sábado, 10 de maio de 2014

O grande Jair Rodrigues foi maior do que ele mesmo em ¨Disparada¨

Por Kiko Nogueira
(Diário do Centro do Mundo)

Jair Rodrigues canta Disparada no Festival de Música ...

Prepare o seu coração! Em 1966, Jair Rodrigues conquistou o Brasil ao interpretar Disparada (CLIQUE ACIMA PARA VER O VÍDEO) 


Jair Rodrigues era tido como o precursor do rap nacional por “Deixa Isso Pra Lá”, de 1964. Parte da letra era declamada (“Deixa que digam, que pensem, que falem, deixa isso pra lá, vem pra cá, o que é tem? Eu não tô fazendo nada, você também”). Muitos rappers o reverenciavam como mestre. O gestual, com as palmas das mãos para cima e para baixo, marcou época.

Era um sambista notável, dono de um enorme carisma no palco. Entre 1965 e 1967, apresentou o programa “O Fino da Bossa” com Elis Regina. Os dois eram acompanhados pela orquestra do maestro Ciro Pereira e pelos monstros do Zimbo Trio. Sua versatilidade — e o fato de vir do interior de São Paulo — faria dele, também, um grande cantor de música sertaneja. Antes da infestação de duplas, gravou “O Menino da Porteira” e “Majestade o Sabiá”.

Mas nada superará sua interpretação de “Disparada”. Se tivesse feito só isso, se fosse o chamado one hit wonder, já seria suficiente para inscrevê-lo na história da MPB.

A toada caipira de Geraldo Vandré e Théo de Barros foi o ponto mais alto de sua trajetória e ele sabia disso. Há artistas que se ressentem da obra que os projetou (Bob Dylan, para ficar num caso, propositadamente tornava “Blowin’ In The Wind” indecifrável ao vivo).

Jair nunca teve esse problema. “É a música da minha vida. Quando ela surgiu, e eu venci o festival, liberou geral. Eu pude gravar de tudo”, disse à revista Rolling Stone.

“Disparada” concorreu ao Festival da Record de 1966. Tinha um forte conteúdo político (“agora sou cavaleiro, laço firme, braço forte, num reino que não tem rei), fruto da militância de Vandré nos meios estudantis.

Coube ao apolítico Jair uma apresentação antológica. A canção certa, no lugar certo, na época certa, pelo homem certo. Sua energia, o estilo arrebatador, o vozeirão, enlouquecem a plateia. Graças ao YouTube, você não precisa mais confiar na memória de Nelson Motta para atestar isso.

A grande disputa se deu com “A Banda”, a marchinha que Chico Buarque defendeu com Nara Leão. Se esta tinha referências sutis à ditadura (“Mas para meu desencanto, o que era doce acabou”), “Disparada” mandava o lirismo, como diria Aloysio Nunes Ferreira, para a pqp.

O resultado foi empate. O crítico Zuza Homem de Mello contaria, anos depois, que, na verdade, “A Banda” ganhou por sete votos a cinco dos jurados. Nos bastidores, porém, Chico avisou que, se “A Banda” fosse a campeã, ele devolveria o prêmio em público. Chico, acertadamente, achava “Disparada” melhor. Não só ele, claro.

Jair Rodrigues se apropriou da música naquela noite. É impossível imaginar outra pessoa cantando aqueles versos. Zé Ramalho, Zizi Possi, Sérgio Reis, Daniel, o próprio Vandré — todos eles tentaram e todos ficaram minúsculos diante de Jair Rodrigues.

Jair ainda faria uma bela carreira, formando um público fiel que lotava seus shows. Naquele dia em 66 ele foi maior do que ele mesmo, mas isso nunca o incomodou. Morreu na sauna de sua casa em Cotia, de infarto. Como disse Fagner, numa definição simples, mas precisa, ele foi “uma lição de alegria”.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Getúlio

¨Os fatos mudam, porque a história não se repete, embora no Brasil ela seja recorrente; os personagens são os mesmos em permanente revezamento. Não mudam as mãos e os cérebros que manipulam os cordéis das marionetes.
Os interesses de classe são os mesmos e mesmos são seus agentes e seus prepostos.¨

A história ilumina o caminho dos que ainda hoje almejam o Brasil democrático, livre e soberano.




Tony Ramos como Getúlio Vargas em "Getúlio"

Por Roberto Amaral, em seu blog

Como sempre, o passado ajuda a compreender o presente, principalmente quando a memória histórica, nosso caso, é rala como uma nuvem de fumaça. Eis a oportuna contribuição de Getúlio, um filme acima de tudo correto (para o que se propunha) e suficientemente didático para que os jovens, que não viveram a experiência trágica daqueles idos de agosto, travem conhecimento com os cordéis que manejavam e manejam a cena política brasileira. Então e agora, nesta nossa história sem povo-massa, sem povo-sujeito, os principais atores raramente eram e são vistos sob as luzes da ribalta. Por isso mesmo, o que o filme revela, e aí muito bem, é, apenas, uma parte da história, exatamente a mais visível e epidérmica, e, por isso mesmo, a mais conhecida. Por ser talvez a mais fácil de ser contada pelos vencedores.

Se é tolice pensar que o assassinato de João Pessoa detonou a revolução de 30 (sabidamente, o gatilho do revólver de João Dantas foi pressionado por razões passionais), é pura literatice reduzir o ‘24 de agosto’ à crise desencadeada pelo inconcebível atentado da rua Tonelero, quando um sicário trapalhão, contratado para assassinar um jornalista inescrupuloso, mata um oficial superior da FAB travestido de guarda-costas.

A história daquela noite/madrugada inesquecível começa bem antes, em 1922, com o ‘levante do Forte de Copacabana’, inaugurando uma saga que só conheceria sua culminância com a sublevação militar em  1º de abril de 1964 e a ditadura a seguir implantada. Esta saga tomou o nome de ‘tenentismo’, a décadas de insurreições, levantes, inconfidências, intentonas, ‘pronunciamentos militares’ e golpes de Estado – que marcam a vida política brasileira. Assim tumultuando o processo institucional de uma sempre jovem e frágil democracia ansiando por uma consolidação que nunca chega: 1922, 1924, 1930, 1932, 1935, 1937, 1938, 1945 (primeira deposição de Vargas), 1954 (a segunda deposição de Vargas), o golpe e contra-golpe de 11 de novembro de 1955, as arruaças de Aragarças e Jacareacanga, tentativa de golpe e contra-golpe de 1961 (renúncia de Jânio e posse de Jango) e, finalmente, deposição de Jango (1964) e instauração da ditadura militar (1964-1985), sonho que remonta a Floriano Peixoto. As insurgências são muitas, mínima porém a variação dos personagens. O brigadeiro Eduardo Gomes, rebelde de 1922, é o ministro da Aeronáutica (de Café Filho e de Castelo Branco na ditadura); os marechais Juarez Távora (ministro dos Transportes e da Agricultura de Vargas, 1930/1932-34; conspirador em 1945, 1954, 1955, Chefe da Casa Militar de Café Filho, 1954-55) e Cordeiro de Farias (chefe do Estado-Maior das forças golpistas em 1961), ambos personagens de destaque da ‘revolução’ de 30, estão juntos na ditadura de 1964. Como se vê, o tal compromisso das Forças Armadas brasileiras com a democracia não resiste a qualquer análise. Os fatos mudam, porque a história não se repete, embora no Brasil ela seja recorrente; os personagens são os mesmos em permanente revezamento. Não mudam as mãos e os cérebros que manipulam os cordéis das marionetes.

Os interesses de classe são os mesmos e mesmos são seus agentes e seus prepostos.

Durante esse longo período, isto é, até o fim da última ditadura, o Exército funcionou como  ‘poder moderador’, mostrengo monárquico em plena República, e o Clube Militar, seu braço desarmado, cumpriu o papel de verdadeiro partido político, embora sem a legitimidade do mandato eletivo. Pronunciavam-se, oficiais generais da ativa e Clube, sobre todos os temas: salário-mínimo, relações internacionais, câmbio, inflação, eleições… Agiam ambos como agentes políticos, configurando um Poder não previsto pelo ordenamento constitucional, mas ‘legitimado’ pelo argumento insofismável das baionetas.

O mundo mudara, e nele o Brasil.

A partir de 1945, com a Guerra Fria e o macartismo, o ‘tenentismo’, de origem liberal, unifica-se ideologicamente em torno de um anti-comunismo que se opõe ao nacional e ao popular e, em nome da democracia, pleiteia governos de exceção. Aparta-se definitivamente do varguismo ao qual servira, inclusive no golpe de 1937, e que trairia em 1954. Morto Vargas, sobrevive o anti-varguismo rançoso que chega aos dias de hoje.

O americanismo é o modelo nacional de anti-comunismo, justificador de todas as concessões. A fundamentação ideológica é fornecida pela Escola Superior de Guerra-ESG (1949) comandada inicialmente pelo general e futuro marechal Cordeiro de Farias, que teria Juarez Távora como seu sucessor…, mas a instrumentalização política seria o encargo da União Democrática Nacional-UDN, partido fundado após a redemocratização com a finalidade de combater o varguismo e todas as modalidades de trabalhismo, reduzidas depreciativamente a ‘populismo’. E, por consequência, contra tudo o que pudesse sugerir o que mais tarde chamaríamos de emergência das massas. Contra a politica externa independente, contra o voto do analfabeto, contra a limitação da remessa de lucros para o exterior, contra isso e contra aquilo.

O anti-‘populismo’ é tão-simplesmente anti-povo.

Para esses setores militares e partidários revelava-se intolerável a volta do ditador ao poder no Brasil redemocratizado. Mas Getúlio, que não podia ser candidato, faz-se candidato, e, não devendo ser eleito, ganha as eleições (derrotando de forma acachapante o brigadeiro Eduardo Gomes!), e, condenado a não tomar posse, é empossado e governa. Aos trancos e barrancos, enfrentando oposição ensandecida, derrotando seguidas tentativas de impeachments e boicotes do sistema financeiro internacional. Ver-se-á por que. As medidas nacionalistas levadas a cabo pelo agora presidente constitucional acirram o conflito e estimulam as contradições internas de seu governo – que assumira as feições de um nacionalismo intervencionista. Sem base social de sustentação – seu partido, o PTB, não lograra a liderança necessária das grandes massas, e o movimento sindical se desorganizava nos desvãos dos gabinetes ministeriais – Vargas governava à míngua de correlação de forças políticas, econômicas e militares favorável. E, evidentemente, contra a grande imprensa brasileira, que naquela altura era praticamente a de hoje: O Globo, Estadão e a falecida ‘cadeia associada’ cujo grande e poderoso semanário renasceu numa conhecida revistona, como sua matriz, também delegada dos interesses internacionais.

Assim, contradição irremediável se estabelece em face de questões objetivas que, se de um lado alimentam o ‘populismo’ varguista, de outro confrontam o capital estrangeiro aqui instalado e os interesses políticos e econômicos dos EUA, unificando-os, burguesia nacional alienada e capital estrangeiro temeroso das nacionalizações, na ação oposicionista que medraria no Parlamento e, principalmente, na imprensa. O atentado ao jornalista e a morte do major foram o elemento subjetivo que mobilizaria a classe-média, católica, insegura, moralista e reacionária.
Explica-se.

O nacional-intervencionismo varguista – com as vistas voltadas para a industrialização – operava um Estado para além de simplesmente indutor do desenvolvimento: agente empreendedor mais do que regulador, intervinha na economia; seu escopo era a industrialização (é incrível que a burguesia paulista, mal saída da cafeicultura, não tenha entendido até hoje…) e a modernização econômica, em país fincado no agrarismo. Recusa-se a enviar tropas para lutar na Guerra da Coréia ao lado dos EUA. Cria o BNDE (hoje BNDES) e o Banco do Nordeste do Brasil-BNB, libera a organização sindical e estimula a criação de novos sindicatos; reajusta o salário mínimo em 100% (1953). Por fim, audácia suprema, estabelece o monopólio estatal do petróleo e cria a Petrobras, em época em que atitudes desta natureza derrubavam governos, como se viu no Irã de Mossadeg. Getúlio caiu, sacrificando a própria vida, porque ousou desafiar o imperialismo, propondo caminho autônomo para o desenvolvimento brasileiro. Esta a lição da história, a iluminar o caminho dos que ainda hoje almejam o Brasil democrático, livre e soberano.
 

quarta-feira, 7 de maio de 2014

A barbárie chega aos poucos


Por Marcelo Semer, no portal Terra Magazine:


A barbárie chega aos poucos. E quando a gente se dá conta...

Ela se instala quase sempre sem alarde.

Na maior parte das vezes, por trás de motivos ditos imperiosos, circunstâncias extraordinárias e outras coisas pretensamente terríveis com que nos convencem a abrir mão de direitos.

Ela cresce sob a batuta do medo e a suposta necessidade de reagir, gerando ainda mais medo, naquele círculo vicioso de uma profecia que se autorealiza.

As pessoas vão se acostumando a romper os limites do que pensam e falam e como se tratam. Jornalistas e políticos abrem mão de seus protocolos e de seus princípios. Juristas acomodam e flexibilizam os conceitos do direito. E a histeria vai comendo a todos pelas bordas.

Quando a gente se dá conta, está matando uma mulher à pancada em plena rua, porque alguém disse que quem sabe teria sido suspeita de um crime que ninguém nunca viu.

Já faz tempo que vimos nos seduzindo por um discurso irresponsável e sensacionalista que prega, a partir do eterno mito da impunidade, a necessidade de mais polícia, mais pena, mais prisão, mais tortura, mais mortes.

A lógica do estado policial vai se instaurando como um vírus dentro do corpo social, porque interessa a muitos que combatem, às vezes abertamente, outras de forma sub-reptícia, a preservação do estado social.

Afinal, direitos são mais caros do que penas. E emancipam, não encarceram.

As soluções de todos os problemas passam, então, pela dinâmica criminal. Tudo é criminalizado e criminalização é cadeia e cadeia é, sobretudo, dor, sofrimento e morte.

E quando o direito penal não funciona, a culpa não é atribuído ao excesso, mas à escassez, resolvendo-se, então, em mais crimes, mais penas, mais prisões, mais torturas.

E o reclamo de que o estado é ineficiente, leniente, frouxo e que as pessoas tem “legítima defesa” para agir contra criminosos.

Quando a gente se dá conta, está matando uma mulher à pancada em plena rua, porque alguém disse que quem sabe teria sido suspeita de um crime que ninguém nunca viu.

Pouco importa se a cultura do bandido bom, bandido morto resulta em uma contradição inconciliável –porque matar é um crime mais grave do que a maioria dos crimes atribuídos a esses "bandidos" que são mortos.

O importante é aumentar o tônus criminal, porque isso dá audiência, isso dá votos, isso dá ordem e disciplina, isso confirma uma linha imaginária (e, sobretudo, racista) que separa os bandidos dos homens de bem –criminosos em muitas outras órbitas, mas homens de bem assim mesmo.

E na toada vamos concordando com o aumento de penas, com o encarceramento desmedido, com o senso comum de que a impunidade cresce, paradoxalmente com o inchaço da população carcerária, e que, enfim, é preciso aceitar medidas drásticas para situações excepcionais.

E passamos a tratar criminosos como inimigos, manifestantes como terroristas, favelados como subumanos, e vamos admitindo as violências policiais, os estados de sítio implicitamente decretados nas decisões judiciais, e compreendendo a revolta de quem se vê, ou apenas se sente, vítima da criminalidade.

Aí a gente criminaliza a defesa, porque só atrapalha, culpa o habeas-corpus porque atrasa a justiça, responsabiliza os próprios presos pelas violências que sofrem, e admite prender garotos no poste, quando são flagrados no crime, porque, afinal de contas, nada funciona mesmo.

E quando a gente se dá conta, está matando uma mulher à pancada em plena rua, porque alguém disse que quem sabe teria sido suspeita de um crime que ninguém nunca viu.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Democracia Esclarecida, por Luiz Gonzaga Belluzzo


¨Os Esclarecidos contestam os avanços sociais ocorridos nos últimos anos.
 Lamento, porém, informar os Esclarecidos: na contramão das tendências observadas nas economias centrais, as políticas sociais dos últimos anos promoveram, sim, um avanço real nas condições de vida dos menos favorecidos.¨

Por Luiz Gonzaga Belluzzo
Carta Capital:

Recebo um e-mail enviado por um grupo que se autodenomina Democratas Esclarecidos. Investigações na web revelam que o grupo mobiliza uma minoria esmagadora de seguidores. Pouco importa. O leitor de CartaCapital haverá de perceber que essa minoria, embora esmagadora, exprime opiniões e sentimentos de um grupo mais amplo de brasileiros, os que se consideram sábios e informados.

Na mensagem, os Esclarecidos contestam os avanços sociais ocorridos nos últimos anos. Investem, sobretudo, contra a ideia de que se constituiu no País uma “nova classe média”. Enumeram, ademais, as deficiências do sistema educacional, da saúde, da infraestrutura etc. Sugerem também que a liberdade de expressão está seriamente ameaçada, além de insinuar que o País está à beira de uma reviravolta totalitária de esquerda. Minhas respostas, com ligeiras alterações, vão a seguir.

Patrocinada pelos partidários do governo, a história de “classe média” só obscurece a compreensão do fenômeno da mobilidade social no Brasil e instiga discussões estéreis. Lamento, porém, informar os Esclarecidos: na contramão das tendências observadas nas economias centrais, as políticas sociais dos últimos anos promoveram, sim, um avanço real nas condições de vida dos menos favorecidos.
Os trabalhos do professor Waldir Quadros, discutidos em Campinas, um deles publicado em CartaCapital, demonstram de forma cuidadosa a natureza das transformações sociais observadas nos últimos anos.

É da perspectiva do combate à miséria que deve ser avaliado o Programa Bolsa Família. A despeito de seus modestos propósitos, o programa tirou milhões de pessoas da inanição humilhante. No livro Vozes do Bolsa Família, escrito por Walquiria Leão Rego, falam as mulheres que habitam as regiões mais miseráveis do espaço social. Os depoimentos revelam os efeitos do pagamento em dinheiro sobre a liberdade e a autoestima dessas mulheres que, na prática, chefiam as famílias.

Já as melhorias das condições de vida da massa trabalhadora nascem das conexões entre a mudança nos critérios de reajuste do salário mínimo, a queda na taxa de desemprego e o avanço do emprego formalizado. Esse arranjo produziu a elevação da renda real média dos trabalhadores e promoveu a inclusão de milhões no sistema de crédito, sobretudo depois da criação do crédito consignado.

Daí a reconfiguração da demanda dos mais pobres. A mudança na estrutura da demanda da “nova classe média” (sic) é a mãe da “inflação dos serviços” e a filha da queda dos preços relativos dos manufaturados, o que permitiu o crescimento do consumo de duráveis.

Em sua edição de 28 de abril, a Folha de S.Paulo informa: nos últimos oito anos, mais de 7 milhões de brasileiros deixaram de viajar de ônibus e a aviação ganhou mais de 51 milhões de passageiros em voos domésticos. Os senhores da terra sentem-se desconfortáveis com a presença “dessa gente” (assim falavam meus avoengos do lado materno que se diziam quatrocentões) nos aeroportos e shopping centers.

Por enquanto as aspirações dos recém-chegados limitam-se ao rolezinho e ao aviãozinho. Há sinais, no entanto, de saudáveis reivindicações por mais escolas, hospitais e transporte urbano, esperamos financiadas por impostos sobre a renda e o patrimônio da turma de nariz torcido.

O filósofo francês Bernard Stiegler criou o conceito de capitalismo-máfia para designar o predomínio das formas financeiras e patrimonialistas na economia de mercado contemporânea. Em seu afã de promover o enriquecimento de poucos e a desgraça de muitos, o capitalismo-máfia contou com a cumplicidade de sistemas fiscais e tributários cada vez mais regressivos. Assim ensina o best seller de Thomas Piketty O Capital no Século XXI. É fácil perceber que contamos com refinados especialistas em tais modalidades predatórias e antirrepublicanas de enriquecimento.

Democracia Esclarecida é uma boa ideia. Espero que não signifique a pretensão de se patrocinar uma Democracia dos Esclarecidos, antípoda da Democracia nascida do projeto do Esclarecimento, da Revolução Francesa, do liberalismo político e da luta de povos no século XX, a batalha que culminou na conquista dos direitos sociais e econômicos no mundo desenvolvido do pós-guerra.

À guisa de conclusão: brandir novamente o golpe comunista reproduz como farsa a tragédia dos “marchadores”. Deflagrado o golpe civil-militar, Deus, Família e Liberdade foram as primeiras vítimas. Destruídos nas sessões de tortura da dita-cuja, Deus, Família e Liberdade são hoje mercadorias negociadas a baixo preço nos bazares das banalidades midiáticas.

Saudações democráticas radicais.

sábado, 3 de maio de 2014

Exposição das obras de Portinari em BH conta história de amizade do pintor com mecenas de origem mineira

Por Walter Sebastião - Estado de Minas- Cultura

Acervo de Raymundo Castro Maya (1894-1968) chega ao Museu Inimá de Paula; artista plástico teve no empresário um dos principais guardiões de sua obra


A exposição vai até 4 de maio.

O Museu Inimá de Paula exibe 59 pinturas, desenhos e ilustrações de Candido Portinari (1903-1962), vindos da maior coleção pública de obras do artista, pertencente ao carioca Raymundo Castro Maya (1894-1968). Na verdade, BH recebe mais do que uma exposição: com documentos e fotos, conta-se a história da amizade do pintor com o colecionador. “São duas exposições em uma”, avisa a curadora Anna Paola P. Baptista.


Cenógrafo Décio Noviello abre mostra de pinturas e serigrafias em SP
De um lado está o pintor, que se tornou personalidade internacional nas décadas de 1930 a 1950, ícone da arte moderna brasileira. De outro, o mecenas vindo de família de posses, que herdou do pai coleção de arte e a ampliou com trabalhos de Degas, Miró, Picasso e de modernistas brasileiros. Castro Maya não era apenas um colecionador: sua ação ajudou a implantar a arte moderna no Brasil.

A dupla se conheceu na década de 1940, quando Maya procurou Portinari para ilustrar uma edição especial de 'Memórias póstumas de Brás Cubas', de Machado de Assis, que seria lançada pela Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil. A amizade só foi interrompida em 1962, quando o artista morreu. Três seções da mostra são dedicadas à parceria.

Castro Maya comprou trabalhos de Portinari em leilões, galerias e no ateliê do pintor. Adquiriu até um quadro vindo da coleção Helena Rubinstein. Encomendou-lhe desenhos para uma edição de 'Dom Quixote'. No Natal de 1943, ganhou de presente um retrato pintado pelo amigo.

“A exposição traz um Portinari mais suave, mais lírico, diferente do autor das pinturas de temática social. Isso revela o que Castro Maya admirava na obra dele”, explica a curadora.

Castro Maya considerava o paulista artista-símbolo de sua coleção, lembra Anna Paola. “Portinari representava os ideais de uma arte moderna marcada pela brasilidade, aspecto muito considerado na época e cultivado pelo mecenas”, conta ela.

De acordo com a curadora, o pintor via no amigo alguém importante no cenário cultural que entendia sua obra e a referendava. “Portinari era o único brasileiro ao lado dos mestres internacionais na coleção Castro Maya”, destaca Anna Paola.

A exposição foi apresentada em Brasília, Salvador, Rio de Janeiro, Curitiba, São Paulo, Porto Alegre, Vitória e Belém. “Acervo e patrimônio só têm sentido quando compartilhados”, ressalta a especialista, defendendo a importância da itinerância: “É a oportunidade para o público, em especial infantojuvenil, conhecer a arte feita no Brasil”.

Paris
O industrial Raymundo Ottoni de Castro Maya nasceu em Paris. Era filho do culto engenheiro Raymundo de Castro Maya, convidado pessoalmente por dom Pedro II para ser o preceptor de seus netos, e de Theodozia Ottoni de Castro Maya – herdeira do clã Ottoni, tradicional família de liberais mineiros.
Entre as criações de Maya está a Sociedade Os Amigos da Gravura. Em 1948, ele ajudou a fundar o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, do qual foi o primeiro presidente.

A Fundação Raymundo Ottoni de Castro Maya foi criada na década de 1960. O Museu do Açude (1964) e o Museu da Chácara do Céu (1972) funcionam em residências da família do colecionador, no Rio de Janeiro. Ambos se tornaram instituições federais em 1983.

“Esses acervos revelam um momento de transição do colecionismo. Pela diversidade de objetos, remetem ao século 19 e a gabinetes de curiosidades que reuniam peças variadas, exóticas e interessantes. De outro lado está o colecionismo moderno, já direcionado para a arte moderna europeia e brasileira e para itens ligados à história do Brasil”, explica Anna Paola Baptista.

Em 1939 e 1950, Maya adquiriu 400 originais de Debret. Sua coleção conta também com pinturas de Taunay, mapas e ilustrações de artistasviajantes. “Os museus do Açude e Chácara do Céu significam um e o outro lado da moeda Castro Maya e do nosso modernismo. Valorizam tanto a arte do período colonial quanto o modernismo, a inovação contemporânea”, explica a curadora.

Em 2006, assaltantes levaram pinturas de Matisse, Salvador Dali, Monet e Picasso do Museu Chácara do Céu. “Ainda choramos essas perdas – sentimento que não é só nosso, mas do Rio de Janeiro e de todo o Brasil”, conclui Anna Paola.

PORTINARI NA COLEÇÃO CASTRO MAYA
Museu Inimá de Paula. Rua da Bahia, 1.201, Centro, (31) 3213-4320. Terça, quarta, sexta-feira e sábado, das 10h às 19h; quinta-feira, as 12h às 21h; domingo, das 12h às 19h Até 4 de maio.
Oportunidade de ouro
Depois do jejum de décadas, BH recebe, em pouco mais de um ano, duas mostras dedicadas a Candido Portinari. Em 2013, 'Guerra e Paz', centrada nos painéis criados para a sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, foi vista por mais de 82,5 mil pessoas, no Cine Theatro Brasil Vallourec.

A importância dos dois eventos é oferecer contato direto com as obras, permitindo ir além das reproduções. Diante dos originais, fica evidente o quanto Portinari é ótimo pintor e desenhista. Mostras dedicadas a autores modernos contribuem para a melhor compreensão da inovadora recodificação plástica dos criadores do século 20.

Vale lembrar: instituições de BH são carentes de acervos dedicados à arte moderna, lacuna não suprimida pelo amplo acesso à produção antiga brasileira (em especial o barroco) e à arte contemporânea.

É antiga a história de Portinari com BH. Na década de 1940, o inovador quadro Cabeça de galo, exibido na Exposição de Arte Moderna de Belo Horizonte, causou polêmica. Convidado por JK e Oscar Niemeyer, o pintor viu suas obras-primas criadas para a Igreja de São Francisco, na Pampulha, serem rejeitadas pelo arcebispo dom Cabral. Por causa da polêmica, o templo ficou fechado 14 anos. Portinari pintou o painel Civilização mineira, instalado no Palácio dos Despachos, que está sendo restaurado. Ele fez trabalhos também para o Pampulha Iate Clube e Iate Tênis Clube.

NO RIO . Museu Chácara do Céu
Rua Martinho Nobre, 93, Santa Tereza, (21) 3970-1126

. Museu do Açude
Estrada do Açude, 764, Alto da Boa Vista, (21) 3433-4990

Ambos funcionam das 12h às 17h e fecham às terças-feiras.


“Pochmann derruba mito da “nova classe média”: É classe trabalhadora!”


Por Igor Felipe


O economista Márcio Pochmann, professor titular da Unicamp, avalia que a classe trabalhadora brasileira expandiu no último período e pode comemorar a situação da economia neste 1º de maio. “O Brasil vive uma situação muito diferente do quadro internacional, que discute perdas, desemprego e declínio”, afirma.

Segundo ele, a manutenção de índices baixos de desemprego, o crescimento da economia e a valorização da renda do trabalho em comparação à do capital nos últimos anos colocam o país em um patamar superior na comparação com os países centrais.
O economista destaca positivamente, por exemplo, que os filhos dos mais pobres estão começando a trabalhar mais tarde por conta dos estudos. “Assim, vão entrar no mercado de trabalho com maior qualificação e disputarão vagas melhores”, avalia.
“A nova classe trabalhadora representa mais de 80% da população ocupada”, afirma Pochmann, que tem se dedicado a estudar as mudanças sociais derivadas das políticas econômicas e sociais implementadas com a chegada à presidência de Luiz Inácio Lula da Silva.
A expansão da classe trabalhadora, segundo ele, se deve à queda do desemprego, à política de valorização do salário mínimo e às políticas sociais para os mais pobres. No entanto, o fortalecimento do mercado interno com o estímulo ao consumo embaralhou a compreensão sobre os segmentos sociais.
Pochmann tem combatido a classificação desse segmento social de trabalhadores pobres que melhoraram de renda como “nova classe média”. Esse bloco é formado por trabalhadores, que estavam desempregados ou na informalidade, e que conseguiram um emprego com carteira assinada, a maior parte no setor de serviços, com renda de até dois salários mínimos.
“A nova classe média é uma invenção”, afirma o economista, que lança em maio um novo livro, intitulado “O mito da grande classe média: capitalismo e estrutura social” (Boitempo). Atualmente, ele ocupa a presidência da Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT. Durante o governo Lula, presidiu o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).
“Não houve uma mudança na estrutura de classes no Brasil”, defende. “Existe uma tendência de maior polarização dentro da estrutura social”, afirma o estudioso. Segundo ele, o processo de enfraquecimento da indústria e as terceirizações sob o neoliberalismo colocaram em declínio a classe média,  segmento de alta remuneração entre a classe trabalhadora e os proprietários.
De 2003 para cá, 22 milhões de pessoas entraram no mercado de trabalho formal. “É uma ascensão enorme, mas representa um reforço da base da pirâmide social”, explica. Esse segmento é diferente da classe média, que tem capacidade de renda para fazer poupança, consegue pagar por serviços privados de educação/saúde e faz investimentos altos em bens culturais e turismo.
A classe média, formada trabalhadores assalariados com uma renda bastante alta e por proprietários de pequenos negócios, se expandiu no Brasil na década de 50, com o Plano de Metas do presidente Juscelino Kubitschek, de acordo com Pochmann. No entanto, passou a encolher nos anos 90 com as políticas neoliberais.
A trajetória da classe média brasileira trilhou um caminho diferente da europeia, onde essa fração lutou ao lados dos trabalhadores pela universalização dos serviços públicos, como educação e saúde. Na França, por exemplo, é comum o filho de um alto executivo estudar na mesma escola de uma balconista de loja.
De acordo com o economista, a classe média brasileira se forjou no conservadorismo e fez uma aliança com os mais ricos, para ter acesso ao “monopólio de oportunidades” dos de cima. O exemplo mais evidente é o acesso ao ensino superior, que até o governo Lula era um privilégio dos ricos e da classe média. Daí vem a rejeição desse segmento ao presidente Lula, que “espetou o nervo” dessa estrutura social brasileira, segundo Pochmann.
A questão central que diferencia, do ponto de vista político, a classe trabalhadora e a classe média é a visão sobre o papel do Estado. Enquanto a classe média rejeita o Estado, que cobraria muitos impostos e não prestaria serviços de qualidade, a classe trabalhadora depende do fortalecimento do sistema público de saúde e educação.
Por isso, a classificação desse segmento que melhorou de vida com as políticas do governo Lula/Dilma como “nova classe trabalhadora” ou “nova classe média” expressa visões ideológicas diferentes sobre o papel político desse imenso contingente populacional.
“Esse segmento que melhorou de renda está em disputa no sentido político. E ainda não está conectado com a agenda de universalização de direitos das organizações dos trabalhadores, que foi assumida pelo governo Lula”, avalia Pochmann.
Assim, a disputa que se abre, que pode ter impactos nas eleições, se relaciona à agenda política que esse bloco vai assumir: da maioria dos trabalhadores que precisa da garantia de direitos pelo Estado ou de uma minoria que rejeita o bem público e opta por serviços privados?
A pergunta que fica é: se a classe média rejeita as políticas dos governos de coalizão liderados pelo PT por questionar a estrutura social, por que Lula e Dilma classificam justamente como “nova classe média” esse segmento que representou a quebra do “monopólio de oportunidades”?
Pochmann não questiona Lula e Dilma e vê razões políticas para essa postura: ambos fazem essa opção para evitar a radicalização política e fortalecer o centro político, enfraquecendo os extremos. Uma nova questão de abre: sem conflitos será possível disputar esse segmento?
O economista está otimista com as perspectivas da economia, especialmente com o bloco de investimentos realizados durante o governo Dilma. Com a vitória da frente ampla que governo o Brasil nas eleições, ele acredita que o país será nos próximos anos a 5º economia do mundo, com o fim da miséria e a consolidação da democracia.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Dia do trabalhador: CNBB aponta avanços e desafios

Aparecida (RV) - Durante a primeira coletiva de imprensa da 52ª Assembleia Geral dos Bispos do Brasil, foi divulgada nota por ocasião do Dia do Trabalhador. No texto, o episcopado brasileiro reconhece os avanços conquistados pela classe trabalhadora, mas também pontua os desafios que ainda persistem neste campo. A CNBB se faz solidária aos trabalhadores, manifestando apoio às suas lutas e reivindicações.

“A nota sublinha situações que depõem contra a dignidade dos trabalhadores quando fala de um salário mínimo que ainda é baixo, mesmo reconhecendo que houve uma melhora. Também chama a atenção para as situações precárias de trabalho, o desemprego forçado e lembra dos imigrantes que estão chegando ao nosso país” explica o arcebispo de Mariana (MG), Dom Geraldo Lyrio Rocha, durante a entrevista coletiva.

No texto consta, ainda, a palavra deixada aos trabalhadores por São João Paulo II em visita a São Paulo no dia 3 de julho de 1980. Além disso, fala as mortes decorrentes das obras da Copa do Mundo.

Dom Geraldo Lyrio Rocha explicou que é tradição da CNBB divulgar uma mensagem voltada aos trabalhadores sempre que a Assembleia ocorre no dia 1º de maio, e considera que a reflexão apresentada hoje traz pontos de “máxima relevância e de extraordinária atualidade”.

A mensagem oficial pelo Dia do Trabalhador é assinada pelo arcebispo de Aparecida (SP) e presidente da CNBB, Cardeal Raymundo Damasceno Assis; pelo arcebispo de São Luís (MA) e vice-presidente, Dom José Belisário Silva; e pelo bispo auxiliar de Brasília (DF) e Secretário-geral, Dom Leonardo Steiner.

Confira abaixo a mensagem na íntegra:

Nota da CNBB por ocasião do Dia do Trabalhador e da Trabalhadora

Reunidos na 52ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, de 30 de abril a 9 de maio de 2014, em Aparecida-SP, nós, os bispos do Brasil, dirigimos esta mensagem de esperança aos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros na comemoração de seu dia neste 1º de Maio. Ao saudá-los, pedimos que estejam com vocês a graça e a paz de Cristo Ressuscitado, o Filho do Carpinteiro, a quem confiamos a vida, a luta, os sonhos e as utopias de todos vocês.

O Dia do Trabalhador e da Trabalhadora é ocasião propícia para recordar que o trabalho “constitui uma dimensão fundamental da existência humana sobre a terra” (Laborem Exercens, 4). Vocês, trabalhadores e trabalhadoras, “conhecem a dignidade e a nobreza do próprio trabalho, vocês que trabalham para viver melhor, para ganhar para suas famílias o pão de cada dia, vocês que se sentem feridos na sua afeição de pais e de mães ao verem filhos mal alimentados, vocês que ficam tão contentes e orgulhosos quando lhes podem oferecer uma mesa farta, quando podem vesti-los bem, dar-lhes um lar decente e aconchegante, dar-lhes escola e educação em vista de um futuro melhor. O trabalho é um serviço a suas famílias, e a toda a cidade, um serviço no qual o próprio homem cresce na medida em que se dá aos outros” (São João Paulo II aos trabalhadores em São Paulo, 3 de julho de 1980).

Assegurar trabalho decente a todos, com condições dignas para exercê-lo e com justa remuneração, é responder a esta vocação que faz do homem e da mulher colaboradores de Deus na obra da criação. Assim, constitui sinal de esperança constatar a queda do desemprego em nosso país, bem como o aumento dos salários e a ascensão social de milhares de trabalhadores.

Reconhecemos, no entanto, a permanência de situações que depõem contra a dignidade dos trabalhadores. O salário mínimo ainda é muito baixo e se mantém distante do valor digno preconizado pela nossa Constituição. A disparidade salarial entre os que exercem a mesma função também é uma triste realidade em nosso país quando se observa o fator gênero e raça.

Persistem igualmente situações de trabalho precário e de desemprego disfarçado, em que pessoas entram nas estatísticas como ocupadas, quando, na verdade, estão inseridas no mercado informal à procura de novas e melhores ocupações. Esta realidade tem atingido a maioria dos nossos jovens. Acrescente-se também o trabalho escravo que vitima milhares de pessoas em todas as regiões do país, bem como as más condições laborais a que são submetidos muitos trabalhadores imigrantes, conforme denúncia da Campanha da Fraternidade 2014.

O Brasil tem uma das taxas de rotatividade no trabalho mais altas do mundo. Preocupa-nos o crescimento vertiginoso dos acidentes de trabalho e das doenças ocupacionais. Confirmam isso as recentes mortes de operários nas obras da Copa. A essas se somam as inúmeras mortes de trabalhadores que ficam no anonimato pelo país.

Outra realidade inquietante é a expansão da terceirização do trabalho no Brasil. Estudos do DIEESE (2011) revelam que o trabalhador terceirizado fica 2,6 anos a menos no emprego, tem uma jornada semanal de trabalho de três horas a mais e ganha 27% menos. A cada dez acidentes de trabalho, oito ocorrem entre terceirizados. A aprovação do Projeto de Lei 4.330, que regulamenta a prática da terceirização no país, poderá aumentar a precarização no mundo do trabalho.

A redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais sem diminuição do salário é uma justa reivindicação dos trabalhadores que não pode mais ser protelada. Da mesma forma, a regulamentação da ‘PEC das domésticas’ é uma urgência que colocará fim a esta dívida social da nação brasileira. O mesmo se diga em relação aos aposentados que, após doarem sua vida com seu trabalho, são prejudicados com perdas na aposentadoria que lhes tiram o direito a uma vida tranquila e segura. Rever o fator previdenciário é demonstração de respeito e de reconhecimento aos aposentados.

Lembramos estas situações no Dia do Trabalhador e da Trabalhadora para chamar a atenção da sociedade brasileira para seu compromisso com os trabalhadores e trabalhadoras com quem a CNBB se faz solidária, manifestando apoio às suas lutas e reivindicações. Anime a esperança de nossos trabalhadores e trabalhadoras a palavra de Cristo: “tenham coragem, eu venci o mundo” (Jo 16,33).

A todos os trabalhadores e trabalhadoras do Brasil, nossa especial e carinhosa bênção. O operário São José alcance de seu Filho, Jesus Cristo, proteção e graça para todos.

Aparecida-SP, 1º de maio de 2014


Cardeal Raymundo Damasceno Assis
Arcebispo de Aparecida
Presidente da CNBB

Dom José Belisário da Silva, OFM
Arcebispo de São Luís do Maranhão
Vice Presidente da CNBB


Dom Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário Geral da CNBB
...





Texto proveniente da página http://pt.radiovaticana.va/news/2014/05/01/dia_do_trabalhador:_cnbb_aponta_avanços_e_desafios/bra-795437
do site da Rádio Vaticano