse tipo de políticos, sem moral, decidiram depor uma mulher honesta e inocente.
Condenar sem crime é golpe. Golpe de classe e parlamentar. Golpe significa violar a constituição e trair a soberania popular por força da qual Dilma Rousseff se elegeu com 54 milhões de votos.
Ontem em 1964 e hoje em 2016, seja por via militar seja por via parlamentar, funciona a mesma lógica: as elites econômico-financeiras e a casta política conservadora praticam a rapinagem de grande parte da renda nacional  (Jessé aponta 71.440 pessoas, apenas  0,05% da população) contra a vida e o bem-estar da maioria do povo, submetido à pobreza. Boa parte do Congresso é cúmplice deste golpe. Nele majoritariamente vigora a mesma intencionalidade estrutural de garantir o status quo que favorece seus privilégios e seus ganhos.
O projeto do PMDB “Uma ponte para o futuro”  de um deslavado neoliberalismo de enrubescer, revela o propósito do golpe:  reduzir o Estado, arrochar salários, liquidar com a política de valorização do salário, cortar gastos com os programas sociais, privatizar empresas estatais, especialmente o Pré-Sal, desvincular despesas obrigatórias da saúde e da educação, reduzir ao mínimo tudo o que tem a ver com a cultura, direitos humanos, mulheres e minorias. O ministério é constituído por brancos e em grande parte acusados de corrupção. Não há mulheres nem negros e representantes das minorias.
Temos a ver com um espantoso retrocesso politico-social, agravando a desigualdade, nossa perversa chaga social, e esvaziando as conquistas sociais de treze anos dos governos Lula-Dilma,
Há resistência e oposição multitudinária nas ruas, de fortes grupos sociais e de intelectuais que não aceitam um presidente conspirador e sem credibilidade. A solução seria eleições gerais e mediante a soberania popular se escolheria um novo presidente que de fato representasse o país. 
* Leonardo Boff é filósofo, ex-professor de ética da UERJ.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Bob Fernandes / SISTEMA. 100 mil numa manifestação pacífica, e a PM ataca no final.

Os 100 mil na Paulista e a ditadura Temer




Bob Fernandes

Sábado, na China, Temer disse que protestos contra ele país afora eram "inexpressivos". Com "40, 50, 100 pessoas", que "quebram carro".

Domingo, 4, da Paulista ao Largo da Batata, 100 mil pessoas protestaram. Com Coros de "Fora, Temer" "golpista"...

Sem transmissão ao vivo, sem helicópteros desde cedo, sem catraca livre e pesquisas sobre o número de presentes.

Manifestação absolutamente pacífica. Até o final quando, de maneira bárbara, desproporcional, a PM atacou.

Quem estava nas imediações do metrô -e eu estava- assistiu: com a desculpa de deter quem pulava catracas lá dentro do metrô, balas de borracha, jatos d´água...E bombas, inclusive em ônibus.

E isso do lado de fora.

Antes do protesto, 26 detenções, 8 delas de menores. Até à noite, por mais de 6 horas, todos sem acesso a advogados.

Black blocks, ausentes até o final, são justificativa para a repressão. Desde protestos contra o governo Dilma, em 2013, black blocs sumiram das manchetes.

Estavam de férias? Retornam só agora, em meio à nova oposição?

Dez fotógrafos e repórteres agredidos pelas PMs nos últimos dias, em São Paulo e pelo país.

Desde junho de 2013, no Brasil todo, 291 jornalistas atingidos em manifestações, informa a ABRAJI.

Domingo o atingido pela PM, e chamado de "Lixo", foi um repórter da BBC.

El País, agência Reuters, BBC... a mídia estrangeira está relatando essa violência.

Em Março, Aécio e Alckmin foram hostilizados na Paulista. Então secretário de segurança o hoje ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, foi escorraçado dessa mesma Avenida.

Expulso pelos que pregavam a derrubada de Dilma... Então sem nenhuma reação da PM.

No domingo, dois coros entre os entoados durante a passeata: "Chega de chacina, quero o fim da PM assassina" e "Não vai ter selfie".

O troco veio no final.

Agiram, agem desta forma diante de milhares de celulares, e Mídias do Brasil e do mundo. Imagine-se o que não fazem nas periferias...

...Os que têm visibilidade e voz estão sentindo na pele o que nas quebradas vivem (tantas vezes morrem) os seres tidos como "invisíveis".

Quarenta e oito horas depois da posse, o governo Temer interveio na Comissão de Anistia. Trocou 20 dos 25 integrantes.

Entre os novos membros, um acusado de ter colaborado com a ditadura. Por que esse ato e essa urgência?

Que tudo isso não seja configuração acelerada de um novo "Sistema".


domingo, 4 de setembro de 2016

Ao final, Dilma foi afastada por um crime que nunca fora visto como crime

Por Vladimir Safatle
Folha S. P.
Coube a Dilma Rousseff a oração fúnebre da Nova República. Com seu "Só temo a morte da democracia", termina mais de 30 anos de uma redemocratização falha e bloqueada. Ela terminou em meio a um processo farsesco, que seguiu todos os ritos jurídicos apenas para tentar esconder que não tinha sustância alguma. Ao final, Dilma foi afastada por um crime que nunca fora visto como crime, mas como uma prática normal utilizada por todos os presidentes da república e por 17 governadores em exercício sem maiores consequências. Mesmo o Ministério Público acabou por reconhecer não haver crime de responsabilidade, mas isto já não fazia a menor diferença.
Veio então a tese do julgamento pelo "conjunto da obra". Bem, em um país onde Alckmin, Pezão, Beto Richa, Marconi Perillo e José Sartori governam sem serem incomodados, afastar alguém pelo "conjunto da obra" só pode ser piada. Não é por acaso que um processo como esse só poderia ser levado a cabo por uma advogada afeita a discursos evangélico-fascistas e um advogado filho de um integralista.
Editoria de Arte/Folhapress
Marcelo Cipis de 02 de setembro- coluna vladimir safatle
Na verdade, Dilma caiu porque a Nova República já não existia de fato. Dilma e seu partido nunca entenderam que o sistema de conciliações e de "governabilidade" paralisante da Nova República ruíra desde 2013. Eles nunca entenderam que o país precisava livrar-se de uma era histórica baseada na inércia resultante da obrigação de sempre compor com o atraso, sempre respeitar os interesses das oligarquias, até o ponto em que todos os que ocupassem o poder se desfigurassem, tornando-se irreconhecíveis. Até o último momento, foi questão de negociar o que não se negocia com quem vê a política só como um negócio
Por isso, aqueles que falavam das conquistas democráticas da "estabilidade política" nacional que acordem para a realidade. Vocês foram enganados. Não poderia haver estabilidade real sustentada por políticos saídos da ditadura militar e por um partido, como o PMDB, que era, afinal, uma oposição criada pela própria ditadura para acomodar oligarquias descontentes e políticos tradicionais confiáveis.
O Brasil achou que poderia virar uma democracia sem se confrontar com seu passado autoritário recente, sem expurgar seus representantes e seus filhos. Ele acorda agora com um "governo" que é apenas uma associação de corruptos contumazes tentando desesperadamente se salvar, liderados por um "presidente" citado três vezes na Operação Lava Jato como beneficiário direto de corrupção e condenado pelo TRE-SP por doações ilegais. Uma figura especializada em conspirações, acostumada aos bastidores escuros do poder, liderando uma casta política disposta a usar de toda violência estatal necessária para compensar sua falta absoluta de legitimidade e seu medo atávico de eleições. Não por acaso, no dia do golpe (mais um 31, agora 31 de agosto) não vimos massas nas ruas a comemorar a queda do governo, mas o prenúncio de um Estado policial: manifestantes sendo presos e espancados por uma PM cujo comportamento é digno de uma manada de porcos.
Por isso, não se enganem mais uma vez. Este é apenas o primeiro golpe. Quem fez o que fez não está contando voltar para casa depois de dois anos. O verdadeiro projeto é acabar com as eleições presidenciais. Isso será feito tirando de cena candidatos indesejáveis ou empurrando pela goela do país um regime parlamentarista que seria a coroação final de um Congresso de oligarcas e corruptos que conseguem sobreviver utilizando-se dos mais impressionantes casuísmos e dos meandros da partidocracia. Um Congresso incapaz de afastar indivíduos como Eduardo Cunha quer agora governar o país de forma imperial.
Mas enquanto Michel mudava de casa, as ruas do Brasil foram ocupadas por aqueles que podem enfim lutar a verdadeira luta e abandonar as ilusões que nos venderam. Os escombros da primeira experiência de longa duração da esquerda brasileira mostrará como os últimos 13 anos foram apenas um ensaio geral. No entanto, será necessário que a esquerda faça aquilo que ela teima ridiculamente em não fazer, a saber, uma profunda e dura autocrítica.
Uma autocrítica em relação à vergonhosa marcha de corrupção que afogou seus governos. Autocrítica em relação à crença nessa política que teme em implementar processos de democracia direta e transferência de poder, preferindo se chafurdar nas negociações com coalizações à venda. Por fim, autocrítica em relação a si mesma, a suas estruturas organizacionais arcaicas dignas dos anos 1950. Nunca na história brasileira foi tão importante o exercício da imaginação, da autoanálise, da insubmissão e do destemor. Que estejamos então à altura do momento e mostremos que o Brasil é maior do que Temer e seus comparsas.

sábado, 3 de setembro de 2016

A prova monumental do golpe

A prova monumental do golpe
por Jeferson Miola
Os golpistas venceram a batalha do impeachment  fraudulento no Senado, mas perderam a guerra da narrativa do golpe.
A condenação ao golpe é mundial. No mundo inteiro o golpe é denunciado como sendo, no mínimo, uma tremenda farsa, um crime; uma trama conspirativa arquitetada para derrubar uma Presidente inocente, sem amparo na Constituição do país.
O mundo civilizado se horroriza com a fotografia da matilha misógina, corrupta, homofóbica, racista e anti-popular que tomou de assalto o poder para fazer o Brasil regredir séculos, se distanciar das grandes conquistas democráticas e civilizatórias da humanidade.
Dilma foi cassada, seu mandato legítimo foi roubado. Mas ela não foi condenada, não perdeu os direitos políticos que perderia, se tivesse cometido crime de responsabilidade. Essa é a prova monumental de que houve golpe.
Este impeachment fraudulento, de tão burlesco, pode ser comparado a um conto. É como se um guarda de trânsito ardiloso inventasse graves infrações de trânsito e atribuísse elas injustamente a determinado motorista que tem o carro que ele não conseguiria adquirir honestamente e então, ao invés de multar ou cassar a habilitação do motorista infrator, toma-lhe o carro.
Essa é a farsa do impeachment: um golpe de canalhas e vigaristas que criaram acusações falsas para roubar o mandato sagrado que Dilma recebeu de 54.501.118 brasileiros e brasileiras.
Os ratos golpistas entraram no Palácio do Planalto pela garagem. E, ao mesmo tempo, abriram as portas do inferno que passarão a viver.
A tirania tem seus disfarces, e o mais insidioso deles é o disfarce de maioria parlamentar que violenta a Lei e as regras da democracia segundo conveniências de ocasião.
O povo está nas ruas, a resistência democrática arma suas barricadas. O povo tem o direito inalienável de se insurgir contra esta tirania que é acobertada pelo judiciário e pela mídia.
O povo violentado pelo golpe e castrado no desejo de viver com dignidade, alegria e democracia, tem o direito à desobediência civil.
Esta conquista civilizatória da humanidade os golpistas fascistas não conseguirão roubar: nenhuma obediência ao governo usurpador que quer promover a restauração neoliberal ultraconservadora e reacionária.
O governo usurpador não terá um dia de trégua. Todo o dia é dia de protesto, de denúncia, de luta. A cada dia é maior a resistência.
Aas multidões radicalizadas que ocupam as ruas não se intimidam com a repressão fascista que o governo usurpador promove com suas polícias. As palavras de ordem anunciam o futuro: amanhã vai ser maior!

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

31/08/2016 a 31/12/2018: Período será conhecido como A República dos Canalhas

por Weden
Nâo há outra denominação possível para este período de exceção. Mas vamos aos fatos.
1. Armação de Rodrigo Janot com Gilmar Mendes arquiva denúncias contra Temer e Serra, desconsiderando delação da OAS. Lava Jato começa a ser desmontada, resumindo-se somente à caça à Lula.
2. PGR partidária também pretende impedir Dilma de continuar na vida política.
3. Jornais despem a máscara e no dia seguinte à consumação do golpe já pedem retirada imediata dos direitos dos trabalhadores. Federações de empresários também começam a cobrar a fatura. É a hora dos abutres.
4. Receita Federal, sob novo governo, quebra sigilos e passa a perseguir desafetos.
5. Jornalistas estão sendo incluídos em delações forjadas para silenciarem oposição a Temer.
6. Desvinculação de verbas da saúde e educação reduzirá investimentos e liberará recursos para Temer pagar a fatura do golpe.
7. Combate à corrupção já está sendo cerceado em várias frentes. A começar pela CGU, lei do abuso do poder, mudança de função da PF, e acordão com PGR.
8. Previsto forte ataque à previdência de celetistas e estatutários, sob alegação de déficits.
9. Terceirização selvagem agora pode avançar sem freios, destruindo a CLT e as garantias trabalhistas.
10. SUS fortemente ameaçado.
11. Privatização da educação pública começa com o estímulo à contratação de "empresas de gestão". Instrumentos de avaliação implantados no governo Lula já foram descontinuados.
12. Teto de gastos públicos, rejeitado nos EUA, será adotado paralisando toda e qualquer função de estado na luta contra a desigualdade. Intenção é o retorno aos índices anteriores à Constituição.
13. Setores de posicionamento crítico, na academia, tendem a ser os mais afetados por vingança. Redução radical nos investimentos em áreas humanas e sociais.
14. Suposta lei anti-terror prevê até estímulo à volta da deduragem no seio do funcionalismo público.
15. Artistas que se opuseram ao golpe começam a ter problemas com financiamento da cultura.
16. Repressão aos movimentos de oposição nas ruas tende a ser mais selvagem.
17. Entrega do Pré-Sal já foi iniciada.
18. Procuradores do Lava Jato fingem que foram usados politicamente.
19. A turba de Curitiba - a versão moderna da Comissão Geral de Investigações -  "esquece" investigação contra esposa de Eduardo Cunha, mas tenta incriminar, por vingança, família de Lula.
20. Armação na Câmara avança para impedir punição de Cunha
Fonte: Jornal GGN

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Imprensa internacional define o que aconteceu no Brasil: é golpe

A mídia internacional qualifica o processo de impedimento da presidenta Dilma Rousseff como golpe. Jornais da Europa, dos Estados Unidos, da Ásia e da América Latina retratam o processo como ele realmente é, um golpe de Estado que procura depor a presidenta e "matar a Lava Jato", como acusa o britânico The Guardian.


Captura de tela de página do Daily Beast
Dilma Rousseff: Uma mulher forte derrubada por homens fracos do BrasilDilma Rousseff: Uma mulher forte derrubada por homens fracos do Brasil
Veículos nos Estados Unidos, na Europa, na América do Sul e na Ásia trataram nesta quarta-feira (31) o processo de afastamento da presidenta Dilma como "injusto" e um "castigo desproporcional". O jornal americano The Washington Postafirmou que os senadores "Se uniram pela retirada de Dilma sabendo que seria injusto".

Ao contrário do que a mídia corporativa brasileira tem procurado afirmar, para jornais de fora do Brasil, como o francês Le Monde, "Dilma é vítima de um golpe encenado por seus adversários".

E emissora russa de televisão Russia Today (RT) ainda denuncia, dizendo que "60% do congresso é acusado de corrupção", e que eles contra-atacam Dilma, "que tentou fazer uma limpeza no congresso”.

Tragicomédia foi a palavra escolhida tanto pelo jornal português Públicoquanto pelo argentino Página 12. A rede catariana Al-Jazeera, árabe, e que é porta-voz do governo do Catar, preferiu escolher a palavra hipocrisiapara definir o processo.

Em um artigo anterior à votação, o The Guardian acrescenta que as explicações dadas são apenas “pretexto” para a remoção de Dilma do poder. As verdadeiras razões para o impeachment, segundo o jornal, “são políticas”.

Atrás da motivação para derrubar Dilma, de acordo com o jornal, estão alguns políticos “claramente motivados por um desejo de matar a investigação da Lava Jato, o que Dilma Rousseff se recusou a fazer”.

O jornal lembra que o impeachment foi iniciado pelo ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, depois que o PT se recusou a protegê-lo de uma investigação no comitê de ética da Casa.

The Guardian informa também que conversas secretamente gravadas revelaram que o líder do PMDB no Senado, Romero Jucá, queria remover a presidenta para que a investigação da Lava Jato pudesse ser “sufocada por seu sucessor”.

Já o site americano The Daily Beastafirma que Dilma Rousseff sairá formalmente do governo, apesar de ter protagonizado "uma última resistência incansável contra as acusações de irregularidades fiscais movidas contra ela, que muitos no Brasil veem como uma cortina de fumaça para sua remoção a qualquer custo". O jornal lembra a frase de Dilma, durante o depoimento no Senado, que durou 14 horas: "Estamos a um passo de assistir a um golpe [parlamentar de Estado] real".

Fonte: Portal Vermelho



'É um golpe de Estado, fruto de uma conspiração', diz Samuel Pinheiro Guimarães

Para diplomata, que já foi ministro de FHC, novo governo ignora questões como a desigualdade social e só pensa no "mercado"
por Joana Rozowykwiat, do Portal Vermelho
REPRODUÇÃO/JORNALISTAS LIVRES
Pinheiro Guimarães
'Foi tudo uma questão política, tanto que Dilma não foi condenada na segunda parte do julgamento'
Vermelho – O diplomata Samuel Pinheiro Guimarães defendeu que o país sofreu um golpe, orquestrado pelas classes hegemônicas. Segundo ele, o Senado não derrotou apenas a presidenta Dilma Rousseff, mas um projeto de país. Para o ex-ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos, o novo governo ignora questões como a desigualdade social e só pensa no "mercado".
"É um golpe de Estado, orquestrado pelas classes hegemônicas e comandado por Michel Temer e outros, como Renan Calheiros, Romero Jucá, Eliseu Padilha, Moreira Franco, etc. Organizaram uma grande conspiração, com o auxílio importantíssimo da mídia, dos meios econômicos, de associações como a Fiesp e Febraban", disse, em entrevista ao Vermelho, nesta quarta (31).
De acordo com ele, embora a imagem internacional do país tenha saído prejudicada desse processo, houve"um esforço muito grande dos conspiradores" para dar uma aparência de legalidade a ele, um trabalho que deve continuar no próximo período.
"A imagem do país fica ruim por um tempo, mas eles farão o possível e o impossível para passar a ideia de que não houve golpe, como o presidente do Senado, Renan Calheiros, tentou dizer hoje (durante a sessão). Haverá esse esforço, a mídia vai proclamar permanentemente que não houve golpe e vai ter um debate eterno sobre se houve crime de responsabilidade", afirmou.
Para Samuel Pinheiro, contudo, a própria decisão do Senado de não cassar os direitos políticos de Dilma já indica que não havia motivos para seu afastamento. "O interessante é que fica claro que ela não cometeu nenhum crime de responsabilidade, foi tudo uma questão política, tanto que não foi condenada na segunda parte do julgamento", analisou.
O diplomata avaliou que o impeachment interrompe um projeto de país, mais inclusivo que aquele que assume a partir de então. "Não é a presidenta Dilma. É um projeto de desenvolvimento político, econômico e social. O grupo que assume ilegitimamente é outro e é isso que é muito grave. A extrema desigualdade social e de renda, um contingente enorme de pobres... eles ignoram isso. Só pensam no mercado", destacou.
Ele fez questão de dizer que o mercado, na verdade, são os grandes latifundiários, os grandes industriais e banqueiros, os proprietários dos meios de comunicação. "O mercado não somos eu e você, são pessoas poderosíssimas e riquíssimas. E eles (do novo governo) só pensam no mercado, em favorecer essas pessoas, os capitalistas".
Questionado sobre a postura do Brasil diante do mundo, sob o comando do ministro das Relações Exteriores, José Serra, Pinheiros Guimarães foi sucinto:"Serra não é uma pessoa preparada para o exercício do cargo"

Segundo ele, a política externa brasileira é algo muito complexo e delicado, por se tratar um país de enorme dimensão territorial e demográfica e pela sua grande capacidade econômica. "É algo que não se resume a ficar atacando a Venezuela. E, quando ele (Serra) faz isso, prejudica a relação do Brasil com todos os vizinhos. Isso tudo mostra um amadorismo e é para agradar os Estados Unidos, que são um eleitor importante no processo político brasileiro", resumiu.

O diplomata lembrou ainda que são de Serra projetos em tramitação no Congresso que contrariam os interesses nacionais, a exemplo daquele que altera a legislação do pré-sal e reduz o papel da Petrobras na exploração desses campos. 

"O projeto do pré-sal é extremamente favorável às petroleiras americanas. Isso revela a visão que ele (Serra) tem. É uma pessoa que não compreende o potencial e o tamanho do país", criticou.

Para Pinheiro Guimarães, é importante que a mídia internacional esteja, de maneira geral, denunciando o que ocorre no país. Mas o ex-ministro defende que é preciso observar como ela irá se comportar a partir de agora. 

"Vamos ver se a mídia vai manter esse clima, porque a mídia é muito volátil e entram outros assuntos na pauta. Claro que é importante informá-los sobre as medidas que são tomadas contra o povo aqui, mas a gente não deve se iludir. Só os movimentos populares podem construir um projeto de Brasil popular", encerrou.